1a leitura Is 50,4-7
Com o terceiro cântico do “Servo de Javé” do profeta Isaias começa a Semana Santa. A figura do Servo de Javé é descrita nos quatro cânticos. Do terceiro é tirado o texto desta primeira leitura. (É muito importante ler e meditar conjuntamente aos outros três: Is 42,1-9; 49,1-9 e 52,13 até o final do cap.53). É a figura de um sujeito (uma pessoa, mas, alguns estudiosos dizem que é um “resto” fiel do povo de Israel) chamado, ungido pelo Espírito. Ele, conforme a vontade de Deus, deverá sofrer e entregar sua vida para resgatar e salvar o povo e a humanidade. Após a morte e ressurreição de Jesus, os discípulos e os apóstolos identificarão este personagem com Jesus mesmo.
Neste texto, o sujeito é claramente uma pessoa diariamente instruída por Deus “O Senhor Deus deu-me língua adestrada (...) ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido” e ao mesmo tempo estimulada e motivada a prestar atenção. Não se trata de ouvir por ouvir nem para agradar, mas de “prestar atenção como um discípulo”, como quem apreende para praticar. Com efeito, a primeira atitude do discípulo é a de escutar com todo o coração, com toda a alma e com todo o ser. (Como não pensar ao relato evangélico de Marta e Maria, no qual Jesus elogia Maria por estar aos pés Dele escutando, tornando-se,desta forma, uma discípula!)O escutar é para “ que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida” e assim desenvolver corretamente a missão.
Missão que apresenta um aspecto, pelo menos, desconcertante: “ O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás” Pelo que se refere a Jesus, foi nas tentações no deserto que entendeu como as palavras de conforto passavam uma lógica e uma expectativa totalmente contrárias ao desejo e entendimento dos ouvintes, e que as mesmas os teriam levado diretamente à cruz. Contudo, Ele não voltou atrás. Foi corajosa e decididamente para frente, até o fim.
Eis, então, a rejeição dramática, humilhante e de grande sofrimento “ Ofereci as costas para que me baterem e as faces para que me arrancarem a barba; não desviei o rosto dos bofetões e cusparadas”. Gestos e atitudes de grande desprezo. Foram interpretados pelos presentes- no caso de Jesus- como prova do abandono de Deus, por tê-lo blasfemado com suas palavras e pretensões messiânicas
Notável a reação do Servo de Javé: “Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o animo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não serei humilhado” É surpreendente não se sentir humilhado nem abatido naquela situação e sofrendo daquela forma, se não for pelo auxílio do Senhor. Em que consistiu o auxílio não é especificado. Tal vez, podemos supor, na base do fato que não se deixou abater nem se sentiu humilhado, que teve a percepção no profundo do ser, de algo como “o poder de uma vida indestrutível”(Hb.7.16) que, propriamente, seria como a seiva da árvore que sustentou e motivou a radical fidelidade Dele e, no momento da máxima provação, se tornou geradora dos estados de animo indicados. Se for certa esta suposição, então, daria para afirmar que o Servo de Javé tem acesso à transcendência e à experiência de Deus, no profundo do próprio ser, pela radical fidelidade no desenvolvimento da missão, conforme a vontade do Senhor.
Tudo isso bate com a experiência de Jesus que são Paulo sintetiza magistralmente na segunda leitura.
2da leitura Fl 2,6-11
É o hino dos primeiros cristão (o cantavam na liturgia?) que sintetiza a figura, o alcance e o significado da missão de Jesus. Muito foi escrito e muito se escreverá sobre ele, pela importância do conteúdo. É um texto que todo cristão deveria meditar e decorar.
Os versículos seis até oito falam da “descida” de Jesus no último do mal e do pecado. Os outros três do infinitamente oposto: a “subida” na exaltação no céu.
Em primeiro lugar, Jesus “esvaziou-se a si mesmo” da condição divina. Colocou como entre parêntesis sua condição divina; não quis usufruir das condições privilegiadas dela. É como se o Presidente renunciasse a todo privilegio, mordomia, honra, mesmo continuando a exercer suas funções.
Motivo da escolha foi para se colocar na “condição de escravo e tornando-se igual aos homens”. Igual aos homens, no sentido de que mesmo não sendo afastado da comunhão com Deus, da familiaridade com o Pai nem privado da presença do Espírito Santo, se solidariza com o homem pecador, ou seja, o homem que é todo o contrário do que Ele é. Desta forma, coloca entre parêntesis sua condição divina. De fato, a carta aos Hebreus lembra que Jesus assumiu em toda a condição humana menos no pecado. Mais ainda, se iguala e se coloca na “condição de escravo”. Iguala-se para abaixo. É de o escravo servir. Referido a Jesus, o serviço consistirá em resgatar a humanidade do afastamento de Deus.
“Encontrado com aspecto humano” O povo o encontra como tal, como simples homem, e, ao mesmo tempo, com pretensões messiânicas- e até divina, como Filho de Deus- que não condizem, de jeito nenhum, com o que Ele diz e faz. Pelo contrário, o povo e as autoridades acham ele blasfemo e ateu, merecedor de morte ultrajosa.
“Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Por livre determinação Jesus sofre em si mesmo dupla humilhação, simultaneamente, perante do Pai e perante do povo. Ele se apresenta como pecador perante o Pai, por representar a humanidade toda. Ao mesmo tempo, sofre a humilhação e a rejeição violenta de quem está representando, do povo, das autoridades, da humanidade toda.
Assim, por um lado, sofre o afastamento do Pai, como conseqüência do pecado, “Deus meu, Deus meu porque ma hás abandonado”. E pelo outro, a morte de cruz, como maldito de Deus “ Maldito seja aquele que for suspenso do madeiro” (Gl 3,13).
“Fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Obediente a um Pai que, absurdamente, determina entregar o filho inocente? Que cobra do filho o pecado da humanidade? Que o pai entregue o filho e uma das afirmações mais espantosas do Novo Testamento, absolutamente desconcertante para o entendimento humano. Contudo, por um lado, o evento manifesta a cólera e o juízo de Deus para com o homem pecador. Pelo outro lado, o amor à verdadeira pratica de vida que tira o homem do mal e da própria autodestruição não é negociável, deve ser segurada, custe o que custar
São estes dos aspectos que estão no fundo do evento: a cólera e o juízo de Deus, como expressão do amor traído pela pertinaz insistência do homem na própria autodestruição. Mas também, o amor do resgate salvador, por Jesus representar a humanidade toda que não se entrega ao pecado. Enfim, é o AMOR nas suas diferentes expressões que sustenta o evento todo.
“ Por isso, Deus o exaltou acima de tudo” O “ por isso”estabelece uma ligação entre o anterior e o posterior. Portanto, aponta à relação entre a cruz e a ressurreição, exatamente por ser a cruz posse da ressurreição. A ressurreição não é um super milagre, mas o efeito da entrega na cruz. Como a cruz foi motivada pelo amor, assim, também, a ressurreição: o amor da entrega é o mesmo que ressuscita. Este é o nome de Deus “Nome que está acima de todo nome” em virtude do qual Jesus é constituído “Cristo”, ungido, Messias e “Senhor” no céu, na terra e abaixo da terra “para a glória de Deus Pai”. Sendo a glória de Deus a vida do homem, na feliz expressão de Santo Irineu, esta se manifestará em todos os homens que aceitarão, pela fé, os efeitos da representação de Jesus Cristo perante o Pai, se tornando seguidores e imitadores do Filho, porque filhos de adoção.
Evangelho Lc 23,1-49
O relato da paixão se presta para muitas considerações. Vou comentar somente o relativo à tentação. O relato das tentações no deserto, do mesmo autor, frisava “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13).
“O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam: Tu és o Cristo?: A outro salvou. Salve-se a si mesmo,se, de fato, é o Cristo de deus, o Escolhido! (...)Uns dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Jesus não se dobrou, não cedeu, às tentações no deserto. Tal vez, o demônio esperava ter maior sucesso neste momento de fraqueza extrema e de sofrimento, juntamente à sedução de que um gesto tão espetacular, na expectativa do povo, dos chefes e do malfeitor, era esperado como prova certa e definitiva com respeito à Sua pretensão messiânica e de Filho de Deus. Existe prova maior que esta? Do ponto de vista humano,não.
Então, por que fica? Por que entra na morte? Parece-me por três motivos:
- para desfazer a ligação pecado- morte. Pecado e morte estão unidos, pois dirá são Paulo: “A morte é o salário do pecado” (Rm 6,23). A resistência extrema ao pecado levou Jesus à morte. Tendo entrado nela sem se dobrar ao pecado, quebra o elo que os une: “mesmo que morto viverá (...) não morrerá para sempre” (Jo 11,25). Conseqüentemente, à morte vai lhe faltar o que a sustenta e do qual é expressão e manifestação. Agora a morte tem outro significado e, sobretudo, outro destino...
- Será que a confiança em Deus depende de gestos grandiosos e surpreendentes? A parábola do rico que pede ser ressuscitado, convencido que, em virtude disso, os irmãos, ainda vivos na terra, se converteriam, ensina: “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos” (Lc 16, 27-31).Cair na tentação teria sido a manifestação do poder grandioso e surpreendente, porém inútil, porque o temor reverencial que suscitaria frente ao poderoso geraria, por um lado, distanciamento e, por outro, a falsa comunhão típica do inferior para com o superior chamados a conviverem juntos.
- O efeito da morte de Jesus possibilita a parceria que a cruz sela de uma vez para sempre. Nela Cristo “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).A resposta é o seguimento, a imitação, pelo qual-“permanecendo completamente unido a Cristo”(Rm 6,5) experimentará toda dificuldade Dele. Daí, a afirmação: “Fui crucificado junto com Cristo” (Gl 2,19). A conseqüência será que “por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). A ligação cruz- ressurreição da 2da leitura
Última consideração. Mas, devia ser aquela morte? Não tinha cabimento outra? A morte na cruz manifesta todo o porte da radical tragédia do pecado e do pecador É a morte mais desonrosa e desprezível. Com isso, é manifesto o desonroso e o desprezível do pecado. Por causa dele, Deus manifesta seu afastamento do Filho, sua ira e sua cólera para com Ele, em quanto sujeito feito pecado Gl 3,13.
Para os homens a cruz era amaneira certa de manifestar o repudio de toda pessoa que abusasse do título de Messias, de Filho de Deus. Veiam nela a maldição de Deus sobre o condenado. Era expressão do zelo pela cauda de Deus. Ironicamente matam a Deus pensando de honrá-lo, de salvar a identidade e a presença Dele no meio do povo.
Mais desconcertante, ainda, é que Deus com essa mesma cruz salva os que O crucificam!
domingo, 21 de março de 2010
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