1ª leitura Zc 12,10-11; 13,1
Com a expressão “Naquele dia” o profeta aponta um momento específico do futuro, de grande importância para o povo todo. O dia, simultaneamente, de grande tristeza e de esperança. Dois contrários que normalmente não combinam, não podem estar juntos.
A imensa tristeza se deve a uma execução capital e se refere “Ao que eles feriram de morte”. Foi um erro trágico, que manifestou todo o contrário do que eles pretendiam conseguir. O tamanho do erro foi tal que “hão de chorá-lo. Como se chora a perda de um filho único, e hão de sentir por ele a dor que se sente pela morte de um primogênito. Naquele dia, haverá um grande planto em Jerusalém”. Não há palavras e comparações mais apropriadas para descrever o trágico do acontecimento, assim como o sofrimento que o acompanha.
Cabe uma pergunta: Como pude o povo todo cair nisso? Trata-se do povo eleito, escolhido por Deus. O povo libertado da escravidão do Egito- do mal e do pecado- e conduzido à terra prometida. O povo que selou a Aliança eterna com Deus etc. Tinha tudo para dar certo e acabou dando zebra. Libertado do mal e do pecado, o povo - ou melhor, a liderança - não soube, não cuidou, não valorizou nem cultivou o dom da libertação. Pelo contrário, deu as costas e desviou por outros caminhos, pretendendo, aqui está o auto-engano, manter todas as prerrogativas do seu relacionamento privilegiado para com Deus. A partir disso, a liderança e o provo, se sentiram autorizados a sentenciar de morte quem agora choram.
É uma grande alerta por todo cristão consciente que na atualidade, frente aos múltiplos desafios, à complexidade do mundo, à fragmentação da sociedade e ao impulso sempre maior da própria realização pessoal, precisa de muita atenção e humildade para discernir o que deve ser assumido do que deve ser deixado, para não incumbir em erros irreparáveis, que acarretam uma tristeza desoladora.
Contudo, esta especifica situação - por se tratar de uma pessoa muito especial, como será o Filho de Deus - oferece a saída que o profeta aponta “Derramarei sobre a casa de Davi (...) um espírito de graça e de oração; eles olharão para mim (...) Naquele dia, haverá uma fonte acessível à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém, para ablução e purificação”.
O Senhor derramará o espírito de graça e de oração para eles olharem ao que justiçaram e enxergarem o surpreendente e absolutamente inesperado, fonte de esperança, de um futuro diferente: aquela morte, aquele sangue, se tornou uma fonte acessível a todos de ablução e purificação.
Para perceber este paradoxo (a verdade se manifesta no seu contrário) é preciso abrir a mente e o coração e, por meio da oração, entender e valorizar o presente oferecido por aquela morte. É o presente da purificação, da libertação, da renovação e da transformação da pessoa toda.
“Eles olharão para mim”. Não se trata de um olhar superficial ou de curioso, mas da interpelação no profundo do ser do por que e do sentido daquela morte injusta. A resposta surgirá no coração exatamente como percepção da graça e iluminará o entendimento da mensagem e vontade de Deus com respeito do evento.
A segunda leitura nos dirá os efeitos dessa graça.
2da leitura Gl 3,26-29
“Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo”. Paulo se dirige aos cristãos que, em virtude da fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, se tornaram filhos de Deus. Em nós a expressão “filho de Deus”, por ser tão habitual, não é valorizada por um lado e banalizada pelo outro. É como uma positiva abstração, acompanhada pelo sentimento de pertencer, em forma genérica, ao mundo de Deus e suficiente para sustentar e viabilizar o pedido a Ele particularmente nos momentos de aperto, com a esperança de sermos atendidos. É algo que não marca significativamente a existência, por entender a fé como algo individual, para mim, sobretudo, em determinadas circunstâncias e necessidades.
Evidentemente, para são Paulo é tudo outra coisa! “Vós todos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo”. Eis duas expressões de grande significado: mergulhados em Cristo e, conseqüentemente, revestidos de Cristo. A fé nos efeitos da morte e ressurreição gera a consciência do relacionamento muito singular com a pessoa de Cristo, o Ungido de Deus, em virtude dessa mesma morte e ressurreição. Assim, o batismo, sela, marca de uma vez para sempre o relacionamento em termos de aliança, como um casamento indissolúvel. Em virtude disso, Cristo acolhe cada cristão Nele, e com Ele a pessoa é acolhida na Trindade santa.
Mais ainda, ser revestido Dele significa tirar os velhos hábitos e colocar os novos hábitos conforme a nova realidade, à nova condição de filho. Significa ser outra pessoa, outro cristo, pois estão depositados nela os mesmos sentimentos, os mesmos pensamentos, a mesma prática de vida de Cristo. Exatamente por estar Nele e por ser revestido Dele.
Então, o que cada cristão deve pedir a Deus na oração, para si mesmo e para outros, é o mesmo do que pedia Cristo ao Pai: ter consciência e identidade firme desta filiação, assim como a lucidez e a coragem de traduzir isso tudo, em cada momento da vida, em ações coerentes, cumprindo a vontade do Pai. Não se trata de pedir algo diferente, a partir dos próprios gostos e entendimentos, mas o desenvolver o que já está e conforma o profundo do ser, e assim viabilizar coerentemente, nas mais diferentes circunstâncias s do dia- a dia, a explicitação dessa realidade.
Uma dessas explicitações é se relacionar entre as pessoas na consciência de que “O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo” Cabe perguntar: que tipo de um é esse? Evidentemente não é uniformidade, pois o judeu nunca será grego nem o homem será mulher etc. As diferenças permanecerão, pois, entre outras coisas, permitem a individualização de cada pessoa. Ponto de partida é uma mesma dignidade. Que se desdobra em nível social e pessoal numa ética que estabelece a igualdade de oportunidade, assim como a pratica de não fazer para com o outro o que não gostaria que fizesse para ele, como bem indica Mt 7,12, pois, temos um único destino: a participação da glória de Deus no dia- a- dia, como antecipo da glória ultima e definitiva.
Com efeito, este um se manifestará em toda sua amplitude com a vinda do Ressuscitado, e marcará o ponto determinante da realização da promessa feita por Deus Abrão e da qual todo cristão é herdeiro. Eis, então, o sentido das últimas palavras do texto: “Sendo de Cristo, sois então descendência de Abrão, herdeiros segundo a promessa”. Será a experiência estável e definitiva do Reino de Deus. Será o rir do universo, ou seja, a manifestação plena da glória de Deus.
Jesus no evangelho mostra o caminho.
Evangelho Lc 9,18-24
“Jesus estava rezando num lugar retirado”. Cabe supor que a oração dele tenha as características acima indicadas. São freqüentes nele estes momentos. Isso indica a importância e necessidade de constantemente mergulhar na nascente de onde todo procede para determinar as atitudes do proceder correto. É desse contexto que encaixa a pergunta aos discípulos com respeito ao que entenderam da identidade Dele. No povo essa identidade é bastante confusa, pouco esclarecida, mas o objetivo principal não era o povo, mas os discípulos. Eis, então, a pergunta direta: “E vós, quem dizei que eu sou?”. Pedro acertou: “O Cristo de Deus", ou seja, o Messias esperado, o Ungido pelo Espírito de Deus.
Jesus nem confirma nem nega. Simplesmente percebe - tal vez pelo contexto, pelo tom da voz, ou por outros detalhes - a possibilidade de que essa afirmação, em si mesma verdadeira, seja mal entendida e mal interpretada. Portanto, acrescenta imediatamente “Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém”. O “severamente” destaca a gravidade do equivoco e a urgência de corrigi-lo. É o que imediatamente faz acrescentando “O Filho do Homem - com este termo, normalmente, Jesus designa ele mesmo- deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”
Com efeito, o entendimento e a expectativa do Messias por parte dos discípulos eram a de um Cristo (Ungido de Deus) que comparecendo a noite de Páscoa no Templo de Jerusalém, devia dar começo a um processo de purificação do povo, separando os cumpridores dos descumpridores da Lei, e de revolta para expulsar os invasores Romanos. Dai, purificado o povo e a terra prometida do estrangeiro dominador, implantar o Reino de Deus. Por outro lado, era absolutamente incompreensível essa da ressurreição. De fato, ela foi um evento totalmente inesperado!
Jesus rejeitado pela liderança da nação e condenado a morte!Com certeza, os discípulos não tinham nenhuma condição de entender isso. A explicação deve ter deixado eles mais confusos e mais atordoados. (Os evangelhos de Mateus e Marcos registram a determinada e impetuosa reação de Pedro e a não menos surpreendente resposta de Jesus).
Para complicar mais Jesus acrescenta, em primeiro lugar, as condições para ser discípulo: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-me”.Trata-se de uma proposta, não de um dever menos de uma imposição:”Se”. Renunciar a si mesmo não é desconhecer ou, pior ainda, renegar a própria identidade. Pelo contrário, é preciso e necessário, se conhecer e se aceitar a si mesmo, o mais detalhada e profundamente possível, nos aspectos positivos e negativos da própria personalidade.
“Renunciar a si mesmo” se refere aos próprios critérios, às lógicas e caminhos comuns de realização sustentados por uma tradição, por um costume, por uma prática de vida que nada tem a ver com o processo de divinização da pessoa, da sociedade e da criação que a pessoa e o ensino de Jesus está manifestando. Tudo isso é condição para segui-lo, com a advertência de que “tome a sua cruz cada dia” A cruz de renunciar aos próprios critérios por um lado, e da incompreensão, da rejeição, da solidão até dos mais íntimos e familiares.
Em segundo lugar, motiva o porquê pelo famoso paradoxo “Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder sua vida por causa de mim de mim, esse a salvará”. Cabe frisar e prestar atenção ao motivo pelo qual se perde a vida: por causa de mim, pela adesão à pessoa de Jesus e mais especificamente pela causa dele que o discípulo faz própria. Não é um perder genérico, mas especifico, consciente e fundamentado na experiência e promessa de Jesus.
domingo, 6 de junho de 2010
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Olá querido amigo, como sempre expessando muito bem sua reflexão a respeito da palavra de Deus.
ResponderExcluirParabéns!
Pe. Claudinei