segunda-feira, 19 de novembro de 2012

FESTA DE CRISTO REI -B- (25-11- 12)


1ª leitura Dn 7,13-14

A festa de Cristo Rei do universo nos apresenta este texto do profeta. No antigo testamento o rei é o salvador. Sua missão é a defesa das viúvas, dos órfãos e dos estrangeiros, as pessoas mais vulneráveis a exploração dos prepotentes, dos poderosos e dominadores.

O profeta relata a visão “eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho do homem”. O céu é onde Deus mora e as nuvens são o sinal da presença do Espírito. Neste contexto, aparece esta figura  do  “como filho do homem”, de um sujeito que tem características  de homem. O homem não é estranho no que diz respeito a Deus mas, pelo contrário, tem a ver com ele.

A importância desta figura é que Jesus se atribui o título de “filho do homem”, pois, nunca se apresenta como Messias ou Filho de Deus. Contudo, este título permite perceber que tem familiaridade com Deus e com o homem, como se por uma mão pegasse a de Deus e pela outra a do homem.

Assim, “como filho do homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido a sua presença”. É como se fosse conduzido a presença de um grande rei com muita competência, prestígio e autoridade.

 A ele é concedido participar da vida mesma de Deus, do seu poder e autoridade, como se fosse herdeiro “Foram-lhe dados poder, glória e realeza”. O filho do homem e o Ancião estreitam um laço sólido e indissolúvel, em perfeita e total união. Assim que os dois se relacionam permanentemente, mesmo cada um mantendo sua especificidade.

A entrega do poder, glória e realeza faz com que “todos os povos, nações e línguas o sirvam”, pois, reconhecem a autenticidade de sua condição divina. Ao mesmo tempo, se estabelece que“ seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”.
 Cabe especificar que “filho do homem” não se refere só a uma pessoa individual, mas “ao povo dos santos” (Dn 7,27), pois, na linguagem da bíblia nem sempre é fácil distinguir entre o chefe do reino e a coletividade. O mesmo texto especifica como “o povo dos santos” recebe o poder depois de ter passado através da perseguição (Dn7,25).

Notável que o poder e a glória são para implantar um reino permanente , que não se dissolverá. Sendo que todos os poderes e reinos humanos surgem, chegam ao seu ponto alto e depois desaparecem, o que é apresentado deve ter características bem diferentes, seja para quem exerce o poder, o rei, seja para aqueles que entram na vivência do reino.

Haverá uma maneira de exercer o poder que desestabelecerá os critérios humanos e se colocará como o contrário do que é entendido e exercitado como tal. Mas isso não será aceito pacificamente, pelo contrário, motivará rejeição e perseguição extrema, como acontecerá com a pessoa de Jesus.
Assim Jesus, Filho do Homem, depois de ter passado pela paixão, se apresentará nas nuvens do céu e será investido de todo poder. Não o poder impositivo, de quem domina e, goste ou não, impondo sua autoridade, mas o poder da misericórdia e do amor desinteressado e gratuito que regenera os destinatários e o mesmo que o exerce.

Cabe especificar que o mesmo destino é reservado ao povo dos santos, isto é, aos cristãos. Pois, o amor nunca se dissolverá e nem será tirado. É o pano de fundo da segunda leitura.

2da leitura Ap 1,5-8

“A Jesus (...)a glória e o poder,em eternidade. Amém” O Filho do Homem é glorificado para sempre, por toda a eternidade. Três aspectos configuram a glória de Deus nele. Pois, a glória é a manifestação da santidade de Deus na pessoa, no ensinamento e, sobretudo, nas atitudes e nas obras de Jesus.

 A santidade de Deus é amor. Manifesta-se em “Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai”. A grandeza e intensidade do amor o levou não só a entregar sua vida para a libertação e resgate dos mesmos que o estavam crucificando – e com eles a humanidade de todos os tempos e lugares – mas faz, dos que acolherem o dom gratuito do resgate, um reino.

Em virtude desse amor doado, transformador e regenerador dos destinatários, estes últimos são constituídos como reino, ou seja, no âmbito da comunidade, que reconhecem no ensino e no estilo de vida de Jesus o fundamento da nova ordem social na prática do direito e da justiça, assim, alcançarão o dom da paz, da harmonia com todos e com tudo. Nisso se manifesta que o Senhor Deus reina sobre eles.

Assim, cada integrante do reino é capacitado para o ofício sacerdotal “sacerdotes para seu Deus e Pai”. Ele consiste em oferecer si mesmo - tudo o que ele é e faz - para a edificação e consolidação do reino, na luta tenaz e determinada contra toda adversidade. Com certeza, como foi para Jesus, encontrará rejeição e perseguição talvez ao extremo, até mesmo a morte.

A santidade de Deus se manifesta em “Jesus Cristo, testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos”. Jesus, por testemunhar fielmente o amor de Deus, por ter amado como Deus ama, é ressuscitado. A glória de Deus se manifesta nele como triunfo da vida sobre o mal e a morte. Pois o mesmo amor que sustenta e motiva a entrega é o que ressuscita para não mais morrer nem compactuar com o pecado.

Notável é o aspecto do ressuscitar “dentre” os mortos. Pois cabe a pergunta: Se Jesus ressuscitou e venceu a morte, como é que continuamos morrendo sem ressuscitar? O autor responde: certo, continuamos morrendo, mas em virtude da entrega no amor se ressuscita em Cristo e com ele se participa da vida plena, mesmo que os homens continuem morrendo.

 Após a morte somos acolhidos em Cristo, ou melhor, se manifesta uma nova face do que traz consigo ter acolhido a Cristo nesta vida e feito dela uma imitação dele, seguindo o seu caminho e a sua filosofia, sintetizada na famosa expressão de nos amar uns aos outros como ele nos amou.
Esta verdade - eis o terceiro aspecto da santidade de Deus – se manifestará plenamente quando “Olhai! Ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão (...) todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele”.

Tendo a humanidade, a história e a criação chegados ao ponto final, a santidade e a glória Deus se auto revelam na plenitude do que até então ficou encoberto no mistério. Por outro lado é certo que, este último,  é ativo e eficaz naqueles que se dispõem a acolhê-lo nesta vida.

Em virtude desta dinâmica no amor, por amor e com amor, diz o Senhor Deus “Eu sou o Alfa e o Ômega (...)aquele que é, que era e que vem, o Todo poderoso”. Assim, o Deus todo poderoso manifesta o seu poder não tanto nos milagres ou nos gestos espetaculares, quanto no amor pelo qual o maior pecador do mundo pode encontrar nele acolhimento, redenção e condições para deixar de uma vez para sempre o caminho e a filosofia errada para assumir a certa, imitando Jesus e seguindo o seu caminho.

A realeza dele está ligada a isso e conforma o que Jesus entende por verdade, como mostra o evangelho.

Evangelho Jo 18, 33b-37

O contexto é o da paixão. Jesus já foi entregue e está na presença de Pilatos, chamado para selar a condenação definitiva. O que interessava aos romanos não eram questões de religião, de fé ou de cultura de um povo. Para ele duas coisas eram importantes: pagar os impostos e submissão. Assim, que toda manifestação ou intento de rebelião, mais ainda, se alguém se atribuía o título de rei, era imediatamente reprimido com a crucificação.

Daí a pergunta de Pilatos “Tu és o rei dos judeus?”. Jesus “tira a língua” de Pilatos para que se manifeste realmente como se chegou a isso “O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim”, evidentemente com a motivação de que se auto proclamava messias, rei dos judeus. Pilatos quer saber se as atitudes de Jesus são as que se atribuem ao rei : “Que fizeste?”
.
Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo (...) meu reino não é daqui”, pois é realidade bem diferente daquela que Pilatos está pensando e busca conferir a consistência perante a acusação que fizeram contra Jesus.

E Jesus argumenta “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus”, como se quisesse tirar de Pilatos toda dúvida com respeito a uma força militar que pudesse confrontar com o poder romano. Nada disso.

Jesus nem afirma nem nega, só coloca sua realeza em “outro mundo”, não dentro das categorias e expectativas atuais. Isso é percebido com clareza por parte de Pilatos, e, portanto, volta perguntar “Então tu és rei?”. Coloca Jesus na condição de se manifestar  com clareza, sem sombras de dúvidas.

Então, Jesus respondeu “Tu o dizes: eu sou rei”. A pergunta de Pilatos não é inocente, como a de quem não sabe. Ele percebeu que Jesus é rei, mas não consegue definir com clareza e em que sentido,  onde fica o reino dele e que consequência pode ter para o império romano esta realeza.

Portanto, Pilatos ao mesmo tempo que afirma, pergunta. E Jesus coerentemente responde “Tu o dizes”, ao mesmo tempo que confirma “ eu sou rei”. De imediato argumenta em que sentido “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

Resposta muito hábil, ao mesmo tempo afirma ser rei e contorna o entendimento de Pilatos que o teria levado a condenação certa. Não faz isso por habilidade política, como quem está jogando com palavras, afim de não ficar preso em entendimentos que o prejudicariam, mas para afirmar a consistência e autenticidade do próprio ser e da missão que está desenvolvendo.

Assim, Jesus liga sua realidade de rei não ao poder de domínio sobre um específico território e a força militar, mas a verdade “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade”. É um vínculo radical que conforma a profundidade do ser dele, com outras palavras, é constitutivo da sua pessoa.

Portanto, a sua missão não pode ser outra daquela de “dar testemunho da verdade”. Com isso está afirmando indiretamente que ele mesmo é a verdade. Portanto, se atreve a desafiar Pilatos colocando “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

Pilatos contornará o convite de Jesus com a famosa resposta “O que è a verdade?”. Não era o contexto e muito menos o momento de conversas filosóficas. Por outro lado, parece que a resposta seja de atribuir a arrogância de Pilatos forte do seu poder para com Jesus na condição na qual se encontrava...

Contudo, evidentemente, a afirmação ultrapassa o momento específico e circunstancial para ser uma interpelação a todo ser humano apaixonado e que busca a verdade e, nela, respostas, como acontece em toda pessoa humana.

Assim ser “da verdade” é atender a um estilo de vida individual, a uma filosofia da existência coletiva e social, a critérios de discernimento entre o certo e o errado, a dedicação pela causa da justiça e do direito etc., que encontram em Jesus o modelo e no Espírito Santo a inspiração e a força motriz.

Portanto, a verdade se faz no dia a dia, nas diversas circunstâncias, com criatividade, coragem e ousadia. Talvez por isso, Jesus afirmou as famosas palavras “Eu sou o caminho” e cabe bem uma vírgula porque sou “verdade e vida”. Seguir a verdade, a Cristo, não é repetição, é criatividade no amor.

Queridos amigos, com este domingo termina o ano litúrgico “b”. Com ele também, o comentário às leituras, sendo que os anos “c” e “a” foram publicados  no blog, nos anos 2010 e 2011.
Com a saída da paróquia de Santa Terezinha, fiz o propósito de acompanhar este caminho que tinha iniciado com a publicação dos CD’s, lembram ? Pois bem, este caminho chegou ao seu ponto final.
Agradeço a todos os que colaboraram com as suas reflexões e em especial Paula e Rodrigo, da comunidade de Nossa Senhora do Carmo, pela paciente e competente revisão dos textos antes da publicação.
Talvez, descubramos, se Deus quiser, uma nova forma de continuarmos nossa comunicação.
Um abraço a todos, com a benção de Deus.       Pe. J. Luis


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