1ª
leitura Dn 12,1-3
“Naquele
tempo (...) será um tempo de angústia, como nunca houve até então, desde que
começaram existir as nações”. O profeta aponta
ao momento em que a história da humanidade e a criação toda chegarão ao seu
momento final.
Então, se implantara o último e
definitivo da obra das mãos de Deus, é o que se indica com a palavra
“escatologia”, ou seja, discurso sobre o que acontecerá “naquele tempo”. Evidentemente, estando no final do ano litúrgico o
tema é apropriado e conveniente.
Neste tempo de grande angústia, pelo que
estará acontecendo, comparecerá “o grande
príncipe, defensor dos filhos de teu povo”. Ele colocará a salvo “ todos os que se acharem inscritos no
Livro”. Estes são os que cumpriram a Lei com fidelidade. Nenhuma pessoa
fugirá do juízo da Lei.
Com efeito, o Antigo Testamento
apresenta como evento futuro “naquele
tempo” a ressurreição.
Contudo, o conteúdo dela é bem diferente
do que costumeiramente pensamos, a partir do mesmo evento realizado em Cristo
Jesus. Acontece que se usa a mesma palavra com significados que nada tem a ver
entre eles.
No Antigo testamento o argumento da
ressurreição tem a finalidade de dissuadir aqueles que querem contornar o
cumprimento da Lei, pelo motivo de que com a morte, a Lei não terá nenhuma
relevância nem poder sobre a pessoa. “Naquele
tempo” - no final da história - acontecerà a ressurreição: “Naquele tempo (...) Muitos dos que dormem
no pó da terra, despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio
eterno”.
Assim, mesmo que falecidos haverá a ressurreição
deles, para que sejam julgado pele Lei. De jeito nenhum poderão fugir das
consequências de cumprir ou não os preceitos e os mandamentos da Lei. A lei os
alcançará, mesmo que falecidos.
Entre parênteses, a ressurreição de
Cristo - com seus efeitos sobre a estrutura moral, psicológica e espiritual da
pessoa - já faz partícipe, pela fé, a todo ser humano que assume o estilo e a
filosofia de vida de Cristo. Ela se manifesta já ativa na vida pela prática do
amor, como Cristo amou. Ao mesmo tempo é penhor e sustenta a esperança que, “naquele tempo”, haverá conhecimento
pleno do misterio divino contido nela.
Os sábios amam e praticam a Lei. Fazem
dela o eixo norteador da própria vida, não por obrigação nem por medo, mas por
convicção, por ter encontrado nela o sentido profundo e o gosto da existência.
Portanto, “brilharão como o firmamento
(...) como as estrelas, por toda a eternidade”.
O
brilho - satisfação, serenidade, alegria, sabedoria, correto discernimento,
etc, - já esta presente e faz parte deles. Daí o desejo e a motivação de
ensinar “a muitos homens os caminhos da
virtude” para eles fazerem da Lei o hábito do próprio pensar e da conduta.
Portanto, “os que tiverem ensinado a muitos homens”, seja verbalmente
explicando e argumentando, seja
assumindo o significado, cumprindo a finalidade dela e perseguindo a
meta que pretende oferecer ao povo todo - o acontecer do reino de Deus - brilharão por toda a eternidade,
participarão da glória sem fim.
Cumprir a Lei é já participar do
mistério de amor de Deus. Ela foi dada no Monte Sinai pelo amor de Deus, que
tirou o povo da condição de escravo no Egito. Foi estabelecida como caminho
para se manter na libertação, longe da escravidão e do pecado. Ela tornou a
todos livres, livres para amar. Assim o espirito da Lei - não a letra - mostra
o acontecer do amor e con ele os cumpridores“brilharão
como o firmamento (...) como as estrelas, por toda a eternidade”.
Este brilho será ulteriormente
potenciado e levado à sua plenitude, “naquele
tempo”, quando tomarão pleno conhecimento do significado e dos efeitos da
morte e ressurreição de Jesus, participando plenamente do mistério de Deus.
A segunda leitura faz referência a isso.
2da
leitura Hb 10,11-14.18
Este trecho compara o culto do sumo
sacerdote do Antigo Testamento com o culto realizado por Cristo com sua morte e
ressurreição. O primeiro era celebrado diariamente “oferecendo muitas vezes os mesmos sacrificios, incapazes de apagar os
pecados”.
Pelo contrário “Cristo, depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados
(...)”. Eis o significado universal e permanente da morte dele: o perdão
dos pecados para todos os homens de todos os tempos. Pelo sacrifício dele, o
resgate da condição de filhos de Deus, a redenção do pecado e a santificação
por participar da vida de Deus estão ao alcance de todos.
Isso porque na pessoa de Jesus estavam
representados - como se estivessem nele - todo homem que aceita e acredita que
o acontecido em Jesus é como se acontecesse nele próprio. Com outras palavras,
é pela fé que é gerada esta singular e única experiência em cada pessoa.
Jesus agiu única e exclusivamente por
amor, pois, “para nossa salvação desceu do céu”, rezamos no credo. Apesar da
oposição e da extrema rejeição, pela desconfiança nele, Jesus continuou
determinado e firme até a morte de cruz. Nela, carregou todo o peso da
desconfiança deles – o pecado – e resistindo a ela, na sua pessoa desmanchou o pecado e o seu poder.
Sendo nosso representante perante o Pai, a vitória dele é a dos que acreditam
verdadeiramente nele. Portanto, o pecado pode ser vencido, porque ele o venceu,
e oferece constantemente a vitória.
Com a vitória sobre o pecado e a morte “Não lhe resta mais senão esperar até que
seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés”, pois neste momento Deus
dará o toque definitivo, instaurando o reino em forma última e definitiva,
assim, Deus Pai será “tudo em todos”(1Cor
15,28).
Com a sua morte e ressurreição “levou a perfeição definitiva os que ele
santifica”, ou seja, todos aqueles que aceitando o presente dos efeitos da
morte e ressurreição se sentirão interiormente renovados e regenerados, como se
tivessem nacido de novo, como novas criaturas. Portanto, sentem que o passado
passou, de uma vez para sempre foi sepultado o homem velho e substituido pelo
novo.
A santificação em primeiro termo não é
de ordem moral, em sentido de perfeição no comportamento, mas a tomada de
consciência da nova realidade e com ela a força interior e a motivação para
agir corretamente em sintonia com os valores e as exigências dela
(santificação). A “perfeição definitiva”
é a plena consciência do dom e dos seus efeitos, que em forma definitiva e
completa selam a nova condição.
Daí decorre “Ora, onde existe o perdão, já não se faz oferenda pelo pecado”. Não
só é substituído com isso os sacrifícios do antigo testamento mas, sendo que
Jesus Cristo, com sua morte se tornou oferenda para “pagar” os nossos pecados,
cujos efeitos são atualizados pela fé na palavra e também por meio dos
sacramentos, a única oferenda que é lícita oferecer a Deus é aceitação, com
humildade e gratidão, deste dom.
Tudo isso faz parte do mistério da fé,
ele será desvelado com a volta de Jesus Cristo, no tempo e modo indicados pelo
Evangelho.
Evangelho
Mc 13,24-32
Jesus fala aos seus discípulos a
respeito dos acontecimentos com a vinda do Filho do Homem do céu “Naqueles dias, depois da grande tribulação,
o sol vai escurecer, (...) e as forças do céu serão abaladas”. Não é
especificado em que consiste a “grande
tribulação” nem se é um evento já presente, se acompanhará a história toda,
ou se específico do que acontecerá antes dos eventos finais quando “o sol vai escurecer e a lua não brilhará
mais, as estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas”.
É afirmado que toda realidade, as
pessoas e a criação, sofrerá uma mudança muito gande e desconcertante antes que
aconteça o evento central e definitivo “Então
verão o Filho do Homem vindo do céu com grande poder e glória”. Acredito
que se possa associar as dores do parto da nova criação. São Paulo diz ser
próprio da antiga (criação), sendo que foi atingida e fecundada pelo evento da
morte e ressurreição de Jesus Cristo e sobre ela foi derramado o Espírito
Santo, em Pentecostes. Portanto, a manifestação se refere ao ponto final, a
chegada deste processo.
Apesar do desconcerto e do abalo, o
evento será um acontecimento muito positivo,
pois, o Filho do Homem “enviará os
anjos aos quatro cantos da terra e reunirá os eleitos de Deus, de uma
extremidade a outra da terra”.Os eleitos são, objetivamente, todos os
homens, pois, o evento da Páscoa e a descida do Espírito atingiram as pessoas de todos os tempos e
lugares. Os eleitos são os que aceitaram ser atingidos e modelaram a própria
existência em virtude disso.
O encontro com o Filho do Homem
glorificado será motivo de profunda alegria, será participar da plenitude da
vida, como de uma festa sem fim, na qual todos serão pai, mãe, irmão e irmã de
cada pessoa e vice versa. Nisso haverá consciência e experiência do que
entendia São Paulo quando afirmava que neste evento Deus será “tudo em todos” (1cor 15,28).
Contudo, não sabemos quando isso
acontecerá, nem Jesus está em condição de dizer “Quanto aquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o
Filho, mas somente o Pai”. A
surpresa de que nem o Filho saiba - como Deus deveria sabê-lo -, a afirmação remite a
absoluta e inalcançável transcendência
de Deus com respeito a tudo que é criado.
Que Jesus, mesmo sendo de filho de Deus,
participe desta condição não deveria surpreender. O mesmo São Paulo afirma que
com a sua encarnação colocou como entre parênteses sua condição divina “esvaziou a si mesmo assumindo a condição de
servo se tornando como os homens” (Fl 2,6-7). Portanto, Jesus fala a partir
da condição que é própria de cada pessoa, e como tal faz tres afirmações de
grande importância que o coloca particularmente perto de cada pessoa:
- A certeza absoluta que acontecerá “O céu e a terra passarão, mas minhas
palavras não passarão”, pois, ele confia plenamente no Pai com o qual
mantém constante relacionamento, não tanto pela condição divina - que colocou
como entre parênteses - quanto pela constante busca do relacionamento, do
diálogo na oração, desafiado pelo que estava acontecendo no presente.
- “Em
verdade vos digo, esta geração não passará até que tudo isso aconteça”. Sendo
que já se passaram vinte séculos, cabe supor que não se referia ao que
comumente entendemos por geração, mas abrange o tempo cronológico necessário
para que o Evangelho seja levado ao alcançe de todos. Cabe especificar que
Evangelho é a anúncio de um estilo de vida que se torna boa realidade, não
adesão a religião...
- Haverá sinais que manifestam o se
aproximar do evento “quando virdes
acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Filho do Homem está próximo, às
portas”, não para terrorizar, mas para esperar o cumprimento da promessa.
O fim dos tempos é o começo da plenitude
da vida em Deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário