terça-feira, 29 de maio de 2012

SANTISSIMA TRINDADE -B- (03-06-12)

1ª leitura Dt 4,32-34.39-40

Moisés convida o povo “Interroga os tempos antigos (...) investiga (o presente) de um extremo ao outro do céu” para refletir sobre a presença de Deus na história e na caminhada do povo.

Pois, Deus não está desinteressado ou indiferente da vida do povo nem fica isolado no céu, como quem olha desde longe pretendendo obediência e submissão, pois, goste ou não, toda pessoa deverá dar conta a ele da própria conduta em sintonia com os mandamentos dele.

Pelo contrario, é um Deus presente e atuante. Escolhe este povo para si entre nações sociológica e politicamente muito mais importantes e consistentes. O escolhe já escravo pelo poderoso Egito e o libera “com mão forte e braço estendido” lutando a favor dele.

O leva ao monte Sinai e se manifesta “falando-lhe do meio do fogo” estabelecendo a Aliança, e, enfim, após a caminhada deserto o está introduzindo na terra prometida, cumprindo à promessa feita no momento da libertação.

Moises pergunta ao povo “Existe (...) terá jamais algum Deus” que se compare ou faça o que o Deus de Israel fez a favor do povo? Evidentemente na pergunta retórica, pois não há outra resposta.

É importante como Moisés indica buscar a ação e a presença de Deus na história, nos acontecimentos que acompanham a caminhada pessoal e do povo em geral. O desafio está na interpretação, nos critérios que permitem afirmar a presença e a ação dele “Reconhece, pois, hoje, e grava-o no teu coração, que o senhor é o Deus lá em cima no céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele”.

Trata-se de reconhecer hoje a presença e ação de Deus no conjunto das características surpreendentes, inesperadas, da ação profética do homem, ou da mulher, chamado (a) a mediá-las. Elas ultrapassam os critérios usuais, comuns: estão além do raciocínio, do entendimento imediato e da experiência consolidados pela tradição.

Mas, sobretudo, é determinante a abrangência e, mais ainda, a finalidade. A abrangência, porque a ação de Deus é para integrar todos a tudo, pois, ela não exclui ninguém, pelo contrário, inclui com especial atenção os que são ou foram excluídos, marginalizados, empobrecidos e sofrem condição desumana. A ação é abrangente como a espiral, em contínua expansão.

É mais determinante ainda, a finalidade que visa consolidar e desenvolver o reino de Deus. Trata-se da ação criativa e inovadora que integra na família de Deus as diferentes culturas, raças, religiões pela dinâmica do amor.

É a mesma dinâmica que Deus praticou para com o seu povo eleito, conduzindo o e introduzindo-o na terra prometida que está para lhe entregar, em virtude do cumprimento da promessa estabelecida no Sinai.

Portanto, os mandamentos são tópicos, indicações, para conferir se a ação do povo é conforme o agir de Deus, e descobrir nela o tesouro do reino de Deus na dinâmica pela qual o amor de Deus, assumido e praticado gera a fraternidade, a solidariedade, em outras palavras a justiça e o direito, próprios da finalidade da Aliança.

O agir de Deus é iniciativa dele, é dom oferecido gratuitamente. Mas exige que este dom seja devolvido a ele na mesma dinâmica do amor, assim, a pessoa e a humanidade percebem a divindade na qual estão mergulhando, e Deus se enriquece da autêntica e verdadeira realidade de cada pessoa e da humanidade toda.

Eis então a ordem “Guarda suas leis e seus mandamentos que hoje te prescrevo”, pois, é conservar e atingir o patrimônio imprescindível “para que sejas feliz, tu e teus filhos depois de ti, e vivas longos dias sobre a terra que o Senhor teu Deus te vai dar para sempre”.

Tudo isso é possível por se deixar conduzir pelo Espírito Santo, como revela a segunda leitura.

2da leitura Rm 8,14-17

“Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. A realidade de filhos é manifesta na ação procedente do Espírito. Nela se realiza a vitória sobre “um espírito de escravos, para recairdes no medo”. Com efeito, a condição de filhos gerada pelos efeitos da morte e ressurreição atualizados pelo Espírito Santo, faz da pessoa um ser livre, livre para amar, em sintonia com o analisado na primeira leitura.

O perigo na pessoa de voltar a ser dominada pelo mal e o pecado, e com isso ser submetida á escravidão e ao medo é constante. Se descuidar de ativar na consciência a fé na ação do Espírito, em virtude da qual “todos nós clamamos: Abba, ó Pai!” e manter o correto e familiar relacionamento com Deus.

Para isso é preciso tomar em consideração o singular relacionamento entre o Espírito de Deus e o nosso espírito “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para atestar que somos filhos de Deus” O Espírito de Deus é a relação de Deus com os homens; o espírito dos homens significa o relacionamento deles com Deus.

O segundo depende do primeiro, porém são do mesmo tipo: "no Espírito" Deus se coloca como ser presente na pessoa (sopro, imagem e semelhança) e ao mesmo tempo como ser infinitamente maior que não pode ficar contido, preso, fechado na pessoa. Trata-se de relacionamento entre Deus e a pessoa no único e mesmo Espírito. Este relacionamento tem o selo da imortalidade.

O relacionamento entre o Espírito e o nosso espírito não é estático, adquirido de uma vez para sempre nem mecânico, mas dinâmico e precisa ser constantemente cultivado, pois é como uma correnteza. Com tudo, o homem tem o terrível poder de cortar e fechar esta correnteza. Eis, pois, que se torna um ser “carnal”, do “mundo”, para usar termos de Paulo e de João.

Pelo contrário, investindo no relacionamento se aprofunda a consciência do que é sermos filhos de Deus, e com ela de que “somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co -herdeiros de Cristo”. Percebe-se que o destino de Cristo é também o nosso: a participação plena no reino de Deus.

Tendo clareza e certeza do destino, no Espírito Santo, para ser motivados em imitar o estilo de vida de Cristo e assumir a mesma dinâmica de vida para participarmos com ele da glorificação última e definitiva “se realmente sofremos com ele, é para sermos também glorificado com ele”.

Para o discípulo o presente é a vida no Espírito, o Deus nele, que antecipa pela palavra e pelos atos, o Reino de Deus na terra, nas circunstâncias concretas do dia -a - dia, assim como e na vida social pronto a dar razão da esperança que está nele (1Pd 3,15).

É o que Jesus manda fazer aos discípulos, antes de desaparecer da presença deles, como relata o final do evangelho de Mateus.

Evangelho Mt 28,16-20

O evento Pascal marca um antes e um depois para todos e para tudo. Nada será o mesmo de antes. Os discípulos são convocados por Jesus antes d’Ele definitivamente desaparecer fisicamente. Assim, “Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado”. Tudo recomeça no mesmo lugar onde começou: a Galiléia e sobre o monte (das bem-aventuranças? Tale vez. Teria sentido).

Os apóstolos “Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram”. Por um lado reconheceram a divindade, pois a presença física do Ressuscitado não deixava dúvida, pois, o Crucificado está vivo e de maneira surpreendente. Só pode ser manifestação da obra e da presença de Deus nele.

Por outro lado duvidaram. De que? A ressurreição foi neles uma mistura de surpresa, desconcerto e alegria com respeito à pessoa de Jesus. Mas também deve ter suscitado um monte de perguntas: Que seja um fantasma? Uma alucinação?E a missão de implantar o Reino de Deus, como fica? E o novo Israel que devia brotar de sua ação salvadora, onde está?... O texto não especifica.

Então, Jesus se manifesta a partir da própria autoridade transmitida pelo Pai, o Espírito e a própria condição de Ressuscitado “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”. A nova condição não deixa dúvidas ao respeito. Com o Ressuscitado o céu desceu na terra, e vice-versa. Ele é o Senhor do céu e da terra, que bem na distinção uma da outra, nele formam uma só realidade.

“Portanto (...)” em virtude desta singular condição - antecipação do futuro das pessoas, da história e manifestação do destino de todos e de tudo -“(...) ide e fazei discípulos meus todos os povos (...)”. Pois, os discípulos participam da vida do mestre e, portanto, da missão de introduzir a terra na comunhão com Deus de maneira que se torne céu.

Por outro lado, devem se inspirar nas coisas do alto, nas quais já está o Ressuscitado, para sustentar o desenvolvimento da missão, que o Senhor lhes está confiando, rumo à integração, na fraternidade e solidariedade, de todos os povos e, assim, evidenciar o acontecer do reino de Deus.

Para isso é preciso ensinar e batizar “(...) batizando-os (...) e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei”. Trata-se de mergulhá-los no mistério da morte e ressurreição de Jesus, prévia instrução sobre a importância e o significado dele. Assim como entender e apreender concretamente em que consiste observar o que ele ordenou, ou seja, amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12).

Desta maneira Jesus continua e universaliza a missão. Com certeza os discípulos podem contar com a presença de Jesus “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”. Contudo, é uma perspectiva que supera em muito as condições e possibilidades dos discípulos, considerando a fragilidade, a inconsistência, da condição humana e de fé deles, manifestadas durante a missão de Jesus e particularmente nos eventos da páscoa.

Destaque-se que Jesus parece não dar a devida importância, pelo menos do nosso ponto de vista humano, a tudo isso. Ordena que façam que cumpram, não deixa escolha nem a considerações subjetivas sobre a capacidade, preparo ou dificuldades que poderiam motivar, sempre do nosso ponto de vista humano, o ficar com um pé atrás.

Ao ter encontrado Jesus, a sua palavra e promessa é suficiente. Mais ainda, transmitir, passar para outros a experiência e o dom recebido é garantia de experimentar a presença dele, assim como o enriquecimento do dom para quem transmite e para quem o recebe.

É sobre essa dinâmica que se desenvolve a missão para que todos, discípulos e destinatários tenham vida em abundância e experimentem a vivência da Trindade neles.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

PENTECOSTES -B- (27-05-12)

1a leitura At 2, 1-11

Pentecostes (50 dias após a Páscoa) é o evento marcante para a humanidade de todos os tempos até o fim dos tempos, com a vinda do Ressuscitado por ele prometida, antes de voltar na glória do Pai o dia da Ascensão.

Toda manifestação de Deus acontece de maneira imprevista, de repente, sem nenhum aviso prévio. Ela irrompe de forma desconcertante na vida das pessoas. Nesta circunstância “os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” e, por medo dos judeus, estavam com a porta trancada, pois a condenação a morte valia não só para o mestre, mas também para eles.

Foi difícil para eles dar conta do que exatamente aconteceu, pois, não havia, nem há, palavras adequadas para eventos deste tipo. Portanto, usam comparações “como se fosse uma forte ventania (...) apareceram línguas como de fogo”, pois, o evento ultrapassou toda capacidade de entendimento.

Foi a manifestação do infinito mistério de Deus e, surpreendente, no sentido verdadeiro e profundo do termo. Jesus tinha prometido o envio do Espírito, mas eles estavam bem longe de pensar que pudesse acontecer daquela forma.

Assim que “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os inspirava (...), pois cada um ouvia os discípulos falar em suas próprias línguas”. Tomado ao pé da letra: seria uma espécie de tradução simultânea? Sinceramente não sei como explicar este fato de maneira plenamente convincente. A Bíblia registrará o fenômeno de eventos parecidos como ação do Espírito nas comunidades que estavam surgindo.

Com certeza, a surpresa e o desconcerto chamou a atenção pela transformação operada neles no diz respeito ao entendimento,as atitudes para com o povo e com as autoridades, e pelo fenômeno singular de ouvir os apóstolos nas próprias línguas “Cheios de espanto e admiração, diziam: Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?”.

Na continuação o trecho elenca todas as nações do mundo então conhecido para indicar o alcance universal do evento, assim, como foi o da morte e ressurreição de Jesus. Portanto, a descida do Espírito não é circunscrita aos discípulos nem à Jerusalém nem ao povo judeu, mais abrange a humanidade toda, de tosos os tempos.

Este aspecto é de grande importância para a reflexão atual sobre a missão da Igreja no mundo, no diálogo com outras culturas e religiões. Elas têm em si mesmas a palavra do Espírito que interpela os cristãos. Daí a importância da humilde procura da Verdade através do diálogo fraternal.

Com a descida do Espírito Santo os discípulos tomam plena consciência do alcance e significado da morte e ressurreição de Jesus. Algo que, até então, ficou meio incompreensível e indecifrável. O alcance do pleno significado gerou nos discípulos uma mudança de atitudes radical para consigo mesmos, no relacionamento com o ambiente e com as autoridades.

Esta mudança permitiu a eles se comunicarem com o mundo todo, por isso que os destinatários, os ouvintes, afirmam “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” As maravilhas se referem ao evento da morte e ressurreição de Jesus.

Tal vez seja isso que os enche de espanto e admiração, mais do que o fenômeno das línguas. Apresentar um condenado a morte - um maldito de Deus injustiçado, blasfemo e ímpio - como Salvador não é coisa de pouca conta, mas de loucos.

Com a descida do Espírito ele se torna como a seiva da árvore de cada pessoa e da humanidade. Ela - a seiva - é invisível, mas indispensável para a vida e o crescimento deles. A vida de Deus correrá neles exatamente pela presença e ação do Espírito nas comunidades.

O Espírito será o mestre interior de todo discípulo. Em virtude disso, estabelecerá um relacionamento direto entre ele e Deus, realizando dessa maneira o profetizado por Jeremias “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração (...) não será mais necessário ensinar ao seu próximo dizendo: ‘Conhece o Senhor!’ Todos me reconhecerão, do menor ao “maior deles” (31,34)’. Este relacionamento é o ponto de partida não dispensável de todo correto entendimento da pessoa, do ensino de Jesus, assim como de toda prática da vida cristã.

Com efeito, a abertura à ação do Espírito faz a diferença, como indica a 2da leitura.

2da leitura Gal 5,16-25.

Paulo exorta “Procedei segundo o Espírito (...). Se vivemos pelo Espírito, procedamos segundo o Espírito, corretamente”. O que entende Paulo por viver pelo Espírito? Parece-me que se refere à vida gerada e transmitida pela ação do Espírito em todos aqueles que acolhem no coração e na mente a pessoa, palavra e estilo de vida e, sobretudo, os efeitos da morte e ressurreição de Jesus.

A vida pelo Espírito se faz consciência do novo ser que vai surgindo e consolidando-se, como alternativa ao ser pecador e fraco. Mais ainda, este primeiro é percebido como agente do perdão, que desmancha o ser pecador e fraco. O novo ser triunfa sobre o antigo, pecador, e concretiza o acontecer do amor de Deus.

Sendo que, no entanto, o ser pecador e fraco continua exercendo sua ação sedutora e tentadora, e a vitória do novo ser é submetida constantemente à prova, com possibilidade de sucumbir, é preciso tomar a providência necessária para consolidar a vitória.

Ela consiste na dupla ação:

*A primeira “Os que pertencem a Jesus Cristo crucificaram a carne com suas paixões e maus desejos”. Como preceder? Uma sugestão. Parece-me importante ter clareza e assumir uma disciplina interior. Consiste em não desconfiar da força do amor com o qual e somos amados, e não abandonar nem se afastar da certeza de que fomos e somos redimidos, justificados e santificados, além do ímpeto e da prepotência da prova e da tentação.

O processo da crucificação é a vitória do amor, que capacita, sustentado pela força do amor mesmo, enfrentar o sofrimento e não ceder na prova e na tentação. Não é estratégia ou tática humana, mas a força interior de quem, por amor, não quer desagradar, até nos pequenos detalhes, a pessoa amada.

Vivenciar este processo é uma crucificação. Manter a integridade do amor em luta constante contra toda motivação contrária é como morrer a tudo o que o “mundo”- em sentido dos escritos de Paulo e João - propõe como saída necessária e até conveniente. Mas vale frisar que o amor é a força da ressurreição, da vida eterna, da plenitude de vida, é participar da glorificação.

*A segunda. “Se vivemos pelo Espírito, procedamos segundo o Espírito, corretamente” O Espírito leva Jesus ao deserto para ser tentado e à cruz na Páscoa. Já no ponto anterior o Espírito faz a parte dele, introduzindo a pessoa pelo único caminho que é a cruz na ressurreição. Depois continua sua ação mantendo-a e indicando a maneira correta para permanecer nela.

Eis, então, a contraposição entre carne e espírito “Pois a carne tem desejos contra o espírito” e vice-versa. E indica alguns tópicos para testar e discernir quando uma pessoa é “carne” e quando é “espírito”,“as obras da carne: fornicação, libertinagem (...) o fruto do Espírito é: caridade, alegria (...)”.

O evangelho apontam a Iluminação e discernimento como específicas atividades do Espírito.

Evangelho Jo 15,26-27; 16,12-15

O Espírito procede do Pai por meio de Jesus Cristo “Quando vier o Defensor que eu vos mandarei de parte do Pai”. Ele é “o Espírito da Verdade (...) ele vos conduzirá à plena verdade”, ao pleno comprimento do amor a Deus e aos irmãos, conforme o mandamento de Cristo de “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo15,12).

Ele - o Espírito -iluminará o caminho para o correto testemunho, e “até as coisas futuras vos anunciará”. Não se trata do futuro com respeito aos acontecimentos históricos, nem de eventos de caráter pessoal que inevitavelmente irão acontecer, mas do futuro de Cristo, da realidade na qual já está, da glória da qual já participa, do destino dele que será também o deles e, na medida de nossa adesão a Cristo, também será o nosso.

Este futuro, ao qual Jesus se refere antes de sua morte e ressurreição, os discípulos não tinham condição de entender. Até quando Jesus falou da sua ressurreição, descendo do monte da transfiguração, os três apóstolos se perguntaram o que significaria ressurreição. Menos ainda entenderiam se tivesse falado do depois e da glória. Deverão esperar a vinda do Espírito para ter ciência dele.

Assim “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará, Tudo o que o Pai possui é meu (...) o que ele receberá e vos anunciará é meu”. O que é do Cristo é do Pai e o Espírito participa deste patrimônio.

O conhecimento que o Espírito transmitirá e anunciará aos discípulos e que constitui o próprio da glorificação é a participação plena de Jesus na vida trinitária que, também, como ser humano lhe pertence plenamente em virtude do que realizou na sua missão no mundo.

Portanto o Espírito “dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o começo”. Tendo eles caminhado com Jesus, participado da missão dele e de sua finalização com a ressurreição. Tendo recebido o Espírito Santo, o mestre interior, que os instruiu com respeito ao significado da ressurreição e mergulhado na compreensão e nos efeitos do amor de Deus. Iluminados pela ação do mesmo Espírito com respeito ao destino de Jesus e deles na glória, terão condição de transmitir o testemunho as futuras gerações, para que o dom recebido cresça neles e envolva a todos no mistério do amor de Deus Trindade.

Com efeito, após pentecostes, a Igreja celebra a festa da Trindade.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

ASCENSÃO DO SENHOR- B- (20-05-12)

1ª leitura At 1,1-11

“No meu primeiro livro” se refere ao evangelho. Com efeito, o livro dos Atos dos Apóstolos é a continuação do Evangelho de Lucas e, especificamente, testemunha a ação do Espírito Santo na difusão do Evangelho no mundo então conhecido e o surgimento das primeiras comunidades.

No período que vai da ressurreição à ascensão - simbolicamente 40 dias, um período demorado - Jesus é apresentado “falando do Reino de Deus” aos apóstolos. É muito significativo que Jesus não fale de si mesmo, da grande injustiça que fizeram para com ele, dos sofrimentos da cruz, da experiência da ressurreição, da traição, do abandono dos apóstolos etc., mas somente da finalidade da missão dele: o Reino de Deus.

Não há registro de alguma palavra de desconformidade, de critica, de lamentação, com respeito à ingratidão do povo, dos apóstolos. Mas, só preocupação de que os apóstolos entendam a dinâmica da implantação do Reino.

Demonstra, assim, o desapego de si mesmo surpreendente do ponto de vista humano. É como se estivesse falando sem que nada especial lhe tivesse acontecido. Isso diz muito com respeito ao relacionamento dele consigo mesmo, com os apóstolos, com o povo em geral e com a missão que está chegando ao seu ponto final na terra.

As explicações de Jesus não foram bem entendidas, pois, os apóstolos perguntam: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel”. Eles esperam a realização do Reino conforme a expectativa geral do povo e de João Batista, ou seja, a expulsão dos invasores romanos e a purificação do povo infiel à lei de Moises.

Isso demonstra quanto pouco eles entenderam Jesus, mesmo após da experiência de vê-lo ressuscitado. Contudo, Jesus não se surpreende nem pretende corrigir ou explicar em que realmente consiste o Reino, pois, sabe que não têm condições de entender (só com a vinda do Espírito entenderão), mas revela que não compete a eles “saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com sua própria autoridade”.

Por outro lado, preanuncia a descida do Espírito Santo: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra”. A função do Espírito, após de torná-los conhecedores da profundidade e importância do evento da morte e ressurreição de Jesus, visa constituí-los testemunhas até os últimos confins da terra. Com isso afirma o caráter universal do evento e da missão Dele.

Depois (...) foi levado ao céu (...). Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo”. Com isso Jesus universaliza a missão. Ele chegará até os confins da terra por meio da ação missionária dos apóstolos, das testemunhas. A missão se estenderá até a volta Dele no fim dos tempos, portanto, os apóstolos não deverão ficar parados olhando o céu “Homens da Galiléia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?”.

Uma coisa é certa, aquele que agora sumiu dos olhos deles voltará “Esse Jesus (...) virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. O viram partir na nuvem que o encobriu - no Espírito Santo, pois, tal é o significado da nuvem que o encobriu, como na transfiguração-. E será pela ação do mesmo Espírito que acontecerá o evento definitivo e último que atingirá a criação toda no fim dos tempos.

Mais ainda, é pelo Espírito que Jesus estará presente no meio deles no desenvolvimento da missão em seu nome. Nesta missão o Espírito será o mestre interior deles, que iluminará , sustentará e dará força para o correto desenvolvimento da mesma.

E’ o que destaca da segunda leitura.

2da leitura Ef 4,1-13

“Eu, prisioneiro do Senhor”, assim Paulo se apresenta e se autodenomina, em virtude da ação do Espírito Santo na conversão na porta de Damasco e da determinação de seguir a Cristo “quem me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Com isso, se estabeleceu um vinculo muito estreito, indissolúvel, de amor e a consciência de se pertencer mutuamente.

Nesta condição aponta alguns tópicos que descrevem sua percepção de Deus nos termos de que “há um só Espírito ( ...) um só Senhor (...) um só Deus e Pai de todos” e o agir dos três a favor da humanidade. Tudo isso motiva a esperança, suscita a fé e manifesta o agir do Pai “que reina sobre “(...) age por meio (...) e permanece em todos”.

O relacionamento com Deus de todo batizado se consolida em virtude da consciência de mutuamente se pertencerem, que sustenta um vinculo indissolúvel e tão solido até de constituir a rocha de o próprio ser e agir.

Com isso, e pela especifica ação do evento da ressurreição de Cristo, Paulo constata como “Cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lhe deu” em ordem ao serviço e edificação da comunidade “Assim, ele capacitou os santos - todos os batizados, os integrantes da comunidade, da Igreja - para o ministério, para edificar o corpo de Cristo”.

Paulo afirma que todos receberam alguns dons e tem condição de colocá-lo ao serviço dos outros. Isso não entrou na consciência dos cristãos na atualidade. Muitos se acham dispensados de prestar um serviço, motivando não terem condição ou capacidade, ou simplesmente encontrando nisso desculpas para não assumir compromisso algum.

A missão, a pastoral, está muito prejudicada no seu desenvolvimento e na sua eficácia. Não é questão de acreditar ou menos em Deus, ou em Jesus Cristo, isso todos dizem de acreditar. O desafio está em declinar na própria vida o comportamento individual e o compromisso pastoral que manifeste o acreditar como coisa seria, não simplesmente de boca para fora, ou para atingir interesses ou respostas às necessidades individuais de diferente tipo.

Como indica o apostolo a finalidade é “edificar o corpo de Cristo, até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus”. E’ preciso ter cuidado de não cair, em nome da unidade, na uniformidade e assim provocar o corto circuito e precipitar no pecado e na escuridão. E necessário segurar a diversidade na ótica do “conhecimento do Filho de Deus”, da imitação de como Jesus com os “diversos” que a teologia e a Lei daquela época consideravam já perdidos e, portanto, excluídos e marginalizados da comunidade, do convívio fraternal.

Para chegar “ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em plenitude”, evidentemente, por amar como ele amou todas as diversidades, até aquelas que o crucificaram.

De todo isso a exortação inicial “a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes. Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz”. A paz que inunda o coração no fazer acontecer a verdade, mesmo nas dificuldades e provações de todo tipo.

E’ o testemunho a ser anunciado no mundo todo, e o evangelho explicitamente afirma.

Evangelho Mc 16,15-20

Jesus se manifestou aos onze discípulos” não para consolá-los, mas para confiar-lhes a responsabilidade da missão “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! (...) Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus”.

A ascensão é o momento da universalidade da missão. A missão se espalhará pelo mundo inteiro por meio dos discípulos. Por meio deles, Cristo se tornará presente a todo homem e em todo lugar. De outra maneira nunca seria possível chegar até eles.

Anunciar o evangelho, não é transmitir uma informação sobre a pessoa e o agir de Jesus, o que ele disse e fez. E’ transmitir e testemunhar os efeitos produzidos no discípulo do evento central da vida de Jesus, sua morte e ressurreição. Mostrar a quais condições uma simples boa notícia - evangelho -noticia se torna boa realidade.

E’ boa realidade porque transforma a vida, a orienta para o novo caminho antes desconhecido, fornece a ela os meios e as condições para que se torne realidade bem sucedida. Para toda pessoa que adere a ela se organizam entre eles em comunidade, praticando o mesmo estilo de vida ensinado por Jesus e sustentados pela mesma filosofia.

Daí então “Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado”. Não é Jesus quem determina a salvação ou a condenação, mas a pessoa mesma, dependendo de acreditar ou não ao que Jesus propõe e oferece. Pois, Jesus veio para salvar, não para condenar. Contudo a determinação última depende do destinatário.

Acreditar é praticar o evangelho, não é simplesmente ter como certa e verdadeira a informação sobre as palavras e a vida de Jesus. Esta prática é condição previa para ser batizado, ou seja, ser mergulhado nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, estabelecer o vinculo da nova e eterna aliança, assim como participar já desde agora da vida eterna.

Quem não crer, não precisa de batismo, pois seria inútil, não produziria os efeitos mencionados. Batismo sem fé não vai alem do banho. Isso motiva pensar seriamente e com espírito critico com respeito a pratica pastoral do batismo. Admitir o batismo de crianças cujos pais e padrinhos estão bem longe do conhecimento da pessoa de Jesus e, por conseguinte, da pratica da fé que faça referencia a ele, deixa para ficar perplexos sobre se é correto ou menos administrá-lo.

Os sinais aos quais se refere o texto são metáforas da nova realidade, do novo estilo de vida e da vitória sobre o que é ruim e mal. Com outras palavras, expressão da força transformadora e regeneradora da fé. Começa uma nova vida, se vai formando uma nova sociedade em sintonia com as exigências e expectativas di reino de Deus.

“Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte”. Não há menção de dúvidas, temores ou argumentações por parte dos apóstolos, que pudessem justificar aguardar e adiar o cumprimento da ordem de Jesus. Tal vez terá conversado entre eles delas, mas a vontade do Senhor prevaleceu.

E experimentaram a verdade e a força da presença prometida “O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam”.

terça-feira, 8 de maio de 2012

6to DOMINGO DA PÁSCOA -B- (13-05-12)

1ª leitura At 10,25-26.34-35.44-48

Com a entrada de Pedro na casa do pagão Cornélio - centurião romano, comandante militar do batalhão de cem soldados, “homem justo e temente e Deus, bem conceituado entre toda a nação judaica”(v.22) – inicia-se o processo de abertura do cristianismo aos pagãos. Na mentalidade dos primeiros discípulos era impensável que um pagão pudesse aderir a Cristo se primeiro não tivesse sido circuncidado e assumido a Lei do Antigo Testamento.

O relato do livro dos atos dos Apóstolos, do qual é tirado o trecho, descreve o encontro a pedido do Cornélio após uma estranha visão; para interpretação dela foi orientado consultar a Pedro. Ele recebe o apóstolo com especial atenção “Cornélio saiu-lhe ao encontro, caiu a seus pés e se prostrou” ao ponto de pensar que o considerasse um ser divino, assim que Pedro afirma: “Levanta-te. Eu também sou apenas um homem”.

Pedro abre conversa sobre o acontecido se referindo à visão “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre pessoas”. Fazer distinção era exatamente o comportamento dos juDeus com respeito aos outros povos. “Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer seja a nação a que pertença”.

Já Jesus se tinha comportado desta maneira com outro centurião romano, quando sarou o servo dele e afirmou, surpreso, nunca ter encontrado em Israel uma fé como a dele. Contudo, Pedro não tinha entendido o significado daquele evento.

Agora, depois da morte e Ressureição do mestre e o envio do Espírito Santo “De fato, estou entendendo...”. Bem, tendo acompanhado muito de perto Jesus, ainda tem que apreender. O desenvolver da historia, o acontecer dos eventos nela, são ainda motivo para se surpreender do alcance e profundidade do mistério de Deus, manifestado na missão de Jesus Cristo.

Isso vale, também, na atualidade, com a rápida sucessão de eventos, as mudanças de critérios e comportamentos que exigem muita atenção e discernimento à luz do significado e da finalidade da missão de Jesus Cristo. Por isso que a fidelidade à tradição, não é simples repetição, mas também criatividade, síntese de novas e ousadas respostas. É o que acontece na continuação do relato.

“Pedro estava ainda falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviram a Palavra”. Com suas Palavras, Pedro abriu a mente e o coração dos fiéis de origem judaica que tinham vindo com ele e “ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado também sobre os pagãos”. Abriu-se em todos eles o espaço para acolher o novo entendimento, interpretado como ação do Espírito. Com efeito, perceberam como é possível a comunhão, a fraternidade e a vivência da fé no único Deus com pessoas, em situações e contextos que antes, pensavam, nunca pudesse acontecer.

Com certeza que Cornélio não era uma pessoa qualquer: era justo, temente de Deus e querido pelo seu jeito de ser. Isso indica que em determinadas condições de ética individual e social se abrem as portas para um salto qualitativo da própria existência e da fé, além de toda expectativa e surpreendentemente.

Os presentes de origem judaica ficaram tocados pelo evento. Contudo, este primeiro passo - muito importante por certo - encontrará grandes resistências no ambiente judaico antes de ser aceito como prática consolidada e irrefutável.

Daí que Pedro saca a lógica conclusão “Podemos, por acaso, negar a água do batismo a estas pessoas que receberam, como nós, o Espírito Santo? E mandou que fossem batizados”. A conduta e a personalidade de Cornélio é preparação ao evento do batismo. A prática da justiça, do direito e do correto posicionamento com respeito ao ser superior, fazem dele um ser já em sintonia com o Deus pregado e ensinado por Jesus.

É essa pratica que o batismo recolhe, incentiva e leva à perfeição no amor que imita o de Deus, com o qual somos amados, como argumenta a segunda leitura.

2da leitura 1 Jo 4,7-10

Amor é uma Palavra muito usada e abusada. Quando uma pessoa manifesta a outra o seu amor, cabe muito bem a pergunta: o que entendes? Para avaliar o conteúdo de uma realidade que se presta a entendimentos pelo menos ambíguos, senão contraditórios.

Partindo de Deus “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele”. O primeiro gesto dele foi exilar o Filho, envia-lo “longe” de si mesmo. E o envia num mundo que, por ter se afastado dele, lhe é hostil e a um caminho a se perder irremediavelmente.

O propósito, a finalidade, do envio é o resgate da morte, não só física, mas, também, daquela que convive com a vida biológica e torna a existência desumana, psicologicamente vazia e sem sentido, moralmente ruim, socialmente marginalizado e espiritualmente sem expressão. Trata-se de resgate da vida em abundância nesta terra, como antecipação da plenitude após a morte.

Para atingir o objetivo, o Filho se tornou mediador e representante da humanidade perante do Pai. Nesta condição, conseguiu cumprir a missão “como vítima de reparação pelos nossos pecados”. Reparou a desconfiança, a indiferença, o desinteresse de quem era mediador e representante com respeito ao acontecer do Reino de Deus.

A missão dele de implantar o Reino de Deus na historia humana não encontrou aceitação, pelo contrário foram radicalmente repelida, até o ponto de rejeitá-lo na cruz. Ele representou – sozinho – a humanidade fiel e confiante na promessa do Pai em oposição à humanidade desconfiada, como expressão do sincero amor na afirmação da verdade e da certeza da bondade do caminho por ele traçado.

Só um amor imenso podia sustentar o comportamento e a determinação dele. Portanto, o apostolo especifica “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de reparação”.

E tudo isso “para que tenhamos vida por meio dele”, pois de outra maneira a humanidade estava irremediavelmente perdida, incapaz de administrar a convivência fraterna e solidária entre realidades tão diferentes, pois a paixão pelo poder e o dinheiro teria sufocado todo bom desejo e inviabilizado todo sério projeto a respeito.

A vitória de Jesus Cristo é a do representado que aceita com gratidão a mediação. Eis os pressupostos do conteúdo da fé. A derrota do mal e do pecado acontecidos na pessoa de Jesus, em virtude da qual se tornou o Cristo, é ao mesmo tempo do representado e de toda pessoa que, conscientemente, entra neste singular relacionamento.

O efeito é experimentar, no profundo do ser, pelo surgimento como de outro ser transformado, regenerado, purificado, em condição de perdoar os erros do primeiro ser e resistir às seduções e tentações que o mesmo continua exercendo.

Assim a mesma luta de Cristo é a dele, por acreditar nessa transformação e se manter nela, manifestada na ética correspondente, indicada e desenvolvida pelos mandamentos e as bem-aventuranças.

É a maneira de permanecer em Cristo, conforme convida o evangelho.

Evangelho Jo 15,9-17

Eis a ordem de Jesus aos discípulos “Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”. Permanecer no mesmo amor com que é amado e com que ama os discípulos. É a corrente do amor que une o Pai com o Filho e os discípulos, ou seja, o Espírito Santo.

Teste dela: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. O amor é mais forte do que a morte. Com efeito, o amor que conforma e marca a vida nesta terra, é o que constitui a força e o motivo da Ressureição na outra, após ter experimentado a morte.

Se o amor vence o último inimigo - a morte da pessoa toda – pode vencer também o que é causa da morte humana, social, psicológica, ética e espiritual: o pecado e o mal nesta vida. Eis, portanto, a importância de permanecer no amor a fim de que “a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” assim que “produzais fruto e o vosso fruto permaneça”.

Neste contexto a observância dos mandamentos não é uma obrigação, uma imposição contra a própria vontade nem um dever a ser cumprido sob pena do castigo em caso contrário. Também não é uma necessidade para conseguir uma troca de favores. Nestes casos, a observância se torna gravosa, pesada e insuportável.

Pelo contrário, Jesus, em outra oportunidade, falará dela como um jugo suave e uma carga leve. A experiência nos diz que quando se ama tudo se torna leve e passageiro, mesmo os esforços humanamente mais pesados.

Pelo permanecer na vivência do amor se estabelece o relacionamento de amigo com Jesus “Já não vos chamo de servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo de amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”. Com isso, se abre para o discípulo o conhecimento intelectual e experiencial da vida de Deus. É já participar do último e definitivo do próprio destino: a vida eterna.

Entra-se na dinâmica do “já”- a vida eterna – e o “ainda não”- a participação na plenitude da glória de Deus que se manifestará quando a história e a criação chegarem ao seu ponto final no qual Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28).

“Isto é que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”, cuja capacitação é diretamente proporcional à adesão do que ele fez e está fazendo, em cada momento, a favor de todos os homens, como comentado na segunda leitura.

Ele escolhe a todos de antemão “Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado (...)a prova que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”(Rm5,6-8). Escolher não é impor, é ação do amor gratuito e desinteressado, oferecido a todos e acolhido pela fé.

Daí que o amor a Deus é resposta a quem nos amou primeiro “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi...”. A finalidade é a de perpetuar a verdade e a presença de Deus no mundo “... para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça”.