terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

7o DOMINGO DO T.C.-B-(19-02-12)

1ª leitura Is 43,18-19.21-22.24b-25

É admirável o relacionamento de amor de Deus para com o seu povo, sobretudo, se comparado com a atitude de ingratidão e de indiferença do mesmo: “Sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não me lembrarei de teus pecados”. A causa da atitude de Deus é Ele mesmo, pois, o amor é constitutivo da essência e do agir dele. Ele é enquanto ama, fora disso não existe. Existe para amar.

Amar é querer o bem do outro, é ação visando Palavras, meios, atitudes que convergem para colocar o outro na condição de ser ele mesmo, um ser íntegro que, em virtude de tal condição, realiza plenamente si mesmo, imitando o que Deus está mostrando e fazendo a favor dele. O lema da paróquia de Santa Terezinha é “Amor atrai Amor”.

A dinâmica do amor não é mecânica e automática, que uma vez iniciada vai espontaneamente por si mesma. É escolha de todos os dias, às vezes muito corajosa. De fato, o amor para com o outro, nem sempre é entendido e aceito. A sintonia entre o dom, por um lado, e a expectativa pelo outro, nem sempre é bem entendida e sucedida. Isso provoca como um curto circuito.

É o que aconteceu entre o povo e Deus. Assim, o povo deixou de se interessar por Deus. O efeito foi o desgaste do relacionamento “tu, Jacó, não me invocaste, e tu, Israel, de mim te fadigaste. Com teus pecados, trataste-me como servo, cansando-me com tuas maldades”.

Entre os homens o curto circuito é causado por deficiências de uma parte ou outra, ou, também, de ambas. Não, assim, para com Deus. O defeito está no homem, no povo, que desvia a atenção de Deus, não escuta. Assim, o pecado vai se conformando e tomando consistência e força, construindo a barreira da desatenção, desinteresse, indiferença, desconfiança, que declinam na atitude de desprezo e maldade, como Deus mesmo reclama. Assim, o relacionamento se torna pesado.

Deus, defraudado e desiludido, teria motivo para deixar o povo entregue ao seu destino de autodestruição. Mas é tudo o contrario, é o amor que prevalece. O povo é obra de suas mãos “Este povo, eu o criei para mim, ele cantará meus louvores”. Ele o criou para a vida, para ter comunhão com ele, para participar da vida divina. O “para mim” não é domínio e possessão egocêntricos ou egoístas. É o espaço do amor, que inclui todos e tudo, na brincadeira do amor, no amor e por amor. Só assim o povo “cantará meus louvores”.

Os cantará em virtude do poder e força do amor de Deus, que oferece o perdão, apesar da insistência, da teimosia do povo em permanecer na atitude rebelde, que o coloca num beco sem saída, como quem está no deserto, sem rumo, sem água, cuja meta é a morte.

Pois, Deus por seu amor se faz presente “abrirei uma estrada no deserto, e farei correr rios na terra seca”. Acolhido com sinceridade, acreditar na promessa é condição para perceber a transformação, o surgir da nova realidade com respeito ao próprio ser, a própria pessoa.

Em primeiro lugar, o dom faz enxergar o novo que surge no próprio mundo interior. Como se um novo ser estivesse tomando consistência e crescendo em si mesmo. A transformação permite enxergar a realidade com os olhos de Deus e, de uma maneira inédita, surpreendente, sustenta e motiva o agir ativamente, conforme a ela. Portanto, o futuro de Deus se faz presente “Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?”.

O que está surgindo pela ação conjunta de Deus e da pessoa transformada requer especial atenção. Não é assim evidente, de imediato, como a irrupção de algo que, goste ou não, se impõe indiscutivelmente sobre todos os pontos de vista. Precisa, por assim dizer, de óculos especiais: os de Deus, que só a transformação interior coloca a disposição.Daí que Deus afirma “acaso não as reconheceis?”, como se dissesse : não estão vendo? Continuam desconfiados, distraídos ou desatentos?

Prova da nova condição da eficácia da transformação é “não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos”, não no sentido de não lembrar o que aconteceu, pois é impossível esquecer, mas que os efeitos negativos e destruidores do que aconteceu no passado são sepultados, ficam no passado, se tornaram ineficazes uma vez para sempre, não têm a força dominadora e impositiva de então, pois a nova vida prevalece, como a luz sobre a escuridão.

É o que Paulo experimenta e testemunha na segunda leitura.

2ª leitura 2 Cor 1,18-22

Paulo procura dissipar os mal-entendidos surgidos entre ele e os membros da comunidade. Estes o acusam de inconstância, deslealdade e ambiguidade “O ensinamento que vos transmitimos não é: sim-e-não”. Momento muito delicado, pois, está em jogo a condição que segura a confiança nele e, por conseguinte, a de ser ouvido e aceito como autêntico e verdadeiro transmissor do evento de Jesus Cristo.

Ele manifesta a transparência do seu ser e agir se apegando à fidelidade de Deus “Eu vos asseguro, pela fidelidade de Deus”. Como a fidelidade de Deus é certa e confiável, assim é a sinceridade e a transparência dele, na qual não há mentira, menos ainda ambiguidade. Podem confiar plenamente.

Ponto de referencia é Jesus Cristo “que nós (...) pregamos entre vós, nunca foi ‘sim-e-não’, mas somente ‘sim’”. Pela experiência, que começou na entrada na cidade de Damasco, do perdão e da misericórdia de Deus pela morte e ressurreição de Jesus Cristo, afirma “Com efeito, é nele que todas as promessas de Deus têm o seu ‘sim ’garantido”.

A teimosia de Deus em praticar o seu amor como expressão da Aliança contraída no Sinai e renovada, de forma mais radical, na morte e ressurreição do Filho, leva Paulo a se determinar de uma vez para sempre a favor da causa de Cristo, pela qual está dedicando inteiramente si mesmo e o seu agir. Ao “sim” de Deus, responde com o próprio “sim” sem outro objetivo que a glória de Deus “Por isso também, é por ele que dizemos ‘amém’- sim – a Deus, para sua glória”.

É tornar manifesta e evidente a glória de Deus no meio deles, a finalidade de sua adesão a Cristo e do seu falar e agir, que inspira e sustenta o seu “sim” sem ambiguidade e outros interesses que pudessem fazer dele uma pessoa de atitude duvidosa, insegura, ou pior, ambígua, em virtude de interesses pessoais ou simplesmente para fazer valer a própria condição ou autoridade.

Deve ter sido particularmente humilhante para Paulo esta manifesta desconfiança e polêmica atitude da comunidade para com ele. Por isso coloca para eles a comum participação na comunhão com Deus, pois, “É Deus quem nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos unge”, como para dizer que não há motivo para permanecer nesta atitude.

Mais ainda, que a comunhão com Deus é selada pela presença do Espírito no coração “Foi ele que nos marcou com o seu selo e nos adiantou como sinal o Espírito santo derramando em nossos corações”.

Esta intimidade e familiaridade com Deus, por meio do Filho, no Espírito Santo, de cada membro da comunidade é gerada pela fé, pela confiança na pessoa de Jesus e no cumprimento da promessa. Sem isso a pessoa fica como paralisada.

É o que mostra o evangelho.

Evangelho Mc 2,1-12

Jesus está num momento de grande sucesso pastoral “Logo se espalhou a notícia que estava em casa. E reuniram-se, ali, tantas pessoas, que não havia lugar, nem mesmo diante da porta”, pois, a fama dele já se espalhou por todas as partes.

“E Jesus anunciava-lhes a Palavra”. O motivo do sucesso era,também, porque ele ensinava com autoridade e surpreendia pela novidade e alternativa aos mestres da Lei, pois, eram eles que instruíam e ensinavam o caminho ao povo, com respeito ao correto relacionamento com Deus, em cumprimento às exigências da Aliança

O que Jesus ensina naquela circunstância não é dito explicitamente. Pode-se deduzi-lo pelo que acontece na continuação. Provavelmente trata-se do perdão de Deus. Em sintonia com a primeira leitura, pode-se supor que manifesta a chegada do Reino de Deus, na Palavra e no agir dele, por atualizar o perdão de Deus, para reerguer as pessoas à nova vida e começar, com ela, a nova ordem social.

Com certeza, deve ter impactado o pessoal de tal maneira que alguns acreditaram e levaram o paralítico perante Jesus, vencendo o muro humano que os separava.

Jesus percebeu a intenção e o mundo interior deles “Quando viu a fé daqueles homens”. Não era para testá-lo. É mais expressão da transformação interior e da esperança na promessa suscitada pela Palavra e pela pessoa dele. A autoridade dele e o estupor do que estava acontecendo neles, por tê-lo acolhido como Filho do Homem - Messias - e acreditado, os levou perante a Jesus.

Então Jesus viu a oportunidade para manifestar, pela Palavra e pela ação, sua real condição de Messias, que implanta o reino de Deus: “Filho, os teus pecados são perdoados”. Ninguém teria esperado uma saída deste tipo. Prova está na imediata reação dos Mestres da Lei presentes: “Ele está blasfemando: ninguém pode perdoar pecados, a não ser Deus”.

A reação é mais que motivada. Deus premia os cumpridores da Lei e castiga os transgressores com a doença, como o caso do paralitico. O arrependimento, voltar à observância da Lei e cumprir as disposições das autoridades com respeito a se tornar manifesta esta sua vontade, era certeza de Deus ter perdoado. Então, sim, haveria a certeza de que é obra de Deus. Um leigo - Jesus não tinha titulo nenhum – que não respeita a Lei, desconhecido, vem do norte – terra de pagão, só pode ser um doido, presumido e blasfemo. (Na eventualidade do milagre, a resposta será : ‘possui um demônio, é obra do demônio’).

Com sua afirmação Jesus destaca dois aspectos muito importantes para a nossa vida de discípulos:

a) A ligação entre pecado e paralisia. Com efeito, a desconfiança, o desinteresse, a indiferença, a superficialidade, o desprezo para com a Palavra e a promessa de Deus (não só intelectual, de pensamento, mas atitude prática, de comportamento de quem se aproveita para levar vantagem em prejuízo de outros) paralisam a vida e deixa a pessoa incapaz e impossibilitada de se erguer e caminhar. Isso é propriamente a raiz e o conteúdo do pecado: o errado e desconfiado posicionamento perante Deus, ( vê 1ª leitura).

b) Em segundo lugar, “os teus pecados estão perdoados” manifesta o que já aconteceu, não uma realidade que vai acontecer. Isto em virtude da transformação que a confiança na Palavra de Jesus operou e permitiu se perceber como um novo ser e a eventualidade de ser renovado e regenerado. Daí a determinação de se colocar perante dele com confiança. Haverá outros milagres e Jesus repetirá a mesma coisa, indicando à pessoa “tua fé te salvou”. Não aponta diretamente à sua pessoa e ao seu poder, mas à Palavra dele, acolhida e retida como verdadeira e eficaz, que levou a pessoa perante ele.

Jesus, em continuação, tornará visível para os presentes a verdade de sua missão e condição, completando a obra que a Palavra começou neles “para que saibais que o Filho do Homem tem na terra, poder de perdoar os pecados”.

A fé na Palavra é condição para que o perdão se torne eficaz no Batismo, na Reconciliação, na Eucaristia e na Unção dos enfermos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário