segunda-feira, 12 de julho de 2010

17o DONINGO DO T.C.-C-(25-07-10)

1ª leitura Gn 18,20-32

O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado”. Tradicionalmente o nome destas duas cidades indica o império do mal, até o ponto de trocar o mal pelo bem. A realidade é apresentada como irreversível ao entendimento e esforço humano, tão grande é o domínio do mal sobre as pessoas. Com efeito, quando a pessoa se acostuma ao mal se torna como insensível ao bem e ao prejuízo que acarreta. E mesmo tendo vontade de sair dele, não tem a força nem a condição. É o que diz o profeta Jeremias: “Por ventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jr 13,23). O domínio do mal se manifesta na escravidão do pecado, ou seja, quando ele é assumido livre e conscientemente.
Abraão percebe que o destino de Sodoma e Gomorra está marcado. É o destino de quem abandona e se afasta de Deus e, assim, se expõe ao castigo de Deus - traduzido na linguagem de hoje, à própria autodestruição -, pois, quem faz o mal é vítima do mal mesmo. Movido pela compaixão e pela misericórdia Abraão interroga Deus: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse cinqüenta justos na cidade, acaso irias exterminá-los?”.
Deus, pela compaixão e pela misericórdia, sintoniza com Abraão e, em virtude disso, entra no “jogo” que o mesmo lhe propõe. É notável e suscita admiração como os dois desejam o triunfo da vida e do bem, mesmo partindo de um numero reduzido de discípulos que se faz cada vez mai pequeno até o numero de dez, além do qual Abraão não ousou descer. Como não lembrar as palavras do livro da Sabedoria: “Entretanto - Senhor- de todos tem compaixão, porque tudo podes. Fechas os olhos aos pecados dos homens, para que se arrependam. Sim, amas tudo o que existe, e não desprezas nada do que fizeste (...). A todos, porém, tu tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida” (Sb 11, 23-26).
A pesar da intercessão de Abraão e da boa vontade de Deus o resultado não foi positivo. Desconsolado, Abraão deixou a cidade. Sodoma e Gomorra sofreram as conseqüências da destruição. É impressionante o poder do mal e do pecado. Torna as pessoas como cegas, encapasses de perceber a desgraça iminente. Troca a verdade pela mentira, o certo pelo errado, pois, a mentira consigo mesmo toma conta da filosofia da vida e motiva o persistir nela. Conseqüentemente, a falsidade é tida como bem. Quando isso se espalha e abrange o povo todo o processo de conversão é difícil como recordava o profeta Jeremias.
Contudo, fica registrado o Senhor como grande amigo da vida, o amigo de todos, independentemente da condição moral. A intercessão de Abraão - e de todos os santos – mostra a importância de sintonizar a inteligência e o coração à condição de justos não só perante de Deus, mas para a salvação de muitos. Somo solidários e responsáveis uns dos outros, mais ainda, cada pessoa é responsável e representa a humanidade toda perante de Deus.
Em virtude dessa característica, Deus Pai, amigo da vida, não hesitou em sacrificar o seu próprio Filho,( e continua atualizado os efeito daquele sacrifício) para evitar a catástrofe irremediável da humanidade toda.
É o que comentaremos na segunda leitura.

2da leitura Cl 2,12-14

Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados”. Com estas palavras, dirigidas as pessoas da comunidade não entendia, evidentemente, se referir à morte física, mas aos mortos humanamente por causa do pecado que os tornou desumanos, psicologicamente vazios, antiéticos e surdos à voz do Espírito. Portanto, se trata da humanidade prejudicada, diminuída, que não tem condição de se reerguer com os meios próprios. Há paralelismo com o caso de Sodoma e Gomorra da primeira leitura. Só que neste caso há um único justo, e mediador eficaz,na pessoa de Jesus pelo qual “Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados”.
Este processo caracterizado pelo crescimento na “fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos”, tem seu ponto marcante no batismo, por meio do qual os efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, expressão do poder de Deus pela ação do Espírito Santo, são passados à pessoa. Este momento do batismo é entendido e valorizado por Paulo como uma circuncisão. Com efeito, ele se dirige aos mortos por causa do pecado como quem “não tinham recebido a circuncisão”. A circuncisão, para os hebreus, era o sinal visível da aliança com Deus. Em virtude dela a pessoa se tornava membro do provo de Israel, assumia a Lei de Moises como norma da própria vida e participava da esperança do Reino de Deus com a vinda do Messias. Era o que marcava um antes e um depois indelével, para sempre.
Paulo explica os efeitos do batismo “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados”. Em primeiro lugar se trata de mergulhar, como o peixe no mar, na morte Dele. Com isso, o pecado e sua força dominadora nas pessoas, são esvaziados e sepultados de uma vez para sempre. Paulo dirá explicitamente “Assim, vós também vos considerai mortos para o pecado” (Rm 6,11).
Por outro lado e com certeza, o pecado continuará exercendo sua função sedutora e a morte marcará o momento final da existência, mas não terão o mesmo sentido e valor. Com efeito, eis o segundo aspecto, o pecado poderá ser vencido já no dia- a- dia, e a morte não será a última palavra de Deus sobre a vida do cristão, pois, “com ele - Cristo - fostes ressuscitados”(Rm 6,11). Cabe especificar que o batismo não tem o efeito mágico próprio de quem acredita que só pelo fato de recebê-lo, automaticamente acontece o que acabo de dizer. Isso, talvez, seja um dos mais graves equívocos de muitos cristãos. Batizar tem o mesmo significado de circuncidar para o hebreu, do qual falava acima. Condição para a correta recepção do batismo é acreditar no dom gratuito oferecido pela morte e ressurreição de Jesus. Dom que deve ser cuidado, cultivado e trabalhado por uma prática de vida coerente que inclui a preocupação e o desejo de que este dom seja conhecido e oferecido a toda a humanidade. (Não entendo, com estas palavras, diminuir ou desvalorizar a importância e o significado das outras religiões. Contudo, é preciso entender que de alguma maneira os efeitos batismais fazem parte do DNA delas. Eles serão percebidos, sob outras formas e com outras categorias culturais, pela prática da caridade. Mas isso é outro tema, seria fugir do sentido das leituras.).
Merece meditar com atenção e gratidão que o dom gratuito do batismo e dos seus efeitos. Para Jesus o dom teve um preço altíssimo, desconcertante “Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz”. Assim a Lei de Moises mandava que o culpável pagasse o prejuízo - mais o25%do valor - para ficar livre da dívida e receber o perdão do pecado.
O preço do pecado foi para Jesus a experiência da maldição de Deus, cuja expressão é a auto entrega na cruz, como efeito da resistência ao pecado. Jesus pagou esta conta na própria carne na cruz. Por isso dirá Paulo que “Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio um maldito em nosso favor, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro ”( Gl 3,13).
Para sintonizar e acreditar é preciso cultivar o relacionamento de familiaridade com Deus nos termos que o evangelho indica.


Evangelho Lc 11,1-13

Jesus estava rezando em certo lugar”. De alguma maneira este fato deve ter chamado a atenção, se um dos discípulos, estimulado pela atitude de João Batista para com os discípulos dele, pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. Eis a resposta de Jesus com as palavras do Pai Nosso.
Cabe pensar que Jesus ensinou o que ele acabava de praticar. Parecem-me particularmente importantes as últimas palavras deste trecho: “quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”. Elas oferecem um ponto de partida e um horizonte de compreensão da oração de Jesus e nossa. Como primeira atitude Jesus pede ao Pai o dom do Espírito. Mas, se ele mesmo foi concebido no seio de Maria pelo Espírito, ungido no batismo do Jordão e transfigurado no monte Tabor pelo mesmo Espírito Santo, era preciso pedi-lo constantemente na oração? Não é marcado por ele de uma vez para sempre?
Uma resposta poderia ser: marcado sim, mas não como se marca um objeto de maneira de simplesmente identificar a qualidade e a quem pertence. Jesus não é um objeto nem o Espírito Santo um marcador. Os dois são duas pessoas - as duas mãos de Deus - que estabelecem um profundo relacionamento em virtude de uma terceira que é o Pai, para a comunhão de vida e de missão voltadas para a salvação da pessoa e da humanidade. É este último aspecto que torna necessário o pedido da efusão do Espírito em circunstâncias especiais ou momentos específicos. (Por outro lado, também nós temos no nosso interior o dom do Espírito e constantemente o devemos pedir. Assim, a primeira atitude da oração é a sintonia com o Espírito e pedido de restabelecer, de reavivar, a plena comunhão na Trindade).
A luz disso a oração, não é uma formula a ser repetida mecanicamente, mas a indicação de pontos firmes a serem considerados e valorizados que qualificam, nas circunstâncias específicas, o correto relacionamento com a Trindade e seu reflexo no relacionamento com a humanidade e as pessoas. Eis, portanto, os tópicos que marcam o presente e o futuro de Jesus e do cristão: Deus Pai, a santificação do nome, a vinda do reino, o pão de cada dia, o perdão e não cair nas tentações. Cabe considerar que afastados da comunhão trinitária, e, portanto, do correto relacionamento com Cristo e o Pai no Espírito Santo e apertados pelas dificuldades e necessidades da vida, as pessoas fazem da oração um instrumento de troca, um meio necessário que resguarde de eventuais castigos ou acontecimentos ruins, ou ainda, uma obrigação a ser cumprida por parte do inferior para com o superior, visando o futuro do incógnito acontecer, após a morte. Em fim, há uma serie de elementos que sem querer, ou sem prestar a devida atenção, desvirtuam e desviam o sentido verdadeiro da oração como evento de comunhão no amor.
Daí, então, o sentido último do acréscimo de Jesus “E Jesus acrescentou: Se um de vós tiver um amigo (...) vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário” e da determinação dele “Portanto, eu vos digo: procurai e encontrareis; batei e vos será aberto”. De fato, a insistência impertinente e a perseverança na procura purificam a oração de todo o que não é autentico amor. A impertinência, motivada pela confiança da relação de amizade, não é fim a si mesma, mas expressão e memória do amor que sustentou o relacionamento e pelo qual o amigo se atreve incomodar até em horas inoportunas. Também o procurar insistentemente é baseado na certeza do amor próprio do pai, que não vai dar uma cobra em vez do pão ao filho que tem fome.
Assim, Jesus reconduz a oração no seu verdadeiro significado e na sua condição de alcançar o que é legitimo que ela ofereça: a divinização da pessoa pelo amor.

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