1ª leitura Ex 32,7-11. 13-14
Moises estava na presença de Deus no monte Sinai estabelecendo os termos da Aliança em nome do povo libertado da escravidão do Egito - ou seja, do mal e do pecado – e já o povo, pela demora de Moises, desviou do caminho. Daí as palavras de Deus a Moises: “Vai, desce, pois se corrompeu o teu povo (...) desviaram-se do caminho que lhes prescrevi”.
Como Moises demorava, a perplexidade tomou conta dos sentimentos do povo. Eles ficaram pensativos sobre o que estava realmente acontecendo entre Moises e Deus. Até que a duvida, o desconcerto e a desconfiança falaram mais alto e determinaram atribuir ao Deus libertador as características - para eles - mais apropriadas. Elas são simbolizadas no “bezerro fundido e inclinaram-se em adoração”. Portanto, não voltaram o coração a outros deuses, mas ao deus libertador que os fez sair do Egito, modelado pelos próprios critérios e expectativas. Ai está o conteúdo do desvio que tanto irrita Deus: o não saber aguardar e esperar dentro das indicações propostas por Ele “Bem depressa se desviaram do caminho que lhes prescrevi” levou eles fazer do Deus verdadeiro um ídolo.
Este perigo é atualíssimo. Quantas vezes “modelamos” na nossa cabeça uma imagem de Deus feita dentro de nossos entendimentos e expectativas, ou seja, construímos o ídolo dentro de nós, atribuindo a ele as características do Deus revelado pela Palavra, pelo ensino da igreja ou pela opinião de estudiosos de fama mundial. Este ídolo é muito mais perigoso e real da imagem de gesso ou de madeira que representam Deus ou alguns santos. O verdadeiro ídolo está dentro de nós, construído pelo nosso entendimento e pelas nossas idéias. É o mais difícil de detectar e de derrubar: “Vejo que este é um povo de cabeça dura”. O processo de elaborar uma idéia de Deus é inevitável e necessário. O que é mais necessário ainda é se abrir à constante busca da verdadeira imagem de Deus, que as circunstâncias da vida e a pluralidade de suas expressões pedem redesenhar e reformular em dialogo fraternal e a partir de alguns pressupostos básicos.
Contudo, Deus na sua bondade faz acontecer eventos, suscita pessoas ou circunstância pelos quais o ídolo é derrubado, bem sabendo que o processo se reativa com outros conteúdos e de outra forma. Portanto, a vida toda é uma constante luta em abater os ídolos que construímos dentro de nós, para enxergar e se aproximar gradativamente ao verdadeiro Deus. É o específico da conversão permanente. Portanto, ela, antes de ser de caráter ético é de ordem teológica, ou seja, aponta à idéia ao mesmo tempo errada e certa que temos de Deus.
A cólera de Deus é grande, sinal de grande amor que tem para com seu povo “Deixa (...) que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação”. Só uma pessoa que ama muito reage com tanta veemência e determinação frente à desilusão e à decepção do comportamento do amado. Moises consegue interceder eficazmente: “Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel, com os quais te comprometeste, por juramento, dizendo...” . O lembrar para Deus não é simples recordar uma promessa feita no passado. É muito mais. É atualizar a promessa de fidelidade, aqui e agora, mesmo numa circunstância tão sofrida e desconcertante. Com outras palavras, é o amor- misericórdia que se sobrepõe a toda desilusão.
Moises faz referencia à essência de Deus, à identidade mais profunda e verdadeira do Mesmo, que do ponto de vista humano, a cólera escureceu. Dai a eficácia da intercessão “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo”.
Cabe frisar como a intervenção de Moises é valiosa, também, por indicar a importância que a pessoa tenha clareza da própria identidade profunda como filho, como imagem e semelhança de Deus, para mergulhar nela nos momentos críticos e difíceis da existência, quando as provações e todo tipo de dificuldade podem puxar para ações ineficazes, das quais ficaria arrependida.
É essa identidade profunda que está na base do agir de Deus para com são Paulo, como comentaremos na segunda leitura.
2da leitura 1Tm 1,12-17
“Encontrei misericórdia (...). Transbordou a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus”. Paulo reflete a partir de sua própria experiência. Ela tem seu ponto central na conversão dele, momentos antes de entrar na cidade de Damasco para perseguir os cristãos “a mim que antes blasfemava, perseguia e insultava. Mas encontrei misericórdia”. Ter percebido no profundo do coração que a morte e ressurreição de Jesus atingiram o coração dele e da humanidade de todos os tempos e de todos os lugares, foi perceber o dom de Deus pelo “amor que há em Cristo Jesus”.
Este amor “me deu força, pela confiança que teve em mim ao designar-me para o seu serviço”. A força missionária e evangelizadora de são Paulo deve-se a este amor que suscitou nele três percepções:
1) A “confiança que teve em mim”. Surpreende como Deus pôde ter confiança no seu perseguidor. Por outro lado, cabe especificar que Paulo foi uma pessoa eticamente reta e honesta com os princípios de dedicação e serviço a Deus, um homem que se dedicou totalmente ao serviço Dele. Mas “agia com ignorância de quem não tem fé”. Parece-me foi esta ética que lhe permitiu encontrar misericórdia: “Mas encontrei misericórdia”.
2) “ao designar-me”. Com outras palavras o capacitou, o tornou capaz de testemunhar, de anunciar o evangelho, ou seja, a importância, a abrangência e as condições para participar dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. É importante este aspecto. Muitos cristãos se acham incapazes, sem preparo para a missão. Cabe perguntar se não é para não conhecer e não experimentar a verdadeira conversão na linha que Paulo experimentou.
3) “para o seu serviço”. A confiança, a capacitação tem uma finalidade: o serviço evangelizador extensivo a toda a humanidade.
De fato, afirma “Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra: Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles!”
No testemunho de Paulo, que inclui o fato de que nele “Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza do seu coração”, por meio da ação evangelizadora. Cristo “fez de mim um modelo de todos os que crerem nele para alcançar a vida eterna”. O sentido da vida, da existência dele será a divulgação da vida eterna, sinal que ela está já nele, pois, ela é o amor de Deus no qual foi mergulhado e transformado.
Eis, então, a oração de louvor e agradecimento “Ao rei dos séculos (...) honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen!”.
A grandeza e a força do amor de Deus são explicitadas no evangelho.
Evangelho Lc 15,1-32
Momento de grande tensão entre Jesus e os fariseus com seus mestres. Jesus é interpelado com respeito ao seu comportamento que não condiz com o que eles esperavam do Messias. Portanto, é questionada tal pretensão de Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. É uma afirmação, não uma pergunta, que o desqualifica. Pois, Ele como Messias deveria separar os pecadores dos justos e instaurar com estes últimos o Reino de Deus. Nem de longe podiam pensar que o Messias sentasse a mesa com os pecadores. Era entendimento geral que comer juntos era compartilhar o estilo de vida. Portanto, era absolutamente impensável que Jesus, na sua pretensão de ser Filho de Deus e Messias, assumisse tal atitude.
As duas primeiras parábolas, a da ovelha e a da moeda, descrevem a solicitude de Deus que vai à procura do que estava perdido. Esta solicitude traduz a ação misericordiosa dele, própria de quem tem o coração voltado para o miserável com o intuito de resgatá-lo da lastimável condição quem que se encontra. É notável para toda pessoa nessa condição receber a informação e, sobretudo, acreditar que apesar de ter caído tão em baixo, não está longe do olhar de Deus. É importante perceber a vontade Dele de lhe dirigir o olhar, para restabelecer a plena comunhão. Com efeito, o afastamento de Deus gera o sentimento de isolamento de si mesmo e dos outros. Não é difícil imaginar o que pode significar nessa condição ter a certeza de ser procurado por alguém, mais ainda, de Deus. É uma ressurreição.
A conhecida Parábola do filho pródigo é a afirmação do que significa para Deus ser Pai. Ela põe em evidencia a paciência de Deus/Pai que não que a morte do pecador, mas que se converta e viva. Perceber o alcance e a profundidade dessa verdade requer uma conversão seja por parte do filho mais novo - o pecador -, seja do filho mais velho. É uma conversão de critérios em diferentes níveis e circunstâncias, pois a conversão do filho mais novo é bem diferente daquela do filho mai velhos. As duas apontam a motivar o porquê e o sentido da surpreendente e desconcertante paternidade de Deus.
A atitude de Deus Pai, assumida e manifestada por Jesus, deve ser a mesma atitude dos discípulos, por serem constituídos filhos de Deus. Com efeito, “vós sereis como Deus” (Gn 3,5), que constitui o próprio da vocação de todo cristão, tem como manifestação adequado a prática da misericórdia que o texto explicita. Com essa prática o discípulo se diviniza, ao passo que Deus se humaniza na pessoa di discípulo.
Evidentemente, alcançar este nível de espiritualidade pressupõe a experiência do amor de Deus que Paulo experimentou pelo evento da morte e ressurreição de Jesus. Assim como a paciência e a surpresa da manifestação de Deus que ultrapassando toda expectativa derrubará todo ídolo, toda idéia errada que temos Dele e que pacientemente Ele continuará corrigir com amor paternal.
domingo, 5 de setembro de 2010
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Olá Padre João, a sua benção. Quanto tempo...saudades.
ResponderExcluirOntem fui à missa, depois de três longos meses de ausência, pois estava estudando para um concurso público, cujo certame foi no sábado passado (dia 11/09). Eu sei que nada justifica a minha ausência nas missas aos domingos, eis que como católica praticante devo participar da assembléia e reservar o dia de domingo para Deus, mas eu estudava sábado o dia todo (das 8:00 às 19:00h e as vezes às 20:00h) e aos domingos também (das 8:00 às 17:00h) e quando chegava em casa o cansaço me impedia de sair. Creio que Deus me perdoou e me aceitou de volta com alegria. Como foi dito no evangelho de domingo, Deus se alegra mais com um pecador que à casa retorna do que com inúmeros justos que não se desviam do caminho. É a manifestação da misericórdia de Deus.
Ontem o novo Padre da Paróquia Santa Teresinha, aliás um religioso consciente e culto, assim como o Senhor, Padre João, leu para a assembléia um noticiário do jornal da semana sobre a declaração do Papa Bento XVI acerca da "emigração" de católicos para as mais diversas denominações evangélicas. Explicou que isso se deve a falta de evangelização. Isso por que os católicos, em sua grande maioria, estão preocupados com os sacramentos e se esquecendo do principal, ou seja, o encontro com Deus através de sua palavra, do evangelho. Confesso que eu não leio a Bíblia diariamente e nem semanalmente....me contento com o evangelho de domingo, nas missas. Este é o meu grande erro e também da maioria dos católicos, infelizmente.
Diante de tudo que foi dito, que me tocou bastante, vou tentar mudar e efetivamente ler e exercitar o evangelho diariamente para me aproximar de Deus.