domingo, 26 de setembro de 2010

27o DOMINGO DO T.C.-C-(03-10-10)


1ª leitura Hab 1,2-3; 2,2-4

O profeta se queixa a Deus por causa das injustiças que vê no povo. Malandragem, violência, corrupção e todo tipo de maldade fazem parte do dia-a-dia da vida pessoal e social de todo tempo e nação. Mas, tudo tem limite. Chegam momentos em que é demais, a exasperação e o desconforto tomam conta da sensibilidade e da expectativa geral de quem espera um futuro melhor. Mais ainda se tratando do povo de Deus, do povo de Israel, que experimentou a ação libertadora de Deus com a saída escravidão do Egito, ou seja, da libertação do mal e do pecado, pois, Egito é sinônimo disso. Portanto, as autoridades deveriam ter implantado a justiça e o direito, como expressão do cumprimento da Aliança com Deus, manifestando, dessa forma, a condição de Israel como povo escolhido, povo eleito.
Grande é o sofrimento do profeta constatando quanto profundo é o afastamento do povo da familiaridade com Deus “Destruições e prepotência estão na minha frente; reina a discussão, surge a discórdia”. E tudo isso acontece sob o olhar de Deus. Como é possível que Ele tolere tudo isso? Por que não intervém? Daí as palavras do profeta “até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti:Violência! ’, sem me socorreres Por que me fazes ver iniqüidades, quando tu mesmo vês a maldade?”. O “até quando”, repetido duas vezes, indica ter chegado ao limite da suportável.
Toda pessoa, devido às circunstâncias e eventos específicos, colocam a Deus a mesma pergunta: por que acontece isso? Onde estás? Estas vendo a maldade, por que não faz nada, como pode agüentar tudo isso? Para muitos é motivo de questionar a bondade, a paternidade e até a existência de Deus mesmo, tão grande é o abalo da fé deles. Tem momentos que não é fácil dar uma resposta convincente. O mistério profundo de Deus se faz presente em toda sua escuridão, em toda sua incompreensibilidade.
Contudo, Deus se posiciona, toma atitude. Manda escrever, como quem fixa de maneira irrefutável e inconvertível sua própria determinação “Escreve esta visão, estende seus dizeres sobre tábuas, para que possa ser lida com facilidade”. Esta premissa pretende oferecer a certeza de que Deus não está ausente nem ignora o que está acontecendo, assim como sua vontade de intervir. Com isso, é tirada do interior da pessoa toda duvida e o sentimento de abandono: Deus está presente, não está sozinha e pode reencontrar e restabelecer a confiança perdida.
Este reencontro e restabelecimento serão ulteriormente provados, porque permanece indefinido o prazo da intervenção “A visão refere-se a um prazo definido, mas tende para um desfecho, e não falhará; se demorar espera, pois ela virá com certeza, e não tardará”. É garantida a intervenção, mas não é especificado o quando. Haverá tal vez demora na qual cultivar a virtude da esperança, alicerçada sobre a promessa. É esta singular união de promessa e esperança que qualificará a fé.
Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé”. A fé tem como conteúdo a promessa. Alicerçada no coração, esta -a promessa- alimenta e sustenta a esperança. Eis, então, que se configura a condição do ser humano como “justo” perante de Deus. Esta condição o preenche de vida, porque o cultivo da promessa-esperança marca a presença de Deus e a participação à vida Dele.
Vale, também, o contrário: “Quem não é correto, vai morrer”. Não é um “correto” de tipo ético, mas teológico em primeiro lugar. Pois, a falta de fé acima indicada impede a comunhão, a intimidade a familiaridade com Deus e coloca a pessoa na auto (in)suficiência, no isolamento e afastamento Dele, e isso significa morrer.
Daí a importância de reavivar permanentemente o dom da fé como frisa a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 1,6-8.13-14

O trecho lido em sua totalidade é uma longa exortação a lutar corajosamente pelo evangelho, pois “Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro”. Pois, naquele ambiente, pregar a salvação em virtude de um Deus crucificado que em razão da entrega- pelo testemunho de alguns seguidores Dele- ressuscitou dentre os morto; o fato que o maior pregador disso- Paulo- é preso pelas autoridades, não estranha que suscite sentimentos de vergonha. É se expuser ao ridículo, pelo menos.
Daí a exortação “a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição de minhas mãos”. Impor as mãos sobre a cabeça significa ser configurado pelo dom de Deus à pessoa de Cristo e ter condição de exercer o ministério em nome dele. É conhecida a expressão que o sacerdote e o bispo, na teologia católica, são configurados como “outro Cristo”. Paulo frisa de “reavivar a chama do dom de Deus”, ou seja, reavivar a chama do Amor do qual foi feito participe por meio da fé no efeito da morte e ressurreição de Jesus atualizado no acolhimento da palavra, na prática da caridade, na presença do ressuscitado na comunidade e, particularmente, na celebração da Eucaristia.
A atitude de reavivar a chama faz entender os altos e baixos da caminhada do discípulo submetido ao que é próprio da condição humana. Portanto, é necessário tomar a devida providencia quando o estado de animo - particularmente da vergonha, neste caso - toma conta do ser da pessoa. Os efeitos dela são o “espírito de (...) fortaleza, de amor e de sobriedade” capaz de sustentar a missão no meio das dificuldades e dos sofrimentos. Pois, Paulo convida Timóteo: “sofre comigo pelo Evangelho - o anuncio da morte e ressurreição de Jesus com suas conseqüências- fortificado pelo poder de Deus”. É o convite de não se assustar do sofrimento, pois faz parte da comunhão fraternal com Paulo e da participação dos sofrimentos de Cristo.
O apostolo acrescenta duas importantes indicações “Usa o compendio das palavras sadias que de mim ouviste em matéria de fé e de amor em Cristo Jesus”. Naquele momento não existiam os textos dos evangelhos na forma que conhecemos pela bíblia. Os textos serão redigidos muito mais tarde. Existiam escritos soltos, relatos ocasionais. Tal vez é a eles que Paulo se refere ou a expressões fundamentais da pregação dele, mas, sobretudo, a vivencia de fé da comunidade que constitui o eixo certo da tradição.
Guarda o precioso depósito, com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós”. Por precioso deposito não se trata de algo fixo, imutável, estável a ser guardado e conservado de maneira tal do ser proposto de forma repetitiva no decorrer do tempo. Com outras palavras, algo a ser conservado ao longo do tempo. Pelo contrário, o “conservado” se refere a algo criativo a ser elaborado dependendo das circunstâncias e dos eventos, em sintonia com o significado e a finalidade da morte e ressurreição de Jesus, com a “ajuda do Espírito Santo”. A Tradição- com a T maiúscula- não é algo simplesmente repetitivo, mas criativo e innovativo que sabe ler o presente e as circunstâncias à luz do significado da morte e ressurreição de Jesus.
Elaborar o “deposito” supõe uma fé firme e forte e corajosa, como exigido do evangelho.

Evangelho Lc 17,5-10

Os apóstolos perceberam a necessidade de ter uma fé mais firme e consistente. Daí o pedido ao Senhor “Aumenta a nossa fé!”. A resposta de Jesus deixa o sabor da inconsistência, da pouca fé dos apóstolos e nossa. Com efeito, ninguém tem a fé necessária, mesmo tão pequena como um grão de mostarda, capaz de realizar o que Jesus indica “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranque-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”.
Falando de fé, de imediato o pensamento vai ao sentimento de confiança e a vontade de adesão à pessoa e ao ensino de Jesus. Desta forma, a fé é, fundamentalmente, um ato interior de quem se dispõe elaborar a própria inteligência e os próprios sentimentos em sintonia com o que lhe é proposto. A resposta de Jesus manifesta a insuficiência disso.
A continuação o texto apresenta o que, a primeira vista, nada tem a ver com o que foi argumentado com respeito à fé. Fala do relacionamento empregado- patrão, em ordem ao serviço que o primeiro desenvolverá o anteriormente às próprias necessidades “Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber”. E pergunta: “Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado?”.
Parece-me que dessa forma a fé se configura como um agir, melhor, com o serviço do servo para com o seu Senhor. É um serviço que antecede a satisfação das próprias necessidades, em atenção às exigências que decorrem da aceitação livre e consciente do relacionamento com o próprio Senhor. São exigências que soam como um “mandado”, em virtude da coerência estabelecida pela aceitação do que é proposto. Coerência que inclui a gratuidade “Será que vai agradecer o empregado” no exercício do serviço, pois a fé autentica é necessariamente ligada ao amor, que por ser tal é gratuito.
Tal vez seja a falta destas condições que enfraquece a fé, que a torna inconsistente e carente do necessário para se manifestar em toda sua força e poder. Daí a súplica de acima e a resposta do Senhor, que é ao mesmo tempo o convite para se confrontar e se avaliar com respeito à determinação de assumir o serviço e a correspondente gratuidade no horizonte do amor.
É tudo isso que permite perceber o alcance das últimas palavras do texto “quando tiverdes feito tudo o que vos mandam, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”. Evidentemente, “devíamos fazer” não por obrigação, mas por amor.
Com efeito, quando uma pessoa age por amor, de forma gratuita e desinteressada, percebe que o acontecer que o envolve é um oceano do amor que torna como insignificante e coisa de pouca conta o serviço dela. Portanto, a expressão não desvaloriza o serviço e o agir do servo, mas lhe confere a dignidade divina. Será, então, que esta expressão brota da experiência de Jesus com respeito à vivencia Trinitária, voltada como servidora para o resgate da humanidade?
Na Trindade, da qual manifesta a presença e a ação, Jesus fez o que devia fazer. E a consciência dela “somos servos inúteis” brota da característica do Amor, que não é devido, não é necessário e menos ainda troca. Exatamente “inútil” no sentido que não tem utilidade nenhuma senão o Amor puro em si mesmo.

Um comentário:

  1. Gigi, no último domingo eu fiz a reflexão na Celebração da Comunidade. Graças a Deus e a sua ajuda, eu consegui fazer uma das melhores reflexões na minha curta vida de Ministro da Palavra. Recebi, ao final da Celebração, muitos elogios e agradecimentos. Compartilho com você estas palavras de agradecimento na certeza de que estamos contribuindo para a construção do Reino em nosso meio. Muito obrigado por tudo!!! Um fraterno abraço. Tranqüillo

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