segunda-feira, 31 de maio de 2010

10o DOMINGO DO T.C.-C- (06-06-10)

1ª leitura 1Rs 17,17-24

A viúva de Seperta. É a mesma viúva que aceitou hospedar o profeta na própria casa. A ela o profeta ordenou que lhe preparasse o pão com o último punhado de farinha e com as ultimas gotas de aceite. Ela obedeceu e nunca lhe faltou farinha e aceite até o fim da longa carestia. Ela atribui à presença na casa do profeta Elias a desgraça do falecimento do filho “O que há entre mim e ti, homem de Deus? Porventura viestes à minha casa para me lembrares os meus pecados e matares o meu filho?”. Era entendimento comum que a motivo da presença do profeta na casa, os pecados e as culpas, mesmas as involuntárias e as inconscientes, eram desveladas e atraiam o castigo de Deus correspondente.
Tudo isso confirmou nela a convicção da realidade profética de Elias e, portanto, interpretou a morte do filho como castigo por suas iniqüidades. O fato de ela ter aberto a sua casa ao profeta, mesmo tendo consciência de sua situação moral e do que isso podia acarretar, não passou despercebido nem foi indiferente à atenção do profeta. Ele se sentiu motivado, como homem de Deus, a favor daquela casa.
Assim cabe considerar como é importante dar um primeiro passo na direção de Deus, mesmo com todos os limites devidos aos próprios pecados e as inseguranças das condições de vida. Às vezes, na pessoa lhe falta este primeiro gesto de abertura e acolhimento, tão desconfiado e desanimado está consigo mesmo e com Deus.
O profeta suplicou a Deus “Senhor, meu Deus, até a viúva, em cuja casa habito como hóspede, queres afligir, matando-lhe seu filho? (...)faze, te rogo,que a alma deste menino volte às suas entranhas”. Ponto forte da argumentação do profeta é o fato dela tê-lo hospedado. Acolher o homem de Deus é acolher Deus mesmo. É se dispuser ao que vier em nome de Deus. Não é tão simples nem fácil, como parece num primeiro momento, sobretudo quando a consciência do próprio pecado acrescenta a própria indignidade, juntamente ao medo do castigo. Suficiente lembrar as palavras de Pedro a Jesus depois da pescaria milagrosa: “afasta-te de mim Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8)
A intercessão do profeta foi atendida, e ele entregou o filho à sua mãe dizendo “Eis aqui o teu filho vivo”. Belíssimo este gesto de devolvê-lo à mãe! O profeta não pede nada para si, entrega o dom de Deus para a felicidade da mãe. É a pura gratuidade da ação de Deus que,juntamente ao gesto de devolver a vida, conforma a percepção nela da grandeza de Deus e da autenticidade da ação do profeta.
A viúva se dirige a Elias “Agora sei que és um homem de Deus, e que a palavra do Senhor é verdadeira em tua boca”. Reconhece na ação dele a eficácia da palavra do Senhor. A palavra humana e a palavra divina se tornam a mesma realidade na pessoa de Elias. É uma condição só para umas pessoas muito especiais como Elias e outros poucos registrados na Bíblia e na história?
Cada cristão é profeta, como nos lembra a liturgia do Batismo. Portanto, deveria ser uma condição comum para todo discípulo consciente, mesmo tendo passado por situações totalmente diferentes e desconcertantes como foi o caso de são Paulo, como relatado na 2da leitura.

2da leitura Gl 1,11-19

A experiência de são Paulo é uma surpreendente reviravolta pela qual passou de perseguidor a apóstolo de Jesus. O que fez a diferença foi intervenção direta da manifestação de Cristo na entrada da cidade de Damasco, aonde ia para perseguir os cristãos. Foi o momento marcante, com ele disse “o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos. Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo”.
Paulo teve consciência do relacionamento direto com Cristo, do qual recebeu o evangelho. (Evidentemente, por evangelho não se refere aos 4 textos da Bíblia, pois, ainda não existiam, não estavam escritos.). Receber o evangelho significou propriamente ter conhecimento e ciência da importância, para ele e para a humanidade toda, da morte e ressurreição de Jesus: “Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, será salvo”(Rm 10,9).
Olhando em retrospectiva e com a ciência do depois, ele considerou este evento um dom, “pensado” por Deus desde a eternidade “Quando, porém, aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça se dignou revelar-me o seu Filho” Um dom que surpreendeu Paulo, por Deus ter chamado um indigno qual era ele, e por ser, conseqüentemente, ação e expressão da maior gratuidade.,
Todo dom de Deus é para ser transmitido a outros. Portanto a atitude de são Paulo “para que eu o pregasse entre os pagãos” é sustentada por dois motivos, porque é para toda a humanidade indistintamente, e para a pessoa se enriqueça em virtude da dinâmica da transmissão, em si mesma renovadora e enriquecedora. Missão que assumiu com determinação e prontidão “não consultei carne nem sangue”, ou seja, não consultou critério humano de conveniência, de dignidade, de oportunidade, de opinião de pessoas sábias etc. Tudo foi decidido no contexto da qualidade do encontro com o Senhor.
Com certeza, o evento foi o começo do processo de transformação radical da maneira dele de pensar e de ser, que o acompanhará a vida toda. Não podemos pensar que de uma vez entendeu tudo, e que todo ficou esclarecido perante os múltiplos desafios das diferentes circunstâncias do dia -a- dia e dos ambientes. Entendeu o eixo central, o eixo da roda, mas devia repensar e refazer todo o seu conhecimento, a sua sabedoria, o seu entendimento anterior a partir do novo eixo .
Corajosamente entrou nisso sozinho. Pelo específico da condição dele, enquanto perseguidor do qual faz referencia explicita “Certamente ouvistes falar como foi outrora e minha conduta no judaísmo (...) mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas”, chama a atenção o fato de que não sentiu a necessidade de se dirigir imediatamente “a Jerusalém para estar com os que eram apóstolos antes de mim. Pelo contrário, parti para a Arábia e, depois, voltei ainda a Damasco” Parece-me que teria sido quanto mais oportuno e necessário a conversa, a instrução, o aprofundamento e, em fim, a aprovação daqueles que ele mesmo indica “eram apóstolos antes de mim”.
Cabe pensar que o tempo demorado da permanência dele em Arábia “Três anos mais tarde, fui a Jerusalém” foi não só para fugir da perseguição de Damasco e dar um tempo aos cristãos para se recuperarem do estupor, da desconfiança etc. de uma conversão tão singular, mas também para reelaborar o próprio entendimento e as conseqüências de uma mudança tão radical. Fazer isso sozinho é de uma ousadia muito grande, e testemunha o impacto, a força do encontro com o Senhor e, mais na frente, a profundidade e novidade do pensamento, da instrução que marcarão a sobrevivência do cristianismo.
Depois dos três anos “fui a Jerusalém para conhecer Cefas (Pedro) e fiquei com ele quinze dias” . É o momento do entrosamento, da união da comunhão, depois de ter caminhado em solidão por tanto tempo. Isso é muito indicativo para todo cristão. A caminhada pessoal com Cristo não é dispensável pela “pressa” do entrosamento, que poderia ser expressão de imediatismo inoportuno, de superficialidade, de falta de coragem, de insuficiente elaboração da comunhão com o Senhor.
Uma comunhão que da vida como indica o evangelho.

Evangelho Lc 7,11-17

Jesus dirigiu-se a uma cidade chamada Naim (...) eis que levavam um defunto, filho único; e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade a acompanhava” Devia ter sido um evento altamente dramático, testemunhado não só pelo fato em si mesmo, mas pela participação da multidão. O triste evento atingiu Jesus “Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: não chores”. Importante esta anotação. Jesus não só participa dos sentimentos dramáticos da condição humana, como neste caso de um luto tão profundo como o da mãe perder o único filho, mas é partir da compaixão, ou seja, da sensibilidade que o capacita sintonizar e participar do sofrimento dela e deles, que determina sua ação pastoral, sua intervenção.
A compaixão se transforma em ação misericordiosa. (Misericórdia significa: coração voltado para o miserável, para o coitado, para resgatá-lo da condição infeliz.) “Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, Jesus disse: Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” A fama de Jesus devia ter chegado até eles. O fato dos carregadores pararem, me parece um sinal de respeito para com uma pessoa merecedora. Tal vez, eles e o povo esperavam que mostrasse sua condição de profeta.
De fato, se essa for a expectativa deles, ficaram atendidos: “Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus dizendo; Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo”. Jesus se auto-revela como Senhor que da a vida, daí os sentimentos no povo de medo e de glorificação a Deus. Dar vida a quem estava morto, deveria conduzir as pessoas às considerações que ultrapassam o fato contingente, para se abrirem à convicção da vitória da vida sobre os diferentes tipos de morte - não só física, mas humana, psicológica, ética e espiritual - que acompanha o dia-a-dia das pessoas e da humanidade, em virtude da ação e presença de Jesus. De fato, a presença Dele revela que “Deus veio a visitar o seu povo” e, assim, amplia o entendimento deles nos horizontes da compreensão da pessoa de Jesus e da missão Dele, que abrange a todos e a toda humanidade.
Belíssimo e muito significativo e gesto de Jesus: “E Jesus o entregou a mãe”. Jesus não reteve nada para si mesmo. Teria condição e motivo para pedir que o jovem o seguisse, em fim, para a mãe, tê-lo de novo em vida estaria mais que satisfeita. Não há registro de pedido algum, só o devolve.
É expressão da pura gratuidade, da felicidade de Jesus pela felicidade da mãe. É testemunho do grau de desprendimento de si mesmo que deixa um ensinamento muito grande com respeito ao serviço pastoral. Muitas vezes, a atividade pastoral sustentada pela vaidade, encharcada pelo ciúme, cria consciamente, ou não, expectativas de retorno, que por ser frustradas ou não atendidas da forma esperada, geram desanimo ou até desmotivam ulteriores compromissos.
Saber viver o presente da própria ação pastoral, como alegria pela alegria do outro ter reanimado a própria vida, ter reencontrado a autenticidade de si mesmo, ter sido motivo de alegria e de satisfação para os próprios seres queridos, é expressão da familiaridade com Jesus e testemunho do verdadeiro discípulo.

domingo, 23 de maio de 2010

SANTÍSSIMA TRINDADE-C-(30-05-10)

1a leitura Pr 8,22-31

A leitura apresenta a Sabedoria come se fosse uma pessoa em singular união e familiaridade com Deus “Assim fala a Sabedoria de Deus”. Revela sua origem “desde a eternidade foi constituída (...). Fui gerada quando não existiam os abismos (...). Ele ainda não havia feito as terras e os campos, nem os primeiros vestígios de terra do mundo” e sua parte ativa na obra da criação: “quando preparava os céus, ali eu estava (...), quando (...), quando(...) fixava ao mar seus limites (...) eu estava ao seu lado como mestre-de-obras”.
A primeira percepção é que Deus não é um sujeito sozinho, mas acompanhado. Não é um sujeito único que faz tudo, mas tem “como um mestre- de- obras” para sua atividade criativa. Se tiver é porque precisa; é porque não pode ser de outra maneira; é porque é bom que seja assim. Portanto um Deus que se associa a si mesmo a colaboração da Sabedoria suscita um sentimento de simpatia e de segurança com respeito à bondade e conveniência da atuação dele. Psicologicamente sentimos resistência para com uma pessoa que pensa e faz tudo sozinha.
Desde a eternidade Deus não está sozinho. Sendo que a criação emana da essência profunda Dele, ela deve ter em si mesma a essência da comunhão entre as diferentes componentes da mesma. É como os elementos de uma orquestra na qual cada elemento, desenvolvendo a própria especificidade, é chamado a sintonizar e harmonizar com todos os outros para formar a estupenda e harmoniosa sinfonia da criação, como obra maior de tão grande Compositor.
É preciso não perder esta referencia, porque cada pessoa, cada grupo humano, cada elemento da criação, não é casual ou demais, não é inútil ou sem sentido, mas converge como membro, entre muitos, necessário para o rir do universo, que é o êxtase de Deus.
A esta êxtase apontam as palavras da leitura “eu (a Sabedoria) era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença, brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens”. Imagens estupendas da realidade de comunhão em Deus. Cada dia é como presente de um para o outro “todo o tempo”. Cada momento é caracterizado pela brincadeira, “brincando em sua presença, brincando na superfície da terra”, sinal da alegria sincera desinteressada sem segundos fins, de graça.
Tal vez, sob este ponto de vista, a imagem mais acabada da Trindade seja a de três crianças, de dois anos aproximadamente, que brincam conjuntamente. Elas vivem o presente com intensidade, na pura gratuidade, sem forma de rivalidade ou de competição alguma, mas totalmente voltadas para o jogo em si mesmo.
Em Deus é brincadeira que suscita o encanto “eu era seu encanto”, o êxtase pelo específico relacionamento entre eles. Êxtase que se transforma em alegria “alegrando-me em estar com os filhos dos homens” por passar aos homens o caminho e as condições para que se repita entre eles mesmos do que acontece em Deus.
Como acontece o processo de envolvimento e de participação da humanidade na alegria e no êxtase de Deus? “Por nós homens e para nossa salvação desceu do céu” rezamos cada domingo no Credo. A salvação é exatamente a participação nisso e Jesus é a ponte, o mediador nos termos indicados pela 2da leitura.

2da leitura Rm 5,1-5

Poucas palavras que abrangem a totalidade da pessoa e sua ação coerente, positiva e plena de sentido. Desta maneira a existência dia -a -dia vai se conformando e assumindo nela o dom da presença da Trindade.
Justificados pela fé estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo” . O afastamento de Deus é experiência de toda pessoa por causa do pecado. Com efeito, o pecado é tal porque produz o afastamento de Deus e, por conseguinte de si mesmo, dos outros e da criação. Ao longo da história toda tentativa e esforço humano de remediar e recompor não deu certo. Só Jesus o conseguiu, em nome da humanidade de todos os tempos e de todos os lugares, por meio da sua morte e ressurreição, como muitas vezes já tocamos. Nesse sentido ele é o mediador, aquilo que faz uma ponte estável e firme entre a humanidade e Deus.
Esta ponte, esta mediação, é eficaz e produz o efeito desejado se a(s) pessoa(s), a humanidade, acolhe e aceita o que lhe é oferecido de forma gratuita, como dom. Jesus faz isso, não em virtude de algum mérito nosso nem de alguma qualidade específica, menos ainda, como premio pelo bom comportamento, mas simplesmente pelo amor. Com essa motivação Jesus carrega sobre si mesmo todas as deficiências, limites, fraquezas etc. e destrói em nós o mal e o pecado com sua morte.
A aceitação deste presente é o próprio, o específico, da fé. Ela - a fé- produz no interior da pessoa um sentimento de justificação, de se sentir justo perante do Pai, como se não tivesse pecado nenhum por meio. Dai o sentido da expressão “estamos em paz com Deus (...) tivemos acesso, pela fé, a esta graça”. É graça que permanentemente é oferecida na Missa. Infelizmente, muitos nem estão ai, e outros participam dela por obrigação, por habito Desta maneira, estão longe de acolher com amor o dom de tamanha importância para refazer o próprio mundo interior devastado pelo pecado.
É graça não só para o presente, mas para o futuro no sentido que sustenta a esperança de participar na plenitude da glória de Deus, no fim dos tempos “esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus (...) e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações”. O futuro, então, tem uma meta, um destino glorioso, mesmo que no presente seja todo o contrário.
Assim, as tribulações do tempo presente são encaradas não como uma desgraça, mas uma oportunidade para crescer na esperança “nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança”.
Por tribulações são Paulo entende toda dificuldade pessoal, toda aversão das circunstâncias, toda atitude de pessoas que intencionalmente, ou não, se opõem , colocam obstáculos à pregação e pratica do evangelho. Ele as experimentou de maneira intensa e fora da comum. Por tanto suas palavras têm um valor probatório indiscutível.
A força está no “amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. O Espírito Santo é o Deus presente em nós, cuja missão é a que comentaremos no evangelho.

Evangelho Jo 16,12-15

Jesus está consciente que nem todos os ensinamentos dele estão ao alcance do entendimento dos discípulos, pois lhes faltam elementos para isso. Portanto pré-anuncia a eles esta dificuldade “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de compreendê-las agora”. Não é para desanimá-los nem desprezá-los, mas para tirar deles toda preocupação ao respeito, pois, lhes antecipa que o pleno conhecimento será oferecido pelo Espírito Santo “Quando vier o Espírito da Verdade, El vos conduzirá à plena verdade”.
Pelo Espírito eles serão conduzidos à plena Verdade. Serão acompanhados pelo Espírito gradativa e progressivamente, ou seja, serão conduzidos por um caminho que desvelará novos horizontes, que favorecerá novos entendimentos e sustentará novas experiências de maneira que entenderão o porquê e o sentido profundo das ações e das palavras de Jesus.
Com efeito, é Jesus a verdade plena. Ele disse “Eu sou o caminho -porque sou- a verdade e a vida”. Portanto, a verdade não é simplesmente um aspecto intelectual, mas uma experiência que atinge a pessoa toda e em todos os níveis. E não só a pessoa individual, mas por extensão a humanidade e a criação. Esta é a Verdade, com a V maiúscula. É o significado global da pessoa de Jesus.
Com efeito, Jesus anuncia que o Espírito Santo “falará (...) dirá tudo o que tiver ouvido (... ) porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará” e acrescenta que “ tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”. Portanto, o Espírito desenvolverá a função de mestre interior, cuja atividade consistirá em indicar e criar as condições no dia -a- dia para que os discípulos respondam adequadamente às novas circunstancias e situações da vida pessoal e social. Tudo isso se faz corajosa criatividade inspirada pela vivencia da comunhão com Jesus e, ao mesmo tempo, adesão ao projeto do Pai com respeito ao novo céu e a nova terra que quer implantar com a colaboração dos discípulos de todos os tempos.Assim, a fidelidade a Jesus e ao projeto do Pai, não é repetição do que foi, a mesmice do passado, mas criatividade ousada,corajosa, de antecipar o futuro, na base dos novos elementos e condições que vão surgindo.
Certo, o novo é ambíguo, pois, tem em si mesmo uma mistura do certo e do errado, do bom e do ruim. Mas, é exatamente a partir disso que o Espírito Santo lembrará o estilo de vida, os critérios de discernimentos, as atitudes de Jesus, quando teve que enfrentar corajosamente situações semelhantes. Ajudará discernir o que deixar e o que reter, a custa de encontrar oposição até violenta, como a encontrou Jesus. Será revelado pelo Espírito o que é a Verdade plena naquela circunstância específica, e o mesmo Espírito, dará força para testemunhá-la como foi no caso de Jesus. Naquele momento o discípulo se tornará outro Jesus “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” dirá são Paulo.
Neste momento a glorificação que foi de Jesus será o do discípulo. Participando dela, o Espírito comunicará o “ que é meu- de Jesus- e vo-lo anunciará (...) até as coisas futuras”As coisas futuras não se referem aos eventos desconhecidos e a sua misteriosa realização, mas à certeza do destino à vida plena das pessoas, da humanidade e da criação, que corresponde à participação da glória de Deus no fim dos tempos.
É manifesta, desta forma, a singular comunhão entre os três, o Pai, o Folho e o Espírito Santo, assim como a única missão deles a favor da criação toda. É manifesta, então, a responsabilidade deles cheia de amor e de misericórdia para com uma criação rebelde e hostil. Participar já nesta terra da vida trinitária é entrar na comunhão com Ela para sustentar desenvolver e continuar a mesma missão, lutando com o mesmo amor e esperando contra toda esperança.

domingo, 16 de maio de 2010

PENTECOSTES-C-(23-05-10)

1a leitura At 2,1-11

Pentecostes - 50 dias após a Páscoa - é o evento marcante para a humanidade de todos os tempos até a vinda do Ressuscitado. Vinda por Ele prometida antes de voltar na glória do Pai o dia da Ascensão.
Toda manifestação de Deus acontece de maneira imprevista, de repente, sem nenhum aviso prévio. Ela irrompe de forma desconcertante na vida das pessoas, neste caso, dos discípulos “os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” e, por medo dos judeus, estavam com a porta trancada.
Foi difícil para eles dar conta do que exatamente aconteceu, pois, não havia palavras adequadas. Portanto, usam comparações “como se fosse uma forte ventania”, “apareceram línguas como de fogo”, pois, o evento ultrapassou toda capacidade de entendimento. Foi participação ao infinito mistério de Deus.
Assim, a manifestação foi uma surpresa, no sentido verdadeiro e profundo do termo “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os inspirava (...), pois cada um ouvia os discípulos falar em suas próprias línguas”. Tomado ao pé da letra, seria uma tradução simultânea? Sinceramente não sei como explicar este fato de maneira plenamente convincente. A Bíblia registrará o fenômeno de eventos parecidos como ação do Espírito nas comunidades que estavam surgindo.
Com certeza, o fenômeno chamou a atenção pela transformação operada neles em nível de entendimento, de atitudes para com o povo e as autoridades, e pelo fenômeno singular das línguas “Cheios de espanto e admiração, diziam: Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?”.
A continuação é elencada todas as nações conhecidas do mundo de então, para indicar o alcance universal do evento, assim como foi o da morte e ressurreição de Jesus. É registrado, portanto, que a descida do Espírito não é circunscrita aos discípulos nem à Jerusalém nem ao povo judeu, mais abrange a humanidade toda e de tosos os tempos. Este é um aspecto de grande importância para a reflexão atual sobre a missão da Igreja no mundo, em dialogo com outras culturas e religiões. Elas têm em si mesmas a palavra do Espírito que interpela os cristãos. Daí a importância da humilde procura da Verdade através da dialética fraternal.
Parece-me mais importante da compreensão do fenômeno, entender a mensagem dos apóstolos. Com efeito, o texto frisa “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” As maravilhas se referem ao evento da morte e ressurreição de Jesus. Tal vez seja isso que os enche de espanto e admiração, mais do que o fenômeno das línguas. Apresentar um condenado a morte - um maldito de Deus justiçado menos de uma semana - como Salvador não é coisa de pouca conta.
Com a descida do Espírito Santo os discípulos tomam plena consciência do alcance e significado da morte e ressurreição de Jesus. Algo que, até então, ficou meio incompreensível e indecifrável. O alcance do pleno significado gerou nos discípulos uma mudança de atitudes radical para consigo mesmos, no relacionamento com o ambiente e com as autoridades.
Com a descida do Espírito começa a Igreja, ou seja, o surgimento das comunidades cristãs. O Espírito será como a seiva da arvore. Ela é invisível, porém, indispensável para ávida e o crescimento da mesma. A vida de Deus correrá nela exatamente pela presença e ação do Espírito nas comunidades.
O Espírito será o mestre interior de todo discípulo. Em virtude disso, estabelecerá um relacionamento direto entre ele e Deus, realizando dessa maneira o profetizado por Jeremias “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração (...) não será mais necessário ensinar ao seu próximo dizendo: ‘Conhece o Senhor! Todos me reconhecerão, do menor ao “maior deles”(31,34)’. Este relacionamento é o ponto de partida não dispensável de todo correto entendimento da pessoa, do ensino de Jesus, assim como de toda prática da vida cristã.
Com efeito, a presença do Espírito qualifica o discípulo, como comentaremos na 2da leitura.

2da leitura 1Cor 12,3b-7.12-13

Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo”. Evidentemente não se trata de afirmar vocalmente, de boca para fora, mas de ser interiormente convencido do homem Jesus de Nazaré constituído pela ressurreição Senhor de tudo e de todos. Evento no qual o Espírito Santo agiu com poder e força conforme a vontade do Pai. Portanto, só o mesmo Espírito pode convencer interiormente todo discípulo e modelar o entendimento e a vida dele em sintonia com esta verdade.
A compreensão da pessoa de Jesus, à luz do que aconteceu na Páscoa, tem múltiplos desdobramentos, entre eles o específico agir conjuntamente da Trindade Santa “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos” Lendo o trecho de frente para trás e aplicando-o à vida do discípulo destacam umas considerações valiosas.
Assim, se o discípulo agir, se desenvolver atividades, conforme a vontade do Pai, para a transformação da humanidade, ele estará se relacionando com o Pai. Se exercer esta missão em sintonia com o que Jesus fez, servindo ( ministérios) até com o dom da própria vida, estará em sintonia com o Filho. Se servir, se exercer o ministério, usando dos dons que lhe são próprios, ele estará em sintonia com o Espírito Santo. Dessa forma, o discípulo, no concreto dos acontecimentos humanos do dia – a - dia terá clareza da vivencia e da percepção da presença Trinitária nele.
Tudo brota, começa, caminha e chega ao seu fim satisfatório pela ação do Espírito. Ele move, instrui, e sustenta a ação, pois, “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”. O bem comum visa à harmonia entre as diversidades dos povos, línguas e das culturas “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres fomos batizados no mesmo Espírito, para formarmos um único corpo, e todos bebemos de um único Espírito”.
Todos afirmaram que a diversidade é uma riqueza, que deve ser aproveitada para o crescimento humano e espiritual. Não faltam elogios a ela. O complicado é como fazer, como administrar a diversidade no horizonte da harmonia e do crescimento. Particularmente desafiador é quando ela ultrapassa o limite de aceitação que cada pessoa percebe em si mesma em virtude da própria história, cultura, educação e experiência. Mais ainda, quando, para dar espaço e cabimento a ela, é preciso abrir mão do que é próprio. É então que as virtudes da coragem, da generosidade, da gratuidade e da fraternidade mostram a sua real consistência , assim como a verdadeira fé no valor da diversidade
Há três critérios gerais que orientam o processo de integração das diferenças. 1) A pessoa se torna mais humana, no sentido de fazer da própria vida um dom a favor dos que precisam, para que elas- por sua vez- transmitam a mesma dinâmica? 2) A sociedade é favorecida no crescimento do direito, da justiça e no respeito das exigências legitimas das diversidades? 3) A natureza é respeitada nas suas exigências ecológicas? Responder positivamente significa se esvaziar de si mesmo como foi a prática de Jesus e a ação do Espírito Santo “no qual fomos batizados para formarmos um só corpo”. Trata- se da pratica d caridade.
O Espírito procede do Pai e do Filho como amor deles para a humanidade e para cada pessoa. Mais profundamente, é Amor que qualifica a essência de Deus e que une a amante (o Pai) com o amado (o Filho) no amor (o Espírito Santo) com a humanidade de todos os tempos e de todos os lugares.
É o que destaca nas palavras de Jesus no evangelho.

Evangelho Jo 20,19-23

Os discípulos e as pessoas traumatizadas, profundamente abaladas pelos acontecimentos da sexta feria-santa e cheias de medo estão “ com portas fechadas” . Jesus, de repente, se apresenta “pondo-se no meio dele e disse: a paz esteja convosco”. Nas palavras Dele não há a menor alusão à experiência pessoal dele dos dias anteriores e, menos ainda, ao comportamento dos discípulos. Sobrepõe-se de tudo e de todos, em virtude do triunfo da vida e da verdade sobre a morte e a mentira. Sua preocupação é de doar a paz interior àqueles discípulos. Só per esta atitude percebe-se a grandeza humana e espiritual de Jesus.
Mostra a eles algo que os deixará perplexos: “ mostrou-lhes as mãos ( furadas) e o lado(aberto)”. Cabe uma pergunta: por que as feridas ficaram abertas? Por que não as fechou? Sendo elas feridas de morte, permanecem Nele que, agora, está aí vivo mais do que antes, pois, se antes podia morrer agora é vivo para sempre.
A morte e a mentira continuam ativas e presentes no mundo. As feridas abertas testemunham que o poder e o domínio delas são vencidos de uma vez para sempre na pessoa do ressuscitado e, conseqüentemente, naqueles que permanecerão nele pelo voto de confiança.
Os discípulos nem tiveram tempo de se recompor do susto e da alegria, que surpreendentemente Jesus investe eles de mais um desconcerto. À paz interior associa a missão “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. O envio, comparado ao envio do Pai para com ele, devia deixa-los muito perplexos. Tinham perante de si mesmos um modelo infinitamente superior às condições e possibilidade deles. Como não se sentir radicalmente inadequados?
Respondendo a estes inevitáveis sentimentos, Jesus realiza um gesto muito importante e significativo “ E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo”. Este sopro tem relação com o sopro de Deus, que transformou o barro em um ser vivente a imagem e semelhança Dele. É o sopro da nova criação inaugurada pela ressurreição de Jesus. É o sopro que faz deles novas criaturas, redimidas e resgatadas pelos eventos da Páscoa. É o sopro da presença e força do Espírito que acompanhou Jesus em sua missão e o resgatou da escravidão da morte e da mentira. Mas, sobretudo é o sopro do Espírito do Amor, que faz deles uma realidade que ama e é amada.
É a consistência e a profundidade do amor que os habilita a cumprirem a missão e especialmente “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. Evidentemente, com estas palavras o perdão não é deixado à arbitrariedade, aos estados de animo, deles, mas à percepção e a vivencia do amor que une o amante e o amado no singular relacionamento pelo qual se recriam todas as coisas, inclusive os relacionamentos mais ruins, as experiências mais frustrantes e até violentas.
É o que Jesus está praticando para com eles. As palavras e a s atitudes Dele são expressão do perdão de Deus, que será eficiente e real pela aceitação das palavras e da missão que Jesus lhes confia. Eles deverão repetir o mesmo. Pode ser que encontrarão pessoas como o servidor da parábola que, depois de receber o perdão de uma dívida enorme por parte do Senhor, não consegue sintonizar e valorizar o perdão recebido ao ponto de não perdoar o companheiro de uma pequena dívida. Então o perdão se esvazia de seu poder renovador e construtor. Portanto a ação do Espírito neles não será automática nem rotina, más expressão da renovada fé e amor à pessoa de Jesus e a presença da Trindade neles.

domingo, 9 de maio de 2010

ASCENSÃO-C-(16-05-10)

1a leitura At 1,1-11

Vale especificar que o autor dos Atos dos Apóstolos é o mesmo do Evangelho: o apóstolo Lucas (ou a comunidade que faz referencia a ele). Os Atos dos Apóstolos é a continuação do Evangelho e, especificamente, testemunha a ação do Espírito Santo na difusão do Evangelho no mundo então conhecido e o surgimento das primeiras comunidades. Daí o sentido de “No meu primeiro livro” e as palavras introdutórias que resumem brevemente o evangelho.
Jesus é apresentado, no período que vai da ressurreição à ascensão- simbolicamente 40 dias, um período demorado- como Senhor do Reino de Deus: “Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus”.É muito significativo que Jesus não fale de si mesmo, da grande injustiça que fizeram para com ele, dos sofrimentos da cruz e da experiência da ressurreição, da traição, do abandono dos apóstolos etc., mas somente da finalidade da missão dele: o Reino de Deus.
Demonstra, assim, um desapego de si mesmo surpreendente do ponto de vista humano. É como se estivesse falando sem que nada especial lhe tivesse acontecido. Isso diz muito com respeito ao relacionamento dele consigo mesmo, à missão que desenvolveu e que está chegando ao seu ponto final na terra. Como pude manter tal distanciamento, tal desapego de si mesmo? Como não há registro de uma palavra de desconformidade, de critica, de lamentação, com respeito à ingratidão do povo, dos apóstolos etc.? Mas, só preocupação de que os apóstolos entendam a dinâmica da implantação do Reino?
As explicações de Jesus não foram bem entendidas, pois, os apóstolos perguntam: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel”. Eles entenderam falar da realização do Reino conforme a expectativa geral do povo e de João Batista, ou seja, a expulsão dos invasores romanos e a purificação do povo infiel à lei de Moises. Isso demonstra quanto pouco eles entenderam Jesus, mesmo após da experiência de vê-lo ressuscitado. Contudo, Jesus não se surpreende nem pretende corrigir ou explicar em que realmente consiste o Reino, pois, sabe que não têm condições de entender (só com a vinda do Espírito entenderão), mas revela que não compete a eles “saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com sua própria autoridade”.
Assim, preanuncia a descida do Espírito Santo: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra”. A função do Espírito, após de tornar-los conhecedores da profundidade e importância do evento da morte e ressurreição de Jesus, visa constituí-los testemunhas até os últimos confins da terra. Com isso afirma o caráter universal do evento e da missão Dele.
“Depois (...) foi levado ao céu (...). Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo”. Com isso Jesus universaliza a missão. Ele chegará até os confins da terra por meio da ação missionária dos apóstolos, das testemunhas. A missão se estenderá até a volta Dele no fim dos tempos, portanto, os apóstolos não deverão ficar parados olhando o céu “ Homens da Galiléia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?” Uma coisa é certa, aquele que agora sumiu dos olhos deles voltará, não os abandonará, pela vinda do Espírito, e já tem marcada a hora de reencontro”Esse Jesus (...) virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. O viram partir numa nuvem que o encobriu, ou seja, pela presença e ação do Espírito Santo- tal é o significado da nuvem que o encobriu, como na transfiguração-. E será pela ação do mesmo Espírito que acontecerá o evento definitivo e último que atingirá a criação toda no fim dos tempos.
Uma criação e uma humanidade transformada como comentaremos na 2da leitura.

2da leitura Hb 9,24-28; 10,19-23

Parte importante da carta aos Hebreus é a contraposição entre o Sumo Sacerdote do Antigo Testamento e o Sacerdócio de Jesus Cristo realizado com sua morte e ressurreição. O segundo substitui e leva à perfeição o primeiro, de uma vez para sempre “Cristo, oferecido uma vez por todas, para tirar os pecados da multidão”, (O sacerdócio de hoje- nos três níveis de diácono, sacerdote, bispo- é participação do único e eterno sacerdócio realizado por Cristo de uma vez para sempre).
Conseqüentemente “ Ele nos abriu um caminho novo e vivo, através da cortina, quer dizer,através de sua humanidade”. A cortina separava o lugar mais sagrado do templo dos demais ambientes. Absolutamente ninguém podia entrar nesse lugar. Só era permitido ao sumo sacerdote, uma vez por ano, para cumprir o ritual referente ao perdão dos pecados do povo, que só a ele incumbia.
Com a morte na cruz, rasgado o corpo de Jesus, e com ele o “corpo” da humanidade toda, simbolicamente rasgou-se a cortina que separava o povo todo de Deus. Com isso “Ele nos abriu um caminho novo e vivo”:
-“Caminho novo”, porque nada tem a ver com o anterior. Iluminadoras as palavras de Jesus com respeito à destruição do templo, do qual não ficará pedra sobre pedra, significando que será impossível recompor uma pedra com a outra. Não dará para voltar atrás: “eis que faço novas todas as coisas”(Ap 21,5).
-“Caminho vivo”, pela participação à vida divina. Pois, o amor surpreendente pelo caminho novo oferecido pela dinâmica da morte e ressurreição de Jesus, faz que as múltiplas diferenças de língua, de nação, de cultura e as variadas circunstâncias que conformam a vivencia de cada dia, encontrem elementos de união, de comunhão, bem nas diferentes afirmações das próprias legitimas individualidades.
Daí a exortação do texto, motivada pela mediação de Jesus como “grande sacerdote constituído sobre a casa de Deus (a casa de Deus é a humanidade, redimida objetivamente)” e baseada na certeza da fidelidade Dele “porque é fiel quem fez a promessa”.
Com esta certeza no coração “Aproximemo-nos, portanto, de coração sincero e cheio de fé, com coração purificado de toda má consciência e o corpo lavado com água pura. Sem desanimo, continuamos a afirmar a nossa esperança” temos todos os elementos para lutar e resistir contra toda adversidade e força contraria que motivam o desanimo, o desespero, pelas dificuldades e pelas provações da vida.
Portanto, é preciso cultivar no próprio mundo interior estes valores, que vão conformando a identidade profunda da pessoa e com ela a adesão sincera à promessa e à atitude de Jesus para experimentar a comunhão com Ele. Trata-se de manter vivo e sempre novo o testemunho Dele na pessoa. Dessa forma, ela se torna testemunha do que Ele opera constantemente nela e a habilita à missão a favor dos irmãos.
É isso e sentido último do evangelho de hoje.

Evangelho Lc 24,46-53

Vós sereis testemunhas de todo isso” Jesus especifica o conteúdo do testemunho: “O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. Tudo isso, em cumprimento do plano de Deus para as pessoas e a humanidade toda, conforme a Escritura, os textos do Antigo Testamento.
Jesus anuncia a eles a descida do Espírito Santo para serem revestidos da presença Dele, única condição para dar consistência, credibilidade e firmeza ao testemunho “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” Eles deverão aguardar e esperar o momento determinado por Deus, para que isso aconteça.
Aguardar e esperar confiadamente supõe intimidade, familiaridade, em fim, muito amor. Daí as perguntas que Jesus fez a Pedro por três vezes: “tu me amas?” (Jo 21,15) e a resposta sincera deste “tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Já o Espírito estava atuando em Jesus, quem pergunta depois de ter sido renegado por três vezes, e em Pedro, quem manifesta com sinceridade o próprio sentimento, o próprio mundo interior, que parece em contradição com a atitude de fraqueza no momento da prova, na noite de quinta feira-santa.
É na certeza desse amor que Jesus se afasta deles “Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu”. Amor pelo qual eles têm certeza que não os deixará órfãos, sozinhos, abandonados. Dessa forma, tudo acontece no horizonte do renovado amor.
Este evento deve ter mexido profundamente o coração dos apóstolos, em consideração da desconcertante experiência da sexta-feira santa, da consciência dos limites, da fraqueza, da vergonha do comportamento deles para com Jesus e, mais ainda, da desconcertante atitude e palavra de Jesus, que não faz referencia alguma a todo isso. Humanamente falando, pode-se pensar que eles esperavam alguma cobrança, alguma chamada de atenção. Mas, nada disso! A primeira palavra do Ressuscitado é o dom da paz e a continuação assume atitudes e profere palavras somente positivas.
Parece-me seja isso que da razão do comportamento e das atitudes dos discípulos, após a saída de Jesus “Em seguida voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus”. Pois Jesus os resgatou como pessoas na dignidade de discípulos para fazer deles testemunhas competentes e qualificada do amor Dele a favor da humanidade toda.

domingo, 2 de maio de 2010

6to DOMINGO DA PÁSCOA-C-(09-05-10)

1ª Leitura At 15,1-2. 22-29

O novo que surge e se apresenta no dia-a-dia às vezes é bem vindo, outras não é percebido ou é motivo de séria preocupação. Até de tensões e conflitos muito graves. Neste último caso, resolve-los é um quebra cabeça, por interesses e visões contrastantes e irreconciliáveis. É o caso relatado pelo texto. A posta em jogo é muito séria “Vós não podeis salvar-vos, se não fordes circuncidados (hoje, a fimose), como ordena a Lei de Moises”.
Com efeito, a salvação era ligada à circuncisão porque era o sinal de aceitar e pertencer ao povo de Israel. Assim, todo adulto pagão, que não pertencia ao povo se Israel por nascença, devia se submeter à circuncisão, no momento que aceitava o Deus de Israel. Era a marca registrada da salvação. Era impensável que a salvação chegasse a um pagão incircunciso!
A circuncisão significava aceitar toda a lei Mosaica e a tradição do povo de Israel com seus preceitos e prescrições. Portanto a pergunta que estava debaixo de tudo: É preciso se tornar judeu e depois cristão para alcançar a salvação ou é suficiente a fé, selada pelo batismo, em Jesus Cristo? Jesus não tinha dado indicações ao respeito, tinha falado só de batizar. Agora, colocar de lado uma tradição milenária e baseada na autoridade de Moises, não era coisa de pouca conta nem tão evidente.
Dai a grandíssima tensão interna às comunidades recém constituídas e a necessária intervenção da autoridade central dos apóstolos e dos anciãos. De fato, os membros da comunidade “decidiram que Paulo, Barnabé e alguns outros fossem a Jerusalém, para tratar dessa questão com os apóstolos e os anciãos”. Portanto, há questões que não podem ser resolvidas pela comunidade local, mas devem ser dirigidas à autoridade central.
O problema, o desafio, fundamental era a comunhão, isto é, a unidade da Igreja. A decisão foi de grande coragem: dispensar a circuncisão. As conseqüências foram enormes. Significou o distanciamento do judaísmo que, mais na frente, se tornou desligamento. De outra maneira, a Igreja teria sido um apêndice do judaísmo. A partir deste momento deverá se reger por conta própria. Contudo, uma decisão desta envergadura demorará em ser assumida plenamente, pois, o Novo Testamento registra as dificuldades.
Extremamente interessante é atribuir a decisão à singular união entre eles - os apóstolos e os anciãos- e o Espírito Santo: “Porque decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo”. Cabe perguntar em virtude de que chegaram a esta afirmação. Que percepção eles tiveram da presença e da ação do Espírito Santo neles?Cabe pensar na experiência de Pentecostes. Foi uma reviravolta do entendimento deles, com respeito ao significado da morte e ressurreição de Jesus: de maldito de Deus à Salvador da humanidade; de paralisadas pelo medo a corajosos testemunhas e pregadores.
Também, cabe considerar a sintonia com o ensino e a pratica de Jesus, quem deu nova e ousada respostas a partir da Lei mosaica “foi dito... porém eu vos digo”, em atenção a oferecer oportunidade de resgate e salvação a quem, de outra maneira, teria ficado presa da lei e dos preceitos. Em fim, intuíram uma liberdade criadora, geradora da comunhão que universalizaria a obra salvadora do Mestre. Com isso, deram começo à realização da nova humanidade à qual aponta a 2da leitura.

2da leitura Ap 21,10-14.22-23

O sonho de Deus, a meta da humanidade, é apresentado pela descrição da “cidade santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus”, rica em imagens. Ela quer, mediante o uso de muitas particularidades, indicar simbolicamente a perfeição. Não é apresentado o plano de uma cidade, mas o novo povo de Deus integrado por aqueles que, tocados pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus – “o Cordeiro”, imolado e vivente-, fazem dele a lâmpada que ilumina o caminho do- dia -a –dia. Isso, se deve aos alicerces estabelecidos pela pregação dos apóstolos: “ A muralha da cidade tinha doce alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doce apóstolos”.
O “estar junto de Deus” indica ter alcançado a familiaridade com Deus, pela qual o Cordeiro entregou sua vida. Aceitar de ter sido justificado, perdoados e reconciliados, pelo Cordeiro perante do Pai significa ser preenchidos da presença do Pai mesmo. De fato, “Não vi templo na cidade”. O templo na cidade era o lugar da presença e do encontro com Deus. Agora não precisa mais, sendo que a glória de Deus preenche o povo todo, a Jerusalém santa, “brilhando com a glória de Deus”.
Por conseguinte “A cidade não precisa de sol, nem de lua que a iluminem”. Todo nela é luz. A luz inacessível, que é Deus, torna-se acessível aos homens, e isso não num futuro longínquo, embora sua plena manifestação seja no fim dos tempos. Com isso, fica esclarecido que futuro e presente são inseparáveis, pela ação do Cordeiro imolado.
Esta ligação inverte a relação com o tempo, se tornando um forte alicerce de espiritualidade. Com outras palavras. Se já participamos do destino final, da meta; se já o futuro está em nós pelo presente da morte e ressurreição de Cristo, então a espiritualidade é antecipar este futuro na pratica pessoal e nos diferentes relacionamentos com as pessoas no dia -a- dia. Acolher o dom, vivenciá-lo e praticá-lo, é condição para acrescentá-lo e assim glorificar a Deus.
Cada cristão consciente deveria assumir os valores da vida, elaborar os critérios de discernimento, qualificar os atos e vivenciar os relacionamentos a partir desse futuro que não é só futuro, más é já presente em cada pessoa e constitui o próprio da Aliança com Deus. Na Missa, as palavras da consagração do cálice rezam: “o sangue da nova e eterna aliança”. Aliança, por parte de Deus, permanentemente oferecida e atualizada com o perdão dos pecados e restabelecida na sua essência profunda, que toca o mai profundo do ser de cada cristão consciente. É impressionante a teimosia de Deus em perseverar no intento de convencer a pessoa e a humanidade da profundidade e da grandeza do amor dele.
A percepção desta verdade e do amor contido nela é básica para a identificação do discípulo, como comentaremos no Evangelho.

Evangelho Jo 14,23-29

e nós viremos e faremos nele nossa morada”. O estar junto de Deus não é somente a meta do fim dos tempos, no momento final da história da humanidade e da criação, mas já é uma realidade possível hoje. O “nós” se refere à Santíssima Trindade. As palavras atestam a morada Dela na pessoa. É o ponto alto da experiência de Deus nesta vida.
Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará (...). Quem não me ama, não guarda a minha palavra”. O amor para com Ele é a resposta do amor Dele para com a humanidade e a criação, cujo momento alto foi a morte na cruz: “... me amou e se entregou por mim” dirá são Paulo em Gl 2,20. Portanto, a fé tem como conteúdo central a aceitação desse amor. Assim, “amor atrai amor”, como disse Santa Terezinha do Menino Jesus, e se manifesta no “guardar a minha palavra”, ou seja, a identificação com o ensinamento, a prática e a entrega de Jesus.
A Palavra está intima e profundamente ligada ao Pai e ao Espírito Santo. Daí o motivo da morada trinitária na pessoa. É “a palavra (...) do Pai que me enviou. Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. Jesus além de apontar a intima comunhão com o Pai indica o Espírito Santo como mestre interior, quem desvelará o sentido verdadeiro e profundo dos gestos e das palavras Dele.
Com efeito, o Espírito Santo é Deus em nós, não simplesmente o fora de nós, como o Filho e o Pai. Praticamente, é ele que ativa e viabiliza o processo pelo qual na pessoa acontece a união a trintaria, por um lado ensinando, mas, sobretudo, por ser o defensor.
Vale frisar este segundo importante aspecto. Se não cumprisse esta ação especifica, a infidelidade da pessoa e da humanidade ao dom do Filho tornaria o dom inútil, sem efeito. O domínio do pecado de desconfiança, de desinteresse, de desvalorização da ação salvadora de Jesus, cria o afastamento de Deus e deixa sem efeito o dom da salvação.
É nesta situação que se coloca a importante defesa operada pelo Espírito. Ele atualiza, em todo momento e em cada circunstância, os efeitos da morte e ressurreição de Jesus e suscita a nova adesão do afastado. Dessa forma, restabelece a aliança, perdoa o pecado e restitui a dignidade de filho no Filho, tornando-o radicalmente conforme à ação salvadora de Jesus, em obediência à vontade do Pai. Se não houvesse essa ação defensora, própria do Espírito Santo, estaríamos irremediavelmente separado da Deus, apesar do sacrifício de Cristo e da vontade do Pai. Quem resolve tudo, aqui e agora, em cada momento, é o Espírito Santo.
Os efeitos de todo isso é a serenidade e a confiança perante o futuro, devido ao afastamento físico da pessoa de Jesus “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Ouvistes que eu vos disse ‘Vou, mas voltarei a vós’”. Afastamento que na atualidade está provocando neles tristeza e desconcerto, como é próprio da experiência de separação entre pessoas que se amam. Contudo, Jesus aponta ao lado defeituoso desse amor, que pode suscitar no futuro imediato descrença, desanimo, abatimento “ Disse isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis”. No fundo, desvela neles o amor mais por si mesmo, que para Ele “Se me amasseis, ficareis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” Com efeito, o amor na sua expressão mais verdadeira é alegria pela alegria do outro. É ficar alegre da alegria do outro, sendo que o destino Dele é entrar com seu corpo na comunhão com o Pai, maior do que Ele.
Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo”. É a síntese, o resumo, de toda a missão de Jesus: deixa, pois, indica o caminho e as condições- guardar a palavra-, e doa, porque a paz se torna realidade em todos aqueles que, pela fé, acolherem o que ele fez naquele evento pascal, atualizado pelos sacramentos, como permanente atitude de amor. Assim, Jesus distingue e diferencia a paz oferecida pelo mundo, daquela oferecida por Ele.