domingo, 9 de maio de 2010

ASCENSÃO-C-(16-05-10)

1a leitura At 1,1-11

Vale especificar que o autor dos Atos dos Apóstolos é o mesmo do Evangelho: o apóstolo Lucas (ou a comunidade que faz referencia a ele). Os Atos dos Apóstolos é a continuação do Evangelho e, especificamente, testemunha a ação do Espírito Santo na difusão do Evangelho no mundo então conhecido e o surgimento das primeiras comunidades. Daí o sentido de “No meu primeiro livro” e as palavras introdutórias que resumem brevemente o evangelho.
Jesus é apresentado, no período que vai da ressurreição à ascensão- simbolicamente 40 dias, um período demorado- como Senhor do Reino de Deus: “Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus”.É muito significativo que Jesus não fale de si mesmo, da grande injustiça que fizeram para com ele, dos sofrimentos da cruz e da experiência da ressurreição, da traição, do abandono dos apóstolos etc., mas somente da finalidade da missão dele: o Reino de Deus.
Demonstra, assim, um desapego de si mesmo surpreendente do ponto de vista humano. É como se estivesse falando sem que nada especial lhe tivesse acontecido. Isso diz muito com respeito ao relacionamento dele consigo mesmo, à missão que desenvolveu e que está chegando ao seu ponto final na terra. Como pude manter tal distanciamento, tal desapego de si mesmo? Como não há registro de uma palavra de desconformidade, de critica, de lamentação, com respeito à ingratidão do povo, dos apóstolos etc.? Mas, só preocupação de que os apóstolos entendam a dinâmica da implantação do Reino?
As explicações de Jesus não foram bem entendidas, pois, os apóstolos perguntam: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel”. Eles entenderam falar da realização do Reino conforme a expectativa geral do povo e de João Batista, ou seja, a expulsão dos invasores romanos e a purificação do povo infiel à lei de Moises. Isso demonstra quanto pouco eles entenderam Jesus, mesmo após da experiência de vê-lo ressuscitado. Contudo, Jesus não se surpreende nem pretende corrigir ou explicar em que realmente consiste o Reino, pois, sabe que não têm condições de entender (só com a vinda do Espírito entenderão), mas revela que não compete a eles “saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com sua própria autoridade”.
Assim, preanuncia a descida do Espírito Santo: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra”. A função do Espírito, após de tornar-los conhecedores da profundidade e importância do evento da morte e ressurreição de Jesus, visa constituí-los testemunhas até os últimos confins da terra. Com isso afirma o caráter universal do evento e da missão Dele.
“Depois (...) foi levado ao céu (...). Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo”. Com isso Jesus universaliza a missão. Ele chegará até os confins da terra por meio da ação missionária dos apóstolos, das testemunhas. A missão se estenderá até a volta Dele no fim dos tempos, portanto, os apóstolos não deverão ficar parados olhando o céu “ Homens da Galiléia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?” Uma coisa é certa, aquele que agora sumiu dos olhos deles voltará, não os abandonará, pela vinda do Espírito, e já tem marcada a hora de reencontro”Esse Jesus (...) virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. O viram partir numa nuvem que o encobriu, ou seja, pela presença e ação do Espírito Santo- tal é o significado da nuvem que o encobriu, como na transfiguração-. E será pela ação do mesmo Espírito que acontecerá o evento definitivo e último que atingirá a criação toda no fim dos tempos.
Uma criação e uma humanidade transformada como comentaremos na 2da leitura.

2da leitura Hb 9,24-28; 10,19-23

Parte importante da carta aos Hebreus é a contraposição entre o Sumo Sacerdote do Antigo Testamento e o Sacerdócio de Jesus Cristo realizado com sua morte e ressurreição. O segundo substitui e leva à perfeição o primeiro, de uma vez para sempre “Cristo, oferecido uma vez por todas, para tirar os pecados da multidão”, (O sacerdócio de hoje- nos três níveis de diácono, sacerdote, bispo- é participação do único e eterno sacerdócio realizado por Cristo de uma vez para sempre).
Conseqüentemente “ Ele nos abriu um caminho novo e vivo, através da cortina, quer dizer,através de sua humanidade”. A cortina separava o lugar mais sagrado do templo dos demais ambientes. Absolutamente ninguém podia entrar nesse lugar. Só era permitido ao sumo sacerdote, uma vez por ano, para cumprir o ritual referente ao perdão dos pecados do povo, que só a ele incumbia.
Com a morte na cruz, rasgado o corpo de Jesus, e com ele o “corpo” da humanidade toda, simbolicamente rasgou-se a cortina que separava o povo todo de Deus. Com isso “Ele nos abriu um caminho novo e vivo”:
-“Caminho novo”, porque nada tem a ver com o anterior. Iluminadoras as palavras de Jesus com respeito à destruição do templo, do qual não ficará pedra sobre pedra, significando que será impossível recompor uma pedra com a outra. Não dará para voltar atrás: “eis que faço novas todas as coisas”(Ap 21,5).
-“Caminho vivo”, pela participação à vida divina. Pois, o amor surpreendente pelo caminho novo oferecido pela dinâmica da morte e ressurreição de Jesus, faz que as múltiplas diferenças de língua, de nação, de cultura e as variadas circunstâncias que conformam a vivencia de cada dia, encontrem elementos de união, de comunhão, bem nas diferentes afirmações das próprias legitimas individualidades.
Daí a exortação do texto, motivada pela mediação de Jesus como “grande sacerdote constituído sobre a casa de Deus (a casa de Deus é a humanidade, redimida objetivamente)” e baseada na certeza da fidelidade Dele “porque é fiel quem fez a promessa”.
Com esta certeza no coração “Aproximemo-nos, portanto, de coração sincero e cheio de fé, com coração purificado de toda má consciência e o corpo lavado com água pura. Sem desanimo, continuamos a afirmar a nossa esperança” temos todos os elementos para lutar e resistir contra toda adversidade e força contraria que motivam o desanimo, o desespero, pelas dificuldades e pelas provações da vida.
Portanto, é preciso cultivar no próprio mundo interior estes valores, que vão conformando a identidade profunda da pessoa e com ela a adesão sincera à promessa e à atitude de Jesus para experimentar a comunhão com Ele. Trata-se de manter vivo e sempre novo o testemunho Dele na pessoa. Dessa forma, ela se torna testemunha do que Ele opera constantemente nela e a habilita à missão a favor dos irmãos.
É isso e sentido último do evangelho de hoje.

Evangelho Lc 24,46-53

Vós sereis testemunhas de todo isso” Jesus especifica o conteúdo do testemunho: “O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. Tudo isso, em cumprimento do plano de Deus para as pessoas e a humanidade toda, conforme a Escritura, os textos do Antigo Testamento.
Jesus anuncia a eles a descida do Espírito Santo para serem revestidos da presença Dele, única condição para dar consistência, credibilidade e firmeza ao testemunho “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” Eles deverão aguardar e esperar o momento determinado por Deus, para que isso aconteça.
Aguardar e esperar confiadamente supõe intimidade, familiaridade, em fim, muito amor. Daí as perguntas que Jesus fez a Pedro por três vezes: “tu me amas?” (Jo 21,15) e a resposta sincera deste “tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Já o Espírito estava atuando em Jesus, quem pergunta depois de ter sido renegado por três vezes, e em Pedro, quem manifesta com sinceridade o próprio sentimento, o próprio mundo interior, que parece em contradição com a atitude de fraqueza no momento da prova, na noite de quinta feira-santa.
É na certeza desse amor que Jesus se afasta deles “Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu”. Amor pelo qual eles têm certeza que não os deixará órfãos, sozinhos, abandonados. Dessa forma, tudo acontece no horizonte do renovado amor.
Este evento deve ter mexido profundamente o coração dos apóstolos, em consideração da desconcertante experiência da sexta-feira santa, da consciência dos limites, da fraqueza, da vergonha do comportamento deles para com Jesus e, mais ainda, da desconcertante atitude e palavra de Jesus, que não faz referencia alguma a todo isso. Humanamente falando, pode-se pensar que eles esperavam alguma cobrança, alguma chamada de atenção. Mas, nada disso! A primeira palavra do Ressuscitado é o dom da paz e a continuação assume atitudes e profere palavras somente positivas.
Parece-me seja isso que da razão do comportamento e das atitudes dos discípulos, após a saída de Jesus “Em seguida voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus”. Pois Jesus os resgatou como pessoas na dignidade de discípulos para fazer deles testemunhas competentes e qualificada do amor Dele a favor da humanidade toda.

Um comentário:

  1. "Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do reino de Deus". Jesus ratificou sua missão na terra quando, após a ressureição, falou aos apóstolos sobre a nova doutrina, aquela dirigida por Deus a todos nós através de seu filho, que na cruz, redimiu o pecado de toda a humanidade e na ascenção, renovou a esperança de uma nova, única e verdadeira vida após a morte. Assim como os apóstolos, naquela época, somos humanos demais para entender os propósitos de Deus e somente na fé diária e duradoura vamos aos poucos desvendando seus designios. Não nos compete "saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com sua própria autoridade”, mas devemos esperar em Jesus para que se cumpra sua vontade. Assim acontece em nossas vidas........tudo é no tempo e na vontade do Pai. Saber esperar em Deus, é confiar Nele acima de todas as coisas, por pior que pareçam momentaneamente os acontecimentos, Deus tem um propósito na vida de cada um de nós, ainda que seja com o sofrimento, o aprendizado nos remete ao amor de Deus, a graça, a gratidão, a compreensdão e a fé.

    ResponderExcluir