1ª leitura Lv 13,1-2.44-46
Legislação dramática, pois, a lepra do ponto de vista sanitário não tinha remédio, sua cura supunha um milagre. Portanto, “O homem atingido por este mal andará com vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: Impuro! Impuro!”. Não é difícil perceber o drama humano e social da pessoa e dos seus familiares pela doença e consequências tão cruéis “deve ficar isolado e morar fora do acampamento”.
A exclusão do leproso da comunidade equivalia à excomunhão, e podia ser readmitido só depois da cura, pois havia perigo do contagio. Era o sacerdote quem declarava a condição de leproso e o mesmo que o readmitia uma vez curado, previa o sacrifício de expiação do animal, pelo qual era admitido de novo no convívio social.
A categoria: “puro x impuro” era determinante na vivência religiosa do povo, discriminava quem ia participar, ou não, do reino de Deus, implantado definitivamente com a vinda do Messias.
Os escribas, os teólogos e os religiosos do tempo, haviam elaborado a minuciosa e extensa legislação com respeito ao que era puro ou não, ao ponto tal que a observância de tais normas tornava impossível a vida do povo em geral. Só uma parte do povo, um numero reduzido de pessoas observantes, conseguiam cumprir as normas. Estes olhavam de cima para abaixo os outros.
Portanto, muito se sentiam excluídos e pecadores, em condição de marginalizados por parte dos cumpridores da lei. A lei, promulgada para criar comunhão, fraternidade, solidariedade entre os integrantes do povo de Deus, se tronou critério e meio de exclusão e de condenação.
Por outro lado, a lepra era considerada como castigo de Deus para com o pecador. Se ele é contagiado, com certeza é porque pecou. Portanto, trata-se conjuntamente de impureza religiosa e corporal. Conseqüentemente a rejeição do leproso era radical, sem remédio de salvação. Só o milagre da cura podia devolver a pessoa à comunidade, prévio o sacrifício de expiação do animal para o perdão do pecado. Assim, curado e libertado do pecado, retornava ao convívio familiar e social. Era uma ressurreição.
A condição de impuro marca a consciência formada pela tradição, pelas leis e costumes que a sustentam. A pessoa não se percebe íntegra, mas dividida e fragmenta. Quando a condição de impureza se visibiliza pela doença, como o caso do leproso, o sofrimento é ainda maior, também por conta da rejeição e o desprezo dos outros.
Ele sabe não ter condição de vida como de todos os demais e de não poder realizar projetos e sonhos em sintonia com o desejo profundo das próprias características pessoais, rumo ao desenvolvimento da existência bem sucedida.
Que sentido tem a vida nessa condição? Condição esta que é como a de um cadáver ambulante. Pois toda forma de exclusão, de vida diminuída, de impossibilidade de se reerguer, é condenação a uma morte prematura.
A tristeza, o desânimo, a depressão, a raiva com tudo e com todos, sobretudo se cpomparando o próprio estado com aqueles que gozam de boa saúde, marcam a vivência do dia-a-dia. A existência não tem horizontes entusiasmantes nem a vida tem sentido. Sem esperança chega-se até ao suicídio.
Paulo, na segunda leitura, oferece dicas para não cair nisso.
2da leitura 1Cor 10,31-11,1
Paulo oferece algumas indicações que vão além da classificação puro x impuro, baseado na prática dele que, por sua vez, imita a de Cristo “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”.
“Quer comais,quer bebais, quer façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”. O critério fundamental é a gloria de Deus. Dirá Sto. Irineu – grande teólogo do segundo século: “a glória de Deus é o homem vivente”, Portanto, a santidade, a grandeza e o poder de Deus -a glória- se manifesta nos seres humanos que, pela convivência entre eles, alcançam um nível de organização e de vivência sempre mais aperfeiçoado de comunhão de fraternidade, realizando dessa forma a justiça e o direito querido por Deus, em virtude da nova e eterna Aliança.
Por isso, Paulo se apresenta como referência, como exemplo “Fazei como eu, que procuro agradar a todos, em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim que sejam salvos”.
O critério base para distinguir o que torna pura ou impura a pessoa é a finalidade e os meios corretos da ação com respeito à salvação de todos. Não se trata de agradar a uma pessoa ou outra, pois, seria fazer diferença e discriminação e, menos ainda, de procurar o próprio interesse. Duas atitudes que não combinam com o estilo de vida e a filosofia de Cristo.
Trata-se de ter clareza e ponto de referência fundamental, a comum vocação à qualidade e plenitude de vida que a filosofia e a prática que Jesus implantou e ensinou como manifestação da glória de Deus: a vida harmoniosa e a paz com tudo e com todos.
É o critério do bem comum, da nova sociedade, da humanidade que administra as diferenças de raça, cultura e religião dentro da convivência caracterizada pela fraternidade e solidariedade, na prática da justiça e do direito, como declinação na situação concreta do sonho de Deus de manifestar sua glória na vida do homem e da humanidade renovada.
Já Paulo entendeu que é “preciso pensar globalmente para agir localmente”, conforme as exigências da globalização atual. É sempre mais evidente que a salvação humana, social e ecológica do planeta é interesse de todos, para a sobrevivência pessoal. Ela não é um projeto elaborado com anterioridade, no qual todos devem encaixar, mas uma maneira de se governar tendo como ponto inicial as necessidades de cada povo e grupo étnico, para uma vida decente, digna.
Assim, se estabelece uma cultura global que coloca como valor principal a atenção à diversidade também nos relacionamentos interpessoais, na procura do bem dos outros que estão ao lado, que é ao mesmo tempo o bem da coletividade. É um agir de maneira diferenciada, da maneira costumeira que diz que cada caso é um caso. Em fim, é o que Jesus faz. Pois perceber a necessidade de vida do seu interlocutor e lhe oferecer indicação e meios para se encontrar com a verdade de si mesmo a assim, elaborar a resposta e assumir a atitude adequada para se erguer.
O escândalo é se afastar desta lógica e desta prática de vida, pois acabaria por afundar a pessoa e a missão seria um fracasso. Daí a advertência “Não escandalizeis ninguém, nem judeus, nem gregos, nem a igreja de Deus” O que pode escandalizar culturas e religiões tão diferentes entre elas? Evidentemente, a discriminação, a separação, o desprezo, a desunião a falta de fraternidade e de amor, ou seja, o contrário da salvação.
Evangelho Mc 1,40-45
O leproso que devia ficar isolado e distante de todos gritando: impuro! , Jesus deixa que chegue perto dele. “um leproso chegou perto de Jesus”. Não teve medo do contágio nem das críticas dos outros, ultrapassou a Lei.
Ficar perto, vendo o sofrimento dele e escutando sua súplica “Se queres tens o poder de curar-me”, o sentimento de Jesus ficou tomado pela compaixão. Sentiu como as vísceras se contorcerem, um mal estar interior como se aquele sofrimento fosse dele. Com outras palavras, sintonizou plenamente do sofrimento e a súplica dele.
Parece-me que a manifestação da fé do leproso fez que o sentimento se transformasse em misericórdia, ou seja, o coração dele voltado para o resgatar da lastimável condição. A resposta foi rápida “estendeu a mão, tocou nele”. Outra vez quebrou a Lei, ele mesmo se tornou impuro, um intocável, e disse “ Eu quero: fica curado!”
O que move Jesus à ação pastoral é a compaixão e a misericórdia. Estes sentimentos desencadeiam a força interior que move à ação direcionada a finalidade pela qual foi enviado. Estes sentimentos humanos são como as chaves que abrem a porta da entrada para a pessoa entrar no âmbito do divino.
É o dom inicial de Deus, que acolhido devidamente permite a chegada de outros, de maneira tal que cresce e torna mais consistente e concreta a ação evangelizadora rumo à salvação, manifestação do poder de Deus que regenera e da nova vida, que reintegra os excluídos, que dá esperança de um futuro melhor aos desanimados e sem esperança.
Não deixar que este sentimento exerça sua função e mexa com o mundo interior, isola a pessoa de Deus e dos irmãos, a torna insensível, egocêntrica e até egoísta. O processo da salvação na pessoa começa pela atenção e abertura às necessidades de qualidade de vida dos irmãos que sofrem, os diminuído que vivem uma realidade desumana.
Jesus “o mandou embora”, não pede nada a ele, nem propõe de segui-lo nem sinal de agradecimento e devoção. O deixou curado e plenamente si mesmo com o futuro que tinha sonhado e que agora, por graça dele, possível. Jesus age na total e completa gratuidade. Só ordena que cumpra o prescrito pela Lei.
Com isso era um sinal suficiente, pelo momento, para as autoridades religiosas que ele sabe relutantes em aceitá-lo como messias.
Para Jesus aquela cura é simplesmente um sinal da sua idoneidade e competência em se apresentar como messias, pois o poder de palavra e da ação é manifesto, são credenciais suficientes, pelo momento, para que o povo preste atenção e confiança no que vai vir com a pregação e com as exigências para o reino de Deus se estabelecer entre eles.
Contudo, Jesus percebe a fraqueza do entendimento e a possível distorção do significado da ação dele. Sabe que a expectativa do messias nas pessoas não coincide plenamente com o que ele vai apresentar. Daí que lhe pede “com firmeza: Não contes nada a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moises ordenou, como prova para eles!”.
Chama atenção esta firmeza. Por quê? Jesus quer evitar a possível distorção do entendimento do povo com respeito à finalidade da missão se torne um empecilho para o futuro imediato. Pois, o povo espera um Messias milagreiro que resolva com um toque de mágica as exigências primárias e imediatas.
Está bem longe de se dispor para o novo caminho que Jesus irá propor, mostrando falar e agir com a competência e autoridade que manifestou no milagre.
O fato de que o leproso fez exatamente o contrário “foi e começou a contar e divulgar muito o fato” mostra que não entendeu a finalidade e o motivo pelo qual Jesus agiu com firmeza e que Jesus viu certo.
Todos disponíveis e contentes para com o milagre, menos para assumir as exigências para se dispuser ao acontecer do reino e da salvação de todos.
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