sábado, 17 de julho de 2010
18o DOMINGO DO T.C.-C-(01-08-10)
1ª leitura Ecl 1,2; 2,21-23
“Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. Os estudiosos, traduzindo exatamente o sentido da expressão dizem: “tudo é bola de sabão”. É a morte que confere entendimento e verdade à expressão, pois, com ela a pessoa “vê-se obrigada a deixar tudo”. Falar de bola de sabão é fazer referencia a lago bonito, que atrai a atenção pela leveza, pelo sentido de liberdade de se mover solta no ar. Ela inspira sentimentos de delicadeza, de ternura e de suavidade, Más, também, é extremamente frágil e inconsistente, pois, uma insignificante alfinetada a faz desaparece, e retorna a realidade que ela ocultava. Assim, a “bola de sabão” pode ser comparada ao fato de que “um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo a outro que em nada colaborou”.
Assim, a inteligência e a competência investidas “nos trabalhos e preocupações que desgastam debaixo o sol", mesmo produzam resultados positivos não compensam a dedicação e o esforço nem evitam um sentimento de inconformidade, uma mistura de consciente ingenuidade e desilusão por deixar uma “herança a outro que em nada colaborou”. Então cabem as perguntas: teria sido melhor ficar quieto? Esta verdade é estímulo à passividade? Vale, então, voltar sobre si mesmo de maneira egoísta como bem aponta o livro da Sabedoria? “Nossa vida é passagem de uma sombra e nosso fim é irreversível (...), portanto, gozemos dos bens presentes e aproveitemos das criaturas (...). Deixemos por toda parte sinais de alegria (...). Oprimamos o justo pobre e não poupemos a viúva, nem respeitemos os cabelos brancos do ancião. Que a nossa força seja a lei da justiça, pois o que é fraco é reconhecidamente inútil” (Sb 2,1-14). Evidentemente que não, o mesmo texto condena esta atitude e maneira de pensar.
Mas, o que é a vaidade? É o desejo desmedido de atrair a admiração das outras pessoas. Um vaidoso cria uma imagem pessoal a ser transmitida aos outros, com o objetivo de ser admirado. Mostra com extravagância seus pontos positivos. Pode ser ganancioso, por querer obter algo valioso, mas é só para causar inveja a outros. Nesse sentido a vaidade é um defeito, pois impossibilita o correto relacionamento.
Contudo, quando inteligência e competência são investidas corretamente, não para aparecer, mas como contribuição ao crescimento humano próprio e dos outros; quando a pessoa se dedica de maneira tal que “toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa o seu coração”, também isso é vaidade? A resposta é negativa se ela desenvolveu tudo isso no horizonte da gratuidade.
Com efeito, agir por obrigação, por necessidade ou por troca é o mais comum da nossa pratica, do nosso compromisso. Mas, está à margem da gratuidade. Jesus lembrará aos que agem por ser vistos e elogiados que já receberam a recompensa. O horizonte da gratuidade é o mesmo do amor sincero, sem segundos fins. Precisa-se de muita gratuidade, de muito amor, para fazer o bem aos inimigos e não esperar nada em troca e dessa maneira ultrapassar toda vaidade.
Portanto, o sentido de desilusão, de frustração, é vencido por não deixar a vaidade poluir o agir com inteligência, a competência e o sucesso, ativando no mundo interior da pessoa a sincera gratuidade e permanecendo fiel nela nos momentos das provações e das tentações.
É o que indica a 2da leitura.
2da leitura Cl 3,1-5.9-11
Paulo se dirige aos cristãos da comunidade com a exortação: “esforçai-vos por alcançar as coisas do alto (...) aspirai às coisas celestes e não as coisas terrestres”. Cabe precisar que não existem duas categorias de coisas: umas celestes e outras terrestres. Existem as coisas como nos é dado perceber. No pensamento de são Paulo, o que faz delas uma realidade celeste ou terrestre é o tipo de aproximação, a qualidade do relacionamento com elas, o uso delas que pessoa estabelece. Evidentemente, a inclinação predominante, inspirada pelos critérios comuns, é fundamentalmente egocêntrica e limitadamente aberta a outras pessoas e as circunstâncias.
O acesso às coisas celestes se da pelo processo no qual se quebra na pessoa o eixo egocêntrico (a maneira de pensar e agir que tem si mesmo como centro e fim de tudo) e é substituído por colocar no centro da própria atenção outra(s) pessoa(s), a comunidade, a humanidade. Com isso ela se dispõe para novos relacionamentos baseados na justiça, no respeito e no direito. Assim, ela atualiza a dinâmica do amor que faz dela uma realidade celestial, ao passo que oferece aos destinatários a oportunidade de ser preenchido da condição celestial. Cabe especificar que este processo é como uma espiral que vai abrangendo, gradativamente, tudo e todos e, cada vez, formula novas respostas aos novos desafios. Não é um processo espontâneo e sem pedras no caminho, pois, “as coisas terrestres” puxam para trás, como bem sabemos e experimentamos. Daí a necessidade de “esforçai-vos (...) de aspirar”, próprio de quem entra nessa perspectiva e assume corajosamente o desafio.
Tudo isso provem da participação no Mistério de Deus por meio de Cristo “Se ressuscitastes com Cristo (...) a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus”. Cabe perguntar: o que entende Paulo por “se ressuscitastes com Cristo?”. Refere-se à vida nova, à ressurreição, que acontecida em Cristo é passada aos cristãos, “se”- sob condição - que estes deixem que isso aconteça, por aceitar de ter sido justificados e renovados pela morte e ressurreição de Cristo. Evidentemente, não se refere à ressurreição física, mas à vida nova - como uma ressurreição “escondida”- que irrompe e surge neles por morrer ao que é terrestre e ser associados à vida de Deus “Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus”. É algo misterioso e não percebido pela pessoa voltada para “as coisas terrestres”. O fim e a verdade completa deste processo se revelarão com a volta do Ressuscitado “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis com ele, revestidos de glória”.
A verdade é que já estamos “com Cristo, em Deus” e, portanto, já sentados no céu, como repete por duas vezes a carta aos Efésios. Daí decorre a realidade em virtude da qual “Já vos despojastes do homem velho e de sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo”. Realidade dinâmica, que não permite se acomodar, como quem desfruta de um bem adquirido de uma vez para sempre, mas, pelo contrário incentiva a busca de algo maior e mais perfeito, para que o bem recebido não se perca ou se torne inconsistente. Assim, o processo é a oportunidade de se renovar constantemente “ segundo a imagem de seu Criador em ordem ao conhecimento”.
A dinâmica é uma luta, pois o que é terrestre não deixa de exercer seu fascínio, sua sedução, e “Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra (no sentido do que já falei): imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. Não mintais uns aos outros”. Mas é, também, vivencia da fraternidade e da solidariedade sem preconceito ou diferenças de nenhum tipo, que há como eixo a adesão à pessoa e ao mistério de Deus manifestado em Cristo “Não se faz distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos”.
De grande importância é o relacionamento correto com os bens materiais, como indica o evangelho.
Evangelho Lc 12,13-21
“Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. Jesus se surpreende da atribuição que lhe é conferida, mesmo sendo um mestre de reconhecida autoridade: “Homem, quem me encarregou de julgar o de dividir vossos bens?”. Para o nosso entendimento a quem perguntar melhor do que a ele! E, de fato, ele não julga, não determina, não responde diretamente à pergunta. Aplica para si mesmo o que indicará para nós: não julgueis. Mais ainda. Coloca o interlocutor na condição de julgar por si mesmo, oferecendo critérios para isso. Desta maneira, valoriza a capacidade a inteligência da pessoa e a preserva livre da dependência do outro, mesma seja um mestre reconhecido como ele.
Com isso Jesus designa a fundamental missão do mestre de oferecer critérios, de incentivar devidamente no interlocutor o processo do correto discernimento. Nesta circunstância, Jesus oferece outra abordagem ao assunto, que, com certeza, o homem estava longe de pensar: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, (...) a vida de um homem não consiste na abundancia de bens”. Alerta sobre o perigo que segunda leitura tocava: “a cobiça que é idolatria”, ou seja, da enorme força sedutora do poder do dinheiro. De fato, Jesus coloca a oposição irreconciliável entre ele e o dinheiro com a famosa frase: “Ninguém pode servir a dois senhores. Ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). E acrescenta que o passageiro e a precariedade da vida humana devem ser tomados em seria consideração. De outra maneira, há perigo de merecer o julgamento de “Louco!”, tão será desatinado o comportamento.
O toque ao relato é o versículo final: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”. Esta contraposição oferece o critério geral do discernimento que deverá ser assumido pelo discípulo em toda circunstância, não somente no caso especifico da divisão da herança.
Tornar-se rico perante de Deus, pressupõe experimentar em si mesmo a misericórdia, a bondade que Jesus nos oferece constantemente por atualizar na Missa, no acolhimento de coração sincero da Palavra dele pela ação do Espírito Santo, os efeitos de sua morte e ressurreição. É a percepção dessa riqueza que capacita o correto discernimento, com respeito ao que é básico da existência humana , como os bens materiais, embora sejam termos de precários e passageiros. Dessa forma, as coisas terrestres se tornam celestes.
É o triunfo do bom senso e da devida confiança no Deus da Vida, que Jesus sendo conjuntamente homem e Deus sintetiza na conhecida expressão: “Eu sou o caminho (porque sou) a verdade e a vida” (Jo 6,14). Por isso ele se tornou o mediador, a referencia central e única da existência de toda pessoa, e assim responder devidamente a um problema de herança que, também hoje, é motivo de briga, desentendimento ódio e morte entre irmãos.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
17o DONINGO DO T.C.-C-(25-07-10)
1ª leitura Gn 18,20-32
“O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado”. Tradicionalmente o nome destas duas cidades indica o império do mal, até o ponto de trocar o mal pelo bem. A realidade é apresentada como irreversível ao entendimento e esforço humano, tão grande é o domínio do mal sobre as pessoas. Com efeito, quando a pessoa se acostuma ao mal se torna como insensível ao bem e ao prejuízo que acarreta. E mesmo tendo vontade de sair dele, não tem a força nem a condição. É o que diz o profeta Jeremias: “Por ventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jr 13,23). O domínio do mal se manifesta na escravidão do pecado, ou seja, quando ele é assumido livre e conscientemente.
Abraão percebe que o destino de Sodoma e Gomorra está marcado. É o destino de quem abandona e se afasta de Deus e, assim, se expõe ao castigo de Deus - traduzido na linguagem de hoje, à própria autodestruição -, pois, quem faz o mal é vítima do mal mesmo. Movido pela compaixão e pela misericórdia Abraão interroga Deus: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse cinqüenta justos na cidade, acaso irias exterminá-los?”.
Deus, pela compaixão e pela misericórdia, sintoniza com Abraão e, em virtude disso, entra no “jogo” que o mesmo lhe propõe. É notável e suscita admiração como os dois desejam o triunfo da vida e do bem, mesmo partindo de um numero reduzido de discípulos que se faz cada vez mai pequeno até o numero de dez, além do qual Abraão não ousou descer. Como não lembrar as palavras do livro da Sabedoria: “Entretanto - Senhor- de todos tem compaixão, porque tudo podes. Fechas os olhos aos pecados dos homens, para que se arrependam. Sim, amas tudo o que existe, e não desprezas nada do que fizeste (...). A todos, porém, tu tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida” (Sb 11, 23-26).
A pesar da intercessão de Abraão e da boa vontade de Deus o resultado não foi positivo. Desconsolado, Abraão deixou a cidade. Sodoma e Gomorra sofreram as conseqüências da destruição. É impressionante o poder do mal e do pecado. Torna as pessoas como cegas, encapasses de perceber a desgraça iminente. Troca a verdade pela mentira, o certo pelo errado, pois, a mentira consigo mesmo toma conta da filosofia da vida e motiva o persistir nela. Conseqüentemente, a falsidade é tida como bem. Quando isso se espalha e abrange o povo todo o processo de conversão é difícil como recordava o profeta Jeremias.
Contudo, fica registrado o Senhor como grande amigo da vida, o amigo de todos, independentemente da condição moral. A intercessão de Abraão - e de todos os santos – mostra a importância de sintonizar a inteligência e o coração à condição de justos não só perante de Deus, mas para a salvação de muitos. Somo solidários e responsáveis uns dos outros, mais ainda, cada pessoa é responsável e representa a humanidade toda perante de Deus.
Em virtude dessa característica, Deus Pai, amigo da vida, não hesitou em sacrificar o seu próprio Filho,( e continua atualizado os efeito daquele sacrifício) para evitar a catástrofe irremediável da humanidade toda.
É o que comentaremos na segunda leitura.
2da leitura Cl 2,12-14
“Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados”. Com estas palavras, dirigidas as pessoas da comunidade não entendia, evidentemente, se referir à morte física, mas aos mortos humanamente por causa do pecado que os tornou desumanos, psicologicamente vazios, antiéticos e surdos à voz do Espírito. Portanto, se trata da humanidade prejudicada, diminuída, que não tem condição de se reerguer com os meios próprios. Há paralelismo com o caso de Sodoma e Gomorra da primeira leitura. Só que neste caso há um único justo, e mediador eficaz,na pessoa de Jesus pelo qual “Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados”.
Este processo caracterizado pelo crescimento na “fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos”, tem seu ponto marcante no batismo, por meio do qual os efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, expressão do poder de Deus pela ação do Espírito Santo, são passados à pessoa. Este momento do batismo é entendido e valorizado por Paulo como uma circuncisão. Com efeito, ele se dirige aos mortos por causa do pecado como quem “não tinham recebido a circuncisão”. A circuncisão, para os hebreus, era o sinal visível da aliança com Deus. Em virtude dela a pessoa se tornava membro do provo de Israel, assumia a Lei de Moises como norma da própria vida e participava da esperança do Reino de Deus com a vinda do Messias. Era o que marcava um antes e um depois indelével, para sempre.
Paulo explica os efeitos do batismo “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados”. Em primeiro lugar se trata de mergulhar, como o peixe no mar, na morte Dele. Com isso, o pecado e sua força dominadora nas pessoas, são esvaziados e sepultados de uma vez para sempre. Paulo dirá explicitamente “Assim, vós também vos considerai mortos para o pecado” (Rm 6,11).
Por outro lado e com certeza, o pecado continuará exercendo sua função sedutora e a morte marcará o momento final da existência, mas não terão o mesmo sentido e valor. Com efeito, eis o segundo aspecto, o pecado poderá ser vencido já no dia- a- dia, e a morte não será a última palavra de Deus sobre a vida do cristão, pois, “com ele - Cristo - fostes ressuscitados”(Rm 6,11). Cabe especificar que o batismo não tem o efeito mágico próprio de quem acredita que só pelo fato de recebê-lo, automaticamente acontece o que acabo de dizer. Isso, talvez, seja um dos mais graves equívocos de muitos cristãos. Batizar tem o mesmo significado de circuncidar para o hebreu, do qual falava acima. Condição para a correta recepção do batismo é acreditar no dom gratuito oferecido pela morte e ressurreição de Jesus. Dom que deve ser cuidado, cultivado e trabalhado por uma prática de vida coerente que inclui a preocupação e o desejo de que este dom seja conhecido e oferecido a toda a humanidade. (Não entendo, com estas palavras, diminuir ou desvalorizar a importância e o significado das outras religiões. Contudo, é preciso entender que de alguma maneira os efeitos batismais fazem parte do DNA delas. Eles serão percebidos, sob outras formas e com outras categorias culturais, pela prática da caridade. Mas isso é outro tema, seria fugir do sentido das leituras.).
Merece meditar com atenção e gratidão que o dom gratuito do batismo e dos seus efeitos. Para Jesus o dom teve um preço altíssimo, desconcertante “Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz”. Assim a Lei de Moises mandava que o culpável pagasse o prejuízo - mais o25%do valor - para ficar livre da dívida e receber o perdão do pecado.
O preço do pecado foi para Jesus a experiência da maldição de Deus, cuja expressão é a auto entrega na cruz, como efeito da resistência ao pecado. Jesus pagou esta conta na própria carne na cruz. Por isso dirá Paulo que “Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio um maldito em nosso favor, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro ”( Gl 3,13).
Para sintonizar e acreditar é preciso cultivar o relacionamento de familiaridade com Deus nos termos que o evangelho indica.
Evangelho Lc 11,1-13
“Jesus estava rezando em certo lugar”. De alguma maneira este fato deve ter chamado a atenção, se um dos discípulos, estimulado pela atitude de João Batista para com os discípulos dele, pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. Eis a resposta de Jesus com as palavras do Pai Nosso.
Cabe pensar que Jesus ensinou o que ele acabava de praticar. Parecem-me particularmente importantes as últimas palavras deste trecho: “quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”. Elas oferecem um ponto de partida e um horizonte de compreensão da oração de Jesus e nossa. Como primeira atitude Jesus pede ao Pai o dom do Espírito. Mas, se ele mesmo foi concebido no seio de Maria pelo Espírito, ungido no batismo do Jordão e transfigurado no monte Tabor pelo mesmo Espírito Santo, era preciso pedi-lo constantemente na oração? Não é marcado por ele de uma vez para sempre?
Uma resposta poderia ser: marcado sim, mas não como se marca um objeto de maneira de simplesmente identificar a qualidade e a quem pertence. Jesus não é um objeto nem o Espírito Santo um marcador. Os dois são duas pessoas - as duas mãos de Deus - que estabelecem um profundo relacionamento em virtude de uma terceira que é o Pai, para a comunhão de vida e de missão voltadas para a salvação da pessoa e da humanidade. É este último aspecto que torna necessário o pedido da efusão do Espírito em circunstâncias especiais ou momentos específicos. (Por outro lado, também nós temos no nosso interior o dom do Espírito e constantemente o devemos pedir. Assim, a primeira atitude da oração é a sintonia com o Espírito e pedido de restabelecer, de reavivar, a plena comunhão na Trindade).
A luz disso a oração, não é uma formula a ser repetida mecanicamente, mas a indicação de pontos firmes a serem considerados e valorizados que qualificam, nas circunstâncias específicas, o correto relacionamento com a Trindade e seu reflexo no relacionamento com a humanidade e as pessoas. Eis, portanto, os tópicos que marcam o presente e o futuro de Jesus e do cristão: Deus Pai, a santificação do nome, a vinda do reino, o pão de cada dia, o perdão e não cair nas tentações. Cabe considerar que afastados da comunhão trinitária, e, portanto, do correto relacionamento com Cristo e o Pai no Espírito Santo e apertados pelas dificuldades e necessidades da vida, as pessoas fazem da oração um instrumento de troca, um meio necessário que resguarde de eventuais castigos ou acontecimentos ruins, ou ainda, uma obrigação a ser cumprida por parte do inferior para com o superior, visando o futuro do incógnito acontecer, após a morte. Em fim, há uma serie de elementos que sem querer, ou sem prestar a devida atenção, desvirtuam e desviam o sentido verdadeiro da oração como evento de comunhão no amor.
Daí, então, o sentido último do acréscimo de Jesus “E Jesus acrescentou: Se um de vós tiver um amigo (...) vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário” e da determinação dele “Portanto, eu vos digo: procurai e encontrareis; batei e vos será aberto”. De fato, a insistência impertinente e a perseverança na procura purificam a oração de todo o que não é autentico amor. A impertinência, motivada pela confiança da relação de amizade, não é fim a si mesma, mas expressão e memória do amor que sustentou o relacionamento e pelo qual o amigo se atreve incomodar até em horas inoportunas. Também o procurar insistentemente é baseado na certeza do amor próprio do pai, que não vai dar uma cobra em vez do pão ao filho que tem fome.
Assim, Jesus reconduz a oração no seu verdadeiro significado e na sua condição de alcançar o que é legitimo que ela ofereça: a divinização da pessoa pelo amor.
“O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado”. Tradicionalmente o nome destas duas cidades indica o império do mal, até o ponto de trocar o mal pelo bem. A realidade é apresentada como irreversível ao entendimento e esforço humano, tão grande é o domínio do mal sobre as pessoas. Com efeito, quando a pessoa se acostuma ao mal se torna como insensível ao bem e ao prejuízo que acarreta. E mesmo tendo vontade de sair dele, não tem a força nem a condição. É o que diz o profeta Jeremias: “Por ventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jr 13,23). O domínio do mal se manifesta na escravidão do pecado, ou seja, quando ele é assumido livre e conscientemente.
Abraão percebe que o destino de Sodoma e Gomorra está marcado. É o destino de quem abandona e se afasta de Deus e, assim, se expõe ao castigo de Deus - traduzido na linguagem de hoje, à própria autodestruição -, pois, quem faz o mal é vítima do mal mesmo. Movido pela compaixão e pela misericórdia Abraão interroga Deus: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse cinqüenta justos na cidade, acaso irias exterminá-los?”.
Deus, pela compaixão e pela misericórdia, sintoniza com Abraão e, em virtude disso, entra no “jogo” que o mesmo lhe propõe. É notável e suscita admiração como os dois desejam o triunfo da vida e do bem, mesmo partindo de um numero reduzido de discípulos que se faz cada vez mai pequeno até o numero de dez, além do qual Abraão não ousou descer. Como não lembrar as palavras do livro da Sabedoria: “Entretanto - Senhor- de todos tem compaixão, porque tudo podes. Fechas os olhos aos pecados dos homens, para que se arrependam. Sim, amas tudo o que existe, e não desprezas nada do que fizeste (...). A todos, porém, tu tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida” (Sb 11, 23-26).
A pesar da intercessão de Abraão e da boa vontade de Deus o resultado não foi positivo. Desconsolado, Abraão deixou a cidade. Sodoma e Gomorra sofreram as conseqüências da destruição. É impressionante o poder do mal e do pecado. Torna as pessoas como cegas, encapasses de perceber a desgraça iminente. Troca a verdade pela mentira, o certo pelo errado, pois, a mentira consigo mesmo toma conta da filosofia da vida e motiva o persistir nela. Conseqüentemente, a falsidade é tida como bem. Quando isso se espalha e abrange o povo todo o processo de conversão é difícil como recordava o profeta Jeremias.
Contudo, fica registrado o Senhor como grande amigo da vida, o amigo de todos, independentemente da condição moral. A intercessão de Abraão - e de todos os santos – mostra a importância de sintonizar a inteligência e o coração à condição de justos não só perante de Deus, mas para a salvação de muitos. Somo solidários e responsáveis uns dos outros, mais ainda, cada pessoa é responsável e representa a humanidade toda perante de Deus.
Em virtude dessa característica, Deus Pai, amigo da vida, não hesitou em sacrificar o seu próprio Filho,( e continua atualizado os efeito daquele sacrifício) para evitar a catástrofe irremediável da humanidade toda.
É o que comentaremos na segunda leitura.
2da leitura Cl 2,12-14
“Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados”. Com estas palavras, dirigidas as pessoas da comunidade não entendia, evidentemente, se referir à morte física, mas aos mortos humanamente por causa do pecado que os tornou desumanos, psicologicamente vazios, antiéticos e surdos à voz do Espírito. Portanto, se trata da humanidade prejudicada, diminuída, que não tem condição de se reerguer com os meios próprios. Há paralelismo com o caso de Sodoma e Gomorra da primeira leitura. Só que neste caso há um único justo, e mediador eficaz,na pessoa de Jesus pelo qual “Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados”.
Este processo caracterizado pelo crescimento na “fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos”, tem seu ponto marcante no batismo, por meio do qual os efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, expressão do poder de Deus pela ação do Espírito Santo, são passados à pessoa. Este momento do batismo é entendido e valorizado por Paulo como uma circuncisão. Com efeito, ele se dirige aos mortos por causa do pecado como quem “não tinham recebido a circuncisão”. A circuncisão, para os hebreus, era o sinal visível da aliança com Deus. Em virtude dela a pessoa se tornava membro do provo de Israel, assumia a Lei de Moises como norma da própria vida e participava da esperança do Reino de Deus com a vinda do Messias. Era o que marcava um antes e um depois indelével, para sempre.
Paulo explica os efeitos do batismo “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados”. Em primeiro lugar se trata de mergulhar, como o peixe no mar, na morte Dele. Com isso, o pecado e sua força dominadora nas pessoas, são esvaziados e sepultados de uma vez para sempre. Paulo dirá explicitamente “Assim, vós também vos considerai mortos para o pecado” (Rm 6,11).
Por outro lado e com certeza, o pecado continuará exercendo sua função sedutora e a morte marcará o momento final da existência, mas não terão o mesmo sentido e valor. Com efeito, eis o segundo aspecto, o pecado poderá ser vencido já no dia- a- dia, e a morte não será a última palavra de Deus sobre a vida do cristão, pois, “com ele - Cristo - fostes ressuscitados”(Rm 6,11). Cabe especificar que o batismo não tem o efeito mágico próprio de quem acredita que só pelo fato de recebê-lo, automaticamente acontece o que acabo de dizer. Isso, talvez, seja um dos mais graves equívocos de muitos cristãos. Batizar tem o mesmo significado de circuncidar para o hebreu, do qual falava acima. Condição para a correta recepção do batismo é acreditar no dom gratuito oferecido pela morte e ressurreição de Jesus. Dom que deve ser cuidado, cultivado e trabalhado por uma prática de vida coerente que inclui a preocupação e o desejo de que este dom seja conhecido e oferecido a toda a humanidade. (Não entendo, com estas palavras, diminuir ou desvalorizar a importância e o significado das outras religiões. Contudo, é preciso entender que de alguma maneira os efeitos batismais fazem parte do DNA delas. Eles serão percebidos, sob outras formas e com outras categorias culturais, pela prática da caridade. Mas isso é outro tema, seria fugir do sentido das leituras.).
Merece meditar com atenção e gratidão que o dom gratuito do batismo e dos seus efeitos. Para Jesus o dom teve um preço altíssimo, desconcertante “Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz”. Assim a Lei de Moises mandava que o culpável pagasse o prejuízo - mais o25%do valor - para ficar livre da dívida e receber o perdão do pecado.
O preço do pecado foi para Jesus a experiência da maldição de Deus, cuja expressão é a auto entrega na cruz, como efeito da resistência ao pecado. Jesus pagou esta conta na própria carne na cruz. Por isso dirá Paulo que “Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio um maldito em nosso favor, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro ”( Gl 3,13).
Para sintonizar e acreditar é preciso cultivar o relacionamento de familiaridade com Deus nos termos que o evangelho indica.
Evangelho Lc 11,1-13
“Jesus estava rezando em certo lugar”. De alguma maneira este fato deve ter chamado a atenção, se um dos discípulos, estimulado pela atitude de João Batista para com os discípulos dele, pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. Eis a resposta de Jesus com as palavras do Pai Nosso.
Cabe pensar que Jesus ensinou o que ele acabava de praticar. Parecem-me particularmente importantes as últimas palavras deste trecho: “quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”. Elas oferecem um ponto de partida e um horizonte de compreensão da oração de Jesus e nossa. Como primeira atitude Jesus pede ao Pai o dom do Espírito. Mas, se ele mesmo foi concebido no seio de Maria pelo Espírito, ungido no batismo do Jordão e transfigurado no monte Tabor pelo mesmo Espírito Santo, era preciso pedi-lo constantemente na oração? Não é marcado por ele de uma vez para sempre?
Uma resposta poderia ser: marcado sim, mas não como se marca um objeto de maneira de simplesmente identificar a qualidade e a quem pertence. Jesus não é um objeto nem o Espírito Santo um marcador. Os dois são duas pessoas - as duas mãos de Deus - que estabelecem um profundo relacionamento em virtude de uma terceira que é o Pai, para a comunhão de vida e de missão voltadas para a salvação da pessoa e da humanidade. É este último aspecto que torna necessário o pedido da efusão do Espírito em circunstâncias especiais ou momentos específicos. (Por outro lado, também nós temos no nosso interior o dom do Espírito e constantemente o devemos pedir. Assim, a primeira atitude da oração é a sintonia com o Espírito e pedido de restabelecer, de reavivar, a plena comunhão na Trindade).
A luz disso a oração, não é uma formula a ser repetida mecanicamente, mas a indicação de pontos firmes a serem considerados e valorizados que qualificam, nas circunstâncias específicas, o correto relacionamento com a Trindade e seu reflexo no relacionamento com a humanidade e as pessoas. Eis, portanto, os tópicos que marcam o presente e o futuro de Jesus e do cristão: Deus Pai, a santificação do nome, a vinda do reino, o pão de cada dia, o perdão e não cair nas tentações. Cabe considerar que afastados da comunhão trinitária, e, portanto, do correto relacionamento com Cristo e o Pai no Espírito Santo e apertados pelas dificuldades e necessidades da vida, as pessoas fazem da oração um instrumento de troca, um meio necessário que resguarde de eventuais castigos ou acontecimentos ruins, ou ainda, uma obrigação a ser cumprida por parte do inferior para com o superior, visando o futuro do incógnito acontecer, após a morte. Em fim, há uma serie de elementos que sem querer, ou sem prestar a devida atenção, desvirtuam e desviam o sentido verdadeiro da oração como evento de comunhão no amor.
Daí, então, o sentido último do acréscimo de Jesus “E Jesus acrescentou: Se um de vós tiver um amigo (...) vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário” e da determinação dele “Portanto, eu vos digo: procurai e encontrareis; batei e vos será aberto”. De fato, a insistência impertinente e a perseverança na procura purificam a oração de todo o que não é autentico amor. A impertinência, motivada pela confiança da relação de amizade, não é fim a si mesma, mas expressão e memória do amor que sustentou o relacionamento e pelo qual o amigo se atreve incomodar até em horas inoportunas. Também o procurar insistentemente é baseado na certeza do amor próprio do pai, que não vai dar uma cobra em vez do pão ao filho que tem fome.
Assim, Jesus reconduz a oração no seu verdadeiro significado e na sua condição de alcançar o que é legitimo que ela ofereça: a divinização da pessoa pelo amor.
16o DOMINGO DO T.C.(18-07-10)
1ª leitura Gn 18,1-10ª
Abraão saiu da sua terra rumo à outra desconhecida motivado pela fé na promessa de Deus de se tornar pai de um povo numeroso como o as estrelas do céu e o os grãos de areia da praia do mar. Ele e sua esposa de idade avançada permaneceram estéreis, sem filhos. Os anos passaram e o filho não chegava. Contudo, numa noite no meio do deserto, rumo à meta, renova sua esperança na promessa. Isso agradou muito a Deus. Comentará são Paulo: “esperou contra toda esperança” (Rm 4,18).
Nesse contexto, eis o relato, muito conhecido, da acolhida destes personagens: “Abraão viu três homens de pé, perto dele. Assim que os viu, correu ao seu encontro e prostrou-se por terra” e os recebe reconhecendo neles a presença do Senhor “ Meu Senhor, se ganhei tua amizade, peço-te que não prossigas viagem, sem parar junto a mim, teu servo”. Os acolhe com uma atitude surpreendente cheia de atenção, de benevolência, de caridade: “Mandarei trazer (...), Farei servir (...). Pois foi para isso que vos aproximastes do vosso servo”.
Eles aceitam a homenagem e a atenção: “Faze como disseste”. E Abraão se esmera, com sua esposa, em servi-los e acompanhá-los estando de pé em sinal de respeito e prontidão. Não pergunta não cobra nem reclama com respeito ao demorar da promessa, simplesmente manifesta sua condição de servo e disponibilidade ao acolhimento e atenção às necessidades dos três.
Tudo isso configura o perfil da personalidade de Abraão, no decorrer dos anos em virtude da chamada e da missão que Deus lhe confiou. Já passaram 24 anos desde o dia da chamada. Naquele dia respondeu com fé, comi voto de confiança, à promessa humanamente impossível. Logo mais na frente renovou sua fé esperando contra toda esperança, quando demorava o cumprimento da promessa. Mesmo assim, mais na frente, acolhe com caridade surpreendente o seu Senhor.
“Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara tua mulher, já terá um filho”. E assim acontecerá. Este filho, o filho da promessa, é o fruto acabado da fé, da esperança e da caridade. Não é simples cumprir de um ato biológico que ultrapassa as leis da natureza. É o que procede de Deus, por Abraão se tornar amigo intimo, familiar, de Deus em virtude de ter exercitado para com Ele a fé, a esperança e a caridade.
Fé, esperança e caridade, acompanham a caminhada de todo filho de Abraão. Isso significa acolher o chamado de Deus para uma missão ousada no total desapego de si mesmo, até das legítimas expectativas baseadas na promessa. Tudo supõe disposição e exercitar a fé, a esperança e a caridade, no exemplo de Abraão- chamado de pai na fé-, como condição indispensáveis para a promessa acontecer. Tudo isso, supõe entrar no horizonte da gratuidade (do discípulo para com Deus e de Deus para com ele), ou seja, do amor na sua expressão mais pura e acabada. Com efeito, é o que destaca da leitura atenta do texto.
Só nesse horizonte é possível desenvolver a vida cristã nos temos experimentados por são Paulo.
2da leitura Cl 1,24-28
Paulo se dirige à comunidade, à Igreja: “Alegro-me de tudo o que já sofri por vós”. Associação fora do entendimento comum entre alegria e sofrimento. Em primeiro lugar, Paulo se colocou na comunidade como servidor “exercendo o cargo que Deus me confiou de vos transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”. Posicionou-se a partir de sua identidade com a pessoa, a missão de Jesus e especificadamente com o significado e a importância da norte e ressurreição do mesmo. O efeito foi se encontrar a si mesmo, com o sentido da própria vida na adesão a Cristo e no desenvolvimento da missão “que Deus me confiou”. Percebeu-se um cristão autentico , e sobretodo, determinado e lúcido. Daí a alegria de “transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”, porque foi preenchido dessa plenitude.
O conteúdo da transmissão consiste no “mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado (...): a presença de Cristo em vós, a esperança da glória”. Trata-se da plenitude oferecida pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e assumidos pela aceitação do dom gratuito dele, ou seja, pela fé. Conseqüentemente, a plenitude é o mistério da comunhão com Cristo, realizado de forma misteriosa, gerado pela “presença de Cristo em vós”. Mais ainda, tudo isso tem que ver com “a esperança da glória”, com o presente e o futuro da glória.
Glória diz respeito á realidade de Deus absolutamente transcendente, inalcançável, imenso infinito, etc., e também com o que dessa realidade é participado, contido e manifestado no limite da condição humana. No texto, parece-me que Paulo se refere à glória como realidade já presente pela comunhão com Cristo e ao, mesmo tempo, como realidade da promessa futura e, portanto, com o conteúdo da esperança que será realizada com a vinda do Ressuscitado no fim dos tempos.
A posta em jogo é tão grande que merece toda dedicação e esforço “Nós o anunciamos, admoestando e todos e ensinando a todos, com toda sabedoria, para a todos tornar perfeitos em sua união com Cristo”. Esta ênfase no “todos” faz transparecer o entusiasmo da participação dele no Mistério. Entusiasmo que transborda no desejo e na convicção de transmitir a mesma experiência a todos, por estar a disposição de todos aqueles que aceitarão o dom de Cristo. A pregação visa, também, motivar e sustentar um caminho rumo ao aperfeiçoamento dessa comunhão, pois, a participação ao Mistério é inesgotável e exige a dinâmica da reformulação para o contínuo crescimento.
Contudo, esse entusiasmo sofre a incompreensão e a rejeição até violenta e dolorosa, como é a experiência da perseguição. Daí as palavras do “que já sofri por vós e procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a igreja”. Cabe perguntar: de onde procede, então, a alegria? Pela singular experiência de Cristo que se atualiza no discípulo, sendo que participação ao Mistério da plenitude é indissociável do mistério do mal, da rejeição. Em outro texto dirá são Paulo “se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5).
Parece-me, então, que o “completar na própria carne o que falta das tribulações de Cristo” não tem o sentido de preencher uma carência de Cristo, como se o agir dele fosse incompleto, mas de explicitar que, em solidariedade com a vivencia na comunidade- a igreja- motivada e sustentada pelo Mistério da morte e ressurreição de Cristo, se atualiza no discípulo o mesmo Mistério do Mestre.
Atitude primeira e fundamental do discípulo(a) é a que o evangelho indica.
Evangelho Lc 10,38-42
É o conhecido texto de Marta e Maria. “Marta, recebeu-o (Jesus) em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do senhor, e escutava a sua palavra”. Duas atitudes marcadamente diferentes. A primeira é de quem está preocupado pelos muitos afazeres, e a segunda é própria do discípulo. A atitude de Maria, expressamente aprovada por Jesus, é uma primeira mensagem revolucionaria para então: também as mulheres podem se tornar discípulas. Daí, a atitude certa e conveniente de Maria: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. Portanto, escutar por escutar, melhor o simples ouvir, por prestar atenção a colocações ou palavras interessantes, por curiosidade ou boa educação, não da conta do sentido das palavras de Jesus.
Jesus fala de “uma só coisa necessária”. Acredito que seja a fé e o discipulado. Fé que procede da escuta. Maria se manifestou disponível a ela assumindo a correta postura do discípulo, se colocando aos pés do mestre, imagem eloqüente e expressiva, na mentalidade de então, do adequado relacionamento discípulo –mestre. Este relacionamento confere qualidade à Maria, é a parte melhor que permanecerá para sempre nela: “Não lhe será tirada”. Dessa forma, o ser profundo dela será marcado para sempre, será imprimindo na consciência dela o sentido e a finalidade do discipulado assim como a determinação e vontade de assumi-lo. Com outras palavras, irá identificando Maria com o mestre.
Acolher Jesus na própria casa com a atitude de Marta ocupada com muitos afazeres e reclamar “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço?” significa manter um relacionamento formal, muito aquém do que Jesus espera e deseja. É perder a oportunidade de um entrosamento que constitui um salto qualitativo na própria existência e enxergar um novo sentido da vida. É uma desatenção prejudicial em nome de preocupações secundárias naquele momento, naquela circunstância.
Daí a chamada de atenção “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas” Com efeito, há momentos que, como Marta, muito preocupados pelos diferentes afazeres, perde-se a capacidade de avaliar corretamente o presente, a oportunidade de modificar o planejamento, o programa já estabelecido em nome de uma oportunidade, oferecida por uma circunstância conveniente, para um salto qualitativo de relacionamento e, portanto, de vida. O correto relacionamento com Jesus precisa desta atenção, sobretudo nos ritmos atuais do dia - a - dia. É preciso convicção, determinação e recortar tempo e espaço adequado na própria casa, no dia - a – dia, para implantar e cultivar o correto relacionamento pela escuta, meditação e oração da Palavra Dele.
Portanto, não é questão de confrontar se é mais importante a atitude de Marta ou de Maria, mas o discernimento correto entre as duas, porque as duas são importantes. Mas, o necessário é o discipulado, nesse sentido ele deve ser privilegiado para estabelecer e manter o relacionamento permanente com Jesus. Sem o discipulado o relacionamento com ele se torna inconsistente, superficial, de boca para fora, reduzido simplesmente aos momentos de aperto e reclamando por não ter sido atendido no momento da necessidade ou da desgraça, como no caso de Marta quando saiu ao encontro de Jesus que estava chegando, após do falecimento do irmão Lazaro.
Na sociedade hodierna, com sues ritmos elevados e extremamente cansativos se faz mais necessários do que nunca privilegiar em alguns momentos a atitude de Maria. Tal vez daria para experimentar aquele descanso, aquele repouso, aquela recomposição da harmonia e serenidade interior, expressão de se re-apropriar do ser mais profundo e dos valores nele contidos, que nenhum feriadão na praia, viagem ou festinha é capaz de oferecer.
Abraão saiu da sua terra rumo à outra desconhecida motivado pela fé na promessa de Deus de se tornar pai de um povo numeroso como o as estrelas do céu e o os grãos de areia da praia do mar. Ele e sua esposa de idade avançada permaneceram estéreis, sem filhos. Os anos passaram e o filho não chegava. Contudo, numa noite no meio do deserto, rumo à meta, renova sua esperança na promessa. Isso agradou muito a Deus. Comentará são Paulo: “esperou contra toda esperança” (Rm 4,18).
Nesse contexto, eis o relato, muito conhecido, da acolhida destes personagens: “Abraão viu três homens de pé, perto dele. Assim que os viu, correu ao seu encontro e prostrou-se por terra” e os recebe reconhecendo neles a presença do Senhor “ Meu Senhor, se ganhei tua amizade, peço-te que não prossigas viagem, sem parar junto a mim, teu servo”. Os acolhe com uma atitude surpreendente cheia de atenção, de benevolência, de caridade: “Mandarei trazer (...), Farei servir (...). Pois foi para isso que vos aproximastes do vosso servo”.
Eles aceitam a homenagem e a atenção: “Faze como disseste”. E Abraão se esmera, com sua esposa, em servi-los e acompanhá-los estando de pé em sinal de respeito e prontidão. Não pergunta não cobra nem reclama com respeito ao demorar da promessa, simplesmente manifesta sua condição de servo e disponibilidade ao acolhimento e atenção às necessidades dos três.
Tudo isso configura o perfil da personalidade de Abraão, no decorrer dos anos em virtude da chamada e da missão que Deus lhe confiou. Já passaram 24 anos desde o dia da chamada. Naquele dia respondeu com fé, comi voto de confiança, à promessa humanamente impossível. Logo mais na frente renovou sua fé esperando contra toda esperança, quando demorava o cumprimento da promessa. Mesmo assim, mais na frente, acolhe com caridade surpreendente o seu Senhor.
“Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara tua mulher, já terá um filho”. E assim acontecerá. Este filho, o filho da promessa, é o fruto acabado da fé, da esperança e da caridade. Não é simples cumprir de um ato biológico que ultrapassa as leis da natureza. É o que procede de Deus, por Abraão se tornar amigo intimo, familiar, de Deus em virtude de ter exercitado para com Ele a fé, a esperança e a caridade.
Fé, esperança e caridade, acompanham a caminhada de todo filho de Abraão. Isso significa acolher o chamado de Deus para uma missão ousada no total desapego de si mesmo, até das legítimas expectativas baseadas na promessa. Tudo supõe disposição e exercitar a fé, a esperança e a caridade, no exemplo de Abraão- chamado de pai na fé-, como condição indispensáveis para a promessa acontecer. Tudo isso, supõe entrar no horizonte da gratuidade (do discípulo para com Deus e de Deus para com ele), ou seja, do amor na sua expressão mais pura e acabada. Com efeito, é o que destaca da leitura atenta do texto.
Só nesse horizonte é possível desenvolver a vida cristã nos temos experimentados por são Paulo.
2da leitura Cl 1,24-28
Paulo se dirige à comunidade, à Igreja: “Alegro-me de tudo o que já sofri por vós”. Associação fora do entendimento comum entre alegria e sofrimento. Em primeiro lugar, Paulo se colocou na comunidade como servidor “exercendo o cargo que Deus me confiou de vos transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”. Posicionou-se a partir de sua identidade com a pessoa, a missão de Jesus e especificadamente com o significado e a importância da norte e ressurreição do mesmo. O efeito foi se encontrar a si mesmo, com o sentido da própria vida na adesão a Cristo e no desenvolvimento da missão “que Deus me confiou”. Percebeu-se um cristão autentico , e sobretodo, determinado e lúcido. Daí a alegria de “transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”, porque foi preenchido dessa plenitude.
O conteúdo da transmissão consiste no “mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado (...): a presença de Cristo em vós, a esperança da glória”. Trata-se da plenitude oferecida pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e assumidos pela aceitação do dom gratuito dele, ou seja, pela fé. Conseqüentemente, a plenitude é o mistério da comunhão com Cristo, realizado de forma misteriosa, gerado pela “presença de Cristo em vós”. Mais ainda, tudo isso tem que ver com “a esperança da glória”, com o presente e o futuro da glória.
Glória diz respeito á realidade de Deus absolutamente transcendente, inalcançável, imenso infinito, etc., e também com o que dessa realidade é participado, contido e manifestado no limite da condição humana. No texto, parece-me que Paulo se refere à glória como realidade já presente pela comunhão com Cristo e ao, mesmo tempo, como realidade da promessa futura e, portanto, com o conteúdo da esperança que será realizada com a vinda do Ressuscitado no fim dos tempos.
A posta em jogo é tão grande que merece toda dedicação e esforço “Nós o anunciamos, admoestando e todos e ensinando a todos, com toda sabedoria, para a todos tornar perfeitos em sua união com Cristo”. Esta ênfase no “todos” faz transparecer o entusiasmo da participação dele no Mistério. Entusiasmo que transborda no desejo e na convicção de transmitir a mesma experiência a todos, por estar a disposição de todos aqueles que aceitarão o dom de Cristo. A pregação visa, também, motivar e sustentar um caminho rumo ao aperfeiçoamento dessa comunhão, pois, a participação ao Mistério é inesgotável e exige a dinâmica da reformulação para o contínuo crescimento.
Contudo, esse entusiasmo sofre a incompreensão e a rejeição até violenta e dolorosa, como é a experiência da perseguição. Daí as palavras do “que já sofri por vós e procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a igreja”. Cabe perguntar: de onde procede, então, a alegria? Pela singular experiência de Cristo que se atualiza no discípulo, sendo que participação ao Mistério da plenitude é indissociável do mistério do mal, da rejeição. Em outro texto dirá são Paulo “se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5).
Parece-me, então, que o “completar na própria carne o que falta das tribulações de Cristo” não tem o sentido de preencher uma carência de Cristo, como se o agir dele fosse incompleto, mas de explicitar que, em solidariedade com a vivencia na comunidade- a igreja- motivada e sustentada pelo Mistério da morte e ressurreição de Cristo, se atualiza no discípulo o mesmo Mistério do Mestre.
Atitude primeira e fundamental do discípulo(a) é a que o evangelho indica.
Evangelho Lc 10,38-42
É o conhecido texto de Marta e Maria. “Marta, recebeu-o (Jesus) em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do senhor, e escutava a sua palavra”. Duas atitudes marcadamente diferentes. A primeira é de quem está preocupado pelos muitos afazeres, e a segunda é própria do discípulo. A atitude de Maria, expressamente aprovada por Jesus, é uma primeira mensagem revolucionaria para então: também as mulheres podem se tornar discípulas. Daí, a atitude certa e conveniente de Maria: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. Portanto, escutar por escutar, melhor o simples ouvir, por prestar atenção a colocações ou palavras interessantes, por curiosidade ou boa educação, não da conta do sentido das palavras de Jesus.
Jesus fala de “uma só coisa necessária”. Acredito que seja a fé e o discipulado. Fé que procede da escuta. Maria se manifestou disponível a ela assumindo a correta postura do discípulo, se colocando aos pés do mestre, imagem eloqüente e expressiva, na mentalidade de então, do adequado relacionamento discípulo –mestre. Este relacionamento confere qualidade à Maria, é a parte melhor que permanecerá para sempre nela: “Não lhe será tirada”. Dessa forma, o ser profundo dela será marcado para sempre, será imprimindo na consciência dela o sentido e a finalidade do discipulado assim como a determinação e vontade de assumi-lo. Com outras palavras, irá identificando Maria com o mestre.
Acolher Jesus na própria casa com a atitude de Marta ocupada com muitos afazeres e reclamar “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço?” significa manter um relacionamento formal, muito aquém do que Jesus espera e deseja. É perder a oportunidade de um entrosamento que constitui um salto qualitativo na própria existência e enxergar um novo sentido da vida. É uma desatenção prejudicial em nome de preocupações secundárias naquele momento, naquela circunstância.
Daí a chamada de atenção “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas” Com efeito, há momentos que, como Marta, muito preocupados pelos diferentes afazeres, perde-se a capacidade de avaliar corretamente o presente, a oportunidade de modificar o planejamento, o programa já estabelecido em nome de uma oportunidade, oferecida por uma circunstância conveniente, para um salto qualitativo de relacionamento e, portanto, de vida. O correto relacionamento com Jesus precisa desta atenção, sobretudo nos ritmos atuais do dia - a - dia. É preciso convicção, determinação e recortar tempo e espaço adequado na própria casa, no dia - a – dia, para implantar e cultivar o correto relacionamento pela escuta, meditação e oração da Palavra Dele.
Portanto, não é questão de confrontar se é mais importante a atitude de Marta ou de Maria, mas o discernimento correto entre as duas, porque as duas são importantes. Mas, o necessário é o discipulado, nesse sentido ele deve ser privilegiado para estabelecer e manter o relacionamento permanente com Jesus. Sem o discipulado o relacionamento com ele se torna inconsistente, superficial, de boca para fora, reduzido simplesmente aos momentos de aperto e reclamando por não ter sido atendido no momento da necessidade ou da desgraça, como no caso de Marta quando saiu ao encontro de Jesus que estava chegando, após do falecimento do irmão Lazaro.
Na sociedade hodierna, com sues ritmos elevados e extremamente cansativos se faz mais necessários do que nunca privilegiar em alguns momentos a atitude de Maria. Tal vez daria para experimentar aquele descanso, aquele repouso, aquela recomposição da harmonia e serenidade interior, expressão de se re-apropriar do ser mais profundo e dos valores nele contidos, que nenhum feriadão na praia, viagem ou festinha é capaz de oferecer.
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