domingo, 6 de junho de 2010

11o DOMINGO DO T.C.-C-(13-06-10)


1ª leitura 2Sm 12,7-10.13

O texto é a continuação e o final do dialogo, altamente dramático, entre o profeta Natã e o rei Davi. O rei tinha mandado matar o marido da mulher que ele mesmo engravidou, com o intento de esconder tudo. Corajosamente o profeta compara a atitude do rei a de um rico que sacrifica a única ovelha do pobre, em vez de tirar do seu rebanho, para festejar com os seus amigos. No máximo da indignação o rei, ignaro da armadilha, sentencia que este merece a morte. Eis, então, a resposta de Natã: “Esse homem és tu!”.
O profeta apresenta ao rei um resumo dos favores de Deus para com ele: “Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Eu te ungi (...) salvei-te (...). Dei-te a casa (...); e, se isto te parece pouco vou acrescentar outros favores” Não é difícil imaginar o estado de animo do rei. Com certeza, se sentiu lá em baixo, como quando um ser humano é obrigado a admitir e assumir algo que de jeito nenhum teria manifestado.
Natã afunda mais a faca “Por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que lhe desagrada? Feriste (...) Urias, para fazer de sua mulher a tua esposa, fazendo-o pela espada”. Coloca o rei perante sua responsabilidade e ao juízo da própria consciência. Podemos dizer a famosa frase: “o rei está nu”. Para o rei não há como se esconder ou fugir. Tal vez, a “solução” seria matar o profeta como fez anteriormente com Urias. Com certeza, o profeta arriscou muito.
Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor” Davi assume o próprio pecado. Notável que relacione o pecado a Deus. Não diz pequei contra Urias, contra a esposa dele, mas contra Deus. Com efeito, o pecado fere a Deus, como conseqüência da ação maldosa contra a imagem e semelhança Dele na pessoa de Urias e de sua mulher. Desprezar a pessoa é desprezar e desagradar a Deus. Daí o afastamento de Deus, pois, o pecado sempre diz afastamento de Deus.
Natã respondeu-lhe: Da sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!” Vale para toda pessoa o ensino. Reconhecer a própria culpa e assumir sinceramente o próprio pecado tem como contrapartida o imediato perdão de Deus. Tal vez, porque a pessoa resgata a autenticidade e a verdade de si mesma. Pois, tem a coragem de assumir o que realmente é, e reconhece o seu auto-afastamento de Deus. Esta atitude, associada ao perdão de Deus, vence a morte não só física, mas, humana, psicológica, ética e espiritual, ou seja, regenera a pessoa. Daí o perdão que gera vida: “não morrerás!”.
Contudo, são dramáticas as conseqüências pessoais e sociais “Por isso, a espada jamais se afastará de tua casa”. Pessoalmente Davi sofrerá a traição do filho mais velho. Socialmente o reino será dividido, depois do reinado de Salomão, pelas brigas de poder entre os sucessores. Choca com a nossa sensibilidade o fato de que pela culpa do rei “o filho que te nasceu morrerá”. Que tem a ver a criança? Efetivamente, para o nosso entendimento é um absurdo. O rei Davi fará penitencia, jejum, choro etc., para Deus poupar a criança, mas sem êxito. Não achei uma resposta convincente.
Cabe-me pensar a atitude de Deus como um motivo para refletir seriamente sobre as conseqüências do pecado. Se for certo que o arrependimento sincero suscita o perdão de Deus para com o pecador, é também certo que as conseqüências ruins vão muito além da intenção e vontade do pecador. Portanto, a consciente ação pecaminosa deve ser avaliada ultrapassando o simples horizonte pessoal. Com certeza, uma vez arrependidos-se terão experimentado o perdão misericordioso de Deus, mas as conseqüências estão ai. (Atualizando não é difícil entender como pelos escândalos do Vaticano, dos bispos, dos padres, dos animadores de comunidade etc., muitas pessoas se afastaram- e se afastam- da comunidade).
A vida toda é uma constante luta contra o pecado, cuja vitória é possível só pela fé em Jesus , nosso representante perante o Pai. É o conteúdo da 2da leitura.

2da leitura Gl 2,16. 19-21

São Paulo, conforme a formação recebida antes de sua conversão tinha a firma convicção de que poderia se apresentar perante de Deus como homem justo só pelo cumprimento da Lei. A Lei consistia nos primeiros cinco livros da Bíblia - o Pentateuco- e outras importantes prescrições que os grandes mestres espirituais tinham elaborado decorrentes da mesma lei e da tradição. Os mais voltados ao fiel cumprimento eram, nos tempos de Jesus, os fariseus. Paulo era um deles. Ao cumpridor era prometida a salvação e a entrada no reino de Deus. A salvação era o reconhecimento e o premio de quem caminhava na Lei de Deus. Pelo contrário, quem não a respeitava era um maldito de Deus, um condenado ao fogo eterno. De fato, reduzidos eram os observantes.
A conversão de Paulo foi uma reviravolta. Percebeu que perante de Deus, por ser ele imperfeito cumpridor da Lei - apesar do zelo, da dedicação e acrescentando o orgulho do cumprimento, mesmo que parcial, e da arrogância para com os afastados da Lei -, “ninguém é justificado por observar a Lei de Moises (...) porque pela prática da Lei ninguém será justificado”. Assim, o conhecimento do valor e da importância da morte e ressurreição de Jesus o levou a se afastar e abandonar todo o que tinha de convencimento com respeito à Lei mesma: “foi em virtude da Lei que eu morri para a Lei”.A partir de então, ser considerado como justo perante de Deus não dependerá do cumprimento da Lei, como credito perante de Deus para a própria salvação, mas “por crer em Jesus Cristo (...). Assim, fomos justificados pela fé em Cristo”.
Cabe perguntar: o que determinou esta convicção? A percepção de que “Com Cristo, eu fui pregado na cruz” (Gl 2,19). Pois, em Damasco, no evento da conversão, ele ouviu: “Eu sou Jesus, quem você persegue” (At 9;5). Mas, ele estava perseguindo os discípulos, não Ele! Então, deve ter associado imediatamente os discípulos como representantes de Jesus, e, ao mesmo tempo, ter entendido que na morte e ressurreição Jesus estava representando os discípulos, a humanidade toda incluído ele mesmo. Conseqüentemente, deve ter sido como se olhando o rosto de Cristo na cruz viesse o dele, não viu somente a Cristo, mas ele também. A cruz se tronou como espelho. O impacto foi enorme e não era para menos. Daí a determinação: “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deis, que me amou e por mim se entregou” (Gl 2,20)
Ter fé é aceitar esta singular união (que vivenciamos e atualizamos em cada Missa) que levará ,gradativamente, à mesma experiência se Paulo: “Eu vivo, mas não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20)Duas realidades – eu,Paulo e Cristo - profundamente unidas, na radical diferença. Só Deus podia realizar uma união desse jeito!
Eu não desprezo a graça de Deus. Ora, se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu inutilmente”. Reconhece Paulo de ter aderido e aceito o dom e seus efeitos surpreendentes. Assim, ele se dirige aos cristãos com dificuldade em acreditar que a função da Lei acabou em ordem a justificação. Eis, então a firmeza e determinação da expressão: Se não for assim “Cristo morreu inutilmente”.
A partir da fé em Cristo a Lei é como o teste para verificar o grau de adesão sincera e confiante ao dom de Cristo. Portanto, não adulterar, não matar, não roubar, não mentir etc., serão o testemunho do real e verdadeiro acolhimento do dom da morte e ressurreição de Jesus.
Vale especificar que os valores indicados pelos mandamentos, devem ser assumidos desde criança. É importante firmar a conduta certa. Sucessivamente, crescendo na idade e na compreensão, com a adesão consciente ao dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, e se mantendo firme neles- os valores-, levarão a pessoa já adulta à plena identidade com a pessoa e missão de Jesus. Haverá um papel decisivo a experiência do perdão, oferecida por Jesus e cuja força interior é analisada no evangelho.

Evangelho Lc 7,36-8,3

J.Jeremias, grande estudioso do Novo Testamento, escreve que era motivo de mérito para um fariseu convidar o pregador após o culto do sábado na sinagoga, na comunidade. É muito provável que Jesus tinha falado na sinagoga sobre o perdão. Daí os atores deste trecho, por um lado a pecadora e pelo outro o fariseu.
A mulher cumpre para com Jesus gestos desmedidos e surpreendentes “ frasco de alabastro com perfume (...) com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos e os ungia com o perfume”.O perfume era caríssimo. Nunca uma mulher teria soltado o cabelo em público, tirando o véu da cabeça. Lavar os pés e beijá-los, só lembrar o que significou quando Jesus lavou os pés aos discípulos.
Contudo, o fariseu fica perplexo pela suposta condição de profeta de Jesus perante esta circunstância. É a partir desta percepção que Jesus abre a conversa e leva o fariseu a comparar os gestos e as atitudes da mulher com os dele “Tu não me (...); ela, porém (...)”. Uma distancia abismal. O motivo desta diferença o explicou com a comparação entre os devedores, pois, um devia quinhentas e o outro só cinqüenta moedas.
A continuação Jesus deu a chave de leitura: “eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor”. Mostrou muito amor porque percebeu ter sida amada pelo perdão, por Deus na pregação de Jesus (de manhã durante o culto na sinagoga?). Ela deu voto de confiança à pessoa e às palavras de Jesus que abriram no seu coração a percepção de resgatar e reencontrar a dignidade perdida como ser humano, de se tornar de novo gente. Jesus mesmo confirmará isso: “Jesus disse à mulher: Tua fé te salvou. Vai em paz”. Ela teve fé no que estava acontecendo nela mesma.
Jesus se dirige, também, ao fariseu: “Aquele a quem se perdoa pouco, mostra pouco amor”. Evidentemente, o fariseu se sentia eticamente muito diferente da pecadora e Jesus não contesta isso, só faz entender o porquê não entendeu a atitude da mulher e, portanto, o alcance da pregação dele.
Jesus, então, termina sua ação pastoral dirigida a todos: “Teus pecados estão perdoados”. Significava se atribuir condição divina. Isso deixou mais perplexos os convidados “Quem é este que até perdoa os pecados?” como se Jesus fosse um atrevido, um presumido. Contudo, manifestou que o perdão de Deus, disponível pela palavra e a pessoa dele, não seria eficaz se todo destinatário não tivesse fé de tê-lo recebido, como foi experiência da mulher: “Tua fé te salvou
Depois disso, Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus” que se tornava boa realidade pelo perdão dos pecados, condição previa para a convivência da nova humanidade, cujo testemunho é oferecido pelas mulheres que já experimentaram a libertação “algumas mulheres que haviam sido curadas dos maus espíritos e doenças: Maria (...). Joana (...). Susana, e varias outras mulheres ajudavam Jesus e os discípulos com os bens que possuíam”.

2 comentários:

  1. Padre,
    Excelente discurso sobre o Perdão e Amor de Deus, justificado pela Fé.(Não sou eu que vivo..., Vá sua fé o salvou).
    São leituras ótimas.
    Sem falar em David, que mesmo sendo ungido de Deus, faz a famosa traição. O que nos leva a pensar que a Nossa fé deve ser renovada a cada Dia. Para combatermos o bom combate busca Deus no outro. Se amarmos a Deus respeintando o semelhante, assumindo Deus no outro. Teremos O Novo Céu e a Nova Terra.
    Abraços

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  2. Assumir o pecado, e um verdadeiro arrependimento nos resgata a humanidade e nos traz de volta o caminhar próximo ao Criador. Porem não desfaz o efeito causado ao próximo e ao mundo. Por isso a necessidade do selo, com a verdade e a justiça, pois uma vez ultrajados, talvez não tenhamos possibilidade de reparo (assassinato, destruição, aniquilação)
    O perdão eterno do Pai, se demonstra na alegria de retorno do filho perdido. Mas o resultado do pecado, muitas das vezes se faz também presente eternamente, para não nos esquecermos de caminhos que não deveríamos ter tomados.
    Paulo se reconhecendo no sacrifício de Jesus, por outro lado, não tira dele a necessidade da conversão. Pelo contrario, o traz a responsabilidade de continuação na missão de Jesus. Pois se morreu por mim, deve também viver por meio de minha existência. E Jesus, viver por meio de minha existência, significa ser enxergado através de meus atos.
    Na pecadora o perdão não aparece como uma atividade simples de Deus, mais implica numa possibilidade conjunta com o homem, ( Tua fé ti salvou ), como em outra parte do Evangelho, fala em continuidade testa atividade. ( Vá e não peque mais ).

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