domingo, 26 de setembro de 2010

27o DOMINGO DO T.C.-C-(03-10-10)


1ª leitura Hab 1,2-3; 2,2-4

O profeta se queixa a Deus por causa das injustiças que vê no povo. Malandragem, violência, corrupção e todo tipo de maldade fazem parte do dia-a-dia da vida pessoal e social de todo tempo e nação. Mas, tudo tem limite. Chegam momentos em que é demais, a exasperação e o desconforto tomam conta da sensibilidade e da expectativa geral de quem espera um futuro melhor. Mais ainda se tratando do povo de Deus, do povo de Israel, que experimentou a ação libertadora de Deus com a saída escravidão do Egito, ou seja, da libertação do mal e do pecado, pois, Egito é sinônimo disso. Portanto, as autoridades deveriam ter implantado a justiça e o direito, como expressão do cumprimento da Aliança com Deus, manifestando, dessa forma, a condição de Israel como povo escolhido, povo eleito.
Grande é o sofrimento do profeta constatando quanto profundo é o afastamento do povo da familiaridade com Deus “Destruições e prepotência estão na minha frente; reina a discussão, surge a discórdia”. E tudo isso acontece sob o olhar de Deus. Como é possível que Ele tolere tudo isso? Por que não intervém? Daí as palavras do profeta “até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti:Violência! ’, sem me socorreres Por que me fazes ver iniqüidades, quando tu mesmo vês a maldade?”. O “até quando”, repetido duas vezes, indica ter chegado ao limite da suportável.
Toda pessoa, devido às circunstâncias e eventos específicos, colocam a Deus a mesma pergunta: por que acontece isso? Onde estás? Estas vendo a maldade, por que não faz nada, como pode agüentar tudo isso? Para muitos é motivo de questionar a bondade, a paternidade e até a existência de Deus mesmo, tão grande é o abalo da fé deles. Tem momentos que não é fácil dar uma resposta convincente. O mistério profundo de Deus se faz presente em toda sua escuridão, em toda sua incompreensibilidade.
Contudo, Deus se posiciona, toma atitude. Manda escrever, como quem fixa de maneira irrefutável e inconvertível sua própria determinação “Escreve esta visão, estende seus dizeres sobre tábuas, para que possa ser lida com facilidade”. Esta premissa pretende oferecer a certeza de que Deus não está ausente nem ignora o que está acontecendo, assim como sua vontade de intervir. Com isso, é tirada do interior da pessoa toda duvida e o sentimento de abandono: Deus está presente, não está sozinha e pode reencontrar e restabelecer a confiança perdida.
Este reencontro e restabelecimento serão ulteriormente provados, porque permanece indefinido o prazo da intervenção “A visão refere-se a um prazo definido, mas tende para um desfecho, e não falhará; se demorar espera, pois ela virá com certeza, e não tardará”. É garantida a intervenção, mas não é especificado o quando. Haverá tal vez demora na qual cultivar a virtude da esperança, alicerçada sobre a promessa. É esta singular união de promessa e esperança que qualificará a fé.
Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé”. A fé tem como conteúdo a promessa. Alicerçada no coração, esta -a promessa- alimenta e sustenta a esperança. Eis, então, que se configura a condição do ser humano como “justo” perante de Deus. Esta condição o preenche de vida, porque o cultivo da promessa-esperança marca a presença de Deus e a participação à vida Dele.
Vale, também, o contrário: “Quem não é correto, vai morrer”. Não é um “correto” de tipo ético, mas teológico em primeiro lugar. Pois, a falta de fé acima indicada impede a comunhão, a intimidade a familiaridade com Deus e coloca a pessoa na auto (in)suficiência, no isolamento e afastamento Dele, e isso significa morrer.
Daí a importância de reavivar permanentemente o dom da fé como frisa a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 1,6-8.13-14

O trecho lido em sua totalidade é uma longa exortação a lutar corajosamente pelo evangelho, pois “Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro”. Pois, naquele ambiente, pregar a salvação em virtude de um Deus crucificado que em razão da entrega- pelo testemunho de alguns seguidores Dele- ressuscitou dentre os morto; o fato que o maior pregador disso- Paulo- é preso pelas autoridades, não estranha que suscite sentimentos de vergonha. É se expuser ao ridículo, pelo menos.
Daí a exortação “a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição de minhas mãos”. Impor as mãos sobre a cabeça significa ser configurado pelo dom de Deus à pessoa de Cristo e ter condição de exercer o ministério em nome dele. É conhecida a expressão que o sacerdote e o bispo, na teologia católica, são configurados como “outro Cristo”. Paulo frisa de “reavivar a chama do dom de Deus”, ou seja, reavivar a chama do Amor do qual foi feito participe por meio da fé no efeito da morte e ressurreição de Jesus atualizado no acolhimento da palavra, na prática da caridade, na presença do ressuscitado na comunidade e, particularmente, na celebração da Eucaristia.
A atitude de reavivar a chama faz entender os altos e baixos da caminhada do discípulo submetido ao que é próprio da condição humana. Portanto, é necessário tomar a devida providencia quando o estado de animo - particularmente da vergonha, neste caso - toma conta do ser da pessoa. Os efeitos dela são o “espírito de (...) fortaleza, de amor e de sobriedade” capaz de sustentar a missão no meio das dificuldades e dos sofrimentos. Pois, Paulo convida Timóteo: “sofre comigo pelo Evangelho - o anuncio da morte e ressurreição de Jesus com suas conseqüências- fortificado pelo poder de Deus”. É o convite de não se assustar do sofrimento, pois faz parte da comunhão fraternal com Paulo e da participação dos sofrimentos de Cristo.
O apostolo acrescenta duas importantes indicações “Usa o compendio das palavras sadias que de mim ouviste em matéria de fé e de amor em Cristo Jesus”. Naquele momento não existiam os textos dos evangelhos na forma que conhecemos pela bíblia. Os textos serão redigidos muito mais tarde. Existiam escritos soltos, relatos ocasionais. Tal vez é a eles que Paulo se refere ou a expressões fundamentais da pregação dele, mas, sobretudo, a vivencia de fé da comunidade que constitui o eixo certo da tradição.
Guarda o precioso depósito, com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós”. Por precioso deposito não se trata de algo fixo, imutável, estável a ser guardado e conservado de maneira tal do ser proposto de forma repetitiva no decorrer do tempo. Com outras palavras, algo a ser conservado ao longo do tempo. Pelo contrário, o “conservado” se refere a algo criativo a ser elaborado dependendo das circunstâncias e dos eventos, em sintonia com o significado e a finalidade da morte e ressurreição de Jesus, com a “ajuda do Espírito Santo”. A Tradição- com a T maiúscula- não é algo simplesmente repetitivo, mas criativo e innovativo que sabe ler o presente e as circunstâncias à luz do significado da morte e ressurreição de Jesus.
Elaborar o “deposito” supõe uma fé firme e forte e corajosa, como exigido do evangelho.

Evangelho Lc 17,5-10

Os apóstolos perceberam a necessidade de ter uma fé mais firme e consistente. Daí o pedido ao Senhor “Aumenta a nossa fé!”. A resposta de Jesus deixa o sabor da inconsistência, da pouca fé dos apóstolos e nossa. Com efeito, ninguém tem a fé necessária, mesmo tão pequena como um grão de mostarda, capaz de realizar o que Jesus indica “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranque-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”.
Falando de fé, de imediato o pensamento vai ao sentimento de confiança e a vontade de adesão à pessoa e ao ensino de Jesus. Desta forma, a fé é, fundamentalmente, um ato interior de quem se dispõe elaborar a própria inteligência e os próprios sentimentos em sintonia com o que lhe é proposto. A resposta de Jesus manifesta a insuficiência disso.
A continuação o texto apresenta o que, a primeira vista, nada tem a ver com o que foi argumentado com respeito à fé. Fala do relacionamento empregado- patrão, em ordem ao serviço que o primeiro desenvolverá o anteriormente às próprias necessidades “Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber”. E pergunta: “Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado?”.
Parece-me que dessa forma a fé se configura como um agir, melhor, com o serviço do servo para com o seu Senhor. É um serviço que antecede a satisfação das próprias necessidades, em atenção às exigências que decorrem da aceitação livre e consciente do relacionamento com o próprio Senhor. São exigências que soam como um “mandado”, em virtude da coerência estabelecida pela aceitação do que é proposto. Coerência que inclui a gratuidade “Será que vai agradecer o empregado” no exercício do serviço, pois a fé autentica é necessariamente ligada ao amor, que por ser tal é gratuito.
Tal vez seja a falta destas condições que enfraquece a fé, que a torna inconsistente e carente do necessário para se manifestar em toda sua força e poder. Daí a súplica de acima e a resposta do Senhor, que é ao mesmo tempo o convite para se confrontar e se avaliar com respeito à determinação de assumir o serviço e a correspondente gratuidade no horizonte do amor.
É tudo isso que permite perceber o alcance das últimas palavras do texto “quando tiverdes feito tudo o que vos mandam, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”. Evidentemente, “devíamos fazer” não por obrigação, mas por amor.
Com efeito, quando uma pessoa age por amor, de forma gratuita e desinteressada, percebe que o acontecer que o envolve é um oceano do amor que torna como insignificante e coisa de pouca conta o serviço dela. Portanto, a expressão não desvaloriza o serviço e o agir do servo, mas lhe confere a dignidade divina. Será, então, que esta expressão brota da experiência de Jesus com respeito à vivencia Trinitária, voltada como servidora para o resgate da humanidade?
Na Trindade, da qual manifesta a presença e a ação, Jesus fez o que devia fazer. E a consciência dela “somos servos inúteis” brota da característica do Amor, que não é devido, não é necessário e menos ainda troca. Exatamente “inútil” no sentido que não tem utilidade nenhuma senão o Amor puro em si mesmo.

sábado, 25 de setembro de 2010

26o. DOMINGO DO T.C.-C- (26-09-10)

1ª leitura Am 6,1ª-4-7

As escandalosas desigualdades humanas e sociais, em virtudes das quais os ricos vivem de uma maneira que ofende a dignidade e as urgentes necessidades de sobrevivência dos pobres, é fortemente condenada pelo profeta. Ele manifesta a indignação de Deus. Pois os ricos “vivem despreocupadamente (...) e se sentem seguros”, em contraposição aos indigentes que não tem de comer, para eles e para seus familiares, e vivem na precariedade e inseguridade maior.
É o que chamamos na atualidade de pecado de omissão. Omitem de se preocupar para com os pobres. Não lhe interessa o sofrimento, a infelicidade deles. Estão preocupados somente de si mesmos “dormem, em cama de marfim (...) cantam ao som das harpas (...) bebem o vinho em taças, e se perfumem com os mais finos ungüentos”. Com efeito, a riqueza fecha o coração, mata a sensibilidade humana, destrói os sentimentos de solidariedade, desmancha os laços de fraternidade. Os ricos vivem no mundo fechado sobre si mesmo, dominados, escravizados pelos próprios bens.
O profeta Amos ameaça o iminente castigo de Deus “Por isso, eles irão agora para o desterro, na primeira fila, e o bando dos gozadores será desfeito”. Efetivamente, do ponto de vista histórico, acontecerá a ocupação do território com as respectivas deportações num país estrangeiro. O profeta verá nisso o cumprimento da profecia. Uma grande desgraça caiu sobre eles, o desconcerto e o abalo foram totais.
Parece-me que esta experiência histórica seja paradigmática e indicativa da desgraça que atinge as pessoas envolvidas nas mesmas condições. Não se trata da repetição de acontecimentos históricos similares, mas de uma condição de “desterro”, de desfeito do “bando de gozadores”. Trata-se do desterro de si mesmo. Não se encontra consigo mesmo, se torna como estranho a si mesmo. Com outras palavras, perde sua verdadeira identidade. Deve viver de aparência. Frisava uma pessoa conhecedora desses ambientes: nos relacionamentos entre eles devem fingir de ser felizes.
Nesse sentido, “o bando de gozadores” não tem consistência em si mesmo. Às primeiras dificuldades, não tendo condição de manter as exigências da aparência, será desmanchado todo relacionamento. É o que todos sabemos. Quando tiver dinheiro, todos são amigos. No momento de dificuldade ninguém fica. É o desterro pessoal e social.
Contudo, a riqueza continua exercendo seu fascínio, e continuará seduzindo muitas pessoas.
Como não cair nas garras dela? A segunda leitura oferece umas indicações valiosas.

2ª leitura 1Tm 6,11-16

A riqueza é perversão, destrói a pessoa e o convívio social. Portanto, “Tu que és homem de Deus, foge das coisas perversas”. Sendo que ela tem uma forte componente de sedução é preciso se precaver. Como? “procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão”. Cada uma destas indicações tem um conteúdo importante e muito significativo. Quantos livros, matérias, etc., foram e serão escritos sobre cada uma delas!
Tomadas em conjunto oferecem um quadro articulando e orgânico da atitude cristã. Ponto de partida é se espelhar nas atitudes de Jesus.
Assim, “procurar a justiça” é investigar e elaborar a melhor resposta e atitude para resgatar quem está “no fundo do poço”. Para isso é preciso ter “piedade”, aquela atitude própria do pai que acolhe o filho arrependido que volta para casa. Isso supõe “” na capacidade regenerativa da justiça/ piedade. Tudo isso conforma a realidade do “amor” na qual a pessoa é mergulhada. Conseqüentemente, ela adquire aquela “firmeza” que se faz determinação para se afastar da sedução e continuar no caminho certo. A “mansidão” é o broche de ouro. Ela manifesta a integridade da pessoa bem articulada e orgânica, própria de quem assume sua verdadeira identidade e quer continuar no caminho. Daí, então, a atitude do manso, atitude de serenidade e de segurança que lhe permite o domínio de si mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Uma pessoa com estas características sustenta o “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e pela qual fizeste tua nobre profissão de fé”. Trata-se do combate para se manter e desenvolver ulteriormente o dom recebido no chamado, o dom da vocação assumida com plena consciência e responsabilidade. Para este dom é preciso lutar para que a vida eterna já nele se torne também uma conquista, no sentido de participação mais plena e envolvente no Mistério de Deus, na realidade do Amor.
Eis, então, a exortação, reflexo do que está no profundo do animo de são Paulo como indicação certa e valiosa do caminho dele: “guarda o teu mandato íntegro e sem mancha até a manifestação gloriosa do nosso senhor Jesus Cristo”. Guardar o mandato íntegro não é algo estático e repetitivo, como fosse uma simples informação sobre o evento da morte e ressurreição de Jesus, a predicação e a prática dele. É algo dinâmico e criativo, derivante de tudo isso, na pessoa que se deixa tocar pelo significado e pelos efeitos do evento, da predicação e da prática. Tudo isso capacita formular novas respostas, elaborar caminhos inéditos sempre em sintonia com a dinâmica da morte e ressurreição. Pois, a vida cristã não é repetitiva, é criativa; não repete mecanicamente o passado, mas antecipa criativamente o futuro.
Um futuro do qual não sabe o dia de sua plena manifestação “esta manifestação será feita no tempo oportuno pelo bendito e único Soberano”, mas constitui o ponto certo de referencia no presente, e de chegada no fim dos tempos e da historia. Será o momento da participação e comunhão plena com o Senhor “o único que possui a imortalidade e que habita numa luz inacessível, que nenhum homem viu, nem pode ver”.
A integridade e a certeza de fé de são Paulo desembocam no hino de louvor “A ele, honra e poder eterno. Amém” como expressão da vida entregue a Cristo do qual sempre recordará “que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Foi por causa da abertura do coração e da inteligência à Palavra que aconteceu a transformação radical dele. O evangelho retoma este aspecto.

Evangelho Lc 16, 19-31

A parábola descreve a situação eterna daquele que por amor à riqueza tornou-se cego para Deus e para o pobre. Há como uma barreira intransponível entre o rico e o pobre, personificado, este último, na pessoa de Lázaro. O rico não tem nome. É apresentado pela sua situação financeira, apesar de ter cinco irmãos. Tal vez, isso indique que a riqueza no horizonte de Deus despersonaliza o rico. Dessa forma, é apresentada a força interiormente destruidora da riqueza.
O que impressiona é o abismo que separa o rico do Lázaro não só nesta vida, mas também na outra. Para o rico significa uma condenação sem saída. A autodestruição pela riqueza parece um prejuízo irreparável.
Contudo, a parte mais significativa da parábola são os versículos finais. O rico pede “manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los...”. Abraão atende ao pedido, mas não da forma esperada pelo rico “Eles têm Moises e os profetas, que os escutem!”. “O rico insistiu: Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter”. O rico, manifesta sua fé na força transformadora e renovadora do gesto, do milagre surpreendente, como o voltar da região dos mortos. Com efeito, muitos, mesmo não ricos, pensam da mesma forma. Acham isso certo e se perguntam por que não atendeu ao pedido. Pois, perante do milagre tão extraordinário não há como não acreditar.
Isso significa ter a consciência da fé em Deus fundamentada no milagre, na ação do infinitamente poderoso que manifesta sua condição de Deus por atos como este. Estamos muito acostumados a pensar Deus dentro dessas categorias e dessa forma. Ao ponto que se não fomos atendidos em algum pedido de intervenção poderosa para resolver alguma dificuldade, entra no sentimento que nada adianta acreditar nele! Quantas pessoas se sentem defraudadas por não ser atendidas e acabam perdendo a confiança em Deus. Mas, qual Deus? O deus construído a imagem e semelhança das expectativas deles! Não o Deus que se manifestou na pessoa de Jesus nos eventos da Semana Santa, particularmente com a paixão e a morte na cruz do próprio Filho. Estamos aos opostos da expectativa deles.
A resposta é determinante “Se não escutam a Moises, nem os Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. A fé procede da escuta da Palavra e da prática conforme as indicações dos Profetas. Cabe lembrar que as duas instâncias - Moises e os Profetas- se sintetizam e se reúnem na pessoa de Jesus, como testemunha o evento da Transfiguração no monte Tabor, na qual Jesus conversa com Moises e Elias( que representa os Profetas), logo os dois somem e Jesus fica sozinho, descendo sobre ele o Espírito Santo e ouvindo a voz do Pai como sinal de aprovação dessa substituição. Portanto, é enganoso e ilusório fundamentar a fé no milagre, mesmo seja algo tão estrepitoso, como seria o atendimento ao pedido do rico.
Então, como entender a ressurreição de Jesus? Em que consiste acreditar nela? Com certeza, não acreditar no super milagre. Cairíamos no mesmo equivoco da parábola. A ressurreição de Jesus é indissoluvelmente ligado à sua entrega. É a outra face do amor. Com efeito, o Pai entrega o Filho por amor, o Filho aceita de ser entregue no amor. Assim, o Espírito Santo é o Amor mesmo que une os dois e ressuscita a pessoa humana de Jesus na realidade Trinitária do Amor. A ressurreição não é nenhum super milagre nos moldes comumente pensados. Se há um milagre, simplesmente é o milagre do Amor na sua realização mais completa.
Acreditar na ressurreição é acreditar na prática do Amor radical, como foi o de Jesus. “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). Como o Pai o amou, foi entregá-lo. Assim, permanecer no amor de Jesus é aceitar de ser entregue, em nome da autentica Liberdade e da verdade do Amor.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

250 DOMINGO DO T.C.-C-(19-09-10)


1ª leitura Am 8,4-7

Nunca mais esquecerei o que eles fizeram”. Palavras que manifestam a radical desconformidade de Deus com a exploração dos pobres e dos humildes. Deus é atingido na profundidade do próprio ser, até reagir com palavras que soam a juramento pela firmeza e determinação da expressão.
São frisadas formas de exploração comuns em todo tempo e em todo lugar, cuja finalidade principal é a cobiça, o acumulo do dinheiro, custe o que custar, doa a quem doer, não importa se quem sofre é o pobre, o necessitado, o carente. Não há misericórdia nem compaixão, menos ainda o respeito ao direito e à justiça, fundamentos da vivencia da Aliança com Deus estabelecida como pacto perene por Moises após a saída da escravidão do Egito.
Eram exatamente estes valores, praticados nos relacionamentos individuais que configuram a característica da vivencia social e deviam qualificar o povo de Deus como povo da Aliança, como povo libertado da escravidão e do mal, (Egito é sinônimo de pecado, da escravidão, do império do mal) capacitado em manter e vivenciar a liberdade e testemunhar às nações sua condição e povo eleito.
Estes valores configuram a verdadeira ação litúrgica que Deus espera do seu povo. Não é a celebração litúrgica no templo, más a prática da aliança. As autoridades e o povo achavam que o culto pelo culto fosse expressão da correta vivencia da aliança. O Profeta Amos, com estas palavras duríssimas, chama a atenção a esta grave forma de desvio. Alerta o povo de que todas suas ações exploradoras e corruptas estão sob o olhar de Deus e suscitam a indignação Dele.
É muito comum, nos cristãos de hoje, esta excisão entre o dever religioso de participação às celebrações, de batizar os filhos, da missa para os finados, da devoção a um Santo e demais atos religiosos e a pratica de vida fora da igreja, no dia -a - dia. Muitos a justificam por ser a prática já consolidada pela tradição, outros por ser “imposta” pelo costume social ou pela falta de ética, pois não se sobrevive sem compactuar com comportamentos desaprovados pela própria consciência cristã. Caminhar na contramão tem, às vezes, um preço tido como excessivo. A desculpa é que a vida é assim, que o mundo não vai mudar, que não podemos ser radicais demais. Em fim como uma espécie de paralisia que não permite deixar atitudes em contrasto com o sentir e a vontade de Deus.
Parece-me importante frisar que o Profeta atribui a corrupção, a injustiça à soberba, que tomou conta das autoridades e dos poderosos do povo de Israel: “Por causa da soberba de Jácó...”. Com efeito, a sedução do domínio, do poder, de ser elogiado e temido, de destacar, sustenta a atitude da soberba, própria de quem se acha uma pessoa bem sucedida, realizada, por ter desenvolvidos capacidades de enriquecimento ou de conquista de poder, independentemente dos meios e das condições para alcançá-los.
Tudo isso converge em fazer do dinheiro o meio necessário, insubstituível, o ídolo. São Paulo afirmará explicitamente que a cobiça é idolatria. Soberba e cobiça caminha juntos. É uma grande advertência.
Deus se manifesta para que todos se convertam, deixem o caminho errado e restabeleçam a comunhão com Ele e com as pessoas. É o que indica a 2da leitura.

2da leitura 1Tm 2,1-8

Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. Assim, a vontade de Deus é que hoje, aqui e agora, os homens sejam salvos. Não aponta a uma realidade futura após a morte no reino, ou no paraíso como comumente pensamos, mas algo já presente a atuante em termos de salvação. Ela consiste em deixar os comportamentos, as atitudes erradas da primeira leitura e assumir um novo comportamento de solidariedade com os pobres e os menos favorecidos, assim como de justiça no respeito às leis que garantem a equanimidade no juízo e a instauração da igualdade de oportunidade sem favoritismos ou privilegio algum.
Para o cristão consciente isso é possível pela adesão ao fato que há “um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, que se entregou em resgate por todos”. Ou seja, o fato de que Jesus faz a ponte que restabelece a comunhão ente Deus Pai a pessoa e a humanidade toda. Mediação que tem como seu conteúdo específico os efeitos da morte e ressurreição, em virtude da qual somos reconciliados e justificados perante do Deus Pai e constituídos como novas criaturas capacitadas na prática do direito e da justiça, na prática do dom gratuito de si mesmo para o bem do próximo, passando e sustentando nele a mesma dinâmica que sustentou o mesmo agir dele.
Esta mediação oferecida por Jesus é propriamente “o testemunho dado no tempo estabelecido por Deus”. Testemunho de amor desconcertante, além de toda esperança e expectativa, como sabemos. Quem aceita de ter sido aceito por Deus em virtude dessa mediação, percebe em si mesmo a transformação radical do próprio ser, dos próprios critérios de vida e de felicidade e, conseqüentemente, das próprias atitudes e práticas de vida. Portanto, como Paulo, se sente investido da missão: “para este testemunho eu fui designado pregador e apóstolo e -falo a verdade, não minto- mestre das nações pagãs na fé e na verdade”.
Vale frisar que a missão é o termo último do verdadeiro processo de conversão e de aceitação da mediação de Cristo. Vida cristã sem missão é capenga, lhe falta o essencial que se deve procurar na fraca fé na mediação de Cristo. Com efeito, a missão “é bom e agradável a Deus, nosso Salvador, ele quer que todos os homens de sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. Mas como alcançar esta meta sem a atividade missionária? Por outro lado o dom recebido é valorizado no momento que é passado a outros.
Neste contexto é preciso apreciar o valor e a importância da intercessão “recomendo que se façam preces e orações, súplicas e ação de graças, por todos os homens (...) a fim de que possamos levar uma vida tranqüila e serena, com toda piedade e dignidade” que visa a implantação da fraternidade e da solidariedade social, como efeito da mediação de Cristo nos corações das pessoas.
Particularmente significativo o inciso referente às autoridades “ pelos que governam e por todos que ocupam altos cargos”. São Paulo sabe muito bem da corrupção, da exploração dos pobres, das injustiças- indicadas pela primeira leitura- que dominam entre eles e confia na força da intercessão, para transformar o coração e as atitudes deles. Transformação da qual o evangelho indica o conteúdo específico e eficaz.

Evangelho Lc 16,1-13

A primeira parte do texto analisa as atitudes de um administrador que esbanjou os bens do seu Senhor e, portanto, lhe é comunicado o desligamento, “O administrador começou a refletir”. Não é especificada a conduta pela qual esbanjou os bens, se foi malandragem, incompetência, descuido, superficialidade ou colaboradores desonestos. Não é indicado se terá que ressarcir o prejuízo, simplesmente “já não poderás administrar meus bens”. Tudo isso indica que a intenção da parábola é centrada não sobre a responsabilidade e o juízo moral do administrador, mas sobre a reação dele na situação inesperada e complicada em que se encontra: “Que fazer?”
Os versículos 3-7 mostram no primeiro momento a lúcida e correta avaliação de si mesmo com respeito ao futuro iminente “Para cavar, não tenho força; para mendigar tenho vergonha”. E imediatamente a determinação do que fazer e sua rápida execução. É neste contexto que Jesus manifesta o elogio que, num primeiro momento, deixa surpresa se entendido como aprovação à desonestidade e a esperteza maldosa “E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu com esperteza”. Será que Jesus com suas palavras justifica não a desonestidade, mas, pelo menos, “o fim justifica os meios”, sendo que a finalidade do administrador é a própria salvação?
A resposta está à continuação “Com efeito, os filhos deste mundo são mais expertos em seus negócios do que os filhos da luz”. A oposição, o contraste, entre os filhos do mundo e os filhos da luz libera Jesus do juízo de aprovação da conduta do administrador, pois, não é o juízo ético o que está em discussão. O elogio se refere à esperteza dos filhos do mundo para alcançar “seus negócios”. Os filhos da luz não procedem com a mesma atitude e rapidez para alcançar os fins que lhe são próprios. Portanto, é o convite a proceder no caminho da luz com lucidez, avaliação, determinação e prontidão pela causa de Jesus, pela causa do Reino de Deus.
Usai o dinheiro injusto para fazer amigos”, injusto porque adquirido com engano, ou porque, de forma mais geral, à origem da riqueza sempre há algum engano. Portanto, é um convite a se desfazer delas “Vendei vossos bens e daí esmola. Fazei bolsas que não se estrague, um tesouro no céu que não se acabe” (Lc 12,33). “Pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Evidentemente, se refere aos pobres, aos marginalizados, beneficiados. São eles que o acolherão no Reino de Deus. Portanto, é a indicação de um caminho de salvação pelas pessoas dominadas da cobiça, da servidão ao dinheiro “Ninguém ode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a deus e ao dinheiro”. Nada a ver com a esperteza humana. Por outro lado, sabemos que ganhar amigos pelo dinheiro acontece que “quando acabar” acaba a amizade.
Daí ai as orientações éticas, cujas exigências devem motivar um comportamento coerente de integridade que abrange as coisas miúdas, como as maiores “Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes”. É esta integridade que deve ser assumida como o valor norteador do próprio comportamento para conformar a personalidade do discípulo que o Senhor espera de quem determina segui-lo.
A conclusão “por isso, se vos não sois fieis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem?”. A participação ao verdadeiro bem que acontecerá de forma estável e definitiva com a vinda do reino de Deus, supõe já ter elaborado e praticado a lógica do Reino no relacionamento com o “dinheiro injusto” nos termos analisados acima, com “tolerância zero” com respeito às “pequenas coisas”, ou seja, a prática da integridade.

domingo, 5 de setembro de 2010

24o DOMINGO DO T.C.-C-(12-09-10)

1ª leitura Ex 32,7-11. 13-14

Moises estava na presença de Deus no monte Sinai estabelecendo os termos da Aliança em nome do povo libertado da escravidão do Egito - ou seja, do mal e do pecado – e já o povo, pela demora de Moises, desviou do caminho. Daí as palavras de Deus a Moises: “Vai, desce, pois se corrompeu o teu povo (...) desviaram-se do caminho que lhes prescrevi”.
Como Moises demorava, a perplexidade tomou conta dos sentimentos do povo. Eles ficaram pensativos sobre o que estava realmente acontecendo entre Moises e Deus. Até que a duvida, o desconcerto e a desconfiança falaram mais alto e determinaram atribuir ao Deus libertador as características - para eles - mais apropriadas. Elas são simbolizadas no “bezerro fundido e inclinaram-se em adoração”. Portanto, não voltaram o coração a outros deuses, mas ao deus libertador que os fez sair do Egito, modelado pelos próprios critérios e expectativas. Ai está o conteúdo do desvio que tanto irrita Deus: o não saber aguardar e esperar dentro das indicações propostas por Ele “Bem depressa se desviaram do caminho que lhes prescrevi” levou eles fazer do Deus verdadeiro um ídolo.
Este perigo é atualíssimo. Quantas vezes “modelamos” na nossa cabeça uma imagem de Deus feita dentro de nossos entendimentos e expectativas, ou seja, construímos o ídolo dentro de nós, atribuindo a ele as características do Deus revelado pela Palavra, pelo ensino da igreja ou pela opinião de estudiosos de fama mundial. Este ídolo é muito mais perigoso e real da imagem de gesso ou de madeira que representam Deus ou alguns santos. O verdadeiro ídolo está dentro de nós, construído pelo nosso entendimento e pelas nossas idéias. É o mais difícil de detectar e de derrubar: “Vejo que este é um povo de cabeça dura”. O processo de elaborar uma idéia de Deus é inevitável e necessário. O que é mais necessário ainda é se abrir à constante busca da verdadeira imagem de Deus, que as circunstâncias da vida e a pluralidade de suas expressões pedem redesenhar e reformular em dialogo fraternal e a partir de alguns pressupostos básicos.
Contudo, Deus na sua bondade faz acontecer eventos, suscita pessoas ou circunstância pelos quais o ídolo é derrubado, bem sabendo que o processo se reativa com outros conteúdos e de outra forma. Portanto, a vida toda é uma constante luta em abater os ídolos que construímos dentro de nós, para enxergar e se aproximar gradativamente ao verdadeiro Deus. É o específico da conversão permanente. Portanto, ela, antes de ser de caráter ético é de ordem teológica, ou seja, aponta à idéia ao mesmo tempo errada e certa que temos de Deus.
A cólera de Deus é grande, sinal de grande amor que tem para com seu povo “Deixa (...) que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação”. Só uma pessoa que ama muito reage com tanta veemência e determinação frente à desilusão e à decepção do comportamento do amado. Moises consegue interceder eficazmente: “Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel, com os quais te comprometeste, por juramento, dizendo...” . O lembrar para Deus não é simples recordar uma promessa feita no passado. É muito mais. É atualizar a promessa de fidelidade, aqui e agora, mesmo numa circunstância tão sofrida e desconcertante. Com outras palavras, é o amor- misericórdia que se sobrepõe a toda desilusão.
Moises faz referencia à essência de Deus, à identidade mais profunda e verdadeira do Mesmo, que do ponto de vista humano, a cólera escureceu. Dai a eficácia da intercessão “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo”.
Cabe frisar como a intervenção de Moises é valiosa, também, por indicar a importância que a pessoa tenha clareza da própria identidade profunda como filho, como imagem e semelhança de Deus, para mergulhar nela nos momentos críticos e difíceis da existência, quando as provações e todo tipo de dificuldade podem puxar para ações ineficazes, das quais ficaria arrependida.
É essa identidade profunda que está na base do agir de Deus para com são Paulo, como comentaremos na segunda leitura.

2da leitura 1Tm 1,12-17

Encontrei misericórdia (...). Transbordou a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus”. Paulo reflete a partir de sua própria experiência. Ela tem seu ponto central na conversão dele, momentos antes de entrar na cidade de Damasco para perseguir os cristãos “a mim que antes blasfemava, perseguia e insultava. Mas encontrei misericórdia”. Ter percebido no profundo do coração que a morte e ressurreição de Jesus atingiram o coração dele e da humanidade de todos os tempos e de todos os lugares, foi perceber o dom de Deus pelo “amor que há em Cristo Jesus”.
Este amor “me deu força, pela confiança que teve em mim ao designar-me para o seu serviço”. A força missionária e evangelizadora de são Paulo deve-se a este amor que suscitou nele três percepções:
1) A “confiança que teve em mim”. Surpreende como Deus pôde ter confiança no seu perseguidor. Por outro lado, cabe especificar que Paulo foi uma pessoa eticamente reta e honesta com os princípios de dedicação e serviço a Deus, um homem que se dedicou totalmente ao serviço Dele. Mas “agia com ignorância de quem não tem fé”. Parece-me foi esta ética que lhe permitiu encontrar misericórdia: “Mas encontrei misericórdia”.
2) “ao designar-me”. Com outras palavras o capacitou, o tornou capaz de testemunhar, de anunciar o evangelho, ou seja, a importância, a abrangência e as condições para participar dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. É importante este aspecto. Muitos cristãos se acham incapazes, sem preparo para a missão. Cabe perguntar se não é para não conhecer e não experimentar a verdadeira conversão na linha que Paulo experimentou.
3) “para o seu serviço”. A confiança, a capacitação tem uma finalidade: o serviço evangelizador extensivo a toda a humanidade.
De fato, afirma “Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra: Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles!”
No testemunho de Paulo, que inclui o fato de que nele “Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza do seu coração”, por meio da ação evangelizadora. Cristo “fez de mim um modelo de todos os que crerem nele para alcançar a vida eterna”. O sentido da vida, da existência dele será a divulgação da vida eterna, sinal que ela está já nele, pois, ela é o amor de Deus no qual foi mergulhado e transformado.
Eis, então, a oração de louvor e agradecimento “Ao rei dos séculos (...) honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen!”.
A grandeza e a força do amor de Deus são explicitadas no evangelho.

Evangelho Lc 15,1-32

Momento de grande tensão entre Jesus e os fariseus com seus mestres. Jesus é interpelado com respeito ao seu comportamento que não condiz com o que eles esperavam do Messias. Portanto, é questionada tal pretensão de Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. É uma afirmação, não uma pergunta, que o desqualifica. Pois, Ele como Messias deveria separar os pecadores dos justos e instaurar com estes últimos o Reino de Deus. Nem de longe podiam pensar que o Messias sentasse a mesa com os pecadores. Era entendimento geral que comer juntos era compartilhar o estilo de vida. Portanto, era absolutamente impensável que Jesus, na sua pretensão de ser Filho de Deus e Messias, assumisse tal atitude.
As duas primeiras parábolas, a da ovelha e a da moeda, descrevem a solicitude de Deus que vai à procura do que estava perdido. Esta solicitude traduz a ação misericordiosa dele, própria de quem tem o coração voltado para o miserável com o intuito de resgatá-lo da lastimável condição quem que se encontra. É notável para toda pessoa nessa condição receber a informação e, sobretudo, acreditar que apesar de ter caído tão em baixo, não está longe do olhar de Deus. É importante perceber a vontade Dele de lhe dirigir o olhar, para restabelecer a plena comunhão. Com efeito, o afastamento de Deus gera o sentimento de isolamento de si mesmo e dos outros. Não é difícil imaginar o que pode significar nessa condição ter a certeza de ser procurado por alguém, mais ainda, de Deus. É uma ressurreição.
A conhecida Parábola do filho pródigo é a afirmação do que significa para Deus ser Pai. Ela põe em evidencia a paciência de Deus/Pai que não que a morte do pecador, mas que se converta e viva. Perceber o alcance e a profundidade dessa verdade requer uma conversão seja por parte do filho mais novo - o pecador -, seja do filho mais velho. É uma conversão de critérios em diferentes níveis e circunstâncias, pois a conversão do filho mais novo é bem diferente daquela do filho mai velhos. As duas apontam a motivar o porquê e o sentido da surpreendente e desconcertante paternidade de Deus.
A atitude de Deus Pai, assumida e manifestada por Jesus, deve ser a mesma atitude dos discípulos, por serem constituídos filhos de Deus. Com efeito, “vós sereis como Deus” (Gn 3,5), que constitui o próprio da vocação de todo cristão, tem como manifestação adequado a prática da misericórdia que o texto explicita. Com essa prática o discípulo se diviniza, ao passo que Deus se humaniza na pessoa di discípulo.
Evidentemente, alcançar este nível de espiritualidade pressupõe a experiência do amor de Deus que Paulo experimentou pelo evento da morte e ressurreição de Jesus. Assim como a paciência e a surpresa da manifestação de Deus que ultrapassando toda expectativa derrubará todo ídolo, toda idéia errada que temos Dele e que pacientemente Ele continuará corrigir com amor paternal.