1ª leitura At 10,25-26.34-35.44-48
Com a entrada de Pedro na casa do pagão Cornélio - centurião romano, comandante militar do batalhão de cem soldados, “homem justo e temente e Deus, bem conceituado entre toda a nação judaica”(v.22) – inicia-se o processo de abertura do cristianismo aos pagãos. Na mentalidade dos primeiros discípulos era impensável que um pagão pudesse aderir a Cristo se primeiro não tivesse sido circuncidado e assumido a Lei do Antigo Testamento.
O relato do livro dos atos dos Apóstolos, do qual é tirado o trecho, descreve o encontro a pedido do Cornélio após uma estranha visão; para interpretação dela foi orientado consultar a Pedro. Ele recebe o apóstolo com especial atenção “Cornélio saiu-lhe ao encontro, caiu a seus pés e se prostrou” ao ponto de pensar que o considerasse um ser divino, assim que Pedro afirma: “Levanta-te. Eu também sou apenas um homem”.
Pedro abre conversa sobre o acontecido se referindo à visão “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre pessoas”. Fazer distinção era exatamente o comportamento dos juDeus com respeito aos outros povos. “Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer seja a nação a que pertença”.
Já Jesus se tinha comportado desta maneira com outro centurião romano, quando sarou o servo dele e afirmou, surpreso, nunca ter encontrado em Israel uma fé como a dele. Contudo, Pedro não tinha entendido o significado daquele evento.
Agora, depois da morte e Ressureição do mestre e o envio do Espírito Santo “De fato, estou entendendo...”. Bem, tendo acompanhado muito de perto Jesus, ainda tem que apreender. O desenvolver da historia, o acontecer dos eventos nela, são ainda motivo para se surpreender do alcance e profundidade do mistério de Deus, manifestado na missão de Jesus Cristo.
Isso vale, também, na atualidade, com a rápida sucessão de eventos, as mudanças de critérios e comportamentos que exigem muita atenção e discernimento à luz do significado e da finalidade da missão de Jesus Cristo. Por isso que a fidelidade à tradição, não é simples repetição, mas também criatividade, síntese de novas e ousadas respostas. É o que acontece na continuação do relato.
“Pedro estava ainda falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviram a Palavra”. Com suas Palavras, Pedro abriu a mente e o coração dos fiéis de origem judaica que tinham vindo com ele e “ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado também sobre os pagãos”. Abriu-se em todos eles o espaço para acolher o novo entendimento, interpretado como ação do Espírito. Com efeito, perceberam como é possível a comunhão, a fraternidade e a vivência da fé no único Deus com pessoas, em situações e contextos que antes, pensavam, nunca pudesse acontecer.
Com certeza que Cornélio não era uma pessoa qualquer: era justo, temente de Deus e querido pelo seu jeito de ser. Isso indica que em determinadas condições de ética individual e social se abrem as portas para um salto qualitativo da própria existência e da fé, além de toda expectativa e surpreendentemente.
Os presentes de origem judaica ficaram tocados pelo evento. Contudo, este primeiro passo - muito importante por certo - encontrará grandes resistências no ambiente judaico antes de ser aceito como prática consolidada e irrefutável.
Daí que Pedro saca a lógica conclusão “Podemos, por acaso, negar a água do batismo a estas pessoas que receberam, como nós, o Espírito Santo? E mandou que fossem batizados”. A conduta e a personalidade de Cornélio é preparação ao evento do batismo. A prática da justiça, do direito e do correto posicionamento com respeito ao ser superior, fazem dele um ser já em sintonia com o Deus pregado e ensinado por Jesus.
É essa pratica que o batismo recolhe, incentiva e leva à perfeição no amor que imita o de Deus, com o qual somos amados, como argumenta a segunda leitura.
2da leitura 1 Jo 4,7-10
Amor é uma Palavra muito usada e abusada. Quando uma pessoa manifesta a outra o seu amor, cabe muito bem a pergunta: o que entendes? Para avaliar o conteúdo de uma realidade que se presta a entendimentos pelo menos ambíguos, senão contraditórios.
Partindo de Deus “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele”. O primeiro gesto dele foi exilar o Filho, envia-lo “longe” de si mesmo. E o envia num mundo que, por ter se afastado dele, lhe é hostil e a um caminho a se perder irremediavelmente.
O propósito, a finalidade, do envio é o resgate da morte, não só física, mas, também, daquela que convive com a vida biológica e torna a existência desumana, psicologicamente vazia e sem sentido, moralmente ruim, socialmente marginalizado e espiritualmente sem expressão. Trata-se de resgate da vida em abundância nesta terra, como antecipação da plenitude após a morte.
Para atingir o objetivo, o Filho se tornou mediador e representante da humanidade perante do Pai. Nesta condição, conseguiu cumprir a missão “como vítima de reparação pelos nossos pecados”. Reparou a desconfiança, a indiferença, o desinteresse de quem era mediador e representante com respeito ao acontecer do Reino de Deus.
A missão dele de implantar o Reino de Deus na historia humana não encontrou aceitação, pelo contrário foram radicalmente repelida, até o ponto de rejeitá-lo na cruz. Ele representou – sozinho – a humanidade fiel e confiante na promessa do Pai em oposição à humanidade desconfiada, como expressão do sincero amor na afirmação da verdade e da certeza da bondade do caminho por ele traçado.
Só um amor imenso podia sustentar o comportamento e a determinação dele. Portanto, o apostolo especifica “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de reparação”.
E tudo isso “para que tenhamos vida por meio dele”, pois de outra maneira a humanidade estava irremediavelmente perdida, incapaz de administrar a convivência fraterna e solidária entre realidades tão diferentes, pois a paixão pelo poder e o dinheiro teria sufocado todo bom desejo e inviabilizado todo sério projeto a respeito.
A vitória de Jesus Cristo é a do representado que aceita com gratidão a mediação. Eis os pressupostos do conteúdo da fé. A derrota do mal e do pecado acontecidos na pessoa de Jesus, em virtude da qual se tornou o Cristo, é ao mesmo tempo do representado e de toda pessoa que, conscientemente, entra neste singular relacionamento.
O efeito é experimentar, no profundo do ser, pelo surgimento como de outro ser transformado, regenerado, purificado, em condição de perdoar os erros do primeiro ser e resistir às seduções e tentações que o mesmo continua exercendo.
Assim a mesma luta de Cristo é a dele, por acreditar nessa transformação e se manter nela, manifestada na ética correspondente, indicada e desenvolvida pelos mandamentos e as bem-aventuranças.
É a maneira de permanecer em Cristo, conforme convida o evangelho.
Evangelho Jo 15,9-17
Eis a ordem de Jesus aos discípulos “Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”. Permanecer no mesmo amor com que é amado e com que ama os discípulos. É a corrente do amor que une o Pai com o Filho e os discípulos, ou seja, o Espírito Santo.
Teste dela: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. O amor é mais forte do que a morte. Com efeito, o amor que conforma e marca a vida nesta terra, é o que constitui a força e o motivo da Ressureição na outra, após ter experimentado a morte.
Se o amor vence o último inimigo - a morte da pessoa toda – pode vencer também o que é causa da morte humana, social, psicológica, ética e espiritual: o pecado e o mal nesta vida. Eis, portanto, a importância de permanecer no amor a fim de que “a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” assim que “produzais fruto e o vosso fruto permaneça”.
Neste contexto a observância dos mandamentos não é uma obrigação, uma imposição contra a própria vontade nem um dever a ser cumprido sob pena do castigo em caso contrário. Também não é uma necessidade para conseguir uma troca de favores. Nestes casos, a observância se torna gravosa, pesada e insuportável.
Pelo contrário, Jesus, em outra oportunidade, falará dela como um jugo suave e uma carga leve. A experiência nos diz que quando se ama tudo se torna leve e passageiro, mesmo os esforços humanamente mais pesados.
Pelo permanecer na vivência do amor se estabelece o relacionamento de amigo com Jesus “Já não vos chamo de servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo de amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”. Com isso, se abre para o discípulo o conhecimento intelectual e experiencial da vida de Deus. É já participar do último e definitivo do próprio destino: a vida eterna.
Entra-se na dinâmica do “já”- a vida eterna – e o “ainda não”- a participação na plenitude da glória de Deus que se manifestará quando a história e a criação chegarem ao seu ponto final no qual Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28).
“Isto é que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”, cuja capacitação é diretamente proporcional à adesão do que ele fez e está fazendo, em cada momento, a favor de todos os homens, como comentado na segunda leitura.
Ele escolhe a todos de antemão “Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado (...)a prova que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”(Rm5,6-8). Escolher não é impor, é ação do amor gratuito e desinteressado, oferecido a todos e acolhido pela fé.
Daí que o amor a Deus é resposta a quem nos amou primeiro “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi...”. A finalidade é a de perpetuar a verdade e a presença de Deus no mundo “... para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça”.
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