domingo, 23 de maio de 2010

SANTÍSSIMA TRINDADE-C-(30-05-10)

1a leitura Pr 8,22-31

A leitura apresenta a Sabedoria come se fosse uma pessoa em singular união e familiaridade com Deus “Assim fala a Sabedoria de Deus”. Revela sua origem “desde a eternidade foi constituída (...). Fui gerada quando não existiam os abismos (...). Ele ainda não havia feito as terras e os campos, nem os primeiros vestígios de terra do mundo” e sua parte ativa na obra da criação: “quando preparava os céus, ali eu estava (...), quando (...), quando(...) fixava ao mar seus limites (...) eu estava ao seu lado como mestre-de-obras”.
A primeira percepção é que Deus não é um sujeito sozinho, mas acompanhado. Não é um sujeito único que faz tudo, mas tem “como um mestre- de- obras” para sua atividade criativa. Se tiver é porque precisa; é porque não pode ser de outra maneira; é porque é bom que seja assim. Portanto um Deus que se associa a si mesmo a colaboração da Sabedoria suscita um sentimento de simpatia e de segurança com respeito à bondade e conveniência da atuação dele. Psicologicamente sentimos resistência para com uma pessoa que pensa e faz tudo sozinha.
Desde a eternidade Deus não está sozinho. Sendo que a criação emana da essência profunda Dele, ela deve ter em si mesma a essência da comunhão entre as diferentes componentes da mesma. É como os elementos de uma orquestra na qual cada elemento, desenvolvendo a própria especificidade, é chamado a sintonizar e harmonizar com todos os outros para formar a estupenda e harmoniosa sinfonia da criação, como obra maior de tão grande Compositor.
É preciso não perder esta referencia, porque cada pessoa, cada grupo humano, cada elemento da criação, não é casual ou demais, não é inútil ou sem sentido, mas converge como membro, entre muitos, necessário para o rir do universo, que é o êxtase de Deus.
A esta êxtase apontam as palavras da leitura “eu (a Sabedoria) era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença, brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens”. Imagens estupendas da realidade de comunhão em Deus. Cada dia é como presente de um para o outro “todo o tempo”. Cada momento é caracterizado pela brincadeira, “brincando em sua presença, brincando na superfície da terra”, sinal da alegria sincera desinteressada sem segundos fins, de graça.
Tal vez, sob este ponto de vista, a imagem mais acabada da Trindade seja a de três crianças, de dois anos aproximadamente, que brincam conjuntamente. Elas vivem o presente com intensidade, na pura gratuidade, sem forma de rivalidade ou de competição alguma, mas totalmente voltadas para o jogo em si mesmo.
Em Deus é brincadeira que suscita o encanto “eu era seu encanto”, o êxtase pelo específico relacionamento entre eles. Êxtase que se transforma em alegria “alegrando-me em estar com os filhos dos homens” por passar aos homens o caminho e as condições para que se repita entre eles mesmos do que acontece em Deus.
Como acontece o processo de envolvimento e de participação da humanidade na alegria e no êxtase de Deus? “Por nós homens e para nossa salvação desceu do céu” rezamos cada domingo no Credo. A salvação é exatamente a participação nisso e Jesus é a ponte, o mediador nos termos indicados pela 2da leitura.

2da leitura Rm 5,1-5

Poucas palavras que abrangem a totalidade da pessoa e sua ação coerente, positiva e plena de sentido. Desta maneira a existência dia -a -dia vai se conformando e assumindo nela o dom da presença da Trindade.
Justificados pela fé estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo” . O afastamento de Deus é experiência de toda pessoa por causa do pecado. Com efeito, o pecado é tal porque produz o afastamento de Deus e, por conseguinte de si mesmo, dos outros e da criação. Ao longo da história toda tentativa e esforço humano de remediar e recompor não deu certo. Só Jesus o conseguiu, em nome da humanidade de todos os tempos e de todos os lugares, por meio da sua morte e ressurreição, como muitas vezes já tocamos. Nesse sentido ele é o mediador, aquilo que faz uma ponte estável e firme entre a humanidade e Deus.
Esta ponte, esta mediação, é eficaz e produz o efeito desejado se a(s) pessoa(s), a humanidade, acolhe e aceita o que lhe é oferecido de forma gratuita, como dom. Jesus faz isso, não em virtude de algum mérito nosso nem de alguma qualidade específica, menos ainda, como premio pelo bom comportamento, mas simplesmente pelo amor. Com essa motivação Jesus carrega sobre si mesmo todas as deficiências, limites, fraquezas etc. e destrói em nós o mal e o pecado com sua morte.
A aceitação deste presente é o próprio, o específico, da fé. Ela - a fé- produz no interior da pessoa um sentimento de justificação, de se sentir justo perante do Pai, como se não tivesse pecado nenhum por meio. Dai o sentido da expressão “estamos em paz com Deus (...) tivemos acesso, pela fé, a esta graça”. É graça que permanentemente é oferecida na Missa. Infelizmente, muitos nem estão ai, e outros participam dela por obrigação, por habito Desta maneira, estão longe de acolher com amor o dom de tamanha importância para refazer o próprio mundo interior devastado pelo pecado.
É graça não só para o presente, mas para o futuro no sentido que sustenta a esperança de participar na plenitude da glória de Deus, no fim dos tempos “esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus (...) e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações”. O futuro, então, tem uma meta, um destino glorioso, mesmo que no presente seja todo o contrário.
Assim, as tribulações do tempo presente são encaradas não como uma desgraça, mas uma oportunidade para crescer na esperança “nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança”.
Por tribulações são Paulo entende toda dificuldade pessoal, toda aversão das circunstâncias, toda atitude de pessoas que intencionalmente, ou não, se opõem , colocam obstáculos à pregação e pratica do evangelho. Ele as experimentou de maneira intensa e fora da comum. Por tanto suas palavras têm um valor probatório indiscutível.
A força está no “amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. O Espírito Santo é o Deus presente em nós, cuja missão é a que comentaremos no evangelho.

Evangelho Jo 16,12-15

Jesus está consciente que nem todos os ensinamentos dele estão ao alcance do entendimento dos discípulos, pois lhes faltam elementos para isso. Portanto pré-anuncia a eles esta dificuldade “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de compreendê-las agora”. Não é para desanimá-los nem desprezá-los, mas para tirar deles toda preocupação ao respeito, pois, lhes antecipa que o pleno conhecimento será oferecido pelo Espírito Santo “Quando vier o Espírito da Verdade, El vos conduzirá à plena verdade”.
Pelo Espírito eles serão conduzidos à plena Verdade. Serão acompanhados pelo Espírito gradativa e progressivamente, ou seja, serão conduzidos por um caminho que desvelará novos horizontes, que favorecerá novos entendimentos e sustentará novas experiências de maneira que entenderão o porquê e o sentido profundo das ações e das palavras de Jesus.
Com efeito, é Jesus a verdade plena. Ele disse “Eu sou o caminho -porque sou- a verdade e a vida”. Portanto, a verdade não é simplesmente um aspecto intelectual, mas uma experiência que atinge a pessoa toda e em todos os níveis. E não só a pessoa individual, mas por extensão a humanidade e a criação. Esta é a Verdade, com a V maiúscula. É o significado global da pessoa de Jesus.
Com efeito, Jesus anuncia que o Espírito Santo “falará (...) dirá tudo o que tiver ouvido (... ) porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará” e acrescenta que “ tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”. Portanto, o Espírito desenvolverá a função de mestre interior, cuja atividade consistirá em indicar e criar as condições no dia -a- dia para que os discípulos respondam adequadamente às novas circunstancias e situações da vida pessoal e social. Tudo isso se faz corajosa criatividade inspirada pela vivencia da comunhão com Jesus e, ao mesmo tempo, adesão ao projeto do Pai com respeito ao novo céu e a nova terra que quer implantar com a colaboração dos discípulos de todos os tempos.Assim, a fidelidade a Jesus e ao projeto do Pai, não é repetição do que foi, a mesmice do passado, mas criatividade ousada,corajosa, de antecipar o futuro, na base dos novos elementos e condições que vão surgindo.
Certo, o novo é ambíguo, pois, tem em si mesmo uma mistura do certo e do errado, do bom e do ruim. Mas, é exatamente a partir disso que o Espírito Santo lembrará o estilo de vida, os critérios de discernimentos, as atitudes de Jesus, quando teve que enfrentar corajosamente situações semelhantes. Ajudará discernir o que deixar e o que reter, a custa de encontrar oposição até violenta, como a encontrou Jesus. Será revelado pelo Espírito o que é a Verdade plena naquela circunstância específica, e o mesmo Espírito, dará força para testemunhá-la como foi no caso de Jesus. Naquele momento o discípulo se tornará outro Jesus “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” dirá são Paulo.
Neste momento a glorificação que foi de Jesus será o do discípulo. Participando dela, o Espírito comunicará o “ que é meu- de Jesus- e vo-lo anunciará (...) até as coisas futuras”As coisas futuras não se referem aos eventos desconhecidos e a sua misteriosa realização, mas à certeza do destino à vida plena das pessoas, da humanidade e da criação, que corresponde à participação da glória de Deus no fim dos tempos.
É manifesta, desta forma, a singular comunhão entre os três, o Pai, o Folho e o Espírito Santo, assim como a única missão deles a favor da criação toda. É manifesta, então, a responsabilidade deles cheia de amor e de misericórdia para com uma criação rebelde e hostil. Participar já nesta terra da vida trinitária é entrar na comunhão com Ela para sustentar desenvolver e continuar a mesma missão, lutando com o mesmo amor e esperando contra toda esperança.

Um comentário:

  1. Pe. João, hoje aprendi com a sua homilia que o mistério da Santíssima Trindade revelou que Deus Pai, através das missões divinas do Filho e do Espírito Santo, realizou o seu "desígnio benevolente” de criação (Deus), de redenção (Filho), e de santificação (Espírito santo). E esse dogma, se é que posso assim chamar, pois a Trindade é o ponto fundamental e indiscutível da fé cristã, é permanentemente renovado pela igreja católica a cada missa realizada.

    Como o Senhor mesmo disse, a Santíssima Trindade sempre existiu mas sua manifestação aos povos da terra se deu de forma gradativa, a cada mistério revelado. Portanto, estaria correto dizer que a exemplo disso temos o relato sobre o batismo de Jesus, em que as chamadas "três pessoas da Trindade" se fizeram presentes, com a descida do Espírito Santo sobre Jesus, sob a forma de uma pomba, e com a voz do Pai Celeste dizendo: "Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo". (Marcos 1:10–11).

    Mas é tão difícil compreender os desígnios de Deus através de seus mistérios....não basta ler a palavra destacada aos domingos e escutar a homilia do chefe da assembléia, é necessário ler e reler tantas vezes quantas bastem para compreender o que foi dito e a dimensão do que foi dito na nossa vida e praticar diariamente (o que é mais difícil) o Amor de Deus através de nossos atos.

    Eu, particularmente, aprendo muito mais lendo sua homilia a cada semana e destrichando meu entendimento, do que do modo que eu fazia antes (ler apenas na missa, quando comparecia à missa e apenas naquele momento).

    Muito obrigada Pe. João Luís por nos permitir a compreensão da palavra de Deus a cada ensinamento dispensado.........é verdade que às vezes leio 3 a 4 vezes um parágrafo seu de reflexão para compreender (rsrsrs), mas é maravilhoso participar da sua evangelização.

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