1ª leitura Gn 18,1-10ª
Abraão saiu da sua terra rumo à outra desconhecida motivado pela fé na promessa de Deus de se tornar pai de um povo numeroso como o as estrelas do céu e o os grãos de areia da praia do mar. Ele e sua esposa de idade avançada permaneceram estéreis, sem filhos. Os anos passaram e o filho não chegava. Contudo, numa noite no meio do deserto, rumo à meta, renova sua esperança na promessa. Isso agradou muito a Deus. Comentará são Paulo: “esperou contra toda esperança” (Rm 4,18).
Nesse contexto, eis o relato, muito conhecido, da acolhida destes personagens: “Abraão viu três homens de pé, perto dele. Assim que os viu, correu ao seu encontro e prostrou-se por terra” e os recebe reconhecendo neles a presença do Senhor “ Meu Senhor, se ganhei tua amizade, peço-te que não prossigas viagem, sem parar junto a mim, teu servo”. Os acolhe com uma atitude surpreendente cheia de atenção, de benevolência, de caridade: “Mandarei trazer (...), Farei servir (...). Pois foi para isso que vos aproximastes do vosso servo”.
Eles aceitam a homenagem e a atenção: “Faze como disseste”. E Abraão se esmera, com sua esposa, em servi-los e acompanhá-los estando de pé em sinal de respeito e prontidão. Não pergunta não cobra nem reclama com respeito ao demorar da promessa, simplesmente manifesta sua condição de servo e disponibilidade ao acolhimento e atenção às necessidades dos três.
Tudo isso configura o perfil da personalidade de Abraão, no decorrer dos anos em virtude da chamada e da missão que Deus lhe confiou. Já passaram 24 anos desde o dia da chamada. Naquele dia respondeu com fé, comi voto de confiança, à promessa humanamente impossível. Logo mais na frente renovou sua fé esperando contra toda esperança, quando demorava o cumprimento da promessa. Mesmo assim, mais na frente, acolhe com caridade surpreendente o seu Senhor.
“Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara tua mulher, já terá um filho”. E assim acontecerá. Este filho, o filho da promessa, é o fruto acabado da fé, da esperança e da caridade. Não é simples cumprir de um ato biológico que ultrapassa as leis da natureza. É o que procede de Deus, por Abraão se tornar amigo intimo, familiar, de Deus em virtude de ter exercitado para com Ele a fé, a esperança e a caridade.
Fé, esperança e caridade, acompanham a caminhada de todo filho de Abraão. Isso significa acolher o chamado de Deus para uma missão ousada no total desapego de si mesmo, até das legítimas expectativas baseadas na promessa. Tudo supõe disposição e exercitar a fé, a esperança e a caridade, no exemplo de Abraão- chamado de pai na fé-, como condição indispensáveis para a promessa acontecer. Tudo isso, supõe entrar no horizonte da gratuidade (do discípulo para com Deus e de Deus para com ele), ou seja, do amor na sua expressão mais pura e acabada. Com efeito, é o que destaca da leitura atenta do texto.
Só nesse horizonte é possível desenvolver a vida cristã nos temos experimentados por são Paulo.
2da leitura Cl 1,24-28
Paulo se dirige à comunidade, à Igreja: “Alegro-me de tudo o que já sofri por vós”. Associação fora do entendimento comum entre alegria e sofrimento. Em primeiro lugar, Paulo se colocou na comunidade como servidor “exercendo o cargo que Deus me confiou de vos transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”. Posicionou-se a partir de sua identidade com a pessoa, a missão de Jesus e especificadamente com o significado e a importância da norte e ressurreição do mesmo. O efeito foi se encontrar a si mesmo, com o sentido da própria vida na adesão a Cristo e no desenvolvimento da missão “que Deus me confiou”. Percebeu-se um cristão autentico , e sobretodo, determinado e lúcido. Daí a alegria de “transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”, porque foi preenchido dessa plenitude.
O conteúdo da transmissão consiste no “mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado (...): a presença de Cristo em vós, a esperança da glória”. Trata-se da plenitude oferecida pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e assumidos pela aceitação do dom gratuito dele, ou seja, pela fé. Conseqüentemente, a plenitude é o mistério da comunhão com Cristo, realizado de forma misteriosa, gerado pela “presença de Cristo em vós”. Mais ainda, tudo isso tem que ver com “a esperança da glória”, com o presente e o futuro da glória.
Glória diz respeito á realidade de Deus absolutamente transcendente, inalcançável, imenso infinito, etc., e também com o que dessa realidade é participado, contido e manifestado no limite da condição humana. No texto, parece-me que Paulo se refere à glória como realidade já presente pela comunhão com Cristo e ao, mesmo tempo, como realidade da promessa futura e, portanto, com o conteúdo da esperança que será realizada com a vinda do Ressuscitado no fim dos tempos.
A posta em jogo é tão grande que merece toda dedicação e esforço “Nós o anunciamos, admoestando e todos e ensinando a todos, com toda sabedoria, para a todos tornar perfeitos em sua união com Cristo”. Esta ênfase no “todos” faz transparecer o entusiasmo da participação dele no Mistério. Entusiasmo que transborda no desejo e na convicção de transmitir a mesma experiência a todos, por estar a disposição de todos aqueles que aceitarão o dom de Cristo. A pregação visa, também, motivar e sustentar um caminho rumo ao aperfeiçoamento dessa comunhão, pois, a participação ao Mistério é inesgotável e exige a dinâmica da reformulação para o contínuo crescimento.
Contudo, esse entusiasmo sofre a incompreensão e a rejeição até violenta e dolorosa, como é a experiência da perseguição. Daí as palavras do “que já sofri por vós e procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a igreja”. Cabe perguntar: de onde procede, então, a alegria? Pela singular experiência de Cristo que se atualiza no discípulo, sendo que participação ao Mistério da plenitude é indissociável do mistério do mal, da rejeição. Em outro texto dirá são Paulo “se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5).
Parece-me, então, que o “completar na própria carne o que falta das tribulações de Cristo” não tem o sentido de preencher uma carência de Cristo, como se o agir dele fosse incompleto, mas de explicitar que, em solidariedade com a vivencia na comunidade- a igreja- motivada e sustentada pelo Mistério da morte e ressurreição de Cristo, se atualiza no discípulo o mesmo Mistério do Mestre.
Atitude primeira e fundamental do discípulo(a) é a que o evangelho indica.
Evangelho Lc 10,38-42
É o conhecido texto de Marta e Maria. “Marta, recebeu-o (Jesus) em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do senhor, e escutava a sua palavra”. Duas atitudes marcadamente diferentes. A primeira é de quem está preocupado pelos muitos afazeres, e a segunda é própria do discípulo. A atitude de Maria, expressamente aprovada por Jesus, é uma primeira mensagem revolucionaria para então: também as mulheres podem se tornar discípulas. Daí, a atitude certa e conveniente de Maria: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. Portanto, escutar por escutar, melhor o simples ouvir, por prestar atenção a colocações ou palavras interessantes, por curiosidade ou boa educação, não da conta do sentido das palavras de Jesus.
Jesus fala de “uma só coisa necessária”. Acredito que seja a fé e o discipulado. Fé que procede da escuta. Maria se manifestou disponível a ela assumindo a correta postura do discípulo, se colocando aos pés do mestre, imagem eloqüente e expressiva, na mentalidade de então, do adequado relacionamento discípulo –mestre. Este relacionamento confere qualidade à Maria, é a parte melhor que permanecerá para sempre nela: “Não lhe será tirada”. Dessa forma, o ser profundo dela será marcado para sempre, será imprimindo na consciência dela o sentido e a finalidade do discipulado assim como a determinação e vontade de assumi-lo. Com outras palavras, irá identificando Maria com o mestre.
Acolher Jesus na própria casa com a atitude de Marta ocupada com muitos afazeres e reclamar “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço?” significa manter um relacionamento formal, muito aquém do que Jesus espera e deseja. É perder a oportunidade de um entrosamento que constitui um salto qualitativo na própria existência e enxergar um novo sentido da vida. É uma desatenção prejudicial em nome de preocupações secundárias naquele momento, naquela circunstância.
Daí a chamada de atenção “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas” Com efeito, há momentos que, como Marta, muito preocupados pelos diferentes afazeres, perde-se a capacidade de avaliar corretamente o presente, a oportunidade de modificar o planejamento, o programa já estabelecido em nome de uma oportunidade, oferecida por uma circunstância conveniente, para um salto qualitativo de relacionamento e, portanto, de vida. O correto relacionamento com Jesus precisa desta atenção, sobretudo nos ritmos atuais do dia - a - dia. É preciso convicção, determinação e recortar tempo e espaço adequado na própria casa, no dia - a – dia, para implantar e cultivar o correto relacionamento pela escuta, meditação e oração da Palavra Dele.
Portanto, não é questão de confrontar se é mais importante a atitude de Marta ou de Maria, mas o discernimento correto entre as duas, porque as duas são importantes. Mas, o necessário é o discipulado, nesse sentido ele deve ser privilegiado para estabelecer e manter o relacionamento permanente com Jesus. Sem o discipulado o relacionamento com ele se torna inconsistente, superficial, de boca para fora, reduzido simplesmente aos momentos de aperto e reclamando por não ter sido atendido no momento da necessidade ou da desgraça, como no caso de Marta quando saiu ao encontro de Jesus que estava chegando, após do falecimento do irmão Lazaro.
Na sociedade hodierna, com sues ritmos elevados e extremamente cansativos se faz mais necessários do que nunca privilegiar em alguns momentos a atitude de Maria. Tal vez daria para experimentar aquele descanso, aquele repouso, aquela recomposição da harmonia e serenidade interior, expressão de se re-apropriar do ser mais profundo e dos valores nele contidos, que nenhum feriadão na praia, viagem ou festinha é capaz de oferecer.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
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