segunda-feira, 13 de setembro de 2010

250 DOMINGO DO T.C.-C-(19-09-10)


1ª leitura Am 8,4-7

Nunca mais esquecerei o que eles fizeram”. Palavras que manifestam a radical desconformidade de Deus com a exploração dos pobres e dos humildes. Deus é atingido na profundidade do próprio ser, até reagir com palavras que soam a juramento pela firmeza e determinação da expressão.
São frisadas formas de exploração comuns em todo tempo e em todo lugar, cuja finalidade principal é a cobiça, o acumulo do dinheiro, custe o que custar, doa a quem doer, não importa se quem sofre é o pobre, o necessitado, o carente. Não há misericórdia nem compaixão, menos ainda o respeito ao direito e à justiça, fundamentos da vivencia da Aliança com Deus estabelecida como pacto perene por Moises após a saída da escravidão do Egito.
Eram exatamente estes valores, praticados nos relacionamentos individuais que configuram a característica da vivencia social e deviam qualificar o povo de Deus como povo da Aliança, como povo libertado da escravidão e do mal, (Egito é sinônimo de pecado, da escravidão, do império do mal) capacitado em manter e vivenciar a liberdade e testemunhar às nações sua condição e povo eleito.
Estes valores configuram a verdadeira ação litúrgica que Deus espera do seu povo. Não é a celebração litúrgica no templo, más a prática da aliança. As autoridades e o povo achavam que o culto pelo culto fosse expressão da correta vivencia da aliança. O Profeta Amos, com estas palavras duríssimas, chama a atenção a esta grave forma de desvio. Alerta o povo de que todas suas ações exploradoras e corruptas estão sob o olhar de Deus e suscitam a indignação Dele.
É muito comum, nos cristãos de hoje, esta excisão entre o dever religioso de participação às celebrações, de batizar os filhos, da missa para os finados, da devoção a um Santo e demais atos religiosos e a pratica de vida fora da igreja, no dia -a - dia. Muitos a justificam por ser a prática já consolidada pela tradição, outros por ser “imposta” pelo costume social ou pela falta de ética, pois não se sobrevive sem compactuar com comportamentos desaprovados pela própria consciência cristã. Caminhar na contramão tem, às vezes, um preço tido como excessivo. A desculpa é que a vida é assim, que o mundo não vai mudar, que não podemos ser radicais demais. Em fim como uma espécie de paralisia que não permite deixar atitudes em contrasto com o sentir e a vontade de Deus.
Parece-me importante frisar que o Profeta atribui a corrupção, a injustiça à soberba, que tomou conta das autoridades e dos poderosos do povo de Israel: “Por causa da soberba de Jácó...”. Com efeito, a sedução do domínio, do poder, de ser elogiado e temido, de destacar, sustenta a atitude da soberba, própria de quem se acha uma pessoa bem sucedida, realizada, por ter desenvolvidos capacidades de enriquecimento ou de conquista de poder, independentemente dos meios e das condições para alcançá-los.
Tudo isso converge em fazer do dinheiro o meio necessário, insubstituível, o ídolo. São Paulo afirmará explicitamente que a cobiça é idolatria. Soberba e cobiça caminha juntos. É uma grande advertência.
Deus se manifesta para que todos se convertam, deixem o caminho errado e restabeleçam a comunhão com Ele e com as pessoas. É o que indica a 2da leitura.

2da leitura 1Tm 2,1-8

Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. Assim, a vontade de Deus é que hoje, aqui e agora, os homens sejam salvos. Não aponta a uma realidade futura após a morte no reino, ou no paraíso como comumente pensamos, mas algo já presente a atuante em termos de salvação. Ela consiste em deixar os comportamentos, as atitudes erradas da primeira leitura e assumir um novo comportamento de solidariedade com os pobres e os menos favorecidos, assim como de justiça no respeito às leis que garantem a equanimidade no juízo e a instauração da igualdade de oportunidade sem favoritismos ou privilegio algum.
Para o cristão consciente isso é possível pela adesão ao fato que há “um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, que se entregou em resgate por todos”. Ou seja, o fato de que Jesus faz a ponte que restabelece a comunhão ente Deus Pai a pessoa e a humanidade toda. Mediação que tem como seu conteúdo específico os efeitos da morte e ressurreição, em virtude da qual somos reconciliados e justificados perante do Deus Pai e constituídos como novas criaturas capacitadas na prática do direito e da justiça, na prática do dom gratuito de si mesmo para o bem do próximo, passando e sustentando nele a mesma dinâmica que sustentou o mesmo agir dele.
Esta mediação oferecida por Jesus é propriamente “o testemunho dado no tempo estabelecido por Deus”. Testemunho de amor desconcertante, além de toda esperança e expectativa, como sabemos. Quem aceita de ter sido aceito por Deus em virtude dessa mediação, percebe em si mesmo a transformação radical do próprio ser, dos próprios critérios de vida e de felicidade e, conseqüentemente, das próprias atitudes e práticas de vida. Portanto, como Paulo, se sente investido da missão: “para este testemunho eu fui designado pregador e apóstolo e -falo a verdade, não minto- mestre das nações pagãs na fé e na verdade”.
Vale frisar que a missão é o termo último do verdadeiro processo de conversão e de aceitação da mediação de Cristo. Vida cristã sem missão é capenga, lhe falta o essencial que se deve procurar na fraca fé na mediação de Cristo. Com efeito, a missão “é bom e agradável a Deus, nosso Salvador, ele quer que todos os homens de sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. Mas como alcançar esta meta sem a atividade missionária? Por outro lado o dom recebido é valorizado no momento que é passado a outros.
Neste contexto é preciso apreciar o valor e a importância da intercessão “recomendo que se façam preces e orações, súplicas e ação de graças, por todos os homens (...) a fim de que possamos levar uma vida tranqüila e serena, com toda piedade e dignidade” que visa a implantação da fraternidade e da solidariedade social, como efeito da mediação de Cristo nos corações das pessoas.
Particularmente significativo o inciso referente às autoridades “ pelos que governam e por todos que ocupam altos cargos”. São Paulo sabe muito bem da corrupção, da exploração dos pobres, das injustiças- indicadas pela primeira leitura- que dominam entre eles e confia na força da intercessão, para transformar o coração e as atitudes deles. Transformação da qual o evangelho indica o conteúdo específico e eficaz.

Evangelho Lc 16,1-13

A primeira parte do texto analisa as atitudes de um administrador que esbanjou os bens do seu Senhor e, portanto, lhe é comunicado o desligamento, “O administrador começou a refletir”. Não é especificada a conduta pela qual esbanjou os bens, se foi malandragem, incompetência, descuido, superficialidade ou colaboradores desonestos. Não é indicado se terá que ressarcir o prejuízo, simplesmente “já não poderás administrar meus bens”. Tudo isso indica que a intenção da parábola é centrada não sobre a responsabilidade e o juízo moral do administrador, mas sobre a reação dele na situação inesperada e complicada em que se encontra: “Que fazer?”
Os versículos 3-7 mostram no primeiro momento a lúcida e correta avaliação de si mesmo com respeito ao futuro iminente “Para cavar, não tenho força; para mendigar tenho vergonha”. E imediatamente a determinação do que fazer e sua rápida execução. É neste contexto que Jesus manifesta o elogio que, num primeiro momento, deixa surpresa se entendido como aprovação à desonestidade e a esperteza maldosa “E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu com esperteza”. Será que Jesus com suas palavras justifica não a desonestidade, mas, pelo menos, “o fim justifica os meios”, sendo que a finalidade do administrador é a própria salvação?
A resposta está à continuação “Com efeito, os filhos deste mundo são mais expertos em seus negócios do que os filhos da luz”. A oposição, o contraste, entre os filhos do mundo e os filhos da luz libera Jesus do juízo de aprovação da conduta do administrador, pois, não é o juízo ético o que está em discussão. O elogio se refere à esperteza dos filhos do mundo para alcançar “seus negócios”. Os filhos da luz não procedem com a mesma atitude e rapidez para alcançar os fins que lhe são próprios. Portanto, é o convite a proceder no caminho da luz com lucidez, avaliação, determinação e prontidão pela causa de Jesus, pela causa do Reino de Deus.
Usai o dinheiro injusto para fazer amigos”, injusto porque adquirido com engano, ou porque, de forma mais geral, à origem da riqueza sempre há algum engano. Portanto, é um convite a se desfazer delas “Vendei vossos bens e daí esmola. Fazei bolsas que não se estrague, um tesouro no céu que não se acabe” (Lc 12,33). “Pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Evidentemente, se refere aos pobres, aos marginalizados, beneficiados. São eles que o acolherão no Reino de Deus. Portanto, é a indicação de um caminho de salvação pelas pessoas dominadas da cobiça, da servidão ao dinheiro “Ninguém ode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a deus e ao dinheiro”. Nada a ver com a esperteza humana. Por outro lado, sabemos que ganhar amigos pelo dinheiro acontece que “quando acabar” acaba a amizade.
Daí ai as orientações éticas, cujas exigências devem motivar um comportamento coerente de integridade que abrange as coisas miúdas, como as maiores “Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes”. É esta integridade que deve ser assumida como o valor norteador do próprio comportamento para conformar a personalidade do discípulo que o Senhor espera de quem determina segui-lo.
A conclusão “por isso, se vos não sois fieis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem?”. A participação ao verdadeiro bem que acontecerá de forma estável e definitiva com a vinda do reino de Deus, supõe já ter elaborado e praticado a lógica do Reino no relacionamento com o “dinheiro injusto” nos termos analisados acima, com “tolerância zero” com respeito às “pequenas coisas”, ou seja, a prática da integridade.

Um comentário:

  1. Gigi, amanhã eu irei fazer a reflexão na celebração aqui na comunidade. O seu texto é primoroso. Parabéns e muito obrigado pelos ensinamentos. Um gorduroso abraço. Tranqüillo Dias

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