4to DOM. DA QUARESMA-C-(14-03)
1ª leitura Js 5,9ª-10-12
Momento marcante para a história do povo de Deus é a chegada à terra prometida. Com a saída da escravidão do Egito, o povo iniciou a caminhada pelo deserto. Caminhada difícil e demorada, porque difícil e demorado é o processo de purificação. O livro do Êxodo testemunha, as provações e a vontade do povo de voltar ao Egito nos momentos difíceis.
Certo, o povo experimentou a libertação da escravidão com a saída do Egito. Foi o primeiro passo. Mas, depois era preciso se manter na liberdade, cultivando o correto relacionamento com Deus e, conseqüentemente, o correto relacionamento entre eles, estabelecendo a prática da justiça e do direito, marca registrada do processo bem sucedido.
“Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”. Com a entrada na terra prometida, Deus afirma solenemente a vitória definitiva sobre a escravidão. Conseqüentemente, poderíamos dizer que o mal e o pecado pertencem definitivamente ao passado.
“Os israelitas (...) celebraram à Páscoa (...) na planície de Jericó”. Notável frisar como a caminhada se desenvolveu entre duas Páscoas: a inicial, com a saída do Egito; e a final, com a entrada na terra prometida, à qual se refere o texto. Parece-me oportuno considerar que estes dois momentos não são reduzíveis ao aspecto simplesmente cronológico, a dois momentos pontuais. Saída do pecado ( Egito) e entrada no dom de Deus ( Terra Prometida), acompanham o dia- a- dia década pessoa e do povo todo na caminhada no deserto da vida toda,cheio de provações e tentações. Com efeito, chegada e saída ( e vice-versa) fazem parte da característica da existência: chegar à meta é, ao mesmo tempo, o ponto de partida para outras metas mais abrangentes, mais profundas, mais completas. Portanto, a Páscoa da chegada é, ao mesmo tempo, a da saída!
“No dia seguinte à Páscoa comeram dos produtos da terra (...). O maná cessou de cair no dia seguinte (...) não mais tiveram o maná. Naquele ano comeram dos frutos da terra de Canaã” Com a chegada ,com a nova Páscoa, há mudança de vida e, com ela troca, de alimentação. Mudança que torna possível o acesso aos novos frutos, aos novos produtos, obras do dom de Deus e, também, das mãos de povo libertado e determinado em manter, aprofundar e vivenciar corretamente o dom recebido.
Serão frutos da natureza cultivada corretamente e com dedicação. Mas, também, frutos da implantação da justiça e do direito, da convivência que não abre espaço a discriminações nem a exclusões. Serão frutos que permitem enxergar novos horizontes de esperança e de fraternidade, de abrir espaços criativos de acolhimento das pessoas de toda raça, língua o nação. Com outras palavras, são frutos do acontecer do Reino de Deus, tal é a Terra Prometida.
Infelizmente, o pecado e a escravidão falarão mais alto. Será preciso a intervenção direta e definitiva de Deus, na pessoa de Jesus, como comentaremos na 2da leitura.
2da leitura 2Cor 5,17-21
“Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus”. Eis a pedra fundamental para a implantação do direito e da justiça. Trata-se de uma atitude passiva: deixar que Deus cumpra -ele mesmo- em nós a obra de reconciliação com Ele. Ele vai concertar a nossa incapacidade de estabelecer o correto relacionamento com Ele e, conseqüentemente, entre nós.
São Paulo (associado aos sentimentos daqueles que já aderiram e fizeram experiência de Cristo. Daí, o “nós” do texto) escreve: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos”. Suplicar é implorar, com humildade fervorosa e cheia de carinho, que os destinatários aceitem, acolham e prestem a devida atenção à específica e importantíssima ação reconciliadora de Deus, realizada objetivamente a favor da humanidade toda “Com efeito, em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo” e oferecida de forma gratuita a cada pessoa.
Dar satisfação à súplica, não só reconcilia com Deus, mas gera o singular relacionamento com ele em virtude do qual: a) somos embaixadores de Cristo “Somo, pois, embaixadores de Cristo”, no sentido de comunicadores do que aconteceu na pessoa de Jesus com o evento da morte e ressurreição Dele; b) somos representantes de Deus “ é Deus mesmo que exorta através de nós” , pois, a ação do reconciliado é a mesma ação de Deus.c) somos enviados para a missão, cujo conteúdo fundamental é o serviço da reconciliação, em virtude de Deus ter colocado nas nossas palavras humanas sua força reconciliadora: “Deus nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação (...) colocando em nós a palavra da reconciliação”.
Portanto, o fruto da terra prometidas, a implantação do direito e da justiça no povo de Deus, tem a ver com a totalidade da dinâmica e do evento reconciliador. O dom recebido gera novo relacionamento de intimidade, de familiaridade, com Deus e motiva a ação missionária, em virtude da qual, o redimido se dedica com zelo fervoroso para que outros participem da mesma experiência dele.
Tudo isso tem uma condição: “Se alguém está em Cristo”. A condição consiste na aceitação do dom da reconciliação, que faz da pessoa “uma nova criatura” e assim experimentar que “O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo”. É condição que pressupõe voto de confiança na específica ação de Cristo, como nosso representante perante o Pai, em virtude da qual o que faz , o que acontece Nele, faz e acontece no representado. Eis, portanto, a ligação necessária para perceber o alcance e o profundo significado do último versículo do texto: “Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus”. (O analise mais detalhado e profundo deste versículo está no curso de Cristologia, pag.31 até 38. Quem estiver interessado na apostila, só pedir por e-mail)
O conteúdo primeiro, o mais importante, da fé é exatamente isso mesmo. Assim, o contrário, o pecado é a desconfiança, a descrença, a desvalorização, a indiferença etc. com respeito a este presente que se atualiza em cada santa Missa. Então cabe uma pergunta: Se em virtude dessa fé nos tornamos novas criaturas, o mundo velho “desapareceu” do nosso horizonte e do nosso interesse, porque nos comportamos, de novo, como homens velhos e sucumbimos às seduções do mundo que, conforme a expressão de são Paulo, desapareceu?
Sei que é uma questão meio intrigada. Contudo, convido colocar no comentário do Blog possíveis respostas.
O evangelho apresenta a prática e os efeitos da reconciliação.
Evangelho Lc 15,1-3.11-32
Trata-se da conhecida parábola do bom Samaritano. Ela é resposta de Jesus aos fariseus que o criticavam: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. Na idéia de Deus deles não cabia, de jeito nenhum, a atitude de Jesus. Daí o desconcerto perante a pretensão de Jesus de ser o Messias, e pior, o Filho de Deus. Eis três considerações respectivamente sobre retorno do filho mais novo, o filho mais velho e o Pai.
O filho mais novo “caiu em si e disse: Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados”. Cabe se perguntar: o arrependimento foi motivado pela fome ou por ter magoado o Pai? Na primeira hipótese, não seria sincero, mas interesseiro. Foi suscitado pelo desespero moral, por ter caído tão em baixo? (tal é o significado de desejar “a comida que os porcos comiam”). Foi ai que partir daí, percebendo a própria indignidade, que resgatou com humildade o sentimento filial para com o Pai? Foi sincera manifestação da dor pela ofensa ao Pai“Pai, pequei contra Deus e contra ti”?.
Não há resposta certa. Precisaríamos que o texto relatasse as atitudes, os comportamentos, do filho no dia- a dia, após tão surpreendente acolhimento por parte do Pai. Será que assumiu o correto relacionamento consigo mesmo, com o Pai, com o ambiente, conforme á magnitude do perdão, do amor, do Pai? Até cabe pensar: será que voltou de novo a vida dissoluta depois de um tempo?Não surpreenderia. Foi a tentação do povo após a libertação do Egito, e não voltou atrás pela repetidas intervenções e misericórdia de Deus. Também é experiência de muitos pais, depois de ter acolhido e perdoado o filho do desvio. Portanto, o que destaca não é a atitude e possível ambigüidade do filho, mas o surpreendente amor do Pai, mesmo nessa ambigüidade.
A reação do filho mais velho para com o Pai é a de todo homem de bom senso que avalia o acontecido a partir do critério de justiça, baseado na retribuição á retidão, á responsabilidade, para com os próprios deveres e obrigações. “Então o pai lhe disse: Filho, tu está sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos” Em primeiro lugar,o Pai segura o amor para com o filho, ultrapassando a resistência deste resistente ao convite, a reclamação e a discordância com a determinação do mesmo Pai para com o filho que voltou. Em segundo lugar, estabelece a justiça pela qual o patrimônio será integralmente do filho mai velho. Pois, o outro esbanjou, não tem direito nenhum sobre o patrimônio do Pai. Será, daí para frente, um filho-empregado. Terceiro, mas importante, é a chamada de atenção. “Era preciso festejar...”. O pai se dirige não como quem pede compreensão, como quem se justifica pelo afeto e carinho de todo pai para com o filho que, mesmo errado, sempre é filho. Más se manifesta com firmeza, com determinação, como quem sabe o que quer e o que faz: é isso mesmo o correto e o que deve ser feito! É como se dissesse: “Não sou eu que estou errado, é você que não entende, ou não quer entender. É preciso que entendas o que é verdadeiramente amar, quando o que está em jogo é a possibilidade de resgate da existência e da qualidade de vida do filho, e, no teu caso, do irmão “ porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” .
Eis então a resposta à pergunta inicial dos fariseus: “por que acolhe os pecadores e faz refeição com eles?” Porque Deus é este Pai, é Pai dessa forma! Que ultrapassa toda fraqueza e ambigüidade do filho mais novo, assim como a presunção e arrogância do mais velho.
sexta-feira, 5 de março de 2010
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Há uma música que diz que ao sairmos da igreja, já começamos a pecar. E é verdade. Só espero que o Bom Pai, não se canse de nos perdoar todos os dias, e que em algum ponto de nossa existência tenhamos sabedoria para cumprirmos fielmente seus mandamentos.
ResponderExcluirGraça