sábado, 2 de abril de 2011

5to DOMINGO DA QUARESMA-A-(10-04-11)



.1ª leitura Ez 37, 12-14


Os hebreus exilados se entregaram ao pessimismo, e corre entre eles um ditado: “Nossos ossos se ressecaram; nossa esperança se extinguiu”. Não é difícil imaginar o estado de animo. Reza o salmo 136 “que os opressores (...) os guardas exigiam alegria na tristeza: Cantai hoje para nós algum canto de Sião! Como havemos de cantar os cantos do Senhor em terra estrangeira? Se de ti, Jerusalém, algum dia me esquecer, que se resseque a minha mão. Que se cole a língua e se prenda ao céu da boca, se de ti não me lembrar” (3-6). Para eles o exílio é como um túmulo. Eis, então, a palavra do Senhor “vou abrir a vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel”. Promessa de resgate que enche de alegria e motiva acreditar num futuro bem diferente. Desta maneira o passado fica atrás, no passado, como memória do que comporta e significa se afastar de Deus, para que as gerações futuras se afastem dos mesmos erros dos antepassados. “Porei em vós o meu espírito, para que vivais e vos colocarei na vossa terra”. O Senhor infundirá o espírito da vida, como foi na criação do Adão, soprando no barro se tronou um ser vivente. Será como uma nova criação. É o agir da compaixão e da misericórdia do Senhor, do amor dele para com o seu povo, um povo rebelde, de cabeça dura, mas, enfim, sempre o povo dele, com o qual estreitou uma aliança indestrutível. Viver não é só regatar a existência da pessoa, mas entrar de novo na terra prometida “vos colocarei na vossa terra”, a terra que o Senhor deu aos antepassados, para a edificação do povo da aliança tendo como eixo da vida pessoal e comunitária o direito e a justiça. Reconduzir o povo à sua dignidade de povo de Deus, de povo eleito, visa realizar o sonho de Deus a favor da humanidade em sintonia com o mandamento do amor e a prática de vida correspondente, para que o povo não volte mais à escravidão do Egito implantada na terra prometida e da qual Deus pretendeu purificar com a deportação e o exílio. O provo deve entender que longe de Deus não haverá salvação nenhuma. Pelo contrário, seguir os próprios projetos, confiar simplesmente nos critérios e nas forças humanas, estabelecer alianças entre povos baseados na conveniência e nos interesses das classes dominantes, usarem da mesma religião par garantir privilégios que nada tem a ver com o respeito da Aliança, ser causa de opressão e injustiça para os menos favorecidos é muito ruim no mais profundo sentido do termo. Assim, entender e valorizar esta ação da misericórdia e da compaixão do Senhor que ressuscita a pessoa e introduz, de novo, o povo na terra prometida, deverá ter a sua manifestação na prática de vida tentada pela ação do Espírito Santo, como indica a segunda leitura.

2ª leitura Rm 8,8-11


O texto aponta ao trunfo do Espírito na pessoa, a pesar dos limites e da fraqueza dela. Com efeito, ela é marcada pela luta interior entre duas propostas contrapostas e irredutíveis, que geram o conflito, a luta, que a levará até as extremas conseqüências, como foi por Jesus Cristo. “Vós não viveis segundo a carne”, ou seja, como quem tornou inconsistente, superficial e interesseiro o relacionamento com Deus. Por “carne” Paulo entende tudo o que é obstáculo e não condiz com a vontade de Deus. É o homem afastado de Deus, o homem pecador. Daí que “Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus”. A proposta e a sedução alternativa à vontade de Deus, que faz da pessoa uma realidade carnal, gera profundas feridas na pessoa. A conseqüência disso Paulo aponta a um “corpo ferido de morte por causa do pecado”, indicando a condição dramática no limite entre vida e morte. “Vós (...) viveis (...) segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós”. Paulo retoma o sentido da primeira leitura “Porei em vós o meu espírito, para que vivais”. Mas acrescenta uma condicão: se o Espírito mora em vós. Não coloca em dúvida a presença, mas se esta presença é valorizada, interiorizada, cultivada, aprofundada. Entre o espírito que mora e cada pessoa e o Espírito de Deus, é preciso manter aberta a constante comunicação, como uma torneira sempre aberta. Mas a pessoa tem condição de fechá-la, então a presença do Espírito se torna passiva. Deus é Amor e, portanto, ele se manifesta e se torna possível na comunicação recíproca. É Cristo a mediação desta comunicação “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo”. Cristo e o Espírito são as duas mãos de Deus. “Pertencer a Cristo” é aquela condição pela qual não simplesmente um se identifica com o outro, mas um se percebe no outro, como dois namoradões : eu nele e ele em mim. É neste nível, é nessa condição que a luta tem possibilidade de sucesso “embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça”. Estas palavras abrem um entendimento singular com respeito à condição humana de cada pessoa. Por um lado ela é ferida de morte e pelo outro é cheia de vida, pelo fato que com a morte e ressurreição Cristo, a pessoa aceita o dom gratuito da justificação perante De Deus. Com outras palavras, Deus a redime, a resgata e coloca nela uma nova vida, um novo caminho, uma nova esperança, com respeito ao futuro dela. Como entender a singular combinação do corpo ferido de morte e ao mesmo tempo cheio de vida? No entendimento comum se excluem, uma ou outra. Tal vez, uma imagem é o mesmo Jesus Cristo ressuscitado que mantém as feridas no corpo, bem participando o corpo mesmo de uma vida indestrutível. O poder mortal daquelas feridas foi esvaziado, elas manifestam a realidade de uma vida singular que ultrapassa a simples condição humana. Uma combinação sem dúvida fora do comum. E de fato, Paulo faz referencia à ressurreição “O Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos (...) vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós”. O corpo permanece mortal, mas a mortalidade não será a última realidade dele. Pois, contem a vitória sobre a morte, embora tenha que passar por ela. É uma ressurreição mortal, se é permitido usar esta contradição, que atinge a pessoa de Lázaro, como indica o evangelho.

Evangelho Jo 11, 1-45

Senhor, aquele que amas está doente... Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro”. Significativa esta específica anotação, pois oferece o pano de fundo da qualidade do relacionamento entre Jesus e eles marcado pelo afeto, pelo carinho, pelo sentimento de amizade. Amizade surgida pela atitude de Jesus que tocou profundamente Maria, pois, o evangelista relata “Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume e enxugara os pés dele com seus cabelos”. Cabe destacar o sentimento de Jesus perante a morte do amigo. O texto frisa que “ficou profundamente comovido (...) e chorou”. A emoção foi tão intensa que os judeus comentavam “Vede como ele o amava”. É singular o fato que Jesus ia ressuscitar a Lázaro daí a pouco e, contudo, participa da morte dele com grande emoção e sentimento, como cada pessoa perante a morte do ser querido. É manifesto, portanto, a abrangência da humanidade da morte, perante o evento da ressurreição. Com outras palavras, dois contrários que, no horizonte desta vida humana, convivem juntos no respeito radical da própria autonomia: a morte como morte e a ressurreição como ressurreição. Não há diminuição do valor nem redução de sentido de uma ou da outra. Jesus fala para Marta “Teu irmão ressuscitará”, ela responde como se já soubesse “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. Com efeito, a tradição sustentava a ressurreição com a finalidade de permitir que à Lei alcançasse toda pessoa, também, após a morte e assim ninguém pensasse fugir das exigências e cumprimento da mesma. Jesus ultrapassa tudo isso e oferece uma compreensão totalmente nova do evento da ressurreição “Eu são a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?”. Nele se dá o evento, pois, ele mesmo se torna ressuscitado, pelo específico do seu estilo de vida. Com outras palavras. Na vitoriosa luta contra o mal, não ter sucumbido à força e ao poder do pecado e seus efeitos de morte, se manifesta o bem, a comunhão com Deus, a vida em plenitude, ou seja, ressurreição. Assim que ele mesmo é a ressurreição, não é outra realidade exterior a ele que, num determinado momento, após a morte irrompe nele e o transforma. É a força e a realidade intrínseca dele, devida à presença do Espírito e da sintonia com a vontade do Pai. Com uma palavra, é a vivencia do Amor na sua forma mais completa e abrangente que se impõe, derrota o mal, o pecado e a mesma morte. Com efeito, o amor pelo qual o Pai entrega o Filho, é o amor do Filho pelo qual se entrega à vontade do Pai, é o mesmo Amor do Espírito Santo que resgata, purifica e santifica a humanidade e faz que o Pai seja Pai, o Filho ser Filho e a ele mesmo - o Espírito Santo- ser o evento da ressurreição na pessoa do de Jesus pela vontade do Pai. A ressurreição é o triunfo do amor da Trindade. Sendo Jesus o nosso representante na Trindade, o que aconteceu nele está acontecendo objetivamente em nós, pois, ele age como se fosse eu mesmo. Todo o meu eu assume ele. A sua luta é a minha. A sua vitória é a minha. A sua morte é a minha. A sua ressurreição é a minha. Eis, então, a “vida nova” que irrompe em mim. Acreditar nele -“Quem crê em mim” é enxergar e assumir esta verdade e vivenciar na pratica de vida, no dia- a - dia, o que já ele ganhou por mim “E todo aquele que vive e crê em mim”. A sua luta, a sua missão o seu destino é o meu. Eis, então a síntese de tudo isso nas palavras de Paulo “se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhante a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). Então, haverá o comprimento último e definitivo das palavras da primeira leitura “ Porei em vós o meu espírito, para que vivais - em plenitude- e vos colocarei em vossa terra - esta mesma terra transformada em céu”.

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