domingo, 20 de junho de 2010
13o DOMINGO DO T.C.-C- (27-06-10)
1ª leitura 1Rs 19,16b. 19-21
“Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Safat, lavrando a terra com doze juntas de bois” Eliseu é um agricultor totalmente voltado ao desempenho da própria profissão. Cabe pensar o presente e o futuro, os projetos e as expectativas, os relacionamentos humanos e os afetos familiares dele serão desenvolvidos nesse específico contexto.
De repente, Elias irrompe na vida dele. “Elias, ao passar perto de Eliseu, lançou sobre ele o seu manto”. Sem conversa prévia nem explicito, ou menos, consentimento de Eliseu, com este gesto Elias o investe da sua personalidade, dos seus direito e lhe transmite o seu espírito profético. Certo, Elias estava cumprindo uma ordem do Senhor: “vai e unge a Eliseu (...) como profeta em teu lugar”, contudo, a intervenção deve ter deixado Eliseu muito surpreso e desconcertado. Foi uma imposição.
Esta maneira livre e soberana da atuação de Deus surpreende e choca com nossa mentalidade hodierna, mais voltada para o dialogo, para a dialética, na determinação do que é certo e conveniente com respeito ao desenvolvimento da missão. Tal vez a reconhecida competência do profeta e a fama dele deve ter contribuído em amenizar os efeitos desconcertantes da investidura “ Então Eliseu deixou os bois e correu atrás de Elias” . Contudo, cabe pensar uma mistura de sentimentos entre aceitação e perplexidade no interior de Eliseu.
Eliseu é consciente das conseqüências com respeito ao próprio futuro. Trata-se de uma reviravolta impressionante, que, em primeiro lugar, atingirá os afetos familiares. Eis, então, o pedido: “Deixa-me primeiro ir beijar meu pai e minha mãe, depois te seguirei”. Com efeito, deixar os pais, sair de casa, deve ter sido um golpe muito forte para Eliseu. Elias percebeu o estado de animo dele e respondeu: “ Vai e volta! Pois o que te fiz eu?”. É como se dissesse: “entendo o sentido do teu pedido, do sofrimento, do desconcerto, da perplexidade e, portanto, vai. Contudo, sabes e estas conscientes do que fiz contigo em nome de Deus. Cuidado a que não falem mais alto, a que prevaleçam os afetos e os sentimentos familiares e privilegies eles ao chamado de Deus. Portanto: “Vai e volta!”.
Voltando Eliseu “Tomou a junta de bois e os imolou. Com a madeira do arado e da canga assou a carne e deu de comer à sua gente”. É a coragem da ruptura com o passado e não haverá condição de voltar atrás. Começa uma nova vida. A fé no homem de Deus e do chamado através dele venceu. E não haverá retorno.
“Depois se levantou, seguiu Elias e pôs-se ao seu serviço”. E começa, também, o novo caminho na humildade do serviço e do aprendizagem.
Apreender o que é ser cristão é interminável, é apreender o que é a liberdade, como indica a 2da leitura.
2da leitura Gl 5,1. 13-18
“Irmãos: É para a liberdade que Cristo nos libertou (...). Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade”. É insuportável toda forma de imposição, de obrigação exterior, assim como o que interiormente pretende impor-se como normativo, mas não está em sintonia com a identidade sustentadora de o próprio ser. Cristo nos libertou daquilo que impede ser si mesmos, na autenticidade do próprio ser. Isso significa criar as condições para se desenvolver coerentemente e positivamente, integrando no próprio horizonte tudo e todos a partir da lei da caridade. Com efeito, “chamados para a liberdade”, o para indica a finalidade. Ela será alcançada só pela prática da caridade. Portanto, Cristo nos libertou para amar. Nisso consiste a verdadeira liberdade. Bem diferente da concepção costumeira que aponta a liberdade de, liberdade de escolha.
A partir disso são Paulo coloca umas indicações de grande importância.
+ “ Ficai, pois firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. Aponta ao perigo de voltar de novo ao jugo da lei. Trata-se de quem procura aprovação e segurança em normas precedentemente estabelecidas. Faltaria àquela ousadia e criatividade própria da ação do Espírito Santo nas pessoas subjetivamente tocadas pela morte e ressurreição de Jesus. É conhecida a frase: a letra da lei mata, é o espírito dela que da vida.
+ “Não façais dessa liberdade um pretexto para servir a carne”. Esta atitude é própria de quem, visando os próprios interesses e assumindo como critério a liberdade de escolha, determina a vida dele em função de si mesmo, do levar vantagem etc.
+ “Pelo contrário, fazei-vos escravos uns dos outros, pela caridade”. Assim, a submissão ao outro deve ser motivada pela caridade, ou seja, pela determinação de ajudá-lo a se libertar da escravidão da lei, do levar vantagem e de todo aquilo que impede ser verdadeira e autentica testemunha da morte e ressurreição de Jesus. Por isso, Paulo acrescenta por um lado “toda lei se resume no único mandamento: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”, e, pelo outro, não “vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros”.
Tudo isso significa viver segundo o Espírito. Daí a firme determinação: “Procedei segundo o Espírito”. Contudo, Paulo não ignora a grande oposição entre o espírito e a carne, assim como da luta interior correspondente, ao ponto da segunda vencer - provisoriamente - sobre a primeira “Há uma oposição entre carne e espírito, de modo que nem sempre fazeis o que gostaríeis fazer”. Ele está se referendo à própria experiência, colocada com lucidez na carta aos Romanos 7,14-25.
Para se manter sob o Espírito é preciso, como primeiro passo estar livre do jugo da Lei “Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então não estais sob o jugo da Lei”. Cabe a pergunta: então descartar a lei? Esquecer dela? Evidentemente que não. Só colocar ela no momento certo, ou seja, não colocar o carro perante dos bois.
Ela será sempre um meio de confrontação, um elemento de comparação, uma referencia importante. O problema surge quando ela se torna uma simples letra a ser cumprida pelo teor do que está escrito. Ela não dispensa da coragem criativa da qual falamos antes, pelo contrário, é o ponto de partida para logo confrontar as sugestões e as novas propostas criativas com o espírito da mesma lei.
Evangelho Lc 9,51-62
“Estava chegando o tempo de Jesus para ser levado ao céu”. Estas palavras são colocadas após a marcante transfiguração. Jesus percebe com clareza, pelo aval do Pai e a presença do Espírito, o certo das atitudes e da pregação dele. Percebe, também, o destino de todo profeta, em sintonia com a figura de Servo de Yavé do profeta Isaias, cujas palavras ressoam na voz do Pai. Eis, portanto a determinação corajosa: “Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”. Jesus é consciente das conseqüências para ele e do significado para a humanidade toda.
Nesse caminho rumo à entrega “entraram num povoado de samaritanos (...) não o receberam (...). Tiago e João disseram: Senhor queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los? Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado”. Impressionante o contraste entre a determinação dele se entregar e a rejeição dos samaritanos. Assim como a repreensão, que manifesta o grande respeito à liberdade. No caminho da entrega há pessoas que não entendem ou se opõem pelo motivo que seja. Todas são merecedoras de respeito e de nenhum tipo de retaliação. É uma forma admirável de acolhimento. Contudo, a missão continua.
Este acontecimento oferece a oportunidade para especificar com clareza as condições para ser discípulo de Jesus “Eu te seguirei para onde quer que fores”. A determinação de segui-lo deve ser confrontada com as três disposições necessárias para que ela não se torne uma decepção por parte de Jesus e um fracasso pelo seguidor.
1) “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde pousar a cabeça”. Com o titulo Filho do Homem muitas vezes Jesus designa si mesmo. Com estas palavras não quer afirmar que não tem casa onde dormir e repousar, mas alertar que a vida dele é um constante caminhar, de situação em situação, de desafio em desafio, num crescendo de criatividade e ousadia surpreendente que desembocará na experiência que o espera em Jerusalém.
2) Ao convite de segui-lo, feito por Jesus, a resposta foi: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai. Jesus respondeu: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. Cabe considerar que enterrar o pai era considerado como um dever sagrado por parte do filho. Era absolutamente impensável um filho se dispensar dele. Que Jesus coloque esta exigência deve ter soado particularmente duro àqueles ouvidos. Mais ainda, coloca no mesmo nível o morto, o cadáver, e aqueles que não anunciam o Reino de Deus mesmo a custa dos afetos e deveres mais sagrados com os próprios familiares. Estamos ao limite das exigências. Não é para brincar...
3) “Um outro ainda lhe disse: Eu te seguirei Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares. Jesus, porém, respondeu-lhe: Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus”. Outra resposta chocante: sempre olhar para frente e não para trás, ao passado. É preciso viver o tempo presente com atenção, dedicação e determinação a labor em sintonia com as exigências do Reino. Provações, dificuldades de todo tipo, não deverão ser motivo de desistência tal é o significado de olhar para trás. Por outro lado as exigências anteriores e a mesma experiência de Jesus na atualidade e no imediato futuro está em sintonia com a colocação.
São exigências mais duras daquelas que Elias pediu a Eliseu, no momento que o investiu da missão profética. Contudo, elas discernem a autenticidade da vocação cristã e qualificam o desenvolvimento da missaão em sintonia com as expectativas de Deus.
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