1ª leitura Ex 17,3-7
“Por que nos fizeste sair do Egito?” Pergunta altamente dramática do povo, que questiona o agir tudo de Deus. Assim, a libertação da escravidão do Egito, o pacto da Aliança no Sinai, rumo a realização da Promessa da terra prometida onde haverá “leite e mel”, estão se mostrando como um engano, uma trágica ilusão, à luz do momento específico da falta de água no deserto.
A conclusão imediata do povo é que foi uma tolice. Daí o constrangimento e o susto de Moises “Que farei por este povo? Por pouco não me apedrejam!”. Com efeito, há momentos e circunstâncias da vida pessoal e social que motivam a mesma pergunta: por que tudo isso? O que está acontecendo nada tem a ver com os pressupostos anteriores e o seu desenvolvimento! Mai ainda, parece que a atualidade é negação deles e da caminhada feita. Será que foi ilusão. Será que Deus me (nos) abandonou? “O Senhor está no meio de nós, ou não”
Esta experiência é comum a muitos místicos que no caminho de aproximação a Deus experimentam todo do contrário daquilo que de tal processo é licito esperar. Sentem em si mesmo a falta de algo vital para a própria existência, ao ponto de duvidar se realmente estão no caminho certo ou no desvio, devido a um não sei que de involuntário que aconteceu muito além da própria intencionalidade, mas que de fato está criando e motiva a situação na qual eles estão.
Nestas circunstâncias tudo indica que Deus está renegando sua promessa. O desconcerto e o abalo são de tal magnitude que mexe com todo o ser da pessoa. São momentos humanamente terríveis, como o seria a falta de água no deserto. Cada pessoa pode imaginar a alcance desta experiência. Contudo, quando ela acontece, sempre a encontra não preparada e inadequada em sustentá-la devidamente.
A atitude primeira deverá ser a de Moises “Moises clamou ao Senhor”: interpelar diretamente o Senhor mesmo : Que fazer? A resposta só ele tem condição de oferecê-la.
Deus lembra a Moises o gesto prodigioso da divisão das águas no mar vermelho, como para dizer que a resposta terá uma saída inesperada, como foi então “Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai” e manda cumprir um gesto surpreendente “Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber”. E assim foi.
Cabe perguntar o porquê desta maneira de Deus agir. O que pretendia conseguir, comprovar, afirmar com esta sua atitude? Mais ainda, sabendo da fraqueza e da inconsistência do povo que libertou do Egito?
Uma resposta possível seria que o povo tomasse consciência da pouca consistência da confiança no Deus libertador, do Deus da Aliança e do Deus da Promessa, os três aspetos sobre os quais apóia ao correto relacionamento com Ele. Daí tomasse ciência da certeza de Deus como Senhor da historia e presente na caminhada do seu meio de toda dificuldade.
Com isso, afirmar a sua realidade como o Senhor fiel, que mantém a promessa feita aos pais. Promessa na qual sempre devem confiar e que situações como aquela que acabam de passar é oportunidade para comprovar como esta certeza esmorece se não prestam ou tomam as devidas providencias.
É a mesma lógica e advertência da segunda leitura.
2da leitura Rm 5,1-2.5-8
“Justificados pela fé”. Eis a famosa afirmação revolucionária de são Paulo. Somos constituídos justos perante de Deus “estamos em paz com Deus”, pelo nosso representante e mediador o “Senhor nosso Jesus Cristo”. É a afirmação central de todo o Novo Testamento, que revolucionou o entendimento sobre o cumprimento da missão de Jesus.
“Por ele- Jesus Cristo- tivemos acesso, pela fé, a esta graça”. O dom gratuito da justificação, realizado pela morte e ressurreição de Cristo, se torna eficaz na pessoa “pela fé”, pelo voto de confiança no doador e por aceitá-lo atuante e eficaz em nós, aqui e agora. Prova disso é se perceber, profundamente amados por um amor imerecido, desconcertante e surpreendente. O efeito é se sentir transformado e renovado interiormente, em paz com Deus e com todos. É o que Paulo chama de “nova criatura”.
É por esta “graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos” que sustenta e motiva a esperança futura, a “esperança da glória de Deus que (...) não decepciona”. É a esperança de que, com a implantação última e definitiva do reino de Deus com a volta do Ressuscitado, participaremos em forma plena da vida da Trindade pela qual “Deus será tudo em todos”(1Cor 15,28).
A causa disso é “porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. É o Espírito Santo, o Deus- Amor o Deus- Vida, que conduz Jesus até a entrega da própria vida na cruz “a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”.
É o amor conformado pela certeza e paixão pela verdade com respeito ao caminho indicado no desenvolvimento da missão. Caminho, que por um lado mexe com a vida pessoal e social já consolidada, abala a fé no Deus tradicionalmente elaborada e determinada nos seu por menores. Pelo outro lado, não hà outro caminho possível, não hà alternativa.
Este amor, conformado pela certeza, é selado e aprovado pela ação do Espírito Santo. Sua realização concreta se desenvolve na total gratuidade, que lhe confere o que é próprio do amor: a ação radicalmente desinteressada, sem vestígio de segundas intenções e totalmente orientada a favor dos homens.
Ela ressalta ainda mais quando estes não têm a menor condição de perceber algo do que está acontecendo a favor “ quando éramos ainda fracos,Cristo morreu pelos ímpios (...) a prova que deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. Portanto, não tinham condição nenhuma de entender e menos ainda de responder positivamente, ainda seja parcialmente.
Assim, a Amor puro, como aquele desenvolvido na total gratuidade, sustenta positivamente a tremenda experiência de solidão de Jesus. Os evangelhos relatam como ele a enfrenta com determinação e coragem, manifestando surpreendentemente equilíbrio humano, psicológico, moral e espiritual, pela presença do amor puro, ou seja, o Espírito santo.
Esta atitude está no fundo do relacionamento de Jesus com a samaritana, como o evangelho relata.
Evangelho Jo 4,5-42
É o diálogo entre dois pontos extremos. Por um lado o Messias, o filho de Deus, e pelo outro um sujeito com três prerrogativas que pioram as coisas: mulher, samaritana e pecadora. Mais ainda, em público. A reação dos discípulos é significativa “os discípulos ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher”.
A mulher manifesta seu preconceito religioso “Como é que tu, sendo judeu, pedes a beber a mim, que sou mulher samaritana?”. Jesus deixa cair a provocação e suscita a investigação da mulher e a perplexidade dela com respeito à sua identidade “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede”.
Não consigo discernir se a afirmação da mulher, a conclusão da conversa sobre a água, “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tinha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” seja uma resposta de conveniência, de ironia, de curiosidade ou a abertura interior para um novo entendimento.
De toda maneira é Jesus que provoca o passo seguinte “Vai chamar teu marido e volta aqui”, pelo qual ela descobre em Jesus um profeta: “Senhor, vejo que és um profeta”. Portanto, coloca para ele um assunto muito debatido, e só um profeta poderia responder corretamente “Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”.
A resposta de Jesus “... Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura” centraliza o lugar do culto na pessoa e tem como sua correta expressão a atitude interior. A adoração do Pai "em espírito e verdade” não é um culto que rejeita a manifestação pública e exterior, mas o culto que se desenvolve sob o impulso do Espírito e na verdade de Jesus e que faz da pessoa o verdadeiro testemunha da ação e presença de Deus, em continuação da missão de Cristo.
A resposta de Jesus abre um novo horizonte e sustenta uma perspectiva renovadora, capaz de sair do beco sem saída. Ela suscitou na mulher a consideração de que, tal vez, este desconhecido judeu, possa ter a ver alguma coisa com o Cristo “Sei que o Messias vai chegar”. E, conseguintemente, manifesta a expectativa com respeito ao específico contributo do mesmo “Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas”.
Motivo suficiente para que Jesus abra o jogo, e revele abertamente sua identidade “Sou eu, que estou falando contigo”. O impacto foi muito grande, com certeza ela não esperava colocação alguma dste tipo.A reacao dela è muito significativa "A mulher deixou o cântaro e foi à cidade dizendo ao povo”. Tomada por uma intuição singular, quase certeza, foi proclamando “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?”. Contudo, o testemunho dela, com respeito à condição profética de Jesus, foi suficientemente forte para atrair a atenção do povo sobre a pessoa de Jesus “Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus por causa da palavra da mulher que testemunhava: Ele me disse tudo o que fiz”.
Foi o passo intermédio para chegar ao ponto final: a conversão e a adesão a Cristo “E disseram a mulher: Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo”.
Enorme a distancia entre o momento inicial e o final do relato. Ele indica o caminho e o processo de conversão. Sem entrar em maiores considerações, contrasta tudo isso com a atitude e o dialogo de Jesus com os discípulos. Estes ficam totalmente à margem do processo, pois, não entendem nada do que está acontecendo.
Mas também o dialogo manifesta que para eles o caminho de conversão tem outras mediações, outro conteúdo, outro caminho.
segunda-feira, 21 de março de 2011
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