1ª leitura 1Rs 17,17-24
A viúva de Seperta. É a mesma viúva que aceitou hospedar o profeta na própria casa. A ela o profeta ordenou que lhe preparasse o pão com o último punhado de farinha e com as ultimas gotas de aceite. Ela obedeceu e nunca lhe faltou farinha e aceite até o fim da longa carestia. Ela atribui à presença na casa do profeta Elias a desgraça do falecimento do filho “O que há entre mim e ti, homem de Deus? Porventura viestes à minha casa para me lembrares os meus pecados e matares o meu filho?”. Era entendimento comum que a motivo da presença do profeta na casa, os pecados e as culpas, mesmas as involuntárias e as inconscientes, eram desveladas e atraiam o castigo de Deus correspondente.
Tudo isso confirmou nela a convicção da realidade profética de Elias e, portanto, interpretou a morte do filho como castigo por suas iniqüidades. O fato de ela ter aberto a sua casa ao profeta, mesmo tendo consciência de sua situação moral e do que isso podia acarretar, não passou despercebido nem foi indiferente à atenção do profeta. Ele se sentiu motivado, como homem de Deus, a favor daquela casa.
Assim cabe considerar como é importante dar um primeiro passo na direção de Deus, mesmo com todos os limites devidos aos próprios pecados e as inseguranças das condições de vida. Às vezes, na pessoa lhe falta este primeiro gesto de abertura e acolhimento, tão desconfiado e desanimado está consigo mesmo e com Deus.
O profeta suplicou a Deus “Senhor, meu Deus, até a viúva, em cuja casa habito como hóspede, queres afligir, matando-lhe seu filho? (...)faze, te rogo,que a alma deste menino volte às suas entranhas”. Ponto forte da argumentação do profeta é o fato dela tê-lo hospedado. Acolher o homem de Deus é acolher Deus mesmo. É se dispuser ao que vier em nome de Deus. Não é tão simples nem fácil, como parece num primeiro momento, sobretudo quando a consciência do próprio pecado acrescenta a própria indignidade, juntamente ao medo do castigo. Suficiente lembrar as palavras de Pedro a Jesus depois da pescaria milagrosa: “afasta-te de mim Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8)
A intercessão do profeta foi atendida, e ele entregou o filho à sua mãe dizendo “Eis aqui o teu filho vivo”. Belíssimo este gesto de devolvê-lo à mãe! O profeta não pede nada para si, entrega o dom de Deus para a felicidade da mãe. É a pura gratuidade da ação de Deus que,juntamente ao gesto de devolver a vida, conforma a percepção nela da grandeza de Deus e da autenticidade da ação do profeta.
A viúva se dirige a Elias “Agora sei que és um homem de Deus, e que a palavra do Senhor é verdadeira em tua boca”. Reconhece na ação dele a eficácia da palavra do Senhor. A palavra humana e a palavra divina se tornam a mesma realidade na pessoa de Elias. É uma condição só para umas pessoas muito especiais como Elias e outros poucos registrados na Bíblia e na história?
Cada cristão é profeta, como nos lembra a liturgia do Batismo. Portanto, deveria ser uma condição comum para todo discípulo consciente, mesmo tendo passado por situações totalmente diferentes e desconcertantes como foi o caso de são Paulo, como relatado na 2da leitura.
2da leitura Gl 1,11-19
A experiência de são Paulo é uma surpreendente reviravolta pela qual passou de perseguidor a apóstolo de Jesus. O que fez a diferença foi intervenção direta da manifestação de Cristo na entrada da cidade de Damasco, aonde ia para perseguir os cristãos. Foi o momento marcante, com ele disse “o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos. Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo”.
Paulo teve consciência do relacionamento direto com Cristo, do qual recebeu o evangelho. (Evidentemente, por evangelho não se refere aos 4 textos da Bíblia, pois, ainda não existiam, não estavam escritos.). Receber o evangelho significou propriamente ter conhecimento e ciência da importância, para ele e para a humanidade toda, da morte e ressurreição de Jesus: “Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, será salvo”(Rm 10,9).
Olhando em retrospectiva e com a ciência do depois, ele considerou este evento um dom, “pensado” por Deus desde a eternidade “Quando, porém, aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça se dignou revelar-me o seu Filho” Um dom que surpreendeu Paulo, por Deus ter chamado um indigno qual era ele, e por ser, conseqüentemente, ação e expressão da maior gratuidade.,
Todo dom de Deus é para ser transmitido a outros. Portanto a atitude de são Paulo “para que eu o pregasse entre os pagãos” é sustentada por dois motivos, porque é para toda a humanidade indistintamente, e para a pessoa se enriqueça em virtude da dinâmica da transmissão, em si mesma renovadora e enriquecedora. Missão que assumiu com determinação e prontidão “não consultei carne nem sangue”, ou seja, não consultou critério humano de conveniência, de dignidade, de oportunidade, de opinião de pessoas sábias etc. Tudo foi decidido no contexto da qualidade do encontro com o Senhor.
Com certeza, o evento foi o começo do processo de transformação radical da maneira dele de pensar e de ser, que o acompanhará a vida toda. Não podemos pensar que de uma vez entendeu tudo, e que todo ficou esclarecido perante os múltiplos desafios das diferentes circunstâncias do dia -a- dia e dos ambientes. Entendeu o eixo central, o eixo da roda, mas devia repensar e refazer todo o seu conhecimento, a sua sabedoria, o seu entendimento anterior a partir do novo eixo .
Corajosamente entrou nisso sozinho. Pelo específico da condição dele, enquanto perseguidor do qual faz referencia explicita “Certamente ouvistes falar como foi outrora e minha conduta no judaísmo (...) mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas”, chama a atenção o fato de que não sentiu a necessidade de se dirigir imediatamente “a Jerusalém para estar com os que eram apóstolos antes de mim. Pelo contrário, parti para a Arábia e, depois, voltei ainda a Damasco” Parece-me que teria sido quanto mais oportuno e necessário a conversa, a instrução, o aprofundamento e, em fim, a aprovação daqueles que ele mesmo indica “eram apóstolos antes de mim”.
Cabe pensar que o tempo demorado da permanência dele em Arábia “Três anos mais tarde, fui a Jerusalém” foi não só para fugir da perseguição de Damasco e dar um tempo aos cristãos para se recuperarem do estupor, da desconfiança etc. de uma conversão tão singular, mas também para reelaborar o próprio entendimento e as conseqüências de uma mudança tão radical. Fazer isso sozinho é de uma ousadia muito grande, e testemunha o impacto, a força do encontro com o Senhor e, mais na frente, a profundidade e novidade do pensamento, da instrução que marcarão a sobrevivência do cristianismo.
Depois dos três anos “fui a Jerusalém para conhecer Cefas (Pedro) e fiquei com ele quinze dias” . É o momento do entrosamento, da união da comunhão, depois de ter caminhado em solidão por tanto tempo. Isso é muito indicativo para todo cristão. A caminhada pessoal com Cristo não é dispensável pela “pressa” do entrosamento, que poderia ser expressão de imediatismo inoportuno, de superficialidade, de falta de coragem, de insuficiente elaboração da comunhão com o Senhor.
Uma comunhão que da vida como indica o evangelho.
Evangelho Lc 7,11-17
“Jesus dirigiu-se a uma cidade chamada Naim (...) eis que levavam um defunto, filho único; e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade a acompanhava” Devia ter sido um evento altamente dramático, testemunhado não só pelo fato em si mesmo, mas pela participação da multidão. O triste evento atingiu Jesus “Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: não chores”. Importante esta anotação. Jesus não só participa dos sentimentos dramáticos da condição humana, como neste caso de um luto tão profundo como o da mãe perder o único filho, mas é partir da compaixão, ou seja, da sensibilidade que o capacita sintonizar e participar do sofrimento dela e deles, que determina sua ação pastoral, sua intervenção.
A compaixão se transforma em ação misericordiosa. (Misericórdia significa: coração voltado para o miserável, para o coitado, para resgatá-lo da condição infeliz.) “Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, Jesus disse: Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” A fama de Jesus devia ter chegado até eles. O fato dos carregadores pararem, me parece um sinal de respeito para com uma pessoa merecedora. Tal vez, eles e o povo esperavam que mostrasse sua condição de profeta.
De fato, se essa for a expectativa deles, ficaram atendidos: “Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus dizendo; Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo”. Jesus se auto-revela como Senhor que da a vida, daí os sentimentos no povo de medo e de glorificação a Deus. Dar vida a quem estava morto, deveria conduzir as pessoas às considerações que ultrapassam o fato contingente, para se abrirem à convicção da vitória da vida sobre os diferentes tipos de morte - não só física, mas humana, psicológica, ética e espiritual - que acompanha o dia-a-dia das pessoas e da humanidade, em virtude da ação e presença de Jesus. De fato, a presença Dele revela que “Deus veio a visitar o seu povo” e, assim, amplia o entendimento deles nos horizontes da compreensão da pessoa de Jesus e da missão Dele, que abrange a todos e a toda humanidade.
Belíssimo e muito significativo e gesto de Jesus: “E Jesus o entregou a mãe”. Jesus não reteve nada para si mesmo. Teria condição e motivo para pedir que o jovem o seguisse, em fim, para a mãe, tê-lo de novo em vida estaria mais que satisfeita. Não há registro de pedido algum, só o devolve.
É expressão da pura gratuidade, da felicidade de Jesus pela felicidade da mãe. É testemunho do grau de desprendimento de si mesmo que deixa um ensinamento muito grande com respeito ao serviço pastoral. Muitas vezes, a atividade pastoral sustentada pela vaidade, encharcada pelo ciúme, cria consciamente, ou não, expectativas de retorno, que por ser frustradas ou não atendidas da forma esperada, geram desanimo ou até desmotivam ulteriores compromissos.
Saber viver o presente da própria ação pastoral, como alegria pela alegria do outro ter reanimado a própria vida, ter reencontrado a autenticidade de si mesmo, ter sido motivo de alegria e de satisfação para os próprios seres queridos, é expressão da familiaridade com Jesus e testemunho do verdadeiro discípulo.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
O profeta intercedeu pela viúva que, apesar de saber que sua presença significava o resgate de seus pecados e a punição de Deus, como era o pensamento da época, abriu suas portas num gesto de arrependimento, fé, confiança. Deus devolveu à mãe seu filho com vida de forma a revelar sua misericórdia e compaixão por todos nós. Creio que esta opornidade de renovação, de vida, de comunnhão é dada a todos nós e não só aos homens especiais da Bíblia, desde que saibamos reconhecer, interpretar, aplicar e seguir os ensinamentos de Deus. Assim é a nossa vida....um rascunho que nos permite a oportunidade de passar a limpo nosso agir e pensar sempre que nos reconciliamos com Deus, mas é preciso saber que pode não dar tempo de reescrever nossa história da forma que Deus gostaria, por isso devemos agora, hoje, imediatamente ir ao encontro de Deus, partindo de nossas atitudes com nossos semelhantes, a quem devemos amar sem distinção (oh tarefa difícil...raramente conseguimos sobrepor as qualidades aos defeitos, afinal somos apenas humanos).
ResponderExcluir