quinta-feira, 25 de março de 2010

Ponto fixo

Para uma pessoa muito especial para mim...

Muitas vezes olhamos para nossas vidas e concluímos que as coisas não aconteceram como nós esperávamos. Aquilo que tínhamos em mente, que sonhamos profundamente não aconteceu. Os milagres e as graças não surgiram. Será que realmente nada aconteceu? Ou será que nós, por olharmos fixamente para o nosso querer não deixamos de enxergar todo o universo que existe ao nosso redor? Quando olhamos fixamente num ponto o nosso campo visual fica restrito àquele ponto, e o "em volta" fica como que invisível.
O nosso coração também é assim. Se fixamos os nossos sentimentos em uma vontade específica, ele deixa de captar todos os sentimentos que estão ao nosso redor, e deixa de ver todas as pessoas que estão nos amando naquele momento. Ficamos cegos da visão e dos sentimentos. Abrir os olhos do coração ao que está a nossa volta é um exercício difícil, pois exige que observemos a vida que corre fora de nós e deixemos o nosso querer, não como centro, mas como parte de toda uma realidade. Pensamos que nada aconteceu, mas tudo está acontecendo, nós é que não conseguimos ver, com os olhos e com o coração.
Acho que encontrar Deus também é assim. Quanto mais dirigimos o olhar e o coração para onde achamos que vamos encontrá-lo, mais Ele fica "distante" de nós. Porque Deus não está num ponto, num querer... Deus está em volta, acima, abaixo, dentro e fora de cada um de nós, cercando toda a nossa vida de amor e cuidados, colocando pessoas e acontecimentos em nossa existência. Sempre está presente, atuante, amando-nos com um amor que não podemos compreender. Não deixa nenhum filho no desamparo, na solidão, no sofrimento. Porém Ele está invisível aos que não tem olhos e corações abertos. Ninguém nem nada pode fixar Deus num ponto determinado, deixá-lo estático, como que apenas esperando que eu (ou você) lhe proponha meus (seus) desejos. Nem a morte colocou Deus no aparente eterno vazio. Ele não pode ser preso a nenhum sepulcro, como também não pode ser encerrado pelas paredes de nenhum templo. Ele é o templo! Ele é o sepulcro da morte! Ele é ressurreição, vida nova, horizonte sem fim, tempo sem fim! Por isso Ele é Deus.
Quando vamos a Igreja, não vamos para ver Deus com os olhos, mas para vermos com o coração, com os olhos do nosso espírito, conhecê-lo cada vez mais e cada vez mais amá-lo e deixar que Ele nos ame. Vamos para comungar com Ele, para entregarmos o nosso ser, a nossa vida a Ele, e deixar que Ele ocupe cada pedaço de nós e sermos enfim, um com Ele.
Se a gente acha que nada acontece daquilo que sonhamos e queremos é porque não conseguimos enxergar a presença e o agir de Deus em nossas vidas; é porque colocamos o nosso imediatismo e a nossa impaciência como propulsores do nosso destino; é porque não esperamos as próximas curvas de nossa estrada, onde com certeza está o lugar onde corre leite e mel para cada um de nós. É porque temos os olhos fixos naquele ponto da nossa vontade (e talvez do nosso egoísmo) em que Deus não pode estar.
Roberto Maia.
blogdabandaterrasanta.blogspot.com

segunda-feira, 22 de março de 2010

DOMINGO DA PÁSCOA-C- (04-04-10)

DOMINGO DA PÁSCOA (4-04-10)

1a leitura At 10, 34 a. 37-43


O dia de Pentecostes, com a vinda do Espírito Santo, Pedro e os outros apóstolos tomam consciência do significado, do alcance e da importância do evento da ressurreição de Jesus. A continuação, Pedro se dirige, também em nome dos outros apóstolos, ao povo com as palavras: “E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém”. Ele faz um resumo da vida e da missão de Jesus que os ouvintes podem com facilidade reter como certo e objetivo na sua parte histórica “ Vós sabeis (...) como Jesus de Nazaré (...) andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio (...)Eles- as autoridades do povo- o mataram, pregando-o numa cruz”.Estes fatos de crônica são colocados pelo impulso e pela iluminação do Espírito Santo, a partir do evento desconcertante, acontecido faz 50 dias, e do qual só agora toma(m) plena consciência: “ Más Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe se manifestar-se não a todo o povo, mas à testemunhas que Deus havia escolhidos: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos”.
É a luz do significado e da importância deste evento que revela a pessoa de Jesus, como "ungido por Deus com Espírito Santo e com poder (...)”, quem age eficazmente contra os demônios “porque Deus estava com ele”. Com isso, quero dizer que a compreensão da figura de Jesus não é simplesmente reduzível a um fato de crônica registrado pelo(s) observador (es), dizemos assim, “neutral” que apresenta o acontecido como si fosse uma câmara de vídeo. Trata-se de pessoa(s) já envolvida(s) profundamente no evento desconcertante, não acessível ao povo todo indistintamente. Mais ainda, são pessoas “que Deus havia escolhido: a nós que...”. Portanto, é importante não perder de vista que se trata do testemunho simultaneamente histórico e teológico.
Notável que as testemunhas acompanharam Jesus na sua atividade pastoral desde o inicio, o batismo no Jordão, são as que comeram e beberam com o ressuscitado. Tudo isso, sugere uma ligação entre o caminhar com Jesus no dia –a- dia e a experiência do mesmo ressuscitado, após a terrível experiência da cruz.
Portanto, cabe pensar que a experiência do Ressuscitado é accessível a toda pessoa que hoje, como os apóstolos, seguem Jesus no caminho da ética por ele implantada, sem desviar, apesar das seduções de outras propostas e sem desistir pelas provações e pelas dificuldades. Continuar fielmente, mesmo entre trancos e barrancos, é condição para perceber a presença do Ressuscitado no próprio mundo interior, como foi para são Paulo: “ Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). É perceber, também, a presença Dele no jardineiro, no viandante desconhecido, no homem beira o mar de Tiberiade, para citar experiências relatadas pelos evangelhos.
Dessa maneira, toma consistência a condição de testemunha confiável. De fato, a finalidade da manifestação do Ressuscitado, não é, simplesmente, legitimar a pessoa de Jesus como Messias, Filho de Deus e constituído pelo Pai “Juiz dos vivos e dos mortos”, mas capacitar o discípulo como testemunha para a missão “E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos (...). Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”.
Pregar a partir da experiência do ressuscitado ou sem ela faz a diferença de não pouca conta, como o falar por ter ouvido falar dele, e falar por tê-lo visto. Está em jogo a qualidade da missão. Ser testemunha autentica configura o discípulo no presente e no futuro com as características indicadas na 2da leitura.


2da leitura Cl 3,1-4


Pois vós morrestes, e vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus”. Vós morrestes deve ser entendido não em sentido de morte física, mas de morte ao pecado e ao mal. Em virtude disso, o mal e o pecado, sempre presentes no dia-a-dia, não têm poder de domínio sobre a testemunha. Seria como agir sobre o cadáver. Por isso que são Paulo afirma: “Por ele (Jesus Cristo), o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo”.
Com a vida escondida em Deus com Cristo, Paulo afirma a misteriosa participação da testemunha, do discípulo, à comunhão de vida em Deus, doada por meio da morte e ressurreição de Cristo e alcançada pela fé. Mesmo misteriosa, a comunhão é percebida pela testemunha, pois é a seiva da nova existência e o meio pelo qual se viabiliza e acontece nele experiência do Ressuscitado. Daí, então, as palavras “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto (...) aspirai às coisas celestes e não as coisas terrestres”.
Conseqüentemente, a prova ad autenticidade do testemunho é o esforço e a vontade de alcançar níveis de maior e mais profunda comunhão no mistério de amor de Deus, vencendo toda sedução de ficar preso aos apelos de uma vida simplesmente entendida dentro dos horizontes humanos. Com outras palavras, o experimentar os efeitos da morte e ressurreição de Cristo suscita a esperança e o desejo de algo ainda mais profundo, que motiva o correr para a meta que sempre estará na frente, continuamente inalcançável, por ser o Mistério e a realidade de Deus. Ao mesmo tempo, estabelece a permanente luta e tensão entre aspirar “as coisas celestes e não as coisas terrestres”. Dessa forma, é implantada a tensão entre o “já”- o participar do efeito da morte o ressurreição de Jesus-, e o “ainda não”- aquilo que seremos e veremos “quando Cristo, vossa vida (no presente), aparecer em seu triunfo (futuro)”.
Não haverá decepção nem desilusão com respeito a isso tudo. Olhando à meta das pessoas e da humanidade, à luz da revelação do mistério da morte e ressurreição, são Paulo sintetiza “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória”. É o momento da intervenção última e definitiva de Deus, na qual se desvendará o sentido e a meta da humanidade e de cada pessoa. Corresponderá, também, à vinda do Ressuscitado no final dos tempos. Então, se revelará a intima comunhão com a glória de Cristo, os dois “revestidos de glória”.
Deixar-se tocar pelo evento da morte e ressurreição cria um novo sujeito no sujeito. Sem deixar o que somos, vai-se construindo uma nova identidade que integra , transforma e complementa o ser da pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. Esta imagem vai cada vez mais semelhando a Ele, num processo muito singular pelo qual, sugere o teólogo alemão (E. Hofmann), “ desde o começo de sua vida o homem tem não só uma ‘corporeidade exterior’, e sim, também, uma ‘corporeidade interior’, ou seja, sua verdadeira pessoa, o autêntico ‘eu’, que vai crescendo no dia a dia e se torna mais forte, na medida em que permanece na comunhão com Deus e aberto à criação (homens e natureza), para após a morte ser acolhido e levado à plenitude por Deus”
Dessa forma, o humano e o divino se integram no respeito da especificidade de cada natureza, de maneira que o humano se faz mais humano - assumindo a glória e Deus -, e o divino se faz mais divino pela da glorificação da pessoa humana. Com outras palavras, as duas naturezas entram num processo simbiótico pelo qual crescem em conformidade ao ser profundo delas: o homem se diviniza e Deus se humaniza.


Evangelho Jo 20,1-9

O evento da ressurreição foi totalmente inesperado e, sobretudo, foi muito além de toda experiência e entendimento ao alcance dos discípulos. Portanto, também a compreensão deles será progressiva, e, como frisado na 1ª leitura, só em Pentecostes os discípulos terão consciência do alcance do evento. O mesmo texto anota “ De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. É impossível querer saber o que a ressurreição foi para Jesus. Seria perguntar-se a respeito da existência do crucificado num mundo do qual não temos experiência.
A primeira aproximação ao evento é das mulheres que, simplesmente, encontram o sepulcro vazio “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. Desconcertadas e assustadas- não é difícil imaginar o estado de animo delas-, referem aos discípulos cuja reação impetuosa é registrada “Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais de pressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo”.
Eles conferem a ausência do corpo de Jesus e anotam detalhadamente o singular posicionamento das faixas “Viu as faixas de linho deitadas não chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte”. Com isso constatam que alguma coisa muito singular devia ter acontecido. Se o corpo tivesse sido roubado, os autores não teriam se preocupados de deixar as faixas como estavam, menos ainda, dobrar o pano que tinhas estado sobre a cabeça de Jesus.
João, “o outro discípulo, aquele que Jesus amava (...) entrou (...) viu, e acreditou”. Acreditou que o corpo não foi roubado e que algo muito singular aconteceu. “De fato, eles ainda não tinham compreendido (...) que El devia ressuscitar dos mortos”.
Parece-me importante o destaque do desaparecimento singular e desconcertante do cadáver de Jesus. Tudo isso prepara o passo seguinte: a revelação do evento da ressurreição que atinge aquele corpo crucificado não encontrado no sepulcro e explica a o porquê e o significado do desparecimento nos termos que o anuncio sucessivo atribuirá à intervenção de Deus.
Este destaque do desaparecimento do corpo morto parece-me de grandíssima importância para afirmar a verdade sobre a característica do evento da ressurreição. Ele será interpretado, pelas autoridades e outros, erroneamente, de diversas formas, como a ressurreição da alma ou do espírito, como uma morte aparente, como experiência de uma visão emocional e afetiva, etc.
O evento concreto da morte de Jesus levada ao seu comprimento por uma lógica de conflito sobre o verdadeiro ou falso entendimento da realidade de Deus e seus desdobramentos em nível do ser profundo e do comportamento,revela a dimensão divina presente em cada pessoa, a possibilidade e a condição do ser desenvolvida com sucesso na história da humanidade e da criação.

domingo, 21 de março de 2010

Domingo de Ramos-C-( 28-03-10)

1a leitura Is 50,4-7

Com o terceiro cântico do “Servo de Javé” do profeta Isaias começa a Semana Santa. A figura do Servo de Javé é descrita nos quatro cânticos. Do terceiro é tirado o texto desta primeira leitura. (É muito importante ler e meditar conjuntamente aos outros três: Is 42,1-9; 49,1-9 e 52,13 até o final do cap.53). É a figura de um sujeito (uma pessoa, mas, alguns estudiosos dizem que é um “resto” fiel do povo de Israel) chamado, ungido pelo Espírito. Ele, conforme a vontade de Deus, deverá sofrer e entregar sua vida para resgatar e salvar o povo e a humanidade. Após a morte e ressurreição de Jesus, os discípulos e os apóstolos identificarão este personagem com Jesus mesmo.
Neste texto, o sujeito é claramente uma pessoa diariamente instruída por Deus “O Senhor Deus deu-me língua adestrada (...) ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido” e ao mesmo tempo estimulada e motivada a prestar atenção. Não se trata de ouvir por ouvir nem para agradar, mas de “prestar atenção como um discípulo”, como quem apreende para praticar. Com efeito, a primeira atitude do discípulo é a de escutar com todo o coração, com toda a alma e com todo o ser. (Como não pensar ao relato evangélico de Marta e Maria, no qual Jesus elogia Maria por estar aos pés Dele escutando, tornando-se,desta forma, uma discípula!)O escutar é para “ que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida” e assim desenvolver corretamente a missão.
Missão que apresenta um aspecto, pelo menos, desconcertante: “ O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás” Pelo que se refere a Jesus, foi nas tentações no deserto que entendeu como as palavras de conforto passavam uma lógica e uma expectativa totalmente contrárias ao desejo e entendimento dos ouvintes, e que as mesmas os teriam levado diretamente à cruz. Contudo, Ele não voltou atrás. Foi corajosa e decididamente para frente, até o fim.
Eis, então, a rejeição dramática, humilhante e de grande sofrimento “ Ofereci as costas para que me baterem e as faces para que me arrancarem a barba; não desviei o rosto dos bofetões e cusparadas”. Gestos e atitudes de grande desprezo. Foram interpretados pelos presentes- no caso de Jesus- como prova do abandono de Deus, por tê-lo blasfemado com suas palavras e pretensões messiânicas
Notável a reação do Servo de Javé: “Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o animo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não serei humilhado” É surpreendente não se sentir humilhado nem abatido naquela situação e sofrendo daquela forma, se não for pelo auxílio do Senhor. Em que consistiu o auxílio não é especificado. Tal vez, podemos supor, na base do fato que não se deixou abater nem se sentiu humilhado, que teve a percepção no profundo do ser, de algo como “o poder de uma vida indestrutível”(Hb.7.16) que, propriamente, seria como a seiva da árvore que sustentou e motivou a radical fidelidade Dele e, no momento da máxima provação, se tornou geradora dos estados de animo indicados. Se for certa esta suposição, então, daria para afirmar que o Servo de Javé tem acesso à transcendência e à experiência de Deus, no profundo do próprio ser, pela radical fidelidade no desenvolvimento da missão, conforme a vontade do Senhor.
Tudo isso bate com a experiência de Jesus que são Paulo sintetiza magistralmente na segunda leitura.

2da leitura Fl 2,6-11

É o hino dos primeiros cristão (o cantavam na liturgia?) que sintetiza a figura, o alcance e o significado da missão de Jesus. Muito foi escrito e muito se escreverá sobre ele, pela importância do conteúdo. É um texto que todo cristão deveria meditar e decorar.
Os versículos seis até oito falam da “descida” de Jesus no último do mal e do pecado. Os outros três do infinitamente oposto: a “subida” na exaltação no céu.
Em primeiro lugar, Jesus “esvaziou-se a si mesmo” da condição divina. Colocou como entre parêntesis sua condição divina; não quis usufruir das condições privilegiadas dela. É como se o Presidente renunciasse a todo privilegio, mordomia, honra, mesmo continuando a exercer suas funções.
Motivo da escolha foi para se colocar na “condição de escravo e tornando-se igual aos homens”. Igual aos homens, no sentido de que mesmo não sendo afastado da comunhão com Deus, da familiaridade com o Pai nem privado da presença do Espírito Santo, se solidariza com o homem pecador, ou seja, o homem que é todo o contrário do que Ele é. Desta forma, coloca entre parêntesis sua condição divina. De fato, a carta aos Hebreus lembra que Jesus assumiu em toda a condição humana menos no pecado. Mais ainda, se iguala e se coloca na “condição de escravo”. Iguala-se para abaixo. É de o escravo servir. Referido a Jesus, o serviço consistirá em resgatar a humanidade do afastamento de Deus.
Encontrado com aspecto humano” O povo o encontra como tal, como simples homem, e, ao mesmo tempo, com pretensões messiânicas- e até divina, como Filho de Deus- que não condizem, de jeito nenhum, com o que Ele diz e faz. Pelo contrário, o povo e as autoridades acham ele blasfemo e ateu, merecedor de morte ultrajosa.
Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Por livre determinação Jesus sofre em si mesmo dupla humilhação, simultaneamente, perante do Pai e perante do povo. Ele se apresenta como pecador perante o Pai, por representar a humanidade toda. Ao mesmo tempo, sofre a humilhação e a rejeição violenta de quem está representando, do povo, das autoridades, da humanidade toda.
Assim, por um lado, sofre o afastamento do Pai, como conseqüência do pecado, “Deus meu, Deus meu porque ma hás abandonado”. E pelo outro, a morte de cruz, como maldito de Deus “ Maldito seja aquele que for suspenso do madeiro” (Gl 3,13).
“Fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Obediente a um Pai que, absurdamente, determina entregar o filho inocente? Que cobra do filho o pecado da humanidade? Que o pai entregue o filho e uma das afirmações mais espantosas do Novo Testamento, absolutamente desconcertante para o entendimento humano. Contudo, por um lado, o evento manifesta a cólera e o juízo de Deus para com o homem pecador. Pelo outro lado, o amor à verdadeira pratica de vida que tira o homem do mal e da própria autodestruição não é negociável, deve ser segurada, custe o que custar
São estes dos aspectos que estão no fundo do evento: a cólera e o juízo de Deus, como expressão do amor traído pela pertinaz insistência do homem na própria autodestruição. Mas também, o amor do resgate salvador, por Jesus representar a humanidade toda que não se entrega ao pecado. Enfim, é o AMOR nas suas diferentes expressões que sustenta o evento todo.
Por isso, Deus o exaltou acima de tudo” O “ por isso”estabelece uma ligação entre o anterior e o posterior. Portanto, aponta à relação entre a cruz e a ressurreição, exatamente por ser a cruz posse da ressurreição. A ressurreição não é um super milagre, mas o efeito da entrega na cruz. Como a cruz foi motivada pelo amor, assim, também, a ressurreição: o amor da entrega é o mesmo que ressuscita. Este é o nome de Deus “Nome que está acima de todo nome” em virtude do qual Jesus é constituído “Cristo”, ungido, Messias e “Senhor” no céu, na terra e abaixo da terra “para a glória de Deus Pai”. Sendo a glória de Deus a vida do homem, na feliz expressão de Santo Irineu, esta se manifestará em todos os homens que aceitarão, pela fé, os efeitos da representação de Jesus Cristo perante o Pai, se tornando seguidores e imitadores do Filho, porque filhos de adoção.

Evangelho Lc 23,1-49

O relato da paixão se presta para muitas considerações. Vou comentar somente o relativo à tentação. O relato das tentações no deserto, do mesmo autor, frisava “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13).
O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam: Tu és o Cristo?: A outro salvou. Salve-se a si mesmo,se, de fato, é o Cristo de deus, o Escolhido! (...)Uns dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Jesus não se dobrou, não cedeu, às tentações no deserto. Tal vez, o demônio esperava ter maior sucesso neste momento de fraqueza extrema e de sofrimento, juntamente à sedução de que um gesto tão espetacular, na expectativa do povo, dos chefes e do malfeitor, era esperado como prova certa e definitiva com respeito à Sua pretensão messiânica e de Filho de Deus. Existe prova maior que esta? Do ponto de vista humano,não.
Então, por que fica? Por que entra na morte? Parece-me por três motivos:
- para desfazer a ligação pecado- morte. Pecado e morte estão unidos, pois dirá são Paulo: “A morte é o salário do pecado” (Rm 6,23). A resistência extrema ao pecado levou Jesus à morte. Tendo entrado nela sem se dobrar ao pecado, quebra o elo que os une: “mesmo que morto viverá (...) não morrerá para sempre” (Jo 11,25). Conseqüentemente, à morte vai lhe faltar o que a sustenta e do qual é expressão e manifestação. Agora a morte tem outro significado e, sobretudo, outro destino...
- Será que a confiança em Deus depende de gestos grandiosos e surpreendentes? A parábola do rico que pede ser ressuscitado, convencido que, em virtude disso, os irmãos, ainda vivos na terra, se converteriam, ensina: “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos” (Lc 16, 27-31).Cair na tentação teria sido a manifestação do poder grandioso e surpreendente, porém inútil, porque o temor reverencial que suscitaria frente ao poderoso geraria, por um lado, distanciamento e, por outro, a falsa comunhão típica do inferior para com o superior chamados a conviverem juntos.
- O efeito da morte de Jesus possibilita a parceria que a cruz sela de uma vez para sempre. Nela Cristo “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).A resposta é o seguimento, a imitação, pelo qual-“permanecendo completamente unido a Cristo”(Rm 6,5) experimentará toda dificuldade Dele. Daí, a afirmação: “Fui crucificado junto com Cristo” (Gl 2,19). A conseqüência será que “por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). A ligação cruz- ressurreição da 2da leitura
Última consideração. Mas, devia ser aquela morte? Não tinha cabimento outra? A morte na cruz manifesta todo o porte da radical tragédia do pecado e do pecador É a morte mais desonrosa e desprezível. Com isso, é manifesto o desonroso e o desprezível do pecado. Por causa dele, Deus manifesta seu afastamento do Filho, sua ira e sua cólera para com Ele, em quanto sujeito feito pecado Gl 3,13.
Para os homens a cruz era amaneira certa de manifestar o repudio de toda pessoa que abusasse do título de Messias, de Filho de Deus. Veiam nela a maldição de Deus sobre o condenado. Era expressão do zelo pela cauda de Deus. Ironicamente matam a Deus pensando de honrá-lo, de salvar a identidade e a presença Dele no meio do povo.
Mais desconcertante, ainda, é que Deus com essa mesma cruz salva os que O crucificam!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Comentário do 5to Domingo da Quaresma-C- (21-03-10)


5to DOMINGO DA QUARESMA-C- (21-03-10)

1ª leitura Is 43,16-21


Este povo, eu o criei para mim e ele cantará meus louvores” O Senhor se dirige ao povo indicando com isso que nasceu Dele e Nele tem sua meta e a finalidade do próprio existir. Estabelecem um relacionamento muito singular de mútua realização, de aperfeiçoamento no amor, de crescimento na qualidade de vida, rumo a novos horizontes. Tratar-se-á da implantação da justiça e do direito na vida do povo, de maneira que a chegada e vivencia na terra prometida produza frutos de paz integral pela qual Deus se sente louvado, não só de boca para fora, mas pelo que isso significa em termos de realização pela da vida do povo. Dizia um grande teólogo, S. Irineu, que “a glória de Deus é a vida do homem, e a vida do homem consiste na visão de Deus”. Com efeito, Deus age e se manifesta para que todos tenham vida em abundancia. Então, o povo manifestará seu agradecimento, sua alegria e cantará o louvor de Deus, pois, corresponde à legitima expectativa Dele.
Mas, quem é este Senhor? É “quem abriu uma passagem no mar (...); que pôs a perder carros e cavalos, tropas e homens corajosos; pois estão mortos e não ressuscitarão, (...) apagaram-se”. É o Deus libertador da escravidão do Egito, que agiu com mão poderosa e braço firme, com determinação, para destruir o mal e o pecado e devolver ao povo a dignidade de homens livres. Deus lembra sua intervenção não para o povo ficar com o pescoço voltado para trás, mas para que não esqueça o positivo da ação Dele em devolver a vida a quem estava sem esperança nenhuma, sem futuro. Daí a exortação do Senhor: “Não relembreis as coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?”. A correta atitude para com a memória sustenta a confiança na presença poderosa do Senhor, anima a esperança de saída vitoriosa perante os desafios, as dificuldades do dia- a- dia, reforça os vínculos da justiça, da retidão, da fraternidade e da solidariedade visando o futuro melhor. A alerta é para não ficar presos do passado. Prestar excessiva atenção ao passado, fora do intento pelo qual é dever e positivo lembrá-lo, pode se tornar uma armadilha que oculta, esconde, o novo que está surgindo. Dessa forma, torna impossível reconhecer o atuar de Deus no presente. Daí a surpresa de Deus: “acaso não reconheceis?”. Como! Tornaram-se cegos? Ficaram presos do passado?
Há uma presença e um agir de Deus que não devem ser esquecidos e cujos sinais já estão presentes. É o que configura o motivo da esperança para um futuro diferente “Pois abrirei uma estrada no deserto (...). Hão de glorificar-me os animais selvagens (...) porque fiz brotar égua no deserto (...) para dar de beber a meu povo, a meus escolhidos” Portanto, o texto explicita que o Deus libertador do povo continua estar presente e atuante no meio dele. Com isso, Deus levará à plenitude o projeto Dele a favor da humanidade que, implantado no direito e na justiça, alcançará a plenitude de vida. É a mesma plenitude de vida de Deus que O motivou à criação do povo destinando-o á comunhão Consigo, como povo que “eu criei para mim e cantará meus louvores”.
É um texto muito positivo, cheio de esperança, de motivaç1ão, para continuar caminhando nas indicações do Senhor. Convida olhar para frente, participando da mesma visão, da mesma motivação e da mesma esperança, embora as dificuldades, as provações e os limites incentivem o desanimo, a vontade de voltar para trás e de desistir do caminho.
São Paulo encontrou todo o positivo deste texto na pessoa de Jesus, como comentaremos na segunda leitura.


2da leitura Fl 3,8-14


São Paulo vê perfeitamente realizado em Cristo o conteúdo do versículo 19 da primeira leitura: “Eis que eu farei cosas novas, e que já estão surgindo” a partir da experiência transformadora dele na entrada da cidade de Damasco e da caminhada que, a partir dela, desenvolveu. Para ele aquele encontro significou “que foi alcançado por Cristo” de uma vez para sempre e sem retorno. Foi uma experiência transformadora porque com ela entendeu o significado e a importância do evento da Páscoa, da morte e ressurreição de Jesus. Em virtude da Páscoa Jesus se tornou Cristo, ou melhor, Jesus Cristo, ou seja, o Jesus humano Ungido, a humanidade dele é preenchida, aperfeiçoada e transformada pelo Espírito Santo que o resgata da morte, tal significa o termo “ungido”.
Esta experiência suscitou nele o desejo de “ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele". Vale frisar a singularidae da afirmação. Paulo, por um lado, “foi alcançado por Cristo” e, ao mesmo tempo, deseja ganhar quem do qual foi alcançado: Ganhar o que já ganhou, para nunca perdê-lo! Tudo isso tem sua consistência no fato que, pelo evento da morte de ressurreição de Jesus, ele se sentiu justificado perante Deus Pai: “não com minha justiça (pelo cumprimento da lei de Moises),mas com a justiça por meio da fé em Cristo, a justiça que vem de Deus, na base da fé”.
Em que consiste exatamente essa justiça justificadora, Paulo o explica nos versículos 10 -11 que vamos analisar.
-“Esta (a justiça) consiste em conhecer a Cristo” Não é conhecimento simplesmente de cabeça, intelectual. É ser instruído, é compartilhar, é caminhar juntos, é praticar o estilo da vida e entender a pessoa e o sentido da missão de Cristo. É uma vivencia.
-“Experimentar a força da sua ressurreição” A vivencia leva à experiência. Assim, Paulo experimentará que a ressurreição de Cristo é, ao mesmo tempo, a ressurreição dele. (Cabe especificar que Paulo não foi do grupo dos apóstolos. Contudo, foi um homem muito reto, responsável, praticante dos valores éticos propostos pela Lei. Foi zeloso e rigoroso na vivencia do correto temor de Deus. Tudo isso, desembocou na experiência do ressuscitado, na entrada da cidade de Damasco.) Ressurreição da qual entendeu perfeitamente o significado: a vitória sobre o mal e o pecado. E, ao mesmo tempo, Jesus o estava representado (a ele e a humanidade toda) perante o Pai. Percebeu a conseqüência de todo isso: a libertação do mal, o perdão do pecado, ser criatura nova a condição de aceitar, se dar voto de confiança, ao dom oferecido gratuitamente. Pude, dessa forma, experimentar a “força da ressurreição” de Cristo pela fé e, conseqüentemente, se sentir justificado pela “ justiça que vem de Deus”.
-“ficar em comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte” O efeito é a comunhão de vida, inclusive na resistência, na luta, contra o mal e o pecado que acarreta sofrimentos. Com efeito, com a morte e ressurreição o mal e o pecado são vencidos e destruído em Cristo. Mas, no mundo continuam como anteriormente. Só a comunhão com e em Cristo será condição de vitória sobre os mesmos. Portanto,“ Tornando-me semelhante a ele ( Cristo) na sua morte” significa tomar aquela atitude pela qual, dirá o mesmo Paulo na carta aos Gálatas, “ eu me glorie somente da cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo”.
- “ para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos”. Pois, a comunhão de vida, de luta, é também a comunhão de destino: a ressurreição dentre os mortos que se manifestará com a vinda do ressuscitado no final dos tempos. Sem aprofundar mais, vale dar um toque sobre quem são esses “mortos”. Não são somente, diria nem primeiramente, os que comumente pensamos, mas os que Jesus aponta, respondendo ao jovem que queria enterrar o pai antes de seguir a Ele “deixa que os mortos enterrem a seus mortos”. Neste caso, Jesus abre uma janela para entender que a ressurreição já está presente e atuante nos que O seguem e anunciam o Reino.
Não que já tenha recebido tudo isso, ou que já seja perfeito” "
. Paulo participa da realidade de Cristo e da justificação de Deus Pai, mais, ainda, não plenamente. Percebe que vida dele mudou radicalmente, mas, ainda, não alcançou a perfeição que deveria. É a condição humana: estamos entre o “já” e o “ainda não”. Daí a conseqüência “ corro para alcançá-lo, visto que fui alcançado pro Cristo (... ) não julgo tê-lo alcançado (...) eu me lanço para o que está na frente. Corro para a meta, rumo ao premio, que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus”
Eis, então, o sentido da vida e a meta da existência. Já temos o presente da libertação do mal e do pecado, em virtude do qual somos reestruturados interiormente como novas criaturas; já ,pelo dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, somos justificados perante o Pai. Por isso que Paulo afirma: “Considero tudo como perda (...) como lixo. Por causa dele eu perdi tudo (...) para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele”. Contudo, a meta da existência está na frente. É trabalhar o dom, passá-lo para outros, para os 6,5 bilhões de pessoas do planeta, para que o encontremos como premio, com a vinda do Ressuscitado no fim dos tempo.
É nesta contesto que se encaixa o evangelho.


Evangelho Jo 8,1-11


Depois de ter passado a noite em oração no monte das Oliveiras, de madrugada no Templo “Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los” Cabe pensar que neste tempo de solidão no monte, Jesus tenha percebido e elaborado n próprio mundo interior o que se manifestará a continuação tão grande foi o impacto sobre os ouvintes e o significado da atitude de Jesus.
Os fariseus, de propósito “ Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar”. Colocam Jesus na encruzilhada, num beco sem saída, pois, a lei era inviolável, era manifestação da vontade da Deus e caminho para toda pessoa sinceramente a fiel a esta vontade. Impensável transgredi-la para todo homem que pretendesse se acreditar como Messias e, ainda mais, como Filho de Deus.
Misteriosa, não sei como entender, como explicar, a atitude de Jesus “ mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão”, e repetiu a mesma atitude após a resposta aos fariseus. Não que dar atenção? É uma maneira de desvalorizar a impetuosa e ambígua atitude deles? Tal vez.
A resposta surpreende a atinge a todos “a começar pelos mais velhos”, por evidentes razões. Mas, mais importante é o diálogo e a resposta à mulher “ Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.
Parece-me que o “Eu” é expressão da vontade do Pai, com a qual sintonizou no monte das Oliveiras a noite anterior . “Eu”, não condenatório, mas oferecedor da chance de refazer a própria vida se afastando do comportamento errado. É dar oportunidade ao novo de surgir, mais já presente (1ª leitura) na não condenação. A não condenação poderá se tornar expressão de perdão pelo abandono do caminho que não condiz com as palavras e atitude de Jesus.
Será que a mulher não voltou mai ao pecado? É experiência de todos voltarem “ao próprio vomito”, ao próprio pecado, depois de ter sido lavados e perdoados. Mesmo tivesse voltado, ressaltaria ainda mais a grandeza da atitude e das palavras Jesus e do amor do Pai: Oferecer a chance, sem condição nenhuma de retorno. É, também , a nossa experiência: ser perdoados, receber o perdão sem condição nenhuma por parte de Deus... Só Deus pode agir dessa maneira!

Comentário do 4to Domingo da Quaresma-C- (14-03-10)

4to DOM. DA QUARESMA-C-(14-03)

1ª leitura Js 5,9ª-10-12

Momento marcante para a história do povo de Deus é a chegada à terra prometida. Com a saída da escravidão do Egito, o povo iniciou a caminhada pelo deserto. Caminhada difícil e demorada, porque difícil e demorado é o processo de purificação. O livro do Êxodo testemunha, as provações e a vontade do povo de voltar ao Egito nos momentos difíceis.
Certo, o povo experimentou a libertação da escravidão com a saída do Egito. Foi o primeiro passo. Mas, depois era preciso se manter na liberdade, cultivando o correto relacionamento com Deus e, conseqüentemente, o correto relacionamento entre eles, estabelecendo a prática da justiça e do direito, marca registrada do processo bem sucedido.
“Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”. Com a entrada na terra prometida, Deus afirma solenemente a vitória definitiva sobre a escravidão. Conseqüentemente, poderíamos dizer que o mal e o pecado pertencem definitivamente ao passado.
Os israelitas (...) celebraram à Páscoa (...) na planície de Jericó”. Notável frisar como a caminhada se desenvolveu entre duas Páscoas: a inicial, com a saída do Egito; e a final, com a entrada na terra prometida, à qual se refere o texto. Parece-me oportuno considerar que estes dois momentos não são reduzíveis ao aspecto simplesmente cronológico, a dois momentos pontuais. Saída do pecado ( Egito) e entrada no dom de Deus ( Terra Prometida), acompanham o dia- a- dia década pessoa e do povo todo na caminhada no deserto da vida toda,cheio de provações e tentações. Com efeito, chegada e saída ( e vice-versa) fazem parte da característica da existência: chegar à meta é, ao mesmo tempo, o ponto de partida para outras metas mais abrangentes, mais profundas, mais completas. Portanto, a Páscoa da chegada é, ao mesmo tempo, a da saída!
No dia seguinte à Páscoa comeram dos produtos da terra (...). O maná cessou de cair no dia seguinte (...) não mais tiveram o maná. Naquele ano comeram dos frutos da terra de Canaã” Com a chegada ,com a nova Páscoa, há mudança de vida e, com ela troca, de alimentação. Mudança que torna possível o acesso aos novos frutos, aos novos produtos, obras do dom de Deus e, também, das mãos de povo libertado e determinado em manter, aprofundar e vivenciar corretamente o dom recebido.
Serão frutos da natureza cultivada corretamente e com dedicação. Mas, também, frutos da implantação da justiça e do direito, da convivência que não abre espaço a discriminações nem a exclusões. Serão frutos que permitem enxergar novos horizontes de esperança e de fraternidade, de abrir espaços criativos de acolhimento das pessoas de toda raça, língua o nação. Com outras palavras, são frutos do acontecer do Reino de Deus, tal é a Terra Prometida.
Infelizmente, o pecado e a escravidão falarão mais alto. Será preciso a intervenção direta e definitiva de Deus, na pessoa de Jesus, como comentaremos na 2da leitura.


2da leitura 2Cor 5,17-21


Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus”. Eis a pedra fundamental para a implantação do direito e da justiça. Trata-se de uma atitude passiva: deixar que Deus cumpra -ele mesmo- em nós a obra de reconciliação com Ele. Ele vai concertar a nossa incapacidade de estabelecer o correto relacionamento com Ele e, conseqüentemente, entre nós.
São Paulo (associado aos sentimentos daqueles que já aderiram e fizeram experiência de Cristo. Daí, o “nós” do texto) escreve: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos”. Suplicar é implorar, com humildade fervorosa e cheia de carinho, que os destinatários aceitem, acolham e prestem a devida atenção à específica e importantíssima ação reconciliadora de Deus, realizada objetivamente a favor da humanidade toda “Com efeito, em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo” e oferecida de forma gratuita a cada pessoa.
Dar satisfação à súplica, não só reconcilia com Deus, mas gera o singular relacionamento com ele em virtude do qual: a) somos embaixadores de Cristo “Somo, pois, embaixadores de Cristo”, no sentido de comunicadores do que aconteceu na pessoa de Jesus com o evento da morte e ressurreição Dele; b) somos representantes de Deus “ é Deus mesmo que exorta através de nós” , pois, a ação do reconciliado é a mesma ação de Deus.c) somos enviados para a missão, cujo conteúdo fundamental é o serviço da reconciliação, em virtude de Deus ter colocado nas nossas palavras humanas sua força reconciliadora: “Deus nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação (...) colocando em nós a palavra da reconciliação”.
Portanto, o fruto da terra prometidas, a implantação do direito e da justiça no povo de Deus, tem a ver com a totalidade da dinâmica e do evento reconciliador. O dom recebido gera novo relacionamento de intimidade, de familiaridade, com Deus e motiva a ação missionária, em virtude da qual, o redimido se dedica com zelo fervoroso para que outros participem da mesma experiência dele.
Tudo isso tem uma condição: “Se alguém está em Cristo”. A condição consiste na aceitação do dom da reconciliação, que faz da pessoa “uma nova criatura” e assim experimentar que “O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo”. É condição que pressupõe voto de confiança na específica ação de Cristo, como nosso representante perante o Pai, em virtude da qual o que faz , o que acontece Nele, faz e acontece no representado. Eis, portanto, a ligação necessária para perceber o alcance e o profundo significado do último versículo do texto: “Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus”. (O analise mais detalhado e profundo deste versículo está no curso de Cristologia, pag.31 até 38. Quem estiver interessado na apostila, só pedir por e-mail)
O conteúdo primeiro, o mais importante, da fé é exatamente isso mesmo. Assim, o contrário, o pecado é a desconfiança, a descrença, a desvalorização, a indiferença etc. com respeito a este presente que se atualiza em cada santa Missa. Então cabe uma pergunta: Se em virtude dessa fé nos tornamos novas criaturas, o mundo velho “desapareceu” do nosso horizonte e do nosso interesse, porque nos comportamos, de novo, como homens velhos e sucumbimos às seduções do mundo que, conforme a expressão de são Paulo, desapareceu?
Sei que é uma questão meio intrigada. Contudo, convido colocar no comentário do Blog possíveis respostas.
O evangelho apresenta a prática e os efeitos da reconciliação.


Evangelho Lc 15,1-3.11-32


Trata-se da conhecida parábola do bom Samaritano. Ela é resposta de Jesus aos fariseus que o criticavam: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. Na idéia de Deus deles não cabia, de jeito nenhum, a atitude de Jesus. Daí o desconcerto perante a pretensão de Jesus de ser o Messias, e pior, o Filho de Deus. Eis três considerações respectivamente sobre retorno do filho mais novo, o filho mais velho e o Pai.
O filho mais novo “caiu em si e disse: Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados”. Cabe se perguntar: o arrependimento foi motivado pela fome ou por ter magoado o Pai? Na primeira hipótese, não seria sincero, mas interesseiro. Foi suscitado pelo desespero moral, por ter caído tão em baixo? (tal é o significado de desejar “a comida que os porcos comiam”). Foi ai que partir daí, percebendo a própria indignidade, que resgatou com humildade o sentimento filial para com o Pai? Foi sincera manifestação da dor pela ofensa ao Pai“Pai, pequei contra Deus e contra ti”?.
Não há resposta certa. Precisaríamos que o texto relatasse as atitudes, os comportamentos, do filho no dia- a dia, após tão surpreendente acolhimento por parte do Pai. Será que assumiu o correto relacionamento consigo mesmo, com o Pai, com o ambiente, conforme á magnitude do perdão, do amor, do Pai? Até cabe pensar: será que voltou de novo a vida dissoluta depois de um tempo?Não surpreenderia. Foi a tentação do povo após a libertação do Egito, e não voltou atrás pela repetidas intervenções e misericórdia de Deus. Também é experiência de muitos pais, depois de ter acolhido e perdoado o filho do desvio. Portanto, o que destaca não é a atitude e possível ambigüidade do filho, mas o surpreendente amor do Pai, mesmo nessa ambigüidade.
A reação do filho mais velho para com o Pai é a de todo homem de bom senso que avalia o acontecido a partir do critério de justiça, baseado na retribuição á retidão, á responsabilidade, para com os próprios deveres e obrigações. “Então o pai lhe disse: Filho, tu está sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos” Em primeiro lugar,o Pai segura o amor para com o filho, ultrapassando a resistência deste resistente ao convite, a reclamação e a discordância com a determinação do mesmo Pai para com o filho que voltou. Em segundo lugar, estabelece a justiça pela qual o patrimônio será integralmente do filho mai velho. Pois, o outro esbanjou, não tem direito nenhum sobre o patrimônio do Pai. Será, daí para frente, um filho-empregado. Terceiro, mas importante, é a chamada de atenção. “Era preciso festejar...”. O pai se dirige não como quem pede compreensão, como quem se justifica pelo afeto e carinho de todo pai para com o filho que, mesmo errado, sempre é filho. Más se manifesta com firmeza, com determinação, como quem sabe o que quer e o que faz: é isso mesmo o correto e o que deve ser feito! É como se dissesse: “Não sou eu que estou errado, é você que não entende, ou não quer entender. É preciso que entendas o que é verdadeiramente amar, quando o que está em jogo é a possibilidade de resgate da existência e da qualidade de vida do filho, e, no teu caso, do irmão “ porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” .
Eis então a resposta à pergunta inicial dos fariseus: “por que acolhe os pecadores e faz refeição com eles?” Porque Deus é este Pai, é Pai dessa forma! Que ultrapassa toda fraqueza e ambigüidade do filho mais novo, assim como a presunção e arrogância do mais velho.