O texto marca o correto posicionamento da pessoa perante de Deus, por meio da atitude certa com respeito à Lei “Ouve a voz do Senhor teu Deus”. A voz é percebida pelas palavras da Lei, que manifesta a vontade de Deus para com o povo que Ele libertou da escravidão do Egito - escravidão da morte e do pecado - para conduzi-lo à terra prometida. Chegado nela, o povo, deverá cuidar e cultivar o dom da libertação por meio da prática individual e social coerente, cujo teste será o respeito à lei.
Mais que ouvir, tal vez seja mais oportuno o escutar. Só e esta condição será possível observar “todos os mandamentos e preceitos” pelo qual é preciso a conversão permanente: “Converte-te para o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda atua alma”. Ela acontecerá se o coração e a alma da pessoa estarão envolvidos, tocados, e, conseqüentemente, motivados para isso. Daí que não se trata de simplesmente ouvir, pois se ouve muitas coisas que entram por um lado e saem pelo outro, mas de escutar, ou seja, fazer que a palavra toque o profundo do ser e permaneça como tesouro no interior da pessoa.
De imediato, a escuta da proposta parece muito superior às próprias forças e possibilidades, algo impossível: “Quem subirá ao céu por nós para apanhá-lo? Quem no-lo ensinará para que o possamos cumprir? (...). Quem atravessará o mar por nós para apanhá-lo?”. A insegurança por um lado e o sentimento de solidão pelo outro, tornam realmente difícil acolher o convite de Moises. Todo o mundo ficaria perplexo e com um pé atrás. Com efeito, o desconforto que acompanha estes estados de animo determina a duvida de não dar conta do recado e, portanto, motiva a desistência e o afastamento.
Moises, percebendo o estado de animo, especifica: “Na verdade, este mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora de teu alcance” e surpreendentemente oferece uma perspectiva inesperada “Ao contrário, esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possa cumprir”. Assim, à pergunta: “Quem? (...) Quem? (... ) Quem?” a resposta é que a palavra está no intimo da pessoa, lhe é familiar e de fácil acesso. Portanto, tudo depende da vontade, da determinação e disponibilidade à palavra, pois, ela está “bem ao teu alcance”.
É a inteligência e a vontade que devem se apropriar e elaborar o que já está no ser da pessoa. Deus coloca nela sua palavra. A pessoa deve acolher o dom Dele como eixo condutor da vida. Se fizer dela a referencia permanente da continua conversão, a profundidade do dom por um lado e as circunstâncias do dia – a– dia pelo outro, a capacitarão para elaborar novas respostas, na justiça, no respeito do direito e na prática da fraternidade solidária.
Nisso consiste a finalidade pela qual Deus oferece sua palavra, como patrimônio para a pessoa e para a humanidade. Palavra que, mais na frente, assumirá corpo na pessoa de Jesus. Mais ainda, aquele mesmo corpo será a Palavra: “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Gv,1,14).
2da leitura Cl 1,15-20
Eis uma das afirmações de grande importância com respeito ao perfil da pessoa de Jesus. “Cristo é a imagem do Deus invisível”. Com efeito, Jesus se tornou o Cristo, o ungido por Deus, pela ação do Espírito Santo com a ressurreição. Portanto, é a imagem visível do Deus invisível. Cristo é indicado como “o primogênito de toda a criação”, pois, a ressurreição foi como uma nova criação.
A criação teve começo pela Palavra e pelo Espírito Santo, as duas mãos de Deus Pai. Com a ressurreição de Jesus, ela chega ao seu ponto alto, ao seu destino. Isso porque em Jesus de Nazaré está representada a criação toda e todas as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares “pois por causa dele, foram criadas todas as coisas no céu e na terra (...). Tudo foi criado por meio dele e para ele”.
A expressão “por meio dele” é retomada por são João no evangelho: “ Tudo foi feito por ela –a Palavra- e sem ela nada se fez de tudo que foi feito” (1,3) e indica a participação do Filho eterno na ação criadora. O “para ele” aponta a finalidade, a meta, e consistirá em levar a criação à plenitude. Este processo já começou com a ressurreição de Jesus em virtude da qual se tornou Jesus Cristo. Eis, então, que a pessoa de Cristo abrange o passado, o futuro e confere solidez e plenitude à obra: “Ele existe antes de todas as coisas e todas têm nele a sua consistência”. É uma visão que abrange tudo e todos em Cristo, presente, passado e o futuro.
No presente “Ele á a Cabeça do corpo, isto é, da Igreja”. A significativa relação corpo-cabeça explicita o relacionamento entre Cristo e a igreja. Uma cabeça sem corpo, ou o corpo sem cabeça, é uma monstruosidade, impossibilita a existência. Há uma união inseparável, até depois da morte “Ele é o Principio, o Primogênito dentre os mortos”. Não é coisa de pouca conta esta afirmação. O “dentre os mortos” indica que os homens seguem morrendo e Ele - o Cristo - se coloca como o Primogênito e Princípio da vida exatamente pela ressurreição dentre os mortos. Ele e os que estão com ele aguardam a ressurreição dos mortos com a vinda do mesmo Cristo, no fim dos tempos. Assim, os que morrem na comunhão com Ele, unidos como o corpo com a cabeça, participam da mesma forma, da vida Dele dentre os mortos.
“de sorte que em tudo ele tem a primazia”. Com outras palavras, tudo o que acontecerá em nós, primeiro aconteceu nele. E são Paulo explica o porquê “porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. É digno de muita meditação e consideração o fato que naquele corpo humano de Jesus de Nazaré, entregue à morte por nós, o justo pelos pecadores, habita toda a plenitude de Deus. Não da para imaginar, pois, há desproporção infinita entre um simples corpo humano e o que o entendimento humano imagina ser a plenitude de Deus. Contudo, é isso mesmo. Tal vez seja por isso que não é percebido pela pessoa o alcance, o valor, o significado real, e ela se limita em considerar isso uma simples e bonita afirmação, como uma informação que não atinge a profundidade do ser e do coração. Tudo passa como água sobre um impermeável e tudo permanece como se nada tivesse acontecido.
O preço dessa impermeabilidade é a incapacidade de se reconciliar com Deus e com os homens, como condição para fazer acontecer a paz no coração e entre as pessoas.
A diferença entre os que entendem e valorizam e os que ficam fora são mostrados no evangelho.
Evangelho Lc 10,25-37
É a famosa parábola do bom samaritano, que sempre não deixa de surpreender. Eis algumas considerações entre as muitas possíveis.
“Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna”. Chama a atenção de que um mestre da Lei, um homem até elogiado por Jesus pelo conhecimento “Tu respondeste corretamente”, pergunte a Jesus com respeito à herança da vida eterna. Será que a intenção dele era testá-lo? Mesmo assim, Jesus aceita o desafio.
Num primeiro momento Jesus o interroga sobre as indicações da Lei “O que está escrito na Lei? Como lês?” e, tendo respondido corretamente, fecha o assunto: “Faze isso e viverás”. Mas o mestre pergunta de novo, sendo que era argumento discutido nos ambientes dos estudiosos da Lei quem devia ser considerado próximo. Os da mesma raça? Os da mesma religião, incluídos os convertidos do paganismo? Os desviados? Etc.
Jesus propositalmente, rompendo o esquema habitual das parábolas que incluía três personagens - o sacerdote, o levita e o leigo judeu -, substitui o terceiro pelo samaritano. Na época de Jesus o relacionamento entre judeus e samaritanos era muito tenso. Estes últimos eram considerados como heréticos pelos judeus. A tensão aumentou ainda mais pelos samaritanos terem espalhados ossos humanos no templo, uns vinte anos atrás, impossibilitando aos judeus a celebração da Páscoa. Jesus ao ter colocado como terceiro o samaritano, que cumpre a lei do amor, irritou o mestre da Lei ao ponto que nem conseguiu pronunciar o termo samaritano. Respondendo à pergunta de Jesus simplesmente disse: “aquele que usou misericórdia para com ele”.
Com a parábola Jesus da uma reviravolta à pergunta do mestre da Lei “E quem é o meu próximo” colocando para
ele “Na tua opinião, qual dos três foi próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. Intelectualmente honesto e reto, mesmo que irritado, responde “Aquele que usou misericórdia”Com isso Jesus quer indicar que a relação de próximo não é geral e genérica, como faz entender a afirmação: “toda pessoa é próximo”. Fazer de uma pessoa “próximo”, é eleição, é escolha, de quem se aproxima até do odiado inimigo, como o caso do samaritano para com o judeu, e o faz destinatário da própria ação misericordiosa para salvar a vida e a dignidade dele, até pagando com o dinheiro do próprio bolso.
É o que Jesus realizará por amor na cruz a favor da humanidade, como indicava a 2da leitura “Por ele reconciliar (...) realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Daí a resposta conclusiva e determinante: “Vai e faze a mesma coisa”.
A conclusão é evidente. A vida eterna, a salvação, está ligada à pratica de vida, à pratica do amor levado até suas expressões mais exigentes e paradoxais, como o indicado da parábola. Acolher a lei de Deus, admirar a pessoa de Jesus, aceitar o dom imerecido e gratuito da redenção oferecida por Ele, assumir as virtude e as leis do respeito, da dignidade, da solidariedade etc., encontra seu fechamento e seu ponto alto ma prática misericordiosa indicada pela parábola.
Assim, a vida toda deve ser um crescendo, gradativo e permanente, rumo a este objetivo. Ficar no meio do caminho, nos colocará na mesma insatisfação do mestre da Lei: uma boa pessoa, bem intencionada e cumpridora da Lei, mas, não alcança, aqui e agora, o que espera e, portanto, estará na busca de algo que consiga fechar. Com tanto buscar, o mestre da Lei encontrará a resposta de Jesus. Nos já a temos com anterioridade.