sábado, 17 de julho de 2010

18o DOMINGO DO T.C.-C-(01-08-10)


1ª leitura Ecl 1,2; 2,21-23

Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. Os estudiosos, traduzindo exatamente o sentido da expressão dizem: “tudo é bola de sabão”. É a morte que confere entendimento e verdade à expressão, pois, com ela a pessoa “vê-se obrigada a deixar tudo”. Falar de bola de sabão é fazer referencia a lago bonito, que atrai a atenção pela leveza, pelo sentido de liberdade de se mover solta no ar. Ela inspira sentimentos de delicadeza, de ternura e de suavidade, Más, também, é extremamente frágil e inconsistente, pois, uma insignificante alfinetada a faz desaparece, e retorna a realidade que ela ocultava. Assim, a “bola de sabão” pode ser comparada ao fato de que “um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo a outro que em nada colaborou”.
Assim, a inteligência e a competência investidas “nos trabalhos e preocupações que desgastam debaixo o sol", mesmo produzam resultados positivos não compensam a dedicação e o esforço nem evitam um sentimento de inconformidade, uma mistura de consciente ingenuidade e desilusão por deixar uma “herança a outro que em nada colaborou”. Então cabem as perguntas: teria sido melhor ficar quieto? Esta verdade é estímulo à passividade? Vale, então, voltar sobre si mesmo de maneira egoísta como bem aponta o livro da Sabedoria? “Nossa vida é passagem de uma sombra e nosso fim é irreversível (...), portanto, gozemos dos bens presentes e aproveitemos das criaturas (...). Deixemos por toda parte sinais de alegria (...). Oprimamos o justo pobre e não poupemos a viúva, nem respeitemos os cabelos brancos do ancião. Que a nossa força seja a lei da justiça, pois o que é fraco é reconhecidamente inútil” (Sb 2,1-14). Evidentemente que não, o mesmo texto condena esta atitude e maneira de pensar.
Mas, o que é a vaidade? É o desejo desmedido de atrair a admiração das outras pessoas. Um vaidoso cria uma imagem pessoal a ser transmitida aos outros, com o objetivo de ser admirado. Mostra com extravagância seus pontos positivos. Pode ser ganancioso, por querer obter algo valioso, mas é só para causar inveja a outros. Nesse sentido a vaidade é um defeito, pois impossibilita o correto relacionamento.
Contudo, quando inteligência e competência são investidas corretamente, não para aparecer, mas como contribuição ao crescimento humano próprio e dos outros; quando a pessoa se dedica de maneira tal que “toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa o seu coração”, também isso é vaidade? A resposta é negativa se ela desenvolveu tudo isso no horizonte da gratuidade.
Com efeito, agir por obrigação, por necessidade ou por troca é o mais comum da nossa pratica, do nosso compromisso. Mas, está à margem da gratuidade. Jesus lembrará aos que agem por ser vistos e elogiados que já receberam a recompensa. O horizonte da gratuidade é o mesmo do amor sincero, sem segundos fins. Precisa-se de muita gratuidade, de muito amor, para fazer o bem aos inimigos e não esperar nada em troca e dessa maneira ultrapassar toda vaidade.
Portanto, o sentido de desilusão, de frustração, é vencido por não deixar a vaidade poluir o agir com inteligência, a competência e o sucesso, ativando no mundo interior da pessoa a sincera gratuidade e permanecendo fiel nela nos momentos das provações e das tentações.
É o que indica a 2da leitura.

2da leitura Cl 3,1-5.9-11

Paulo se dirige aos cristãos da comunidade com a exortação: “esforçai-vos por alcançar as coisas do alto (...) aspirai às coisas celestes e não as coisas terrestres”. Cabe precisar que não existem duas categorias de coisas: umas celestes e outras terrestres. Existem as coisas como nos é dado perceber. No pensamento de são Paulo, o que faz delas uma realidade celeste ou terrestre é o tipo de aproximação, a qualidade do relacionamento com elas, o uso delas que pessoa estabelece. Evidentemente, a inclinação predominante, inspirada pelos critérios comuns, é fundamentalmente egocêntrica e limitadamente aberta a outras pessoas e as circunstâncias.
O acesso às coisas celestes se da pelo processo no qual se quebra na pessoa o eixo egocêntrico (a maneira de pensar e agir que tem si mesmo como centro e fim de tudo) e é substituído por colocar no centro da própria atenção outra(s) pessoa(s), a comunidade, a humanidade. Com isso ela se dispõe para novos relacionamentos baseados na justiça, no respeito e no direito. Assim, ela atualiza a dinâmica do amor que faz dela uma realidade celestial, ao passo que oferece aos destinatários a oportunidade de ser preenchido da condição celestial. Cabe especificar que este processo é como uma espiral que vai abrangendo, gradativamente, tudo e todos e, cada vez, formula novas respostas aos novos desafios. Não é um processo espontâneo e sem pedras no caminho, pois, “as coisas terrestres” puxam para trás, como bem sabemos e experimentamos. Daí a necessidade de “esforçai-vos (...) de aspirar”, próprio de quem entra nessa perspectiva e assume corajosamente o desafio.
Tudo isso provem da participação no Mistério de Deus por meio de Cristo “Se ressuscitastes com Cristo (...) a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus”. Cabe perguntar: o que entende Paulo por “se ressuscitastes com Cristo?”. Refere-se à vida nova, à ressurreição, que acontecida em Cristo é passada aos cristãos, “se”- sob condição - que estes deixem que isso aconteça, por aceitar de ter sido justificados e renovados pela morte e ressurreição de Cristo. Evidentemente, não se refere à ressurreição física, mas à vida nova - como uma ressurreição “escondida”- que irrompe e surge neles por morrer ao que é terrestre e ser associados à vida de Deus “Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus”. É algo misterioso e não percebido pela pessoa voltada para “as coisas terrestres”. O fim e a verdade completa deste processo se revelarão com a volta do Ressuscitado “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis com ele, revestidos de glória”.
A verdade é que já estamos “com Cristo, em Deus” e, portanto, já sentados no céu, como repete por duas vezes a carta aos Efésios. Daí decorre a realidade em virtude da qual “Já vos despojastes do homem velho e de sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo”. Realidade dinâmica, que não permite se acomodar, como quem desfruta de um bem adquirido de uma vez para sempre, mas, pelo contrário incentiva a busca de algo maior e mais perfeito, para que o bem recebido não se perca ou se torne inconsistente. Assim, o processo é a oportunidade de se renovar constantemente “ segundo a imagem de seu Criador em ordem ao conhecimento”.
A dinâmica é uma luta, pois o que é terrestre não deixa de exercer seu fascínio, sua sedução, e “Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra (no sentido do que já falei): imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. Não mintais uns aos outros”. Mas é, também, vivencia da fraternidade e da solidariedade sem preconceito ou diferenças de nenhum tipo, que há como eixo a adesão à pessoa e ao mistério de Deus manifestado em Cristo “Não se faz distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos”.
De grande importância é o relacionamento correto com os bens materiais, como indica o evangelho.

Evangelho Lc 12,13-21

Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. Jesus se surpreende da atribuição que lhe é conferida, mesmo sendo um mestre de reconhecida autoridade: “Homem, quem me encarregou de julgar o de dividir vossos bens?”. Para o nosso entendimento a quem perguntar melhor do que a ele! E, de fato, ele não julga, não determina, não responde diretamente à pergunta. Aplica para si mesmo o que indicará para nós: não julgueis. Mais ainda. Coloca o interlocutor na condição de julgar por si mesmo, oferecendo critérios para isso. Desta maneira, valoriza a capacidade a inteligência da pessoa e a preserva livre da dependência do outro, mesma seja um mestre reconhecido como ele.
Com isso Jesus designa a fundamental missão do mestre de oferecer critérios, de incentivar devidamente no interlocutor o processo do correto discernimento. Nesta circunstância, Jesus oferece outra abordagem ao assunto, que, com certeza, o homem estava longe de pensar: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, (...) a vida de um homem não consiste na abundancia de bens”. Alerta sobre o perigo que segunda leitura tocava: “a cobiça que é idolatria”, ou seja, da enorme força sedutora do poder do dinheiro. De fato, Jesus coloca a oposição irreconciliável entre ele e o dinheiro com a famosa frase: “Ninguém pode servir a dois senhores. Ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). E acrescenta que o passageiro e a precariedade da vida humana devem ser tomados em seria consideração. De outra maneira, há perigo de merecer o julgamento de “Louco!”, tão será desatinado o comportamento.
O toque ao relato é o versículo final: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”. Esta contraposição oferece o critério geral do discernimento que deverá ser assumido pelo discípulo em toda circunstância, não somente no caso especifico da divisão da herança.
Tornar-se rico perante de Deus, pressupõe experimentar em si mesmo a misericórdia, a bondade que Jesus nos oferece constantemente por atualizar na Missa, no acolhimento de coração sincero da Palavra dele pela ação do Espírito Santo, os efeitos de sua morte e ressurreição. É a percepção dessa riqueza que capacita o correto discernimento, com respeito ao que é básico da existência humana , como os bens materiais, embora sejam termos de precários e passageiros. Dessa forma, as coisas terrestres se tornam celestes.
É o triunfo do bom senso e da devida confiança no Deus da Vida, que Jesus sendo conjuntamente homem e Deus sintetiza na conhecida expressão: “Eu sou o caminho (porque sou) a verdade e a vida” (Jo 6,14). Por isso ele se tornou o mediador, a referencia central e única da existência de toda pessoa, e assim responder devidamente a um problema de herança que, também hoje, é motivo de briga, desentendimento ódio e morte entre irmãos.

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