terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

2do DOMINGO DA QUARESMA -B-(04-03-12)

1ª leitura Gn 22,1-2.9ª.10-13.15-18

“Deus pôs Abraão à prova”. O motivo é destacar o agir dele “uma vez que agiste deste modo”, pois, é revelador da consistência e a qualidade do ser. É conhecido o axioma, o conhecimento comum a todos: a maneira de agir revela a realidade do ser.

A pessoa de Abraão tem relevância a partir do dom de Deus para com ele. Entrando no relacionamento com Deus pelo dom, a vida dele é ligada à promessa de torná-lo pai de um povo numeroso “como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar”. Ele e a esposa são idosos e estéreis , sem nenhuma condição humana razoável de sair daquela condição, .

Abraão acreditou no dom e na promessa. Por fim, depois do largo tempo de espera, no qual renova sua confiança na promessa, chega o filho. E agora Deus o chama à sua presença à qual responde “Aqui estou”, pronto e disponível, como sempre.

Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá, e oferece-o aí em holocausto sobre o monte que eu te indicar”. No momento não há registro de palavra ou de sentimento algum por parte de Abraão.

Contudo, os possíveis sentimentos e perplexidade humanos perante o pedido, que desmancha o desenvolvimento da geração e suprime a promessa, são integrados dentro da consideração que manifesta na resposta ao filho, que pergunta sobre o cordeiro para o sacrifício ignorando ser ele esmo o cordeiro destinado para tal: “ Deus providenciará”.

Com isso Deus quer manifestar aos homens descendentes de Abraão, ou seja, a todas as gerações futuras, como manter o correto relacionamento com ele. O que dá vida a Abraão é o dom do filho e a promessa. Pois bem, este dom deve ser mantido como tal. Recebendo o dom, não deve se tornar propriedade, posse e domínio de quem o recebeu. E também a promessa deve ficar de pé na consciência e expectativa do mesmo.

Tudo isso se concretiza na atitude de devolver o dom, muito amado e muito querido por Abraão, do qual mantém íntegra a realidade e a consistência exatamente por devolvê-lo. Com isso Deus é respeitado pelo que é: O Senhor da Vida. E Abraão o envolvido nela e caminho à plenitude dela.

Desta forma é configurada em Abraão a personalidade do temente de Deus. Dirá Deus por meio do anjo “Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”, o filho da promessa.

Em Abraão o temor de Deus toma consistência e força poderosa pelo duplo movimento. Por um lado a atitude de Deus para com Abraão, chamando-o a uma missão humanamente impossível, o resgata da vida estéril, infeliz, sem futuro na descendência e destinada a terminar na insignificância. Por outro lado, Abraão percebendo na atitude de Deus para com ele a fidelidade no cumprimento da promessa com o dom do filho, fruto da eleição gratuita e desconcertante, percebeu -o que dirá séculos depois Santiago- ser tornado “amigo de Deus” (Tg 2,23), ao ponto tal de proceder como lhe foi pedido, indo além do sacrifício que do ponto vista humano a circunstância deixa intuir com clareza e profundidade.

Só o amor intrínseco nesta amizade pode sustentar a obediência “Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste”. É a obediência no amor, por amor e com amor.

É a mesma realidade que Paulo frisa na segunda leitura.

2da leitura Rm 8, 31b-34

A descendência abençoada à qual se refere a primeira leitura é não é racial, mas de todos aqueles que estabeleceram e estabelecerão o mesmo relacionamento de Abraão com Deus.

Para eles há motivo e condição maiores, mais fortes e consistentes, dos motivos e condições de Abraão. Pois, Deus se determina de uma vez para sempre ao lado da humanidade. Estará sempre ao lado dela. Portanto, “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Presença firme e forte que nenhuma força contrária e adversa poderá vencer ou desmanchar.

A causa está em Deus mesmo “que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós”. Paulo, tendo entendido o motivo e os efeitos daquela entrega, pela experiência que teve entrando em Damasco, que desencadeou a conversão dele, conclui: “como não nos daria tudo junto com ele?”.

O amor, pelo qual o Pai entrega o Filho, é o mesmo amor do Filho que aceita ser entregue, é o Espírito Santo torna eficaz e ativa a entrega, é o que introduz a pessoa de Jesus Ressuscitado “à direita de Deus, intercedendo por nós”.

Nesta sólida convicção, toma ciência do papel de mediador e representante de Jesus a favor dele e da humanidade toda. Daí as alegações em forma de pergunta “Quem acusará os escolhidos por Deus? Deus, que os declara justos? Quem condenará? Jesus Cristo, que morreu, mais ainda que ressuscitou?”.

De fato, em Deus toda a humanidade de todos os tempos já está redimida. Ela é radicalmente escolhia por Deus e declarada justa, na pessoa e pela ação do Filho culminada na Páscoa. Agora Deus olha para ela com outros olhos, pois os fixando no Filho vê a humanidade resgatada e redimida. Ele quer ver através os efeitos da ação do Filho.

É o que também os homens deveriam fazer. Olhar à própria condição com os olhos de Deus, uma vez que acredita nessa nova condição oferecida permanentemente pelo Filho e capaz ultrapassar e desmanchar neles os contínuos limites e fraquezas, em consideração do dom, cujos efeitos se fazem presente continuamente na memória, que ele comandou celebrar até o fim dos tempos.

O conteúdo primeiro da fé e ponto de partida da vida renovada é exatamente este: Acreditar e assumir a nova visão de si mesmo, como fruto do dom de Deus oferecido pelo Filho.

A obediência a Deus que a pessoa lhe deve , não é uma carga gravosa, um dever a ser forçadamente, mas, a aceitação deste dom , a gratuidade do amor Dele. Acreditar nele coloca a pessoa e a humanidade entre os descendentes de Abraão, os redimidos pela obediência cheia de amor e de agradecimento pelo dom imerecido, que aceito se torna força transformadora e renovadora de toda a pessoa, inclusive nas repetidas fraquezas que acompanha a existência de todos aos dias.

A teimosia do amor vence o que humanamente parece insuperável e impossível, como a geração de um ser humano em idosos, como foi para Abraão e Sara; como a firmeza na demora no cumprimento dela; como a resistência e decepção em devolver o dom da vida a favor da humanidade toda, como foi para Abraão e Jesus.

Tudo isso Jesus caracteriza o momento marcante da transfiguração, como relata o evangelho

Evangelho Mc 9,2-10

“Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha” São os mesmos três que Jesus chamará consigo para rezar na quinta feira-santa, no jardim das oliveiras. Detalhe muito significativo. A alta montanha é o lugar da experiência de Deus. É na montanha no Sinai que Deus se manifestou a Moisés e estabeleceu a Aliança.

E transfigurou-se diante deles”. É o surpreendente evento pelo qual Jesus revela sua profunda realidade e, com ela, a presença do Espírito Santo: “desceu uma nuvem que os encobriu com sua sombra” e a vontade do Pai: “Este é meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”.

Dizendo que na transfiguração “Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” indica o evento como algo que transcende os limites da condição humana. O humano é como que envolvido e preenchido da glória divina. Portanto, a transfiguração é como antecipação e garantia da ressurreição.

É neste contexto de luz e de glória que “Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus”. O evangelho de Lucas afirma que “conversavam sobre a morte, que Jesus ia sofrer em Jerusalém” ( Lc 9,31). De fato, as palavras do Pai, tomadas do primeiro cântico do Servo do profeta Isaías, apontam para figura do Servo sofredor cuja entrega resgata a vida do povo do pecado e da escravidão.

Considerando que Elias representa os profetas, cuja missão era chamar o povo ao respeito da Aliança, e Moisés à Lei - a constituição do povo - e que depois os dois desaparecem e Jesus fica sozinho, cabem duas considerações de grande importância.

A primeira que Jesus será simultaneamente a nova Lei e o profeta. O passado já passou, vai começar uma nova era, tudo vai ser como transfigurado e manifestando de maneira surpreendente a glória de deus, que ninguém teria condição de pensar nem de manifestar.

A segunda consideração é que a mexida, o remanejamento, a transformação que Jesus está realizando com sua atividade pastoral em continuidade e fidelidade com o passado, provável matéria de conversa com Elias e Moises, o levará a morte na cruz como maldito de Deus aos olhos dos homens. Contudo, se manifestará e a glória de Deus já presente e na qual estão envolvidos.

Os apóstolos “estavam todos com muito medo”. Com certeza o evento os surpreendeu, pois, não estavam preparados para entender o significado e o alcance do mesmo. Portanto, “Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”.

Tê-los chamados a participar do evento da transfiguração os ajudará entender o grande evento da Ressurreição. Para eles foi uma experiência inesquecível, pois, os quatro evangelhos a relatam e o mesmo Pedro se lembrará dela na sua carta. Esta manifestação é antecipação da ressurreição, pois, manifesta não só a realidade de Jesus como Deus, mas o destino da própria natureza humana e, com ela, o destino de todo homem e de toda obra criada por Deus.

Pelo medo e desconcerto a reação de Pedro é aquela de ficar aí “Mestre é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: Uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pois, na glória de Deus, sustentada pela presença dos três, há segurança e todo aquilo que o ser humano pode desejar. Se Jesus tivesse concordado com o pedido de Pedro, teria fracassado em sua missão. Paradoxalmente Pedro desenvolve o papel do tentador, do demônio.

Na redação do evangelho, na visão retrospectiva ao evento da ressurreição, o autor lembrará que aquele pedido foi fruto do medo e desconcerto “Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo”.

Há um contraste muito significativo entre a atitude de Abraão e a dos apóstolos. Estes últimos não tinham alcançado ainda aquela amizade com Deus que foi de Abraão. A alcançarão depois do evento pascal. Evento no qual já nos estamos mergulhados. Então cabe a pergunta: como está nossa amizade com Deus?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

1ro DOMINGO DA QUARESMA . B . 26/02/12

1ª leitura Gn 9,8-15

Deus ficou muito abalado com o evento do dilúvio, ao ponto que determinou “nunca mais nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra”.

Como garantia e segurança que não vai acontecer estabelece a Aliança: “Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência”. Portanto, se acontecer uma desgraça, um dilúvio, que envolve a terra toda, como foi no relato bíblico, não é por vontade de Deus, mas dos homens.

Com efeito, é um evento que pode acontecer. Os homens têm em suas mãos elementos para que suceda. Só pensar na energia atômica, nas armas bacteriológicas, no desrespeito à natureza, na especulação da financia que aumenta o abismo entre ricos e pobres, são todas potencialidades que não bem administradas podem levar a uma catástrofe mundial. Se tiver, por exemplo, uma guerra nuclear haverá só quem morre primeiro e quem depois, não haverá salvação pera ninguém.

Para evitar a catástrofe mundial é preciso tomar a sério a Aliança. Deus coloca um sinal na natureza mesma, um sinal que sempre suscita admiração e estupor pela sua beleza “Quando eu reunir as nuvens sobre a terra aparecerá meu arco nas nuvens”.

Com as nuvens a ameaça vai chegando. Elas são alerta, antecipo, de algo que pode se tornar um dilúvio. Portanto elas - ameaças de guerras, de violência, de destruição – são chamadas de atenção para os homens meditarem e refletirem, para que não permitam a tempestade da violência e da morte, assim como a destruição do dilúvio que arrasa tudo e todos.

Deus concede que de longe enxerguem o arco Iris, para que dirigindo o olhar a ele e se deixando inspirar, neutralizem o perigo e evitem o pior, que a tragédia aconteça. O arco é a combinação dos elementos do céu e da terra.

Assim, a Aliança entre Deus e o seu povo, cujo resultado é o afastamento do perigo por um lado, e o estupor, a maravilha, da realidade da terra enxergada sob uma nova luz, percebida como refeita e regenerada.

Continuamente, cada vez que se faz referencia a ela, a mesma realidade se renova. E’ a mesma realidade geográfica, ambiental e natural, contudo, cada vez assume nova conotação, que alegra a alma com sentimentos de harmonia renovada, de paz e segurança, na certeza da vitória do bem sobre o ruim. É fundamental a referencia a Aliança pera ser construtores da paz.

“Então em me lembrarei de minha aliança convosco”. Não é que Deus se tinha esquecido ou desviado dela. Para a bíblia lembrar é sinônimo de atualizar E’ a determinação de fazer acontecer o que é próprio dele com respeito ao conteúdo do pacto, da Aliança. É expressão da fidelidade de Deus , pois, vai cumprir o que prometeu.

Assim, guardar a Aliança é entrar simultânea e conjuntamente no único horizonte de Deus e do homem. E’ assumir o mesmo projeto de vida, a mesma meta. E’ o próprio da condição matrimonial: Ele em mim, e eu Nele, caminha os dois juntos, como de mãos dadas.

Portanto a historia do povo no Antigo Testamento é a historia das alianças. É, também a historia da fidelidade de Deus, e da teimosia dele em renová-la cada vez que precisasse em contraposição à infidelidade do povo, sempre com um pé atrás.

O povo trai e volta, se afasta e volta.dos homens, até que Deus determina implantar a nova e terna Aliança por meio di Filho, com e vento pascal ao qual se refere a segunda leitura.

2da leitura 1 Pd 3,18-22

Deus se lembrou da Aliança e da promessa e as atualizou de maneira nova e eterna, através do Filho “Cristo morreu (...) a fim de nos conduzir a Deus”. O broche de ouro que a selou definitivamente foi o evento da Páscoa. Nele “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, (...). Sofreu a morte, na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito”.

Não há palavras suficientes para dar conta da riqueza de Deus contida neste evento e oferecida à humanidade de todo tempo: presente, futuro e passado. Com efeito, o evento acontecido mais o menos faz dois mil anos, tem força retroativa, pois, Pedro afirma “No Espírito. Ele foi também pregar aos espíritos na prisão, a saber, aos que foram desobedientes antigamente”.Também no Credo ser reza “desceu à mansão dos mortos”, significando que Jesus morreu, entro na morte como todo ser humano e participa da realidade dos mortos.

Na concepção bíblica o lugar dos mortos é o lugar da escuridão e da poeira. A vida dos mortos é como a de uma sombra, uma realidade diminuída. Eles são como “espíritos na prisão, (...) ” comparados com a vida na terra. Entrando na morte Jesus os alcançou para pregar a salvação “aos que foram desobedientes antigamente (...) nos dias em que Noé construía a arca”, incluídos Adão e Eva.

No designo de Deus, o evento pascal é o eixo, o começo e o fim da historia, da criação e de cada pessoa. Ele é a nova e eterna aliança. A atualização dele nos sacramentos, especialmente na Missa, não é simples repetição, mas atualização dos efeitos daquele evento, novidade do amor que se faz presente e eficaz na circunstancia. Pelo evento se experimenta a passagem da morte a vida, por Jesus ser mediador e representante de todos perante o Pai.

A Aliança é eterna, nunca verá menos por parte de Deus. Sua implantação e permanente atualização constituem o salto qualitativo do relacionamento de Deus para com a pessoa e a humanidade. A eternidade do amor de Deus se faz presente em cada momento e faz mergulhar a pessoa cada vez mais na profundidade, amplitude no oceano do mistério de Deus.

A Aliança é o âmbito da salvação. A arca de Noé é símbolo da Aliança, pois, quem entra nela e caminha na tempestade da vida se mantendo nela com confiança e determinação, experimentará a salvação no presente, assim como a chegada à nova criação.

Na atualidade “À arca corresponde o batismo, que hoje é a vossa salvação”. Pedro especifica como o batismo “é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo”. Com efeito, a conscientização é dom do Espírito Santo, o mestre interior, que convence da atualização dos efeitos da Páscoa de Cristo, e segura a esperança da participação no Reino com a volta do Ressuscitado.

“Ele subiu aos céus e está à direita de Deus”. Pelo batismo já estamos sentados com Ele à direita de Deus. Já estamos lá, em virtude do especial relacionamento pela fé temos nele. A vida neste mundo é boa realidade que declina esta verdade.

O evangelho, a boa noticia, que anuncia Jesus é esta. Ele indica o caminho e as condições para que se torne boa realidade. É o que indica Jesus desde o começo de sua missão, como relata o evangelho.

Evangelho, Mc 1,12-15

Depois do batismo no Jordão, no qual Jesus se solidariza com os pecadores e toma consciência de sua atuação em sintonia com o Servo de Yavé do profeta Isaias, o Espírito “levou Jesus ao deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam”.

Parece-me que mais o evangelista oferece o pano de fundo do ambiente e dos personagens que configuram o evento da missão. O Espírito levou Jesus para o deserto. Ele o introduziu no mundo e agora o leva no meio do povo. O povo. Por causa do pecado se tornou um deserto, o contrário do Éden no qual Deus o colocou no começo da criação.

O deserto é solidão e Jesus a experimentará na forma mais radical. Ele permanece no deserto quarenta dias, ou seja, um tempo demorado, o necessário para levar ao cumprimento a missão; praticamente a vida toda. E’ também o lugar da Aliança, do dom da Lei, do processo de purificação e do encontro com Deus, rumo à terra prometida. Tudo isso acontece com Jesus.

Neste povo “ vive entre os animais selvagens e os anjos o serviam”,pois, por um lado estão os homens que se tornaram como “animais selvagens” por serem como lobos para outro homens na pratica da corrupção, da especulação financeiras, diríamos hoje. Pelo outro é sustentada pelos mensageiros de Deus, os anjos, os que vivem em sintonia com a vontade do Pai.

“Depois que João Batista foi preso”. João está como fora do campo, já cumpriu o que devia. Ele é como colocado de lado, tal vez sem entender o por que, como manifesta o relato do envio, por parte dele, dos dois discípulos para perguntar a Jesus se ele verdadeiramente era o Messias.

Assim, “ Jesus foi para a Galiléia” - terra considerada, por parte dos judeus, como dos pagãos - para começar sua missão e expõe a característica, a exigência e ,assim, sintonizar com ela e sua finalidade “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”.

A característica é “o Reino de Deus está próximo”, não em sentido que está muito perto e, portanto, ainda tem que chegar, mas que já é presente. Com efeito, seguindo ele a boa noticia do evangelho se torna boa realidade, pois, por isso foi enviado O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor (...). Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 18-19.21).

A proximidade do reino é que chegou o momento favorável. O reino está acontecendo nele como ser humano e vai acontecer em todos aqueles que confiam nele o seguem. O tempo da espera chegou ao seu ponto final.

Ao tempo cronológico - passado presente e futuro- faltava a “plenitude do tempo”, o aspecto qualitativo. A Boa noticia é exatamente esta, tornar boa realidade cada minuto da própria vida: fazer do tempo cronológico o tempo favorável. Jesus como mestre e guia, oferecerá o necessário para que cada momento da existência se torne um evento favorável neste sentido. Desta forma o tempo cronológico se enche de eternidade.

Para atingir o objetivo pede aos destinatários a disposição específica de quem confia e se dispõe à novidade, sabendo que vai mexer radicalmente nas convicções religiosas e morais consolidadas pela tradição e sustentadas pelos mestres e autoridades do momento.

A exigência que põe é a confiança e a conversão: “Convertei-vos e crede”. A mudança é tão radical que não se trata de corrigir ou reformar o que já existe, é como sair do caminho costumeiro entrar em outro e proceder em direção contrária ao primeiro.

Dirá Jesus que não se trata de colocar um pano novo sobre in tecido velho, ou colocar vinho novo em odres velhos, porque seria pior. Trata-se de uma transformação radical de quem sabe refazer o velho em novo, de reinterpretar a lei de maneira tal que, aplicada corretamente, alcance o fim pelo qual foi promulgada.

Deus age de maneira contrária ao que eles pensavam. Como hoje, todos acreditam em Deus, mas cabe a pergunta: qual Deus? Ai esta, em primeiro termo o espaço, o âmbito da conversão.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

7o DOMINGO DO T.C.-B-(19-02-12)

1ª leitura Is 43,18-19.21-22.24b-25

É admirável o relacionamento de amor de Deus para com o seu povo, sobretudo, se comparado com a atitude de ingratidão e de indiferença do mesmo: “Sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não me lembrarei de teus pecados”. A causa da atitude de Deus é Ele mesmo, pois, o amor é constitutivo da essência e do agir dele. Ele é enquanto ama, fora disso não existe. Existe para amar.

Amar é querer o bem do outro, é ação visando Palavras, meios, atitudes que convergem para colocar o outro na condição de ser ele mesmo, um ser íntegro que, em virtude de tal condição, realiza plenamente si mesmo, imitando o que Deus está mostrando e fazendo a favor dele. O lema da paróquia de Santa Terezinha é “Amor atrai Amor”.

A dinâmica do amor não é mecânica e automática, que uma vez iniciada vai espontaneamente por si mesma. É escolha de todos os dias, às vezes muito corajosa. De fato, o amor para com o outro, nem sempre é entendido e aceito. A sintonia entre o dom, por um lado, e a expectativa pelo outro, nem sempre é bem entendida e sucedida. Isso provoca como um curto circuito.

É o que aconteceu entre o povo e Deus. Assim, o povo deixou de se interessar por Deus. O efeito foi o desgaste do relacionamento “tu, Jacó, não me invocaste, e tu, Israel, de mim te fadigaste. Com teus pecados, trataste-me como servo, cansando-me com tuas maldades”.

Entre os homens o curto circuito é causado por deficiências de uma parte ou outra, ou, também, de ambas. Não, assim, para com Deus. O defeito está no homem, no povo, que desvia a atenção de Deus, não escuta. Assim, o pecado vai se conformando e tomando consistência e força, construindo a barreira da desatenção, desinteresse, indiferença, desconfiança, que declinam na atitude de desprezo e maldade, como Deus mesmo reclama. Assim, o relacionamento se torna pesado.

Deus, defraudado e desiludido, teria motivo para deixar o povo entregue ao seu destino de autodestruição. Mas é tudo o contrario, é o amor que prevalece. O povo é obra de suas mãos “Este povo, eu o criei para mim, ele cantará meus louvores”. Ele o criou para a vida, para ter comunhão com ele, para participar da vida divina. O “para mim” não é domínio e possessão egocêntricos ou egoístas. É o espaço do amor, que inclui todos e tudo, na brincadeira do amor, no amor e por amor. Só assim o povo “cantará meus louvores”.

Os cantará em virtude do poder e força do amor de Deus, que oferece o perdão, apesar da insistência, da teimosia do povo em permanecer na atitude rebelde, que o coloca num beco sem saída, como quem está no deserto, sem rumo, sem água, cuja meta é a morte.

Pois, Deus por seu amor se faz presente “abrirei uma estrada no deserto, e farei correr rios na terra seca”. Acolhido com sinceridade, acreditar na promessa é condição para perceber a transformação, o surgir da nova realidade com respeito ao próprio ser, a própria pessoa.

Em primeiro lugar, o dom faz enxergar o novo que surge no próprio mundo interior. Como se um novo ser estivesse tomando consistência e crescendo em si mesmo. A transformação permite enxergar a realidade com os olhos de Deus e, de uma maneira inédita, surpreendente, sustenta e motiva o agir ativamente, conforme a ela. Portanto, o futuro de Deus se faz presente “Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?”.

O que está surgindo pela ação conjunta de Deus e da pessoa transformada requer especial atenção. Não é assim evidente, de imediato, como a irrupção de algo que, goste ou não, se impõe indiscutivelmente sobre todos os pontos de vista. Precisa, por assim dizer, de óculos especiais: os de Deus, que só a transformação interior coloca a disposição.Daí que Deus afirma “acaso não as reconheceis?”, como se dissesse : não estão vendo? Continuam desconfiados, distraídos ou desatentos?

Prova da nova condição da eficácia da transformação é “não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos”, não no sentido de não lembrar o que aconteceu, pois é impossível esquecer, mas que os efeitos negativos e destruidores do que aconteceu no passado são sepultados, ficam no passado, se tornaram ineficazes uma vez para sempre, não têm a força dominadora e impositiva de então, pois a nova vida prevalece, como a luz sobre a escuridão.

É o que Paulo experimenta e testemunha na segunda leitura.

2ª leitura 2 Cor 1,18-22

Paulo procura dissipar os mal-entendidos surgidos entre ele e os membros da comunidade. Estes o acusam de inconstância, deslealdade e ambiguidade “O ensinamento que vos transmitimos não é: sim-e-não”. Momento muito delicado, pois, está em jogo a condição que segura a confiança nele e, por conseguinte, a de ser ouvido e aceito como autêntico e verdadeiro transmissor do evento de Jesus Cristo.

Ele manifesta a transparência do seu ser e agir se apegando à fidelidade de Deus “Eu vos asseguro, pela fidelidade de Deus”. Como a fidelidade de Deus é certa e confiável, assim é a sinceridade e a transparência dele, na qual não há mentira, menos ainda ambiguidade. Podem confiar plenamente.

Ponto de referencia é Jesus Cristo “que nós (...) pregamos entre vós, nunca foi ‘sim-e-não’, mas somente ‘sim’”. Pela experiência, que começou na entrada na cidade de Damasco, do perdão e da misericórdia de Deus pela morte e ressurreição de Jesus Cristo, afirma “Com efeito, é nele que todas as promessas de Deus têm o seu ‘sim ’garantido”.

A teimosia de Deus em praticar o seu amor como expressão da Aliança contraída no Sinai e renovada, de forma mais radical, na morte e ressurreição do Filho, leva Paulo a se determinar de uma vez para sempre a favor da causa de Cristo, pela qual está dedicando inteiramente si mesmo e o seu agir. Ao “sim” de Deus, responde com o próprio “sim” sem outro objetivo que a glória de Deus “Por isso também, é por ele que dizemos ‘amém’- sim – a Deus, para sua glória”.

É tornar manifesta e evidente a glória de Deus no meio deles, a finalidade de sua adesão a Cristo e do seu falar e agir, que inspira e sustenta o seu “sim” sem ambiguidade e outros interesses que pudessem fazer dele uma pessoa de atitude duvidosa, insegura, ou pior, ambígua, em virtude de interesses pessoais ou simplesmente para fazer valer a própria condição ou autoridade.

Deve ter sido particularmente humilhante para Paulo esta manifesta desconfiança e polêmica atitude da comunidade para com ele. Por isso coloca para eles a comum participação na comunhão com Deus, pois, “É Deus quem nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos unge”, como para dizer que não há motivo para permanecer nesta atitude.

Mais ainda, que a comunhão com Deus é selada pela presença do Espírito no coração “Foi ele que nos marcou com o seu selo e nos adiantou como sinal o Espírito santo derramando em nossos corações”.

Esta intimidade e familiaridade com Deus, por meio do Filho, no Espírito Santo, de cada membro da comunidade é gerada pela fé, pela confiança na pessoa de Jesus e no cumprimento da promessa. Sem isso a pessoa fica como paralisada.

É o que mostra o evangelho.

Evangelho Mc 2,1-12

Jesus está num momento de grande sucesso pastoral “Logo se espalhou a notícia que estava em casa. E reuniram-se, ali, tantas pessoas, que não havia lugar, nem mesmo diante da porta”, pois, a fama dele já se espalhou por todas as partes.

“E Jesus anunciava-lhes a Palavra”. O motivo do sucesso era,também, porque ele ensinava com autoridade e surpreendia pela novidade e alternativa aos mestres da Lei, pois, eram eles que instruíam e ensinavam o caminho ao povo, com respeito ao correto relacionamento com Deus, em cumprimento às exigências da Aliança

O que Jesus ensina naquela circunstância não é dito explicitamente. Pode-se deduzi-lo pelo que acontece na continuação. Provavelmente trata-se do perdão de Deus. Em sintonia com a primeira leitura, pode-se supor que manifesta a chegada do Reino de Deus, na Palavra e no agir dele, por atualizar o perdão de Deus, para reerguer as pessoas à nova vida e começar, com ela, a nova ordem social.

Com certeza, deve ter impactado o pessoal de tal maneira que alguns acreditaram e levaram o paralítico perante Jesus, vencendo o muro humano que os separava.

Jesus percebeu a intenção e o mundo interior deles “Quando viu a fé daqueles homens”. Não era para testá-lo. É mais expressão da transformação interior e da esperança na promessa suscitada pela Palavra e pela pessoa dele. A autoridade dele e o estupor do que estava acontecendo neles, por tê-lo acolhido como Filho do Homem - Messias - e acreditado, os levou perante a Jesus.

Então Jesus viu a oportunidade para manifestar, pela Palavra e pela ação, sua real condição de Messias, que implanta o reino de Deus: “Filho, os teus pecados são perdoados”. Ninguém teria esperado uma saída deste tipo. Prova está na imediata reação dos Mestres da Lei presentes: “Ele está blasfemando: ninguém pode perdoar pecados, a não ser Deus”.

A reação é mais que motivada. Deus premia os cumpridores da Lei e castiga os transgressores com a doença, como o caso do paralitico. O arrependimento, voltar à observância da Lei e cumprir as disposições das autoridades com respeito a se tornar manifesta esta sua vontade, era certeza de Deus ter perdoado. Então, sim, haveria a certeza de que é obra de Deus. Um leigo - Jesus não tinha titulo nenhum – que não respeita a Lei, desconhecido, vem do norte – terra de pagão, só pode ser um doido, presumido e blasfemo. (Na eventualidade do milagre, a resposta será : ‘possui um demônio, é obra do demônio’).

Com sua afirmação Jesus destaca dois aspectos muito importantes para a nossa vida de discípulos:

a) A ligação entre pecado e paralisia. Com efeito, a desconfiança, o desinteresse, a indiferença, a superficialidade, o desprezo para com a Palavra e a promessa de Deus (não só intelectual, de pensamento, mas atitude prática, de comportamento de quem se aproveita para levar vantagem em prejuízo de outros) paralisam a vida e deixa a pessoa incapaz e impossibilitada de se erguer e caminhar. Isso é propriamente a raiz e o conteúdo do pecado: o errado e desconfiado posicionamento perante Deus, ( vê 1ª leitura).

b) Em segundo lugar, “os teus pecados estão perdoados” manifesta o que já aconteceu, não uma realidade que vai acontecer. Isto em virtude da transformação que a confiança na Palavra de Jesus operou e permitiu se perceber como um novo ser e a eventualidade de ser renovado e regenerado. Daí a determinação de se colocar perante dele com confiança. Haverá outros milagres e Jesus repetirá a mesma coisa, indicando à pessoa “tua fé te salvou”. Não aponta diretamente à sua pessoa e ao seu poder, mas à Palavra dele, acolhida e retida como verdadeira e eficaz, que levou a pessoa perante ele.

Jesus, em continuação, tornará visível para os presentes a verdade de sua missão e condição, completando a obra que a Palavra começou neles “para que saibais que o Filho do Homem tem na terra, poder de perdoar os pecados”.

A fé na Palavra é condição para que o perdão se torne eficaz no Batismo, na Reconciliação, na Eucaristia e na Unção dos enfermos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

6to DOMINGO DO T.C.-B- (12-02-12)

1ª leitura Lv 13,1-2.44-46

Legislação dramática, pois, a lepra do ponto de vista sanitário não tinha remédio, sua cura supunha um milagre. Portanto, “O homem atingido por este mal andará com vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: Impuro! Impuro!”. Não é difícil perceber o drama humano e social da pessoa e dos seus familiares pela doença e consequências tão cruéis “deve ficar isolado e morar fora do acampamento”.

A exclusão do leproso da comunidade equivalia à excomunhão, e podia ser readmitido só depois da cura, pois havia perigo do contagio. Era o sacerdote quem declarava a condição de leproso e o mesmo que o readmitia uma vez curado, previa o sacrifício de expiação do animal, pelo qual era admitido de novo no convívio social.

A categoria: “puro x impuro” era determinante na vivência religiosa do povo, discriminava quem ia participar, ou não, do reino de Deus, implantado definitivamente com a vinda do Messias.

Os escribas, os teólogos e os religiosos do tempo, haviam elaborado a minuciosa e extensa legislação com respeito ao que era puro ou não, ao ponto tal que a observância de tais normas tornava impossível a vida do povo em geral. Só uma parte do povo, um numero reduzido de pessoas observantes, conseguiam cumprir as normas. Estes olhavam de cima para abaixo os outros.

Portanto, muito se sentiam excluídos e pecadores, em condição de marginalizados por parte dos cumpridores da lei. A lei, promulgada para criar comunhão, fraternidade, solidariedade entre os integrantes do povo de Deus, se tronou critério e meio de exclusão e de condenação.

Por outro lado, a lepra era considerada como castigo de Deus para com o pecador. Se ele é contagiado, com certeza é porque pecou. Portanto, trata-se conjuntamente de impureza religiosa e corporal. Conseqüentemente a rejeição do leproso era radical, sem remédio de salvação. Só o milagre da cura podia devolver a pessoa à comunidade, prévio o sacrifício de expiação do animal para o perdão do pecado. Assim, curado e libertado do pecado, retornava ao convívio familiar e social. Era uma ressurreição.

A condição de impuro marca a consciência formada pela tradição, pelas leis e costumes que a sustentam. A pessoa não se percebe íntegra, mas dividida e fragmenta. Quando a condição de impureza se visibiliza pela doença, como o caso do leproso, o sofrimento é ainda maior, também por conta da rejeição e o desprezo dos outros.

Ele sabe não ter condição de vida como de todos os demais e de não poder realizar projetos e sonhos em sintonia com o desejo profundo das próprias características pessoais, rumo ao desenvolvimento da existência bem sucedida.

Que sentido tem a vida nessa condição? Condição esta que é como a de um cadáver ambulante. Pois toda forma de exclusão, de vida diminuída, de impossibilidade de se reerguer, é condenação a uma morte prematura.

A tristeza, o desânimo, a depressão, a raiva com tudo e com todos, sobretudo se cpomparando o próprio estado com aqueles que gozam de boa saúde, marcam a vivência do dia-a-dia. A existência não tem horizontes entusiasmantes nem a vida tem sentido. Sem esperança chega-se até ao suicídio.

Paulo, na segunda leitura, oferece dicas para não cair nisso.

2da leitura 1Cor 10,31-11,1

Paulo oferece algumas indicações que vão além da classificação puro x impuro, baseado na prática dele que, por sua vez, imita a de Cristo “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”.

“Quer comais,quer bebais, quer façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”. O critério fundamental é a gloria de Deus. Dirá Sto. Irineu – grande teólogo do segundo século: “a glória de Deus é o homem vivente”, Portanto, a santidade, a grandeza e o poder de Deus -a glória- se manifesta nos seres humanos que, pela convivência entre eles, alcançam um nível de organização e de vivência sempre mais aperfeiçoado de comunhão de fraternidade, realizando dessa forma a justiça e o direito querido por Deus, em virtude da nova e eterna Aliança.

Por isso, Paulo se apresenta como referência, como exemplo “Fazei como eu, que procuro agradar a todos, em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim que sejam salvos”.

O critério base para distinguir o que torna pura ou impura a pessoa é a finalidade e os meios corretos da ação com respeito à salvação de todos. Não se trata de agradar a uma pessoa ou outra, pois, seria fazer diferença e discriminação e, menos ainda, de procurar o próprio interesse. Duas atitudes que não combinam com o estilo de vida e a filosofia de Cristo.

Trata-se de ter clareza e ponto de referência fundamental, a comum vocação à qualidade e plenitude de vida que a filosofia e a prática que Jesus implantou e ensinou como manifestação da glória de Deus: a vida harmoniosa e a paz com tudo e com todos.

É o critério do bem comum, da nova sociedade, da humanidade que administra as diferenças de raça, cultura e religião dentro da convivência caracterizada pela fraternidade e solidariedade, na prática da justiça e do direito, como declinação na situação concreta do sonho de Deus de manifestar sua glória na vida do homem e da humanidade renovada.

Já Paulo entendeu que é “preciso pensar globalmente para agir localmente”, conforme as exigências da globalização atual. É sempre mais evidente que a salvação humana, social e ecológica do planeta é interesse de todos, para a sobrevivência pessoal. Ela não é um projeto elaborado com anterioridade, no qual todos devem encaixar, mas uma maneira de se governar tendo como ponto inicial as necessidades de cada povo e grupo étnico, para uma vida decente, digna.

Assim, se estabelece uma cultura global que coloca como valor principal a atenção à diversidade também nos relacionamentos interpessoais, na procura do bem dos outros que estão ao lado, que é ao mesmo tempo o bem da coletividade. É um agir de maneira diferenciada, da maneira costumeira que diz que cada caso é um caso. Em fim, é o que Jesus faz. Pois perceber a necessidade de vida do seu interlocutor e lhe oferecer indicação e meios para se encontrar com a verdade de si mesmo a assim, elaborar a resposta e assumir a atitude adequada para se erguer.

O escândalo é se afastar desta lógica e desta prática de vida, pois acabaria por afundar a pessoa e a missão seria um fracasso. Daí a advertência “Não escandalizeis ninguém, nem judeus, nem gregos, nem a igreja de Deus” O que pode escandalizar culturas e religiões tão diferentes entre elas? Evidentemente, a discriminação, a separação, o desprezo, a desunião a falta de fraternidade e de amor, ou seja, o contrário da salvação.

Evangelho Mc 1,40-45

O leproso que devia ficar isolado e distante de todos gritando: impuro! , Jesus deixa que chegue perto dele. “um leproso chegou perto de Jesus”. Não teve medo do contágio nem das críticas dos outros, ultrapassou a Lei.

Ficar perto, vendo o sofrimento dele e escutando sua súplica “Se queres tens o poder de curar-me”, o sentimento de Jesus ficou tomado pela compaixão. Sentiu como as vísceras se contorcerem, um mal estar interior como se aquele sofrimento fosse dele. Com outras palavras, sintonizou plenamente do sofrimento e a súplica dele.

Parece-me que a manifestação da fé do leproso fez que o sentimento se transformasse em misericórdia, ou seja, o coração dele voltado para o resgatar da lastimável condição. A resposta foi rápida “estendeu a mão, tocou nele”. Outra vez quebrou a Lei, ele mesmo se tornou impuro, um intocável, e disse “ Eu quero: fica curado!”

O que move Jesus à ação pastoral é a compaixão e a misericórdia. Estes sentimentos desencadeiam a força interior que move à ação direcionada a finalidade pela qual foi enviado. Estes sentimentos humanos são como as chaves que abrem a porta da entrada para a pessoa entrar no âmbito do divino.

É o dom inicial de Deus, que acolhido devidamente permite a chegada de outros, de maneira tal que cresce e torna mais consistente e concreta a ação evangelizadora rumo à salvação, manifestação do poder de Deus que regenera e da nova vida, que reintegra os excluídos, que dá esperança de um futuro melhor aos desanimados e sem esperança.

Não deixar que este sentimento exerça sua função e mexa com o mundo interior, isola a pessoa de Deus e dos irmãos, a torna insensível, egocêntrica e até egoísta. O processo da salvação na pessoa começa pela atenção e abertura às necessidades de qualidade de vida dos irmãos que sofrem, os diminuído que vivem uma realidade desumana.

Jesus “o mandou embora”, não pede nada a ele, nem propõe de segui-lo nem sinal de agradecimento e devoção. O deixou curado e plenamente si mesmo com o futuro que tinha sonhado e que agora, por graça dele, possível. Jesus age na total e completa gratuidade. Só ordena que cumpra o prescrito pela Lei.

Com isso era um sinal suficiente, pelo momento, para as autoridades religiosas que ele sabe relutantes em aceitá-lo como messias.

Para Jesus aquela cura é simplesmente um sinal da sua idoneidade e competência em se apresentar como messias, pois o poder de palavra e da ação é manifesto, são credenciais suficientes, pelo momento, para que o povo preste atenção e confiança no que vai vir com a pregação e com as exigências para o reino de Deus se estabelecer entre eles.

Contudo, Jesus percebe a fraqueza do entendimento e a possível distorção do significado da ação dele. Sabe que a expectativa do messias nas pessoas não coincide plenamente com o que ele vai apresentar. Daí que lhe pede “com firmeza: Não contes nada a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moises ordenou, como prova para eles!”.

Chama atenção esta firmeza. Por quê? Jesus quer evitar a possível distorção do entendimento do povo com respeito à finalidade da missão se torne um empecilho para o futuro imediato. Pois, o povo espera um Messias milagreiro que resolva com um toque de mágica as exigências primárias e imediatas.

Está bem longe de se dispor para o novo caminho que Jesus irá propor, mostrando falar e agir com a competência e autoridade que manifestou no milagre.

O fato de que o leproso fez exatamente o contrário “foi e começou a contar e divulgar muito o fato” mostra que não entendeu a finalidade e o motivo pelo qual Jesus agiu com firmeza e que Jesus viu certo.

Todos disponíveis e contentes para com o milagre, menos para assumir as exigências para se dispuser ao acontecer do reino e da salvação de todos.