domingo, 13 de março de 2011

2do DOMINGO DA QUARESMA-A-(20-03-11)

1ª leitura Gn 12,4-4ª

Esclarecida a finalidade e os meio oportunos para o desenvolvimento da missão (1º domingo da Quaresma), começa a viagem. Ponto de referencia importante é a experiência de Abrão “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar”. A proposta è pelo menos desconcertante para um casal de anciãos, pois, trata- se de começar um novo caminho, abandonar hábitos e costumes consolidados; abandonar casa e afetos familiares para uma meta indefinida que será revelada no caminhar mesmo.
A sustentar o chamado está uma promessa entusiasmante e, ao mesmo tempo, mais desconcertante ainda em consideração da velhice e esterilidade do casal: “Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma benção”.
O Senhor carrega sobre as costas de Abrão uma responsabilidade singular: “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”. Com esta afirmação Deus indica que a família de Abrão será modelo para todas as famílias da terra, em virtude do cumprimento da promessa que fará dela- uma família estéril na atualidade - um grande povo abençoado numeroso como as estrelas no céu e os grãos de areia da praia do mar.
É uma passagem surpreendente, estrepitosa e maravilhosa, realizada quando devido à idade e à condição irreversível do ponto de vista humana, como a esterilidade, há coragem e ousadia em esperar no futuro garantido pela promessa de Deus.
A promessa nunca se cumprirá plenamente na condição terrena. O mesmo Abrão, depois das diferentes provações, viu o nascer de pessoas que futuramente darão origem ao povo da promessa. A promessa sempre será promessa.
Contudo, haverá condições para perceber que a condição atual é participação de algo maior que configura a realidade da promessa. Com isso, há a certeza que a promessa não é fantasia ou simples projeção do desejo humano. Esta participação encherá o coração de alegria e selará a convicção que valeu confiar ousadamente na promessa do Senhor.
Cabe perguntar se a crise que atinge muitos núcleos familiares, não encontre sua motivação exatamente por se terem fechados sobre si mesmos, no âmbito dos relacionamentos protegidos pelo ambiente, pelos afetos entre parentes e amigos, cercando a própria vivencia como por um muro de proteção, contra todo o que podia modificar o equilíbrio alcançado.
O preço é a esterilidade. Uma vida que não gera vida nos outros, nem para si mesmo. A vida se seca como árvore sem água... Daí a caída em todo comportamento permissivo, auto referencial, voltado a procurar emoções e manter uma espécie de sentido da vida e uma “segurança” que terá efeito contrário.
O salmo reza “Mesmo no tempo da velhice darão frutos, cheios de seiva e de folhas verdejantes” (Sl 91,15). A condição é a obediência
“Abrão partiu, como o Senhor lhe havia dito”. Quais sentimentos, quais emoções, que certezas e duvidas carregasse consigo não se sabe. Só deu voto de confiança a Deus e foi embora. Ele é chamado no Novo Testamento como pai da fé.
Aceitar o chamado de Deus é a resposta a um dom transformador da própria vida, como frisa a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 1,8b-10

A prisão de Paulo abateu Timóteo. Na vida passamos por muitos abatimentos. Provações, dificuldades, obstáculos imprevistos etc., geram desconforto, abatimento, um sentimento de mal estar que questiona o exercício e o desenvolvimento da missão.
Paolo e dirige ao amigo “Caríssimo: sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus”. Propor a morte e ressurreição de Cristo -é o Evangelho de Paulo- como eixo do correto relacionamento com Deus, raiz e fonte da salvação da pessoa e da humanidade, encontrará em todo lugar e em todo tempo incompreensões a adversidades, pela subversão da vida pessoal e social que isso acarreta.
Contudo, lembra a Timóteo “Deus nos salvou e nos chamou a uma vocação santa”. Um chamado pelo qual está no mundo mas não pertence ao mundo. É santo, é separado do mundo. Não pelos próprios méritos, mas pela graça de Deus oferecida gratuitamente no evento da morte e ressurreição de Jesus “graça, que nos foi dada em Cristo Jesus (...) revelada gora, pela manifestação do nosso salvador, Jesus Cristo”.
É o dom que revela e manifesta Jesus Cristo como salvador, pelo fato que Ele representa Deus perante a humanidade e, também, representa a humanidade caída no nível mais baixo (“o Verbo se fez carne”,ou seja, humanidade corrompida, mesmo não sendo pecador) perante Deus Pai.
Portanto, representante e representado estão estritamente unidos, de maneira que o que acontece no primeiro é como se estivesse acontecendo no segundo. Vale especificar que não se trata de substituição, pois, a pessoa substituída, dizemos assim, sai da cena. Pelo contrario, representante e representado caminham juntos.
Ele não só destruiu a morte...”. Com a entrada do pecado, entrou a morte no mundo. Com a morte do pecado, pois, não consegui dobrar Jesus à suas expectativas e desejos. Portanto, o pecado perdeu o seu poder, a morte é desligada dele e é vencida, mesmo passando por ela. Prova disso é a marca dos pregos e o lado aberto, sinal de morte. Eles não desaparecem nem são fechados, mas são esvaziados do poder da morte e manifestam a vida surpreendente na pessoa do ressuscitado.
“... como também fez brilhar a vida e a imortalidade pro meio de Evangelho”, ou seja, por meio do evento da ressurreição. Cabe especificar que morte e ressurreição estão intima e profundamente ligados pelo amor. Não são eventos separados. O amor da entrega, pela resistência ao pecado “até o fim”, é o mesmo amor pelo qual o Espírito e o Pai ressuscitam Jesus Cristo em. Em virtude disso “faz brilhar a vida e a imortalidade”.
Aquele brilho e imortalidade que acompanhou a transfiguração.

Evangelho Mt, 17,1-9

Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha”. São os mesmos três que chamará consigo para rezar na quinta feira-santa, no jardim das oliveiras. A alta montanha sempre faz referencia ao lugar da manifestação de Deus.
E foi transfigurado diante deles...” Evento desconcertante e surpreendente, também porque lhes apareceram “Moises e Elias, conversando com Jesus” O primeiro representa a Lei (a Constituição, diríamos hoje), da vida social e pessoal do povo, expressão da Aliança com Deus. O segundo, a atividade profética, cuja missão era chamar constantemente o povo ao respeito da Aliança na interpretação e execução correta da Lei.
Lei e Profetas conversam sobre a entrega de Jesus em Jerusalém. Deus Pai e o Espírito Santo manifestam o seu consentimento. O segundo, como “nuvem luminosa os cobriu com suas sombras” consagrando-o como o novo profeta. O primeiro, com as palavras do profeta Isaias, que apontam ao Servo de Javé. Ele, Jesus, deverá entregar sua vida para o resgate do povo “Este é o meu Filho, amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o” Jesus será a nova Lei. A nova Lei será a entrega incondicional, gratuita e desinteressada. E o Espírito a força e a dinâmica do amor na qual e pela qual se entrega.
Merece destaque a atitude de Pedro “Senhor é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer três tendas: uma para ti, outra para Moises e outra para Elias”. Ela revela que foi bem longe de entender o significado do que estava acontecendo. Ficou fascinado do mesmo, e quis como reter o tempo e os acontecimentos. Ficar com os dois teria significado renunciar à missão. Por outro lado, que mais podia desejar se não permanecer como espectador perante tal manifestação. Ela apaga totalmente as expectativas e desejos dos homens. Se Jesus tivesse cumprido a indicação de Pedro, sua missão teria esvanecida. Nesse sentido, a intervenção de Pedro tem uma dimensão demoníaca, apesar das aparências contrárias.
A manifestação do Pai e do Espírito os deixou assustados, o desconcerto foi grande “ficaram muitos assustados e caíram com o rosto em terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: levantai-vos, e não tenhais medo”. A incompreensibilidade do evento e a resposta negativa à colocação de Pedro os deixaram sem entender o que realmente estava acontecendo. Acrescenta-se a manifestação divina, a voz e a nuvem. Então, o abalo foi total.
Contudo, Jesus tem duas atitudes importantes. Primeira, se acerca os levanta da prostração, manifestação de adoração e de desconcerto ao mesmo tempo, e os anima a não ter medo. Nenhuma palavra de demérito, de chamada de atenção, de desilusão com respeito à atitude deles. Jesus entende a dificuldade deles. Os anima a não ficar com o rosto em terra, sinal de submissão, os levanta, fala para eles de não ter medo, pois, devem caminhar com ele não como simples espectadores, mas como colaboradores, depois dos eventos aos quais a transfiguração aponta.
Jesus consciente de tudo isso ordenou “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dentre os mortos”. Só então terão plena ciência do que significou participar da transfiguração.
Mas apesar disso, não entenderam. Prova está que no momento da cruz ficaram totalmente abalados e de nada serviu participar do evento tão grandioso e significativo. Tudo isso diz muito com respeito às etapas e aos eventos que acompanham a aproximação à experiência e divinização da humanidade de Jesus, ou seja, ao nosso mesmo processo que Jesus antecipou na sua pessoa. Chegar a ele e com ele, e, sobretudo, estar nele passa pelo escândalo da cruz que nem o evento tão importante como a transfiguração consegue diminuir ou amenizar.
Pelo contrario, o evangelho de Lucas, depois de ter relatado o mesmo evento, frisa “Então ele- Jesus- tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”(Lc 9,51). A transfiguração confirmou o caminho que já havia discernido nas tentações. O incentiva e motiva entrar diretamente no desconcerto com a certeza de que ele faz parte do processo da ressurreição.

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