1ª leitura At 9,26-31
Este trecho relata a volta de Paulo a Jerusalém, depois da conversão e das dificuldades por ele encontradas para integrar-se na comunidade.
Por um lado, Paulo (Saulo) “procurava juntar-se aos discípulos” em virtude da singular experiência de sua conversão, da firmeza e consolidação dela na própria pessoa.
Por outro lado, “todos tinham medo dele, pois não acreditavam que ele fosse discípulo”. Da para entender a dificuldades deles: passar de perseguidor a seguidor e, mais ainda, testemunha da Ressurreição, sendo que, antes, por causa dela mesma (Ressurreição), ele estava caçando os cristãos. Não é um salto de pouca conta.
Será que é tudo um engano para melhor atingir o objetivo? Será um fogo de palha, algo momentâneo, sem consistência e depois tudo voltará ser como antes? Em fim, são muitas as perguntas em circunstâncias como estas que motivam o ‘ficar com um pé atrás’.
A mediação de Barnabé que relata como Paulo, em Damasco, se esmerou em predicar a Cristo publicamente abre o caminho à aceitação de Paulo, mais ainda quando o mesmo em Jerusalém “pregava com firmeza em nome do Senhor”.
Paulo falava, discutia e argumentava com convicção e determinação até o ponto que “os judeus de língua grega procuravam matá-lo” e os irmãos da comunidade o “levaram para Cesaréia, e daí o mandaram para Tarso”.
Não ter desanimado nem reclamado pela desconfiança manifestada pela comunidade de Jerusalém, e ao contrário, ter predicado com ousadia publicamente a favor de Jesus Cristo, se expondo até o perigo de vida, testemunha a solidez e consistência da própria conversão.
Paulo era tido como um temente de Deus, uma pessoa sincera e escrupulosamente dedicada à causa de Deus, portanto, não admitia que o caminho certo da salvação fosse alterado ou falsificado com propostas e pregações falsas e inoportunas. Daí o zelo da perseguição aos cristãos.
O mesmo zelo se manteve quando, na porta da entrada em Damasco, aconteceu o evento da conversão, quando entendeu o verdadeiro significado da morte e ressurreição a favor dele e de toda a humanidade. Foi uma reviravolta radical e o mesmo zelo, talvez tenha sido fortificado e motivado ainda mais, levando-o a se comportar com grande ousadia e a expor a própria reputação e até mesmo a vida.
Esta certeza e firmeza fazem dele o apóstolo de grande importância, demonstrará a vida, os seus escritos e a dedicação dele à causa de cristo, que destaca de sobremaneira, pela qualidade, ousadia e inteligência do serviço.
No meio deste singular acontecimento “a Igreja vivia em paz (...). Ela consolidava-se e progredia no temor do Senhor, e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo”. É um pequeno resumo entusiástico da situação da Igreja da Palestina. Com efeito, havia entre as comunidades, tensões, desentendimentos e dificuldades que o mesmo livro dos Atos dos Apóstolos registra.
Trata-se do crescimento não só quantitativo, mas qualitativo. A referência ao Espírito Santo leva pensar no desenvolvimento pessoal e social dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, não só em termos de quantidade agregada, mas ma compreensão e vivência do mistério na dimensão do amor, conforme a palavra e o exemplo de Cristo “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15,12).
É ao relacionamento qualitativo que se refere a segunda leitura.
2ª leitura 1 Jo 3,18-24
O apostolo exorta os cristãos “não amemos só com palavras e de boca, mas com ações de verdade!”. Com a expressão “ações de verdade” deixa entender como a verdade se faz pela ação, quando esta é caracterizada pelos elementos que fazem dela expressão do verdadeiro amor.
Não se trata de fazer o que o destinatário gosta, mas o que precisa, e acontece que às vezes é o que não gosta “Aí está o critério para saber que somos da verdade...”,que pertencemos a ela e vice versa.
“...e para sossegar diante dele o nosso coração”, pois o coração inquieto, agitado, preocupado, insatisfeito encontra tranqüilidade, paz, serenidade e harmonia, porque “Deus é maior” e surge espontâneo e natural com o “coração que não nos acusa” por termos confiança diante de Deus.
Nesta condição temos acesso à comunhão e familiaridade com Deus. Portanto, “qualquer cosia que pedimos recebemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é do seu agrado”. Os mandamentos se reduzem a um bem conhecido “que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros”.
Fazer a verdade na participação ativa e inteligente na comunidade familiar, social; prestar atenção aos desafios globais da humanidade em ordem a pensar globalmente para agir localmente em sintonia com a justiça e o direito são maneiras de cultivar e manifestar a comunhão com Deus, pela fé em Jesus Cristo.
É a maneira de permanecer com Deus “Quem guarda os seus mandamentos permanece com Deus e Deus permanece com ele”. Assim, permanecer na comunhão com ele não é uma realidade alcançada de uma vez para sempre, como a recepção do Batismo ou dos demais sacramentos pode deixar supor, mas o resultado de fazer a verdade nos termos acima indicados.
É fazer com que a força contida no dom dos efeitos da morte e ressurreição, presente nos sacramentos, se torne ativa e produza os frutos que é lícito esperar. A realidade e a dinâmica do amor precisam ser, constantemente, ativadas e alimentadas, para que capacitem a pessoa e a instituição a se renovarem, serem criativas , extensivas e abrangentes às diferentes circunstâncias e novidades que se apresentam no dia -a- dia.
Isso é possível pela ação do Espírito Santo que mora no profundo do ser de cada pessoa e ativa sua presença quando a pessoa, a instituição, determina agir no horizonte do amor. É o mesmo Espírito Santo que ilumina a mente e imprime no coração a certeza da presença de Deus “Que ele -Deus- permanece conosco, sabemo-lo pelo Espírito que ele nos deu”.
Eis, então, a condição para permanecer em Deus e produzir os frutos da existência bem sucedida, como o evangelho mostra.
Evangelho Jo 15,1-8
Eis a triangulação entre o agricultor, a videira e os ramos, e acrescento a seiva - o Espírito Santo. Tudo para que Deus Trindade seja glorificado pelos frutos “Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos”. Ainda mais, é uma chegada provisória que se torna ponto de partida de novo, e assim perpetua o movimento que não termina nunca: a espiral da ação de Deus que vai abrangendo tudo e todos na sinfonia inesgotável do amor.
Deus dirige, governa a história e a conduz ao encontro último e definitivo da comunhão com ele, por meio da colaboração das pessoas que se tornam cada vez mais discípulos conscientes e determinados em tomar ciência do que a seiva do Espírito Santo produz nelas.
A consciência de o novo ser - que vai surgindo com as características e potencialidade geradas pela transformação radical dos efeitos da morte e ressurreição - ilumina o imenso. Do seio dele brota torrentes de água “rios de água viva jorrarão do seu interior”(Jo 7.38), a seiva do Espírito Santo que corre entre o Pai e o Filho .
A consciência de o novo ser, como toda realidade que tem atinência com Deus, não é estática e adquirida de uma vez para sempre. Pelo contrário, é provisório, uma etapa de processo em continua expansão e crescimento.
Daí, então, a poda: “todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda”. A poda é um corte, como o é o corte de “Todo ramo que em mim não dá fruto”. Mas os pressupostos são diferentes. Os dois são privação, têm aparência de morte. Mas em virtude dos pressupostos, a finalidade de um e do outro são opostas.
A consciência de o novo ser, pela ação do Espírito, é sustentada pela Palavra, a outra mão de Deus juntamente ao Espírito, “Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei”. Portanto, todo o processo, desde o começo até o fim, é acompanhado pela palavra.
O “permanecei em mim e eu permanecerei em vós” é sustentado e alimentado pela palavra e o mestre interior, que abre a inteligência e o coração ao entendimento verdadeiro e profundo dela, o Espírito Santo.
O permanecer é ato da vontade, da inteligência e da memória que investem suas energias e capacidades em aprofundar constantemente o mundo da Palavra, o inesgotável patrimônio contido nela. E, ainda, o também misterioso e inesgotável processo da história da humanidade com o novo que cada dia se revela e surge como fruto da busca e da investigação do trabalho do homem.
Só que este último é ambíguo por natureza, pois, contém em si mesmo possibilidades de realização, de melhorar a qualidade da vida, assim como de destruí-la.
Eis, então, a necessidade de confrontar e analisar esta segunda à luz da Palavra para discernir o que é certo do que é errado, para o triunfo da vida sobre as múltiplas realidades de morte.
Eis, então a sentença do Senhor: “Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim (...) porque sem mim nada podeis fazer”.
O permanecer eficaz é só por amor, como resposta de gratidão ao amor com que nos amou e continua nos amando constantemente como seus filhos e filhas. É ineficaz e ilusório pretender permanecer nele por conveniência, por necessidade, por medo o por troca. Deus é amor e só nesse autêntico e sincero relacionamento há salvação.
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