1a leitura At 2,1-11
Pentecostes - 50 dias após a Páscoa - é o evento marcante para a humanidade de todos os tempos até a vinda do Ressuscitado. Vinda por Ele prometida antes de voltar na glória do Pai o dia da Ascensão.
Toda manifestação de Deus acontece de maneira imprevista, de repente, sem nenhum aviso prévio. Ela irrompe de forma desconcertante na vida das pessoas, neste caso, dos discípulos “os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” e, por medo dos judeus, estavam com a porta trancada.
Foi difícil para eles dar conta do que exatamente aconteceu, pois, não havia palavras adequadas. Portanto, usam comparações “como se fosse uma forte ventania”, “apareceram línguas como de fogo”, pois, o evento ultrapassou toda capacidade de entendimento. Foi participação ao infinito mistério de Deus.
Assim, a manifestação foi uma surpresa, no sentido verdadeiro e profundo do termo “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os inspirava (...), pois cada um ouvia os discípulos falar em suas próprias línguas”. Tomado ao pé da letra, seria uma tradução simultânea? Sinceramente não sei como explicar este fato de maneira plenamente convincente. A Bíblia registrará o fenômeno de eventos parecidos como ação do Espírito nas comunidades que estavam surgindo.
Com certeza, o fenômeno chamou a atenção pela transformação operada neles em nível de entendimento, de atitudes para com o povo e as autoridades, e pelo fenômeno singular das línguas “Cheios de espanto e admiração, diziam: Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?”.
A continuação é elencada todas as nações conhecidas do mundo de então, para indicar o alcance universal do evento, assim como foi o da morte e ressurreição de Jesus. É registrado, portanto, que a descida do Espírito não é circunscrita aos discípulos nem à Jerusalém nem ao povo judeu, mais abrange a humanidade toda e de tosos os tempos. Este é um aspecto de grande importância para a reflexão atual sobre a missão da Igreja no mundo, em dialogo com outras culturas e religiões. Elas têm em si mesmas a palavra do Espírito que interpela os cristãos. Daí a importância da humilde procura da Verdade através da dialética fraternal.
Parece-me mais importante da compreensão do fenômeno, entender a mensagem dos apóstolos. Com efeito, o texto frisa “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” As maravilhas se referem ao evento da morte e ressurreição de Jesus. Tal vez seja isso que os enche de espanto e admiração, mais do que o fenômeno das línguas. Apresentar um condenado a morte - um maldito de Deus justiçado menos de uma semana - como Salvador não é coisa de pouca conta.
Com a descida do Espírito Santo os discípulos tomam plena consciência do alcance e significado da morte e ressurreição de Jesus. Algo que, até então, ficou meio incompreensível e indecifrável. O alcance do pleno significado gerou nos discípulos uma mudança de atitudes radical para consigo mesmos, no relacionamento com o ambiente e com as autoridades.
Com a descida do Espírito começa a Igreja, ou seja, o surgimento das comunidades cristãs. O Espírito será como a seiva da arvore. Ela é invisível, porém, indispensável para ávida e o crescimento da mesma. A vida de Deus correrá nela exatamente pela presença e ação do Espírito nas comunidades.
O Espírito será o mestre interior de todo discípulo. Em virtude disso, estabelecerá um relacionamento direto entre ele e Deus, realizando dessa maneira o profetizado por Jeremias “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração (...) não será mais necessário ensinar ao seu próximo dizendo: ‘Conhece o Senhor! Todos me reconhecerão, do menor ao “maior deles”(31,34)’. Este relacionamento é o ponto de partida não dispensável de todo correto entendimento da pessoa, do ensino de Jesus, assim como de toda prática da vida cristã.
Com efeito, a presença do Espírito qualifica o discípulo, como comentaremos na 2da leitura.
2da leitura 1Cor 12,3b-7.12-13
“Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo”. Evidentemente não se trata de afirmar vocalmente, de boca para fora, mas de ser interiormente convencido do homem Jesus de Nazaré constituído pela ressurreição Senhor de tudo e de todos. Evento no qual o Espírito Santo agiu com poder e força conforme a vontade do Pai. Portanto, só o mesmo Espírito pode convencer interiormente todo discípulo e modelar o entendimento e a vida dele em sintonia com esta verdade.
A compreensão da pessoa de Jesus, à luz do que aconteceu na Páscoa, tem múltiplos desdobramentos, entre eles o específico agir conjuntamente da Trindade Santa “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos” Lendo o trecho de frente para trás e aplicando-o à vida do discípulo destacam umas considerações valiosas.
Assim, se o discípulo agir, se desenvolver atividades, conforme a vontade do Pai, para a transformação da humanidade, ele estará se relacionando com o Pai. Se exercer esta missão em sintonia com o que Jesus fez, servindo ( ministérios) até com o dom da própria vida, estará em sintonia com o Filho. Se servir, se exercer o ministério, usando dos dons que lhe são próprios, ele estará em sintonia com o Espírito Santo. Dessa forma, o discípulo, no concreto dos acontecimentos humanos do dia – a - dia terá clareza da vivencia e da percepção da presença Trinitária nele.
Tudo brota, começa, caminha e chega ao seu fim satisfatório pela ação do Espírito. Ele move, instrui, e sustenta a ação, pois, “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”. O bem comum visa à harmonia entre as diversidades dos povos, línguas e das culturas “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres fomos batizados no mesmo Espírito, para formarmos um único corpo, e todos bebemos de um único Espírito”.
Todos afirmaram que a diversidade é uma riqueza, que deve ser aproveitada para o crescimento humano e espiritual. Não faltam elogios a ela. O complicado é como fazer, como administrar a diversidade no horizonte da harmonia e do crescimento. Particularmente desafiador é quando ela ultrapassa o limite de aceitação que cada pessoa percebe em si mesma em virtude da própria história, cultura, educação e experiência. Mais ainda, quando, para dar espaço e cabimento a ela, é preciso abrir mão do que é próprio. É então que as virtudes da coragem, da generosidade, da gratuidade e da fraternidade mostram a sua real consistência , assim como a verdadeira fé no valor da diversidade
Há três critérios gerais que orientam o processo de integração das diferenças. 1) A pessoa se torna mais humana, no sentido de fazer da própria vida um dom a favor dos que precisam, para que elas- por sua vez- transmitam a mesma dinâmica? 2) A sociedade é favorecida no crescimento do direito, da justiça e no respeito das exigências legitimas das diversidades? 3) A natureza é respeitada nas suas exigências ecológicas? Responder positivamente significa se esvaziar de si mesmo como foi a prática de Jesus e a ação do Espírito Santo “no qual fomos batizados para formarmos um só corpo”. Trata- se da pratica d caridade.
O Espírito procede do Pai e do Filho como amor deles para a humanidade e para cada pessoa. Mais profundamente, é Amor que qualifica a essência de Deus e que une a amante (o Pai) com o amado (o Filho) no amor (o Espírito Santo) com a humanidade de todos os tempos e de todos os lugares.
É o que destaca nas palavras de Jesus no evangelho.
Evangelho Jo 20,19-23
Os discípulos e as pessoas traumatizadas, profundamente abaladas pelos acontecimentos da sexta feria-santa e cheias de medo estão “ com portas fechadas” . Jesus, de repente, se apresenta “pondo-se no meio dele e disse: a paz esteja convosco”. Nas palavras Dele não há a menor alusão à experiência pessoal dele dos dias anteriores e, menos ainda, ao comportamento dos discípulos. Sobrepõe-se de tudo e de todos, em virtude do triunfo da vida e da verdade sobre a morte e a mentira. Sua preocupação é de doar a paz interior àqueles discípulos. Só per esta atitude percebe-se a grandeza humana e espiritual de Jesus.
Mostra a eles algo que os deixará perplexos: “ mostrou-lhes as mãos ( furadas) e o lado(aberto)”. Cabe uma pergunta: por que as feridas ficaram abertas? Por que não as fechou? Sendo elas feridas de morte, permanecem Nele que, agora, está aí vivo mais do que antes, pois, se antes podia morrer agora é vivo para sempre.
A morte e a mentira continuam ativas e presentes no mundo. As feridas abertas testemunham que o poder e o domínio delas são vencidos de uma vez para sempre na pessoa do ressuscitado e, conseqüentemente, naqueles que permanecerão nele pelo voto de confiança.
Os discípulos nem tiveram tempo de se recompor do susto e da alegria, que surpreendentemente Jesus investe eles de mais um desconcerto. À paz interior associa a missão “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. O envio, comparado ao envio do Pai para com ele, devia deixa-los muito perplexos. Tinham perante de si mesmos um modelo infinitamente superior às condições e possibilidade deles. Como não se sentir radicalmente inadequados?
Respondendo a estes inevitáveis sentimentos, Jesus realiza um gesto muito importante e significativo “ E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo”. Este sopro tem relação com o sopro de Deus, que transformou o barro em um ser vivente a imagem e semelhança Dele. É o sopro da nova criação inaugurada pela ressurreição de Jesus. É o sopro que faz deles novas criaturas, redimidas e resgatadas pelos eventos da Páscoa. É o sopro da presença e força do Espírito que acompanhou Jesus em sua missão e o resgatou da escravidão da morte e da mentira. Mas, sobretudo é o sopro do Espírito do Amor, que faz deles uma realidade que ama e é amada.
É a consistência e a profundidade do amor que os habilita a cumprirem a missão e especialmente “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. Evidentemente, com estas palavras o perdão não é deixado à arbitrariedade, aos estados de animo, deles, mas à percepção e a vivencia do amor que une o amante e o amado no singular relacionamento pelo qual se recriam todas as coisas, inclusive os relacionamentos mais ruins, as experiências mais frustrantes e até violentas.
É o que Jesus está praticando para com eles. As palavras e a s atitudes Dele são expressão do perdão de Deus, que será eficiente e real pela aceitação das palavras e da missão que Jesus lhes confia. Eles deverão repetir o mesmo. Pode ser que encontrarão pessoas como o servidor da parábola que, depois de receber o perdão de uma dívida enorme por parte do Senhor, não consegue sintonizar e valorizar o perdão recebido ao ponto de não perdoar o companheiro de uma pequena dívida. Então o perdão se esvazia de seu poder renovador e construtor. Portanto a ação do Espírito neles não será automática nem rotina, más expressão da renovada fé e amor à pessoa de Jesus e a presença da Trindade neles.
domingo, 16 de maio de 2010
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Entendo sobre o mistério de Pentecostes, que a vinda do Espírito Santo deu poder aos Apóstolos para levarem a palavra de Jesus a todos os povos, independente de raça, etnia, nível cultural ou social; permitiu que a palavra fosse levada a nível de entendimento de quem a receberia. Assim, iniciou também a missão da igreja católica: a de evangelizar a todos os povos com a boa nova de Jesus Cristo.
ResponderExcluirEngraçado que antes de estudar a palavra, da qual ainda conheço pouco, eu achava que a Festa de Pentecostes revelava a vinda do Espírito Santo sobre o espírito humano, revelando o amor de Cristo por nós, o que não deixa de ter um fundo de verdade, pois com a vinda do Espírito Santo na presença dos Apóstolos o mistério de Deus foi revelado. O que Deus quer é que a sua palavra seja una e universal e que toda humanidade compreenda o que foi a missão de Jesus na terra, a de redimir nossos pecados com sua paixão.
A vinda de Jesus à terra trouxe a transformação de antigos preceitos em novas formas de pensar, de perdoar, de amar, de se doar, fato este que, no meu entendimento, marcou a divisão da Bíblia Sagrada em Antigo e Novo Testamento.
Diante de tantas constatações, conclui-se que muito há de se aprender e se ap´rofundar nos mistérios de Deus.
Essas homilias semanais ajudam muito na nossa compreenão acerca do evangelho de Jesus e também desperta muito interesse em saber e desvendar os mistérios de Deus.
Obrigada Pe. João Luís.
Faço das palavras da Luciane as minhas. É impressionante que, por mais que se tenha ouvido, refletido e "entendido" uma leitura ou um fato, sempre é possível descobrir algo novo e marcante cada vez que se lê.
ResponderExcluirGraças a isso, nossa fé está sempre se fortalecendo e a nossa busca por entender mais a palavra e o mistério de Deus aumenta cada vez mais.
Belíssimas as leituras e a reflexão!
Muitíssimo Obrigada Pe. João Luís!
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