segunda-feira, 12 de novembro de 2012

33ro DOMINGO DI T.C. -B- (18-11-12)


1ª leitura Dn 12,1-3

“Naquele tempo (...) será um tempo de angústia, como nunca houve até então, desde que começaram existir as nações”. O profeta aponta ao momento em que a história da humanidade e a criação toda chegarão ao seu momento final.

Então, se implantara o último e definitivo da obra das mãos de Deus, é o que se indica com a palavra “escatologia”, ou seja, discurso sobre o que acontecerá “naquele tempo”. Evidentemente, estando no final do ano litúrgico o tema é apropriado e conveniente.

Neste tempo de grande angústia, pelo que estará acontecendo, comparecerá “o grande príncipe, defensor dos filhos de teu povo”. Ele colocará a salvo “ todos os que se acharem inscritos no Livro”. Estes são os que cumpriram a Lei com fidelidade. Nenhuma pessoa fugirá do juízo da Lei.

Com efeito, o Antigo Testamento apresenta como evento futuro “naquele tempo” a ressurreição.
Contudo, o conteúdo dela é bem diferente do que costumeiramente pensamos, a partir do mesmo evento realizado em Cristo Jesus. Acontece que se usa a mesma palavra com significados que nada tem a ver entre eles.

No Antigo testamento o argumento da ressurreição tem a finalidade de dissuadir aqueles que querem contornar o cumprimento da Lei, pelo motivo de que com a morte, a Lei não terá nenhuma relevância nem poder sobre a pessoa. “Naquele tempo” - no final da história - acontecerà a ressurreição: “Naquele tempo (...) Muitos dos que dormem no pó da terra, despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno”.

Assim, mesmo que falecidos haverá a ressurreição deles, para que sejam julgado pele Lei. De jeito nenhum poderão fugir das consequências de cumprir ou não os preceitos e os mandamentos da Lei. A lei os alcançará, mesmo que falecidos.

Entre parênteses, a ressurreição de Cristo - com seus efeitos sobre a estrutura moral, psicológica e espiritual da pessoa - já faz partícipe, pela fé, a todo ser humano que assume o estilo e a filosofia de vida de Cristo. Ela se manifesta já ativa na vida pela prática do amor, como Cristo amou. Ao mesmo tempo é penhor e sustenta a esperança que, “naquele tempo”, haverá conhecimento pleno do misterio divino contido nela.

Os sábios amam e praticam a Lei. Fazem dela o eixo norteador da própria vida, não por obrigação nem por medo, mas por convicção, por ter encontrado nela o sentido profundo e o gosto da existência. Portanto, “brilharão como o firmamento (...) como as estrelas, por toda a eternidade”.
 O brilho - satisfação, serenidade, alegria, sabedoria, correto discernimento, etc, - já esta presente e faz parte deles. Daí o desejo e a motivação de ensinar “a muitos homens os caminhos da virtude” para eles fazerem da Lei o hábito do próprio pensar e da conduta.
Portanto, “os que tiverem ensinado a muitos homens”, seja verbalmente explicando e argumentando, seja  assumindo o significado, cumprindo a finalidade dela e perseguindo a meta que pretende oferecer ao povo todo - o acontecer do reino de Deus  - brilharão por toda a eternidade, participarão da glória sem fim.

Cumprir a Lei é já participar do mistério de amor de Deus. Ela foi dada no Monte Sinai pelo amor de Deus, que tirou o povo da condição de escravo no Egito. Foi estabelecida como caminho para se manter na libertação, longe da escravidão e do pecado. Ela tornou a todos livres, livres para amar. Assim o espirito da Lei - não a letra - mostra o acontecer do amor e con ele os cumpridores“brilharão como o firmamento (...) como as estrelas, por toda a eternidade”.

Este brilho será ulteriormente potenciado e levado à sua plenitude, “naquele tempo”, quando tomarão pleno conhecimento do significado e dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, participando plenamente do mistério de Deus.

A segunda leitura faz referência a isso.

2da leitura Hb 10,11-14.18

Este trecho compara o culto do sumo sacerdote do Antigo Testamento com o culto realizado por Cristo com sua morte e ressurreição. O primeiro era celebrado diariamente “oferecendo muitas vezes os mesmos sacrificios, incapazes de apagar os pecados”.

Pelo contrário “Cristo, depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados (...)”. Eis o significado universal e permanente da morte dele: o perdão dos pecados para todos os homens de todos os tempos. Pelo sacrifício dele, o resgate da condição de filhos de Deus, a redenção do pecado e a santificação por participar da vida de Deus estão ao alcance de todos.

Isso porque na pessoa de Jesus estavam representados - como se estivessem nele - todo homem que aceita e acredita que o acontecido em Jesus é como se acontecesse nele próprio. Com outras palavras, é pela fé que é gerada esta singular e única experiência em cada pessoa.

Jesus agiu única e exclusivamente por amor, pois, “para nossa salvação desceu do céu”, rezamos no credo. Apesar da oposição e da extrema rejeição, pela desconfiança nele, Jesus continuou determinado e firme até a morte de cruz. Nela, carregou todo o peso da desconfiança deles – o pecado – e resistindo a ela,  na sua pessoa desmanchou o pecado e o seu poder. Sendo nosso representante perante o Pai, a vitória dele é a dos que acreditam verdadeiramente nele. Portanto, o pecado pode ser vencido, porque ele o venceu, e oferece constantemente a vitória.

Com a vitória sobre o pecado e a morte “Não lhe resta mais senão esperar até que seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés”, pois neste momento Deus dará o toque definitivo, instaurando o reino em forma última e definitiva, assim, Deus Pai será “tudo em todos”(1Cor 15,28).
Com a sua morte e ressurreição “levou a perfeição definitiva os que ele santifica”, ou seja, todos aqueles que aceitando o presente dos efeitos da morte e ressurreição se sentirão interiormente renovados e regenerados, como se tivessem nacido de novo, como novas criaturas. Portanto, sentem que o passado passou, de uma vez para sempre foi sepultado o homem velho e substituido pelo novo.

A santificação em primeiro termo não é de ordem moral, em sentido de perfeição no comportamento, mas a tomada de consciência da nova realidade e com ela a força interior e a motivação para agir corretamente em sintonia com os valores e as exigências dela (santificação). A “perfeição definitiva” é a plena consciência do dom e dos seus efeitos, que em forma definitiva e completa selam a nova condição.

Daí decorre “Ora, onde existe o perdão, já não se faz oferenda pelo pecado”. Não só é substituído com isso os sacrifícios do antigo testamento mas, sendo que Jesus Cristo, com sua morte se tornou oferenda para “pagar” os nossos pecados, cujos efeitos são atualizados pela fé na palavra e também por meio dos sacramentos, a única oferenda que é lícita oferecer a Deus é aceitação, com humildade e gratidão, deste dom.

Tudo isso faz parte do mistério da fé, ele será desvelado com a volta de Jesus Cristo, no tempo e modo indicados pelo Evangelho.

Evangelho Mc 13,24-32

Jesus fala aos seus discípulos a respeito dos acontecimentos com a vinda do Filho do Homem do céu “Naqueles dias, depois da grande tribulação, o sol vai escurecer, (...) e as forças do céu serão abaladas”. Não é especificado em que consiste a “grande tribulação” nem se é um evento já presente, se acompanhará a história toda, ou se específico do que acontecerá antes dos eventos finais quando “o sol vai escurecer e a lua não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas”.

É afirmado que toda realidade, as pessoas e a criação, sofrerá uma mudança muito gande e desconcertante antes que aconteça o evento central e definitivo “Então verão o Filho do Homem vindo do céu com grande poder e glória”. Acredito que se possa associar as dores do parto da nova criação. São Paulo diz ser próprio da antiga (criação), sendo que foi atingida e fecundada pelo evento da morte e ressurreição de Jesus Cristo e sobre ela foi derramado o Espírito Santo, em Pentecostes. Portanto, a manifestação se refere ao ponto final, a chegada  deste processo.

Apesar do desconcerto e do abalo, o evento será um acontecimento muito positivo,  pois, o Filho do Homem “enviará os anjos aos quatro cantos da terra e reunirá os eleitos de Deus, de uma extremidade a outra da terra”.Os eleitos são, objetivamente, todos os homens, pois, o evento da Páscoa e a descida do Espírito  atingiram as pessoas de todos os tempos e lugares. Os eleitos são os que aceitaram ser atingidos e modelaram a própria existência em virtude disso.

O encontro com o Filho do Homem glorificado será motivo de profunda alegria, será participar da plenitude da vida, como de uma festa sem fim, na qual todos serão pai, mãe, irmão e irmã de cada pessoa e vice versa. Nisso haverá consciência e experiência do que entendia São Paulo quando afirmava que neste evento Deus será “tudo em todos” (1cor 15,28).
Contudo, não sabemos quando isso acontecerá, nem Jesus está em condição de dizer “Quanto aquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai”. A  surpresa de que nem o Filho saiba - como Deus  deveria sabê-lo -, a afirmação remite a absoluta e inalcançável transcendência  de Deus com respeito a tudo que é criado.

Que Jesus, mesmo sendo de filho de Deus, participe desta condição não deveria surpreender. O mesmo São Paulo afirma que com a sua encarnação colocou como entre parênteses sua condição divina “esvaziou a si mesmo assumindo a condição de servo se tornando como os homens” (Fl 2,6-7). Portanto, Jesus fala a partir da condição que é própria de cada pessoa, e como tal faz tres afirmações de grande importância que o coloca particularmente perto de cada pessoa:

- A certeza absoluta que acontecerá “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão”, pois, ele confia plenamente no Pai com o qual mantém constante relacionamento, não tanto pela condição divina - que colocou como entre parênteses - quanto pela constante busca do relacionamento, do diálogo na oração, desafiado pelo que estava acontecendo no presente.

- “Em verdade vos digo, esta geração não passará até que tudo isso aconteça”. Sendo que já se passaram vinte séculos, cabe supor que não se referia ao que comumente entendemos por geração, mas abrange o tempo cronológico necessário para que o Evangelho seja levado ao alcançe de todos. Cabe especificar que Evangelho é a anúncio de um estilo de vida que se torna boa realidade, não adesão a religião...

- Haverá sinais que manifestam o se aproximar do evento “quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Filho do Homem está próximo, às portas”, não para terrorizar, mas para esperar o cumprimento da promessa.

O fim dos tempos é o começo da plenitude da vida em Deus.

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