segunda-feira, 22 de março de 2010

DOMINGO DA PÁSCOA-C- (04-04-10)

DOMINGO DA PÁSCOA (4-04-10)

1a leitura At 10, 34 a. 37-43


O dia de Pentecostes, com a vinda do Espírito Santo, Pedro e os outros apóstolos tomam consciência do significado, do alcance e da importância do evento da ressurreição de Jesus. A continuação, Pedro se dirige, também em nome dos outros apóstolos, ao povo com as palavras: “E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém”. Ele faz um resumo da vida e da missão de Jesus que os ouvintes podem com facilidade reter como certo e objetivo na sua parte histórica “ Vós sabeis (...) como Jesus de Nazaré (...) andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio (...)Eles- as autoridades do povo- o mataram, pregando-o numa cruz”.Estes fatos de crônica são colocados pelo impulso e pela iluminação do Espírito Santo, a partir do evento desconcertante, acontecido faz 50 dias, e do qual só agora toma(m) plena consciência: “ Más Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe se manifestar-se não a todo o povo, mas à testemunhas que Deus havia escolhidos: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos”.
É a luz do significado e da importância deste evento que revela a pessoa de Jesus, como "ungido por Deus com Espírito Santo e com poder (...)”, quem age eficazmente contra os demônios “porque Deus estava com ele”. Com isso, quero dizer que a compreensão da figura de Jesus não é simplesmente reduzível a um fato de crônica registrado pelo(s) observador (es), dizemos assim, “neutral” que apresenta o acontecido como si fosse uma câmara de vídeo. Trata-se de pessoa(s) já envolvida(s) profundamente no evento desconcertante, não acessível ao povo todo indistintamente. Mais ainda, são pessoas “que Deus havia escolhido: a nós que...”. Portanto, é importante não perder de vista que se trata do testemunho simultaneamente histórico e teológico.
Notável que as testemunhas acompanharam Jesus na sua atividade pastoral desde o inicio, o batismo no Jordão, são as que comeram e beberam com o ressuscitado. Tudo isso, sugere uma ligação entre o caminhar com Jesus no dia –a- dia e a experiência do mesmo ressuscitado, após a terrível experiência da cruz.
Portanto, cabe pensar que a experiência do Ressuscitado é accessível a toda pessoa que hoje, como os apóstolos, seguem Jesus no caminho da ética por ele implantada, sem desviar, apesar das seduções de outras propostas e sem desistir pelas provações e pelas dificuldades. Continuar fielmente, mesmo entre trancos e barrancos, é condição para perceber a presença do Ressuscitado no próprio mundo interior, como foi para são Paulo: “ Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). É perceber, também, a presença Dele no jardineiro, no viandante desconhecido, no homem beira o mar de Tiberiade, para citar experiências relatadas pelos evangelhos.
Dessa maneira, toma consistência a condição de testemunha confiável. De fato, a finalidade da manifestação do Ressuscitado, não é, simplesmente, legitimar a pessoa de Jesus como Messias, Filho de Deus e constituído pelo Pai “Juiz dos vivos e dos mortos”, mas capacitar o discípulo como testemunha para a missão “E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos (...). Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”.
Pregar a partir da experiência do ressuscitado ou sem ela faz a diferença de não pouca conta, como o falar por ter ouvido falar dele, e falar por tê-lo visto. Está em jogo a qualidade da missão. Ser testemunha autentica configura o discípulo no presente e no futuro com as características indicadas na 2da leitura.


2da leitura Cl 3,1-4


Pois vós morrestes, e vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus”. Vós morrestes deve ser entendido não em sentido de morte física, mas de morte ao pecado e ao mal. Em virtude disso, o mal e o pecado, sempre presentes no dia-a-dia, não têm poder de domínio sobre a testemunha. Seria como agir sobre o cadáver. Por isso que são Paulo afirma: “Por ele (Jesus Cristo), o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo”.
Com a vida escondida em Deus com Cristo, Paulo afirma a misteriosa participação da testemunha, do discípulo, à comunhão de vida em Deus, doada por meio da morte e ressurreição de Cristo e alcançada pela fé. Mesmo misteriosa, a comunhão é percebida pela testemunha, pois é a seiva da nova existência e o meio pelo qual se viabiliza e acontece nele experiência do Ressuscitado. Daí, então, as palavras “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto (...) aspirai às coisas celestes e não as coisas terrestres”.
Conseqüentemente, a prova ad autenticidade do testemunho é o esforço e a vontade de alcançar níveis de maior e mais profunda comunhão no mistério de amor de Deus, vencendo toda sedução de ficar preso aos apelos de uma vida simplesmente entendida dentro dos horizontes humanos. Com outras palavras, o experimentar os efeitos da morte e ressurreição de Cristo suscita a esperança e o desejo de algo ainda mais profundo, que motiva o correr para a meta que sempre estará na frente, continuamente inalcançável, por ser o Mistério e a realidade de Deus. Ao mesmo tempo, estabelece a permanente luta e tensão entre aspirar “as coisas celestes e não as coisas terrestres”. Dessa forma, é implantada a tensão entre o “já”- o participar do efeito da morte o ressurreição de Jesus-, e o “ainda não”- aquilo que seremos e veremos “quando Cristo, vossa vida (no presente), aparecer em seu triunfo (futuro)”.
Não haverá decepção nem desilusão com respeito a isso tudo. Olhando à meta das pessoas e da humanidade, à luz da revelação do mistério da morte e ressurreição, são Paulo sintetiza “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória”. É o momento da intervenção última e definitiva de Deus, na qual se desvendará o sentido e a meta da humanidade e de cada pessoa. Corresponderá, também, à vinda do Ressuscitado no final dos tempos. Então, se revelará a intima comunhão com a glória de Cristo, os dois “revestidos de glória”.
Deixar-se tocar pelo evento da morte e ressurreição cria um novo sujeito no sujeito. Sem deixar o que somos, vai-se construindo uma nova identidade que integra , transforma e complementa o ser da pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. Esta imagem vai cada vez mais semelhando a Ele, num processo muito singular pelo qual, sugere o teólogo alemão (E. Hofmann), “ desde o começo de sua vida o homem tem não só uma ‘corporeidade exterior’, e sim, também, uma ‘corporeidade interior’, ou seja, sua verdadeira pessoa, o autêntico ‘eu’, que vai crescendo no dia a dia e se torna mais forte, na medida em que permanece na comunhão com Deus e aberto à criação (homens e natureza), para após a morte ser acolhido e levado à plenitude por Deus”
Dessa forma, o humano e o divino se integram no respeito da especificidade de cada natureza, de maneira que o humano se faz mais humano - assumindo a glória e Deus -, e o divino se faz mais divino pela da glorificação da pessoa humana. Com outras palavras, as duas naturezas entram num processo simbiótico pelo qual crescem em conformidade ao ser profundo delas: o homem se diviniza e Deus se humaniza.


Evangelho Jo 20,1-9

O evento da ressurreição foi totalmente inesperado e, sobretudo, foi muito além de toda experiência e entendimento ao alcance dos discípulos. Portanto, também a compreensão deles será progressiva, e, como frisado na 1ª leitura, só em Pentecostes os discípulos terão consciência do alcance do evento. O mesmo texto anota “ De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. É impossível querer saber o que a ressurreição foi para Jesus. Seria perguntar-se a respeito da existência do crucificado num mundo do qual não temos experiência.
A primeira aproximação ao evento é das mulheres que, simplesmente, encontram o sepulcro vazio “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. Desconcertadas e assustadas- não é difícil imaginar o estado de animo delas-, referem aos discípulos cuja reação impetuosa é registrada “Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais de pressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo”.
Eles conferem a ausência do corpo de Jesus e anotam detalhadamente o singular posicionamento das faixas “Viu as faixas de linho deitadas não chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte”. Com isso constatam que alguma coisa muito singular devia ter acontecido. Se o corpo tivesse sido roubado, os autores não teriam se preocupados de deixar as faixas como estavam, menos ainda, dobrar o pano que tinhas estado sobre a cabeça de Jesus.
João, “o outro discípulo, aquele que Jesus amava (...) entrou (...) viu, e acreditou”. Acreditou que o corpo não foi roubado e que algo muito singular aconteceu. “De fato, eles ainda não tinham compreendido (...) que El devia ressuscitar dos mortos”.
Parece-me importante o destaque do desaparecimento singular e desconcertante do cadáver de Jesus. Tudo isso prepara o passo seguinte: a revelação do evento da ressurreição que atinge aquele corpo crucificado não encontrado no sepulcro e explica a o porquê e o significado do desparecimento nos termos que o anuncio sucessivo atribuirá à intervenção de Deus.
Este destaque do desaparecimento do corpo morto parece-me de grandíssima importância para afirmar a verdade sobre a característica do evento da ressurreição. Ele será interpretado, pelas autoridades e outros, erroneamente, de diversas formas, como a ressurreição da alma ou do espírito, como uma morte aparente, como experiência de uma visão emocional e afetiva, etc.
O evento concreto da morte de Jesus levada ao seu comprimento por uma lógica de conflito sobre o verdadeiro ou falso entendimento da realidade de Deus e seus desdobramentos em nível do ser profundo e do comportamento,revela a dimensão divina presente em cada pessoa, a possibilidade e a condição do ser desenvolvida com sucesso na história da humanidade e da criação.

Um comentário:

  1. No primeiro dia da semana... quando ainda estava escuro... Em Gênesis encontramos também esta referência, na criação do mundo. Agora voltamos a encontrá-la no evento da ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. É Deus realizando a nova criação, o novo Gênesis.
    Os discípulos ainda se encontravam na escuridão, ainda não compreendiam o sentido da vida de Jesus: “tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. Não entendiam, e se esqueceram que Jesus disse que deveria padecer e morrer, e iria ressuscitar dos mortos no terceiro dia. Seriam necessárias aparições em que Jesus “se manifestasse, não a todo o povo, mas às testemunhas escolhidas por Deus”, como encontramos na primeira leitura. Mas João, o discípulo amado, ao entrar no sepulcro viu e acreditou.
    Acreditar na ressurreição é crer no dom da vida eterna por graça de Deus. Este dom nos é concedido a partir da encarnação do Filho de Deus, na pessoa de Jesus de Nazaré. Jesus, humano e divino, na sua vida terrena já vive a dimensão da eternidade, e nós, como ressuscitados, vivemos com Ele, como atesta a segunda leitura. Não é no sepulcro, ou no passado que se deve procurar Jesus. É hoje, com a sensibilidade que nos faz perceber a sua presença no nosso próximo e entre os pobres e excluídos.
    Com Jesus retornando ao Pai, nós, que como Ele, fomos no batismo também ungidos por Deus com o Espírito Santo e com poder, somos chamados a andar por toda a parte, fazendo o bem, porque Deus está conosco. Devemos nos esforçar para alcançar as coisas do alto, onde Ele está, e não as coisas do mundo, pois nós batizados morremos para as coisas terrestres e a nossa vida se encontra escondida com Cristo em Deus. Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu juiz dos vivos e dos mortos, pois esta é a missão do discípulo.

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