domingo, 27 de junho de 2010

15o DOMINGO DO T.C.-C-(11-07-10)

1ª leitura Dt 30, 10-14

O texto marca o correto posicionamento da pessoa perante de Deus, por meio da atitude certa com respeito à Lei “Ouve a voz do Senhor teu Deus”. A voz é percebida pelas palavras da Lei, que manifesta a vontade de Deus para com o povo que Ele libertou da escravidão do Egito - escravidão da morte e do pecado - para conduzi-lo à terra prometida. Chegado nela, o povo, deverá cuidar e cultivar o dom da libertação por meio da prática individual e social coerente, cujo teste será o respeito à lei.
Mais que ouvir, tal vez seja mais oportuno o escutar. Só e esta condição será possível observar “todos os mandamentos e preceitos” pelo qual é preciso a conversão permanente: “Converte-te para o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda atua alma”. Ela acontecerá se o coração e a alma da pessoa estarão envolvidos, tocados, e, conseqüentemente, motivados para isso. Daí que não se trata de simplesmente ouvir, pois se ouve muitas coisas que entram por um lado e saem pelo outro, mas de escutar, ou seja, fazer que a palavra toque o profundo do ser e permaneça como tesouro no interior da pessoa.
De imediato, a escuta da proposta parece muito superior às próprias forças e possibilidades, algo impossível: “Quem subirá ao céu por nós para apanhá-lo? Quem no-lo ensinará para que o possamos cumprir? (...). Quem atravessará o mar por nós para apanhá-lo?”. A insegurança por um lado e o sentimento de solidão pelo outro, tornam realmente difícil acolher o convite de Moises. Todo o mundo ficaria perplexo e com um pé atrás. Com efeito, o desconforto que acompanha estes estados de animo determina a duvida de não dar conta do recado e, portanto, motiva a desistência e o afastamento.
Moises, percebendo o estado de animo, especifica: “Na verdade, este mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora de teu alcance” e surpreendentemente oferece uma perspectiva inesperada “Ao contrário, esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possa cumprir”. Assim, à pergunta: “Quem? (...) Quem? (... ) Quem?” a resposta é que a palavra está no intimo da pessoa, lhe é familiar e de fácil acesso. Portanto, tudo depende da vontade, da determinação e disponibilidade à palavra, pois, ela está “bem ao teu alcance”.
É a inteligência e a vontade que devem se apropriar e elaborar o que já está no ser da pessoa. Deus coloca nela sua palavra. A pessoa deve acolher o dom Dele como eixo condutor da vida. Se fizer dela a referencia permanente da continua conversão, a profundidade do dom por um lado e as circunstâncias do dia – a– dia pelo outro, a capacitarão para elaborar novas respostas, na justiça, no respeito do direito e na prática da fraternidade solidária.
Nisso consiste a finalidade pela qual Deus oferece sua palavra, como patrimônio para a pessoa e para a humanidade. Palavra que, mais na frente, assumirá corpo na pessoa de Jesus. Mais ainda, aquele mesmo corpo será a Palavra: “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Gv,1,14).

2da leitura Cl 1,15-20

Eis uma das afirmações de grande importância com respeito ao perfil da pessoa de Jesus. “Cristo é a imagem do Deus invisível”. Com efeito, Jesus se tornou o Cristo, o ungido por Deus, pela ação do Espírito Santo com a ressurreição. Portanto, é a imagem visível do Deus invisível. Cristo é indicado como “o primogênito de toda a criação”, pois, a ressurreição foi como uma nova criação.
A criação teve começo pela Palavra e pelo Espírito Santo, as duas mãos de Deus Pai. Com a ressurreição de Jesus, ela chega ao seu ponto alto, ao seu destino. Isso porque em Jesus de Nazaré está representada a criação toda e todas as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares “pois por causa dele, foram criadas todas as coisas no céu e na terra (...). Tudo foi criado por meio dele e para ele”.
A expressão “por meio dele” é retomada por são João no evangelho: “ Tudo foi feito por ela –a Palavra- e sem ela nada se fez de tudo que foi feito” (1,3) e indica a participação do Filho eterno na ação criadora. O “para ele” aponta a finalidade, a meta, e consistirá em levar a criação à plenitude. Este processo já começou com a ressurreição de Jesus em virtude da qual se tornou Jesus Cristo. Eis, então, que a pessoa de Cristo abrange o passado, o futuro e confere solidez e plenitude à obra: “Ele existe antes de todas as coisas e todas têm nele a sua consistência”. É uma visão que abrange tudo e todos em Cristo, presente, passado e o futuro.
No presente “Ele á a Cabeça do corpo, isto é, da Igreja”. A significativa relação corpo-cabeça explicita o relacionamento entre Cristo e a igreja. Uma cabeça sem corpo, ou o corpo sem cabeça, é uma monstruosidade, impossibilita a existência. Há uma união inseparável, até depois da morte “Ele é o Principio, o Primogênito dentre os mortos”. Não é coisa de pouca conta esta afirmação. O “dentre os mortos” indica que os homens seguem morrendo e Ele - o Cristo - se coloca como o Primogênito e Princípio da vida exatamente pela ressurreição dentre os mortos. Ele e os que estão com ele aguardam a ressurreição dos mortos com a vinda do mesmo Cristo, no fim dos tempos. Assim, os que morrem na comunhão com Ele, unidos como o corpo com a cabeça, participam da mesma forma, da vida Dele dentre os mortos.
de sorte que em tudo ele tem a primazia”. Com outras palavras, tudo o que acontecerá em nós, primeiro aconteceu nele. E são Paulo explica o porquê “porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. É digno de muita meditação e consideração o fato que naquele corpo humano de Jesus de Nazaré, entregue à morte por nós, o justo pelos pecadores, habita toda a plenitude de Deus. Não da para imaginar, pois, há desproporção infinita entre um simples corpo humano e o que o entendimento humano imagina ser a plenitude de Deus. Contudo, é isso mesmo. Tal vez seja por isso que não é percebido pela pessoa o alcance, o valor, o significado real, e ela se limita em considerar isso uma simples e bonita afirmação, como uma informação que não atinge a profundidade do ser e do coração. Tudo passa como água sobre um impermeável e tudo permanece como se nada tivesse acontecido.
O preço dessa impermeabilidade é a incapacidade de se reconciliar com Deus e com os homens, como condição para fazer acontecer a paz no coração e entre as pessoas.
A diferença entre os que entendem e valorizam e os que ficam fora são mostrados no evangelho.

Evangelho Lc 10,25-37

É a famosa parábola do bom samaritano, que sempre não deixa de surpreender. Eis algumas considerações entre as muitas possíveis.
Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna”. Chama a atenção de que um mestre da Lei, um homem até elogiado por Jesus pelo conhecimento “Tu respondeste corretamente”, pergunte a Jesus com respeito à herança da vida eterna. Será que a intenção dele era testá-lo? Mesmo assim, Jesus aceita o desafio.
Num primeiro momento Jesus o interroga sobre as indicações da Lei “O que está escrito na Lei? Como lês?” e, tendo respondido corretamente, fecha o assunto: “Faze isso e viverás”. Mas o mestre pergunta de novo, sendo que era argumento discutido nos ambientes dos estudiosos da Lei quem devia ser considerado próximo. Os da mesma raça? Os da mesma religião, incluídos os convertidos do paganismo? Os desviados? Etc.
Jesus propositalmente, rompendo o esquema habitual das parábolas que incluía três personagens - o sacerdote, o levita e o leigo judeu -, substitui o terceiro pelo samaritano. Na época de Jesus o relacionamento entre judeus e samaritanos era muito tenso. Estes últimos eram considerados como heréticos pelos judeus. A tensão aumentou ainda mais pelos samaritanos terem espalhados ossos humanos no templo, uns vinte anos atrás, impossibilitando aos judeus a celebração da Páscoa. Jesus ao ter colocado como terceiro o samaritano, que cumpre a lei do amor, irritou o mestre da Lei ao ponto que nem conseguiu pronunciar o termo samaritano. Respondendo à pergunta de Jesus simplesmente disse: “aquele que usou misericórdia para com ele”.
Com a parábola Jesus da uma reviravolta à pergunta do mestre da Lei “E quem é o meu próximo” colocando para Itálicoele “Na tua opinião, qual dos três foi próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. Intelectualmente honesto e reto, mesmo que irritado, responde “Aquele que usou misericórdia
Com isso Jesus quer indicar que a relação de próximo não é geral e genérica, como faz entender a afirmação: “toda pessoa é próximo”. Fazer de uma pessoa “próximo”, é eleição, é escolha, de quem se aproxima até do odiado inimigo, como o caso do samaritano para com o judeu, e o faz destinatário da própria ação misericordiosa para salvar a vida e a dignidade dele, até pagando com o dinheiro do próprio bolso.
É o que Jesus realizará por amor na cruz a favor da humanidade, como indicava a 2da leitura “Por ele reconciliar (...) realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Daí a resposta conclusiva e determinante: “Vai e faze a mesma coisa”.
A conclusão é evidente. A vida eterna, a salvação, está ligada à pratica de vida, à pratica do amor levado até suas expressões mais exigentes e paradoxais, como o indicado da parábola. Acolher a lei de Deus, admirar a pessoa de Jesus, aceitar o dom imerecido e gratuito da redenção oferecida por Ele, assumir as virtude e as leis do respeito, da dignidade, da solidariedade etc., encontra seu fechamento e seu ponto alto ma prática misericordiosa indicada pela parábola.
Assim, a vida toda deve ser um crescendo, gradativo e permanente, rumo a este objetivo. Ficar no meio do caminho, nos colocará na mesma insatisfação do mestre da Lei: uma boa pessoa, bem intencionada e cumpridora da Lei, mas, não alcança, aqui e agora, o que espera e, portanto, estará na busca de algo que consiga fechar. Com tanto buscar, o mestre da Lei encontrará a resposta de Jesus. Nos já a temos com anterioridade.

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO-C-(04-07-10)

1ª leitura At 12,1-11

Momento altamente dramático. Herodes para agradar o povo, desencadeia uma violenta perseguição de torturas e de morte “prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João”. Podemos imaginar o estado de preocupação, de tensão e de pavor entre os membros da jovem Igreja que estava se constituindo. Mais ainda, com o passo sucessivo de Herodes “ Vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos”,ou seja, os dias da Páscoa hebraica. Circunstancia providencial que não permitiu a Herodes executar imediatamente também Pedro. Portando, “Herodes colocou-o na prisão (...) tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa
Momentos difíceis, provações de diferentes tipos fazem parte da experiência de todos. Certo, há diferenças de dificuldades e provações, algumas dramáticas e até trágicas como a dos primeiros cristã e outras muito menores, as comuns de todos os dias. Com respeito a estas últimas, refiro-me àquela que surgem pela fidelidade ao estilo de vida cristã e a dinâmica do evangelho. Por serem elas contrárias, ou não em conformidade, com desejos e expectativas dos interlocutores contrariam pessoas queridas, descontentam as amadas, suscitam mal estar e discordâncias, razão pelo qual muitos desistem da pratica coerente e necessária para o bem de outros. Que fazer nestas circunstâncias?
Enquanto Pedro era mantido em prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” A intercessão perseverante da oração conseguiu o humanamente impossível. Cabe considerar que ela, tal vez, não teve a finalidade de “dobrar” a vontade de Deus ao próprio legítimo desejo. Tal vez deve ter sido algo em sintonia com o relatado no mesmo livro “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra (...). Todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a Palavra de Deus” (At 4,24-31). Um pedido e uma atitude confirmada com a intervenção do Espírito Santo. Foi como uma nova Pentecostes.
Contudo, a vontade de Deus se manifestou de maneira admirável e de repente. É curioso notar como a intervenção é tão surpreendente por um lado e pouco espetacular pelo outro. Ela acontece entre visão e realidade. “Pedro não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão”. Tal vez, Pedro pensava que fosse uma simples visão sustentada pelo desejo pessoal e pela intercessão da comunidade. Tal vez tinha-se conformado com a morte iminente, sendo que esta foi a sorte do apostolo Tiago.
De fato, a intervenção surpreendeu o mesmo Pedro, que demorou entender a ação divina. Só após saír da prisão em companhia do anjo e quando este último o deixou “Então, Pedro caiu em si e disse: Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”. É uma característica geral das manifestações divinas serem percebidas só a operação concluída.
De todas as maneiras, ela testemunha que Deus não está ausente nem indiferente às condições humanas, sobretudo dos seus discípulos nas condições de extrema dificuldade.
Inclusive na experiência de são Paulo que terá um desfecho bem diferente como veremos na 2da leitura.

2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18

Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele exprime os sentimentos dele diante a morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu lá estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde atualmente há a Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do evangelho e constituição das comunidades cristã. Em fim, um combate que deu resultado para ele e para a difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É o próprio da consciência de quem fez tudo o que era nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção, sustentada pela experiência, de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente e, por certos aspectos, inalcançável nesta terra. Contudo, é ela que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho em virtude dos quais manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente, pelo qual encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua -do Senhor- manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, tal vez, lhe era impossível perceber anteriormente e precisamente de que “o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi poça coisa, foi pela graça e presença do Senhor, foi causa de libertação “da boca do leão”. Precisamente o leão que motiva fugir do combate, parar ou desistir da corrida, desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o leão que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos “comprometidos”, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, desmotivado os de todo sério compromisso com o Senhor.
Em fim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor, nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
O eixo é a fé, o voto de confiança em Jesus e em si mesmo, como indica o Evangelho.

Evangelho Mt 16,13-19

Jesus tem ciência do novo que surgirá pela missão dele, assim como a certeza que do antigo não ficará “pedra sobre pedra”, ou seja, a impossibilidade de voltar atrás. “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deu” vale em primeiro lugar para Ele. Por outro lado, atingir e envolver neste processo a humanidade inteira supõe colocar as bases e fornecer os instrumentos para dar consistência e solidez ao processo. Nesta ótica, escolhe e associa a si mesmo os discípulos para que, caminhando e sendo instruídos por Ele, adquiram o conhecimento e as atitudes convenientes.
É nesse contexto que a metade do evangelho (a metade do caminho?) o evangelista coloca o texto de hoje. A resposta à pergunta de Jesus com respeito a “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem” (Filho do Homem é a maneira de Jesus se apresentar), oferece uma breve informação da multiplicidade de interpretações da pessoa e missão Dele por parte do povo. Contudo, ela é simplesmente introdutória à pergunta central dirigida aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. O verdadeiro interesse de Jesus é ter ciência do entendimento dos discípulos.
A resposta de Pedro “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” é elogiada por Jesus e indicada como revelação do “meu Pai que está no céu”. Mas, como acontece nas experiências de todos os dias, com as mesmas palavras as pessoas entendem coisas diferentes. O mesmo acontecerá com Pedro que entenderá, com estas palavras, algo bem diferente do que entedia Jesus, motivo pelo qual haverá um choque muito áspero entre os dois. (Mc. 8, 32-33).
Contudo, Jesus afirma solenemente, com a sua autoridade, que aquela profissão de fé será a pedra da edificação da comunidade dos discípulos. Sinal disso troca o nome de Simão pelo de Pedro “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. A pedra, evidentemente, não é a pessoa de Pedro, mas a fé que Pedro acaba de professar, mesmo que o significado e o conteúdo certo dela serão entendidos após a morte e ressurreição de Jesus. Haverá forças poderosas contrárias, mas a última palavra vitoriosa será dela “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.
Eu te darei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Portanto, o poder das chaves, de abrir e fechar, de ligar e desligar, entregado a Pedro - aos discípulos e a Igreja toda - por Jesus, não autoriza um exercício arbitrário, deixado ao bem querer e entender dele, mas ao critério de discernimento que tem como eixo a fé que acaba de professar. Será a aplicação de uma fé libertadora, operadora daquela liberdade que ele experimentou na 1ª leitura. Será a chave que abrirá a prisão do condenado a morte e prestes a ser executado que devolverá a ele vida e futuro cheio de esperança. Evidentemente, se trata não só de pessoas prestes a ser executados fisicamente, mas dos que já experimentam a morte pela desumanização, pelo vazio interior e o sem sentido da existência, pela prática de vida imoral e pelo real afastamento da comunhão com Deus e pelas quais está disponível a ação misericordiosa do Senhor.

domingo, 20 de junho de 2010

13o DOMINGO DO T.C.-C- (27-06-10)


1ª leitura 1Rs 19,16b. 19-21

Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Safat, lavrando a terra com doze juntas de bois” Eliseu é um agricultor totalmente voltado ao desempenho da própria profissão. Cabe pensar o presente e o futuro, os projetos e as expectativas, os relacionamentos humanos e os afetos familiares dele serão desenvolvidos nesse específico contexto.
De repente, Elias irrompe na vida dele. “Elias, ao passar perto de Eliseu, lançou sobre ele o seu manto”. Sem conversa prévia nem explicito, ou menos, consentimento de Eliseu, com este gesto Elias o investe da sua personalidade, dos seus direito e lhe transmite o seu espírito profético. Certo, Elias estava cumprindo uma ordem do Senhor: “vai e unge a Eliseu (...) como profeta em teu lugar”, contudo, a intervenção deve ter deixado Eliseu muito surpreso e desconcertado. Foi uma imposição.
Esta maneira livre e soberana da atuação de Deus surpreende e choca com nossa mentalidade hodierna, mais voltada para o dialogo, para a dialética, na determinação do que é certo e conveniente com respeito ao desenvolvimento da missão. Tal vez a reconhecida competência do profeta e a fama dele deve ter contribuído em amenizar os efeitos desconcertantes da investidura “ Então Eliseu deixou os bois e correu atrás de Elias” . Contudo, cabe pensar uma mistura de sentimentos entre aceitação e perplexidade no interior de Eliseu.
Eliseu é consciente das conseqüências com respeito ao próprio futuro. Trata-se de uma reviravolta impressionante, que, em primeiro lugar, atingirá os afetos familiares. Eis, então, o pedido: “Deixa-me primeiro ir beijar meu pai e minha mãe, depois te seguirei”. Com efeito, deixar os pais, sair de casa, deve ter sido um golpe muito forte para Eliseu. Elias percebeu o estado de animo dele e respondeu: “ Vai e volta! Pois o que te fiz eu?”. É como se dissesse: “entendo o sentido do teu pedido, do sofrimento, do desconcerto, da perplexidade e, portanto, vai. Contudo, sabes e estas conscientes do que fiz contigo em nome de Deus. Cuidado a que não falem mais alto, a que prevaleçam os afetos e os sentimentos familiares e privilegies eles ao chamado de Deus. Portanto: “Vai e volta!”.
Voltando Eliseu “Tomou a junta de bois e os imolou. Com a madeira do arado e da canga assou a carne e deu de comer à sua gente”. É a coragem da ruptura com o passado e não haverá condição de voltar atrás. Começa uma nova vida. A fé no homem de Deus e do chamado através dele venceu. E não haverá retorno.
Depois se levantou, seguiu Elias e pôs-se ao seu serviço”. E começa, também, o novo caminho na humildade do serviço e do aprendizagem.
Apreender o que é ser cristão é interminável, é apreender o que é a liberdade, como indica a 2da leitura.

2da leitura Gl 5,1. 13-18

Irmãos: É para a liberdade que Cristo nos libertou (...). Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade”. É insuportável toda forma de imposição, de obrigação exterior, assim como o que interiormente pretende impor-se como normativo, mas não está em sintonia com a identidade sustentadora de o próprio ser. Cristo nos libertou daquilo que impede ser si mesmos, na autenticidade do próprio ser. Isso significa criar as condições para se desenvolver coerentemente e positivamente, integrando no próprio horizonte tudo e todos a partir da lei da caridade. Com efeito, “chamados para a liberdade”, o para indica a finalidade. Ela será alcançada só pela prática da caridade. Portanto, Cristo nos libertou para amar. Nisso consiste a verdadeira liberdade. Bem diferente da concepção costumeira que aponta a liberdade de, liberdade de escolha.
A partir disso são Paulo coloca umas indicações de grande importância.
+ “ Ficai, pois firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. Aponta ao perigo de voltar de novo ao jugo da lei. Trata-se de quem procura aprovação e segurança em normas precedentemente estabelecidas. Faltaria àquela ousadia e criatividade própria da ação do Espírito Santo nas pessoas subjetivamente tocadas pela morte e ressurreição de Jesus. É conhecida a frase: a letra da lei mata, é o espírito dela que da vida.
+ “Não façais dessa liberdade um pretexto para servir a carne”. Esta atitude é própria de quem, visando os próprios interesses e assumindo como critério a liberdade de escolha, determina a vida dele em função de si mesmo, do levar vantagem etc.
+ “Pelo contrário, fazei-vos escravos uns dos outros, pela caridade”. Assim, a submissão ao outro deve ser motivada pela caridade, ou seja, pela determinação de ajudá-lo a se libertar da escravidão da lei, do levar vantagem e de todo aquilo que impede ser verdadeira e autentica testemunha da morte e ressurreição de Jesus. Por isso, Paulo acrescenta por um lado “toda lei se resume no único mandamento: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”, e, pelo outro, não “vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros”.
Tudo isso significa viver segundo o Espírito. Daí a firme determinação: “Procedei segundo o Espírito”. Contudo, Paulo não ignora a grande oposição entre o espírito e a carne, assim como da luta interior correspondente, ao ponto da segunda vencer - provisoriamente - sobre a primeira “Há uma oposição entre carne e espírito, de modo que nem sempre fazeis o que gostaríeis fazer”. Ele está se referendo à própria experiência, colocada com lucidez na carta aos Romanos 7,14-25.
Para se manter sob o Espírito é preciso, como primeiro passo estar livre do jugo da Lei “Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então não estais sob o jugo da Lei”. Cabe a pergunta: então descartar a lei? Esquecer dela? Evidentemente que não. Só colocar ela no momento certo, ou seja, não colocar o carro perante dos bois.
Ela será sempre um meio de confrontação, um elemento de comparação, uma referencia importante. O problema surge quando ela se torna uma simples letra a ser cumprida pelo teor do que está escrito. Ela não dispensa da coragem criativa da qual falamos antes, pelo contrário, é o ponto de partida para logo confrontar as sugestões e as novas propostas criativas com o espírito da mesma lei.

Evangelho Lc 9,51-62

Estava chegando o tempo de Jesus para ser levado ao céu”. Estas palavras são colocadas após a marcante transfiguração. Jesus percebe com clareza, pelo aval do Pai e a presença do Espírito, o certo das atitudes e da pregação dele. Percebe, também, o destino de todo profeta, em sintonia com a figura de Servo de Yavé do profeta Isaias, cujas palavras ressoam na voz do Pai. Eis, portanto a determinação corajosa: “Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”. Jesus é consciente das conseqüências para ele e do significado para a humanidade toda.
Nesse caminho rumo à entrega “entraram num povoado de samaritanos (...) não o receberam (...). Tiago e João disseram: Senhor queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los? Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado”. Impressionante o contraste entre a determinação dele se entregar e a rejeição dos samaritanos. Assim como a repreensão, que manifesta o grande respeito à liberdade. No caminho da entrega há pessoas que não entendem ou se opõem pelo motivo que seja. Todas são merecedoras de respeito e de nenhum tipo de retaliação. É uma forma admirável de acolhimento. Contudo, a missão continua.
Este acontecimento oferece a oportunidade para especificar com clareza as condições para ser discípulo de Jesus “Eu te seguirei para onde quer que fores”. A determinação de segui-lo deve ser confrontada com as três disposições necessárias para que ela não se torne uma decepção por parte de Jesus e um fracasso pelo seguidor.
1) “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde pousar a cabeça”. Com o titulo Filho do Homem muitas vezes Jesus designa si mesmo. Com estas palavras não quer afirmar que não tem casa onde dormir e repousar, mas alertar que a vida dele é um constante caminhar, de situação em situação, de desafio em desafio, num crescendo de criatividade e ousadia surpreendente que desembocará na experiência que o espera em Jerusalém.
2) Ao convite de segui-lo, feito por Jesus, a resposta foi: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai. Jesus respondeu: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. Cabe considerar que enterrar o pai era considerado como um dever sagrado por parte do filho. Era absolutamente impensável um filho se dispensar dele. Que Jesus coloque esta exigência deve ter soado particularmente duro àqueles ouvidos. Mais ainda, coloca no mesmo nível o morto, o cadáver, e aqueles que não anunciam o Reino de Deus mesmo a custa dos afetos e deveres mais sagrados com os próprios familiares. Estamos ao limite das exigências. Não é para brincar...
3) “Um outro ainda lhe disse: Eu te seguirei Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares. Jesus, porém, respondeu-lhe: Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus”. Outra resposta chocante: sempre olhar para frente e não para trás, ao passado. É preciso viver o tempo presente com atenção, dedicação e determinação a labor em sintonia com as exigências do Reino. Provações, dificuldades de todo tipo, não deverão ser motivo de desistência tal é o significado de olhar para trás. Por outro lado as exigências anteriores e a mesma experiência de Jesus na atualidade e no imediato futuro está em sintonia com a colocação.
São exigências mais duras daquelas que Elias pediu a Eliseu, no momento que o investiu da missão profética. Contudo, elas discernem a autenticidade da vocação cristã e qualificam o desenvolvimento da missaão em sintonia com as expectativas de Deus.

domingo, 6 de junho de 2010

12o DOMINGO DO T.C.- C - (20-06-10)

1ª leitura Zc 12,10-11; 13,1

Com a expressão “Naquele dia” o profeta aponta um momento específico do futuro, de grande importância para o povo todo. O dia, simultaneamente, de grande tristeza e de esperança. Dois contrários que normalmente não combinam, não podem estar juntos.
A imensa tristeza se deve a uma execução capital e se refere “Ao que eles feriram de morte”. Foi um erro trágico, que manifestou todo o contrário do que eles pretendiam conseguir. O tamanho do erro foi tal que “hão de chorá-lo. Como se chora a perda de um filho único, e hão de sentir por ele a dor que se sente pela morte de um primogênito. Naquele dia, haverá um grande planto em Jerusalém”. Não há palavras e comparações mais apropriadas para descrever o trágico do acontecimento, assim como o sofrimento que o acompanha.
Cabe uma pergunta: Como pude o povo todo cair nisso? Trata-se do povo eleito, escolhido por Deus. O povo libertado da escravidão do Egito- do mal e do pecado- e conduzido à terra prometida. O povo que selou a Aliança eterna com Deus etc. Tinha tudo para dar certo e acabou dando zebra. Libertado do mal e do pecado, o povo - ou melhor, a liderança - não soube, não cuidou, não valorizou nem cultivou o dom da libertação. Pelo contrário, deu as costas e desviou por outros caminhos, pretendendo, aqui está o auto-engano, manter todas as prerrogativas do seu relacionamento privilegiado para com Deus. A partir disso, a liderança e o provo, se sentiram autorizados a sentenciar de morte quem agora choram.
É uma grande alerta por todo cristão consciente que na atualidade, frente aos múltiplos desafios, à complexidade do mundo, à fragmentação da sociedade e ao impulso sempre maior da própria realização pessoal, precisa de muita atenção e humildade para discernir o que deve ser assumido do que deve ser deixado, para não incumbir em erros irreparáveis, que acarretam uma tristeza desoladora.
Contudo, esta especifica situação - por se tratar de uma pessoa muito especial, como será o Filho de Deus - oferece a saída que o profeta aponta “Derramarei sobre a casa de Davi (...) um espírito de graça e de oração; eles olharão para mim (...) Naquele dia, haverá uma fonte acessível à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém, para ablução e purificação”.
O Senhor derramará o espírito de graça e de oração para eles olharem ao que justiçaram e enxergarem o surpreendente e absolutamente inesperado, fonte de esperança, de um futuro diferente: aquela morte, aquele sangue, se tornou uma fonte acessível a todos de ablução e purificação.
Para perceber este paradoxo (a verdade se manifesta no seu contrário) é preciso abrir a mente e o coração e, por meio da oração, entender e valorizar o presente oferecido por aquela morte. É o presente da purificação, da libertação, da renovação e da transformação da pessoa toda.
Eles olharão para mim”. Não se trata de um olhar superficial ou de curioso, mas da interpelação no profundo do ser do por que e do sentido daquela morte injusta. A resposta surgirá no coração exatamente como percepção da graça e iluminará o entendimento da mensagem e vontade de Deus com respeito do evento.
A segunda leitura nos dirá os efeitos dessa graça.

2da leitura Gl 3,26-29

Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo”. Paulo se dirige aos cristãos que, em virtude da fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, se tornaram filhos de Deus. Em nós a expressão “filho de Deus”, por ser tão habitual, não é valorizada por um lado e banalizada pelo outro. É como uma positiva abstração, acompanhada pelo sentimento de pertencer, em forma genérica, ao mundo de Deus e suficiente para sustentar e viabilizar o pedido a Ele particularmente nos momentos de aperto, com a esperança de sermos atendidos. É algo que não marca significativamente a existência, por entender a fé como algo individual, para mim, sobretudo, em determinadas circunstâncias e necessidades.
Evidentemente, para são Paulo é tudo outra coisa! “Vós todos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo”. Eis duas expressões de grande significado: mergulhados em Cristo e, conseqüentemente, revestidos de Cristo. A fé nos efeitos da morte e ressurreição gera a consciência do relacionamento muito singular com a pessoa de Cristo, o Ungido de Deus, em virtude dessa mesma morte e ressurreição. Assim, o batismo, sela, marca de uma vez para sempre o relacionamento em termos de aliança, como um casamento indissolúvel. Em virtude disso, Cristo acolhe cada cristão Nele, e com Ele a pessoa é acolhida na Trindade santa.
Mais ainda, ser revestido Dele significa tirar os velhos hábitos e colocar os novos hábitos conforme a nova realidade, à nova condição de filho. Significa ser outra pessoa, outro cristo, pois estão depositados nela os mesmos sentimentos, os mesmos pensamentos, a mesma prática de vida de Cristo. Exatamente por estar Nele e por ser revestido Dele.
Então, o que cada cristão deve pedir a Deus na oração, para si mesmo e para outros, é o mesmo do que pedia Cristo ao Pai: ter consciência e identidade firme desta filiação, assim como a lucidez e a coragem de traduzir isso tudo, em cada momento da vida, em ações coerentes, cumprindo a vontade do Pai. Não se trata de pedir algo diferente, a partir dos próprios gostos e entendimentos, mas o desenvolver o que já está e conforma o profundo do ser, e assim viabilizar coerentemente, nas mais diferentes circunstâncias s do dia- a dia, a explicitação dessa realidade.
Uma dessas explicitações é se relacionar entre as pessoas na consciência de que “O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo” Cabe perguntar: que tipo de um é esse? Evidentemente não é uniformidade, pois o judeu nunca será grego nem o homem será mulher etc. As diferenças permanecerão, pois, entre outras coisas, permitem a individualização de cada pessoa. Ponto de partida é uma mesma dignidade. Que se desdobra em nível social e pessoal numa ética que estabelece a igualdade de oportunidade, assim como a pratica de não fazer para com o outro o que não gostaria que fizesse para ele, como bem indica Mt 7,12, pois, temos um único destino: a participação da glória de Deus no dia- a- dia, como antecipo da glória ultima e definitiva.
Com efeito, este um se manifestará em toda sua amplitude com a vinda do Ressuscitado, e marcará o ponto determinante da realização da promessa feita por Deus Abrão e da qual todo cristão é herdeiro. Eis, então, o sentido das últimas palavras do texto: “Sendo de Cristo, sois então descendência de Abrão, herdeiros segundo a promessa”. Será a experiência estável e definitiva do Reino de Deus. Será o rir do universo, ou seja, a manifestação plena da glória de Deus.
Jesus no evangelho mostra o caminho.

Evangelho Lc 9,18-24

Jesus estava rezando num lugar retirado”. Cabe supor que a oração dele tenha as características acima indicadas. São freqüentes nele estes momentos. Isso indica a importância e necessidade de constantemente mergulhar na nascente de onde todo procede para determinar as atitudes do proceder correto. É desse contexto que encaixa a pergunta aos discípulos com respeito ao que entenderam da identidade Dele. No povo essa identidade é bastante confusa, pouco esclarecida, mas o objetivo principal não era o povo, mas os discípulos. Eis, então, a pergunta direta: “E vós, quem dizei que eu sou?”. Pedro acertou: “O Cristo de Deus", ou seja, o Messias esperado, o Ungido pelo Espírito de Deus.
Jesus nem confirma nem nega. Simplesmente percebe - tal vez pelo contexto, pelo tom da voz, ou por outros detalhes - a possibilidade de que essa afirmação, em si mesma verdadeira, seja mal entendida e mal interpretada. Portanto, acrescenta imediatamente “Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém”. O “severamente” destaca a gravidade do equivoco e a urgência de corrigi-lo. É o que imediatamente faz acrescentando “O Filho do Homem - com este termo, normalmente, Jesus designa ele mesmo- deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia
Com efeito, o entendimento e a expectativa do Messias por parte dos discípulos eram a de um Cristo (Ungido de Deus) que comparecendo a noite de Páscoa no Templo de Jerusalém, devia dar começo a um processo de purificação do povo, separando os cumpridores dos descumpridores da Lei, e de revolta para expulsar os invasores Romanos. Dai, purificado o povo e a terra prometida do estrangeiro dominador, implantar o Reino de Deus. Por outro lado, era absolutamente incompreensível essa da ressurreição. De fato, ela foi um evento totalmente inesperado!
Jesus rejeitado pela liderança da nação e condenado a morte!Com certeza, os discípulos não tinham nenhuma condição de entender isso. A explicação deve ter deixado eles mais confusos e mais atordoados. (Os evangelhos de Mateus e Marcos registram a determinada e impetuosa reação de Pedro e a não menos surpreendente resposta de Jesus).
Para complicar mais Jesus acrescenta, em primeiro lugar, as condições para ser discípulo: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-me”.Trata-se de uma proposta, não de um dever menos de uma imposição:”Se”. Renunciar a si mesmo não é desconhecer ou, pior ainda, renegar a própria identidade. Pelo contrário, é preciso e necessário, se conhecer e se aceitar a si mesmo, o mais detalhada e profundamente possível, nos aspectos positivos e negativos da própria personalidade.
Renunciar a si mesmo” se refere aos próprios critérios, às lógicas e caminhos comuns de realização sustentados por uma tradição, por um costume, por uma prática de vida que nada tem a ver com o processo de divinização da pessoa, da sociedade e da criação que a pessoa e o ensino de Jesus está manifestando. Tudo isso é condição para segui-lo, com a advertência de que “tome a sua cruz cada dia” A cruz de renunciar aos próprios critérios por um lado, e da incompreensão, da rejeição, da solidão até dos mais íntimos e familiares.
Em segundo lugar, motiva o porquê pelo famoso paradoxo “Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder sua vida por causa de mim de mim, esse a salvará”. Cabe frisar e prestar atenção ao motivo pelo qual se perde a vida: por causa de mim, pela adesão à pessoa de Jesus e mais especificamente pela causa dele que o discípulo faz própria. Não é um perder genérico, mas especifico, consciente e fundamentado na experiência e promessa de Jesus.

11o DOMINGO DO T.C.-C-(13-06-10)


1ª leitura 2Sm 12,7-10.13

O texto é a continuação e o final do dialogo, altamente dramático, entre o profeta Natã e o rei Davi. O rei tinha mandado matar o marido da mulher que ele mesmo engravidou, com o intento de esconder tudo. Corajosamente o profeta compara a atitude do rei a de um rico que sacrifica a única ovelha do pobre, em vez de tirar do seu rebanho, para festejar com os seus amigos. No máximo da indignação o rei, ignaro da armadilha, sentencia que este merece a morte. Eis, então, a resposta de Natã: “Esse homem és tu!”.
O profeta apresenta ao rei um resumo dos favores de Deus para com ele: “Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Eu te ungi (...) salvei-te (...). Dei-te a casa (...); e, se isto te parece pouco vou acrescentar outros favores” Não é difícil imaginar o estado de animo do rei. Com certeza, se sentiu lá em baixo, como quando um ser humano é obrigado a admitir e assumir algo que de jeito nenhum teria manifestado.
Natã afunda mais a faca “Por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que lhe desagrada? Feriste (...) Urias, para fazer de sua mulher a tua esposa, fazendo-o pela espada”. Coloca o rei perante sua responsabilidade e ao juízo da própria consciência. Podemos dizer a famosa frase: “o rei está nu”. Para o rei não há como se esconder ou fugir. Tal vez, a “solução” seria matar o profeta como fez anteriormente com Urias. Com certeza, o profeta arriscou muito.
Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor” Davi assume o próprio pecado. Notável que relacione o pecado a Deus. Não diz pequei contra Urias, contra a esposa dele, mas contra Deus. Com efeito, o pecado fere a Deus, como conseqüência da ação maldosa contra a imagem e semelhança Dele na pessoa de Urias e de sua mulher. Desprezar a pessoa é desprezar e desagradar a Deus. Daí o afastamento de Deus, pois, o pecado sempre diz afastamento de Deus.
Natã respondeu-lhe: Da sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!” Vale para toda pessoa o ensino. Reconhecer a própria culpa e assumir sinceramente o próprio pecado tem como contrapartida o imediato perdão de Deus. Tal vez, porque a pessoa resgata a autenticidade e a verdade de si mesma. Pois, tem a coragem de assumir o que realmente é, e reconhece o seu auto-afastamento de Deus. Esta atitude, associada ao perdão de Deus, vence a morte não só física, mas, humana, psicológica, ética e espiritual, ou seja, regenera a pessoa. Daí o perdão que gera vida: “não morrerás!”.
Contudo, são dramáticas as conseqüências pessoais e sociais “Por isso, a espada jamais se afastará de tua casa”. Pessoalmente Davi sofrerá a traição do filho mais velho. Socialmente o reino será dividido, depois do reinado de Salomão, pelas brigas de poder entre os sucessores. Choca com a nossa sensibilidade o fato de que pela culpa do rei “o filho que te nasceu morrerá”. Que tem a ver a criança? Efetivamente, para o nosso entendimento é um absurdo. O rei Davi fará penitencia, jejum, choro etc., para Deus poupar a criança, mas sem êxito. Não achei uma resposta convincente.
Cabe-me pensar a atitude de Deus como um motivo para refletir seriamente sobre as conseqüências do pecado. Se for certo que o arrependimento sincero suscita o perdão de Deus para com o pecador, é também certo que as conseqüências ruins vão muito além da intenção e vontade do pecador. Portanto, a consciente ação pecaminosa deve ser avaliada ultrapassando o simples horizonte pessoal. Com certeza, uma vez arrependidos-se terão experimentado o perdão misericordioso de Deus, mas as conseqüências estão ai. (Atualizando não é difícil entender como pelos escândalos do Vaticano, dos bispos, dos padres, dos animadores de comunidade etc., muitas pessoas se afastaram- e se afastam- da comunidade).
A vida toda é uma constante luta contra o pecado, cuja vitória é possível só pela fé em Jesus , nosso representante perante o Pai. É o conteúdo da 2da leitura.

2da leitura Gl 2,16. 19-21

São Paulo, conforme a formação recebida antes de sua conversão tinha a firma convicção de que poderia se apresentar perante de Deus como homem justo só pelo cumprimento da Lei. A Lei consistia nos primeiros cinco livros da Bíblia - o Pentateuco- e outras importantes prescrições que os grandes mestres espirituais tinham elaborado decorrentes da mesma lei e da tradição. Os mais voltados ao fiel cumprimento eram, nos tempos de Jesus, os fariseus. Paulo era um deles. Ao cumpridor era prometida a salvação e a entrada no reino de Deus. A salvação era o reconhecimento e o premio de quem caminhava na Lei de Deus. Pelo contrário, quem não a respeitava era um maldito de Deus, um condenado ao fogo eterno. De fato, reduzidos eram os observantes.
A conversão de Paulo foi uma reviravolta. Percebeu que perante de Deus, por ser ele imperfeito cumpridor da Lei - apesar do zelo, da dedicação e acrescentando o orgulho do cumprimento, mesmo que parcial, e da arrogância para com os afastados da Lei -, “ninguém é justificado por observar a Lei de Moises (...) porque pela prática da Lei ninguém será justificado”. Assim, o conhecimento do valor e da importância da morte e ressurreição de Jesus o levou a se afastar e abandonar todo o que tinha de convencimento com respeito à Lei mesma: “foi em virtude da Lei que eu morri para a Lei”.A partir de então, ser considerado como justo perante de Deus não dependerá do cumprimento da Lei, como credito perante de Deus para a própria salvação, mas “por crer em Jesus Cristo (...). Assim, fomos justificados pela fé em Cristo”.
Cabe perguntar: o que determinou esta convicção? A percepção de que “Com Cristo, eu fui pregado na cruz” (Gl 2,19). Pois, em Damasco, no evento da conversão, ele ouviu: “Eu sou Jesus, quem você persegue” (At 9;5). Mas, ele estava perseguindo os discípulos, não Ele! Então, deve ter associado imediatamente os discípulos como representantes de Jesus, e, ao mesmo tempo, ter entendido que na morte e ressurreição Jesus estava representando os discípulos, a humanidade toda incluído ele mesmo. Conseqüentemente, deve ter sido como se olhando o rosto de Cristo na cruz viesse o dele, não viu somente a Cristo, mas ele também. A cruz se tronou como espelho. O impacto foi enorme e não era para menos. Daí a determinação: “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deis, que me amou e por mim se entregou” (Gl 2,20)
Ter fé é aceitar esta singular união (que vivenciamos e atualizamos em cada Missa) que levará ,gradativamente, à mesma experiência se Paulo: “Eu vivo, mas não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20)Duas realidades – eu,Paulo e Cristo - profundamente unidas, na radical diferença. Só Deus podia realizar uma união desse jeito!
Eu não desprezo a graça de Deus. Ora, se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu inutilmente”. Reconhece Paulo de ter aderido e aceito o dom e seus efeitos surpreendentes. Assim, ele se dirige aos cristãos com dificuldade em acreditar que a função da Lei acabou em ordem a justificação. Eis, então a firmeza e determinação da expressão: Se não for assim “Cristo morreu inutilmente”.
A partir da fé em Cristo a Lei é como o teste para verificar o grau de adesão sincera e confiante ao dom de Cristo. Portanto, não adulterar, não matar, não roubar, não mentir etc., serão o testemunho do real e verdadeiro acolhimento do dom da morte e ressurreição de Jesus.
Vale especificar que os valores indicados pelos mandamentos, devem ser assumidos desde criança. É importante firmar a conduta certa. Sucessivamente, crescendo na idade e na compreensão, com a adesão consciente ao dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, e se mantendo firme neles- os valores-, levarão a pessoa já adulta à plena identidade com a pessoa e missão de Jesus. Haverá um papel decisivo a experiência do perdão, oferecida por Jesus e cuja força interior é analisada no evangelho.

Evangelho Lc 7,36-8,3

J.Jeremias, grande estudioso do Novo Testamento, escreve que era motivo de mérito para um fariseu convidar o pregador após o culto do sábado na sinagoga, na comunidade. É muito provável que Jesus tinha falado na sinagoga sobre o perdão. Daí os atores deste trecho, por um lado a pecadora e pelo outro o fariseu.
A mulher cumpre para com Jesus gestos desmedidos e surpreendentes “ frasco de alabastro com perfume (...) com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos e os ungia com o perfume”.O perfume era caríssimo. Nunca uma mulher teria soltado o cabelo em público, tirando o véu da cabeça. Lavar os pés e beijá-los, só lembrar o que significou quando Jesus lavou os pés aos discípulos.
Contudo, o fariseu fica perplexo pela suposta condição de profeta de Jesus perante esta circunstância. É a partir desta percepção que Jesus abre a conversa e leva o fariseu a comparar os gestos e as atitudes da mulher com os dele “Tu não me (...); ela, porém (...)”. Uma distancia abismal. O motivo desta diferença o explicou com a comparação entre os devedores, pois, um devia quinhentas e o outro só cinqüenta moedas.
A continuação Jesus deu a chave de leitura: “eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor”. Mostrou muito amor porque percebeu ter sida amada pelo perdão, por Deus na pregação de Jesus (de manhã durante o culto na sinagoga?). Ela deu voto de confiança à pessoa e às palavras de Jesus que abriram no seu coração a percepção de resgatar e reencontrar a dignidade perdida como ser humano, de se tornar de novo gente. Jesus mesmo confirmará isso: “Jesus disse à mulher: Tua fé te salvou. Vai em paz”. Ela teve fé no que estava acontecendo nela mesma.
Jesus se dirige, também, ao fariseu: “Aquele a quem se perdoa pouco, mostra pouco amor”. Evidentemente, o fariseu se sentia eticamente muito diferente da pecadora e Jesus não contesta isso, só faz entender o porquê não entendeu a atitude da mulher e, portanto, o alcance da pregação dele.
Jesus, então, termina sua ação pastoral dirigida a todos: “Teus pecados estão perdoados”. Significava se atribuir condição divina. Isso deixou mais perplexos os convidados “Quem é este que até perdoa os pecados?” como se Jesus fosse um atrevido, um presumido. Contudo, manifestou que o perdão de Deus, disponível pela palavra e a pessoa dele, não seria eficaz se todo destinatário não tivesse fé de tê-lo recebido, como foi experiência da mulher: “Tua fé te salvou
Depois disso, Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus” que se tornava boa realidade pelo perdão dos pecados, condição previa para a convivência da nova humanidade, cujo testemunho é oferecido pelas mulheres que já experimentaram a libertação “algumas mulheres que haviam sido curadas dos maus espíritos e doenças: Maria (...). Joana (...). Susana, e varias outras mulheres ajudavam Jesus e os discípulos com os bens que possuíam”.