terça-feira, 31 de maio de 2011

ASCENSÃO-A-(05-06-11)

1a leitura At 1,1-11

Vale especificar que o autor dos Atos dos Apóstolos é o mesmo do Evangelho: o apóstolo Lucas (ou a comunidade que faz referencia a ele). Os Atos dos Apóstolos é a continuação do Evangelho e, especificamente, testemunha a ação do Espírito Santo na difusão do Evangelho no mundo então conhecido, e o surgimento das primeiras comunidades. Daí o sentido de “No meu primeiro livro” e as palavras introdutórias que resumem brevemente o evangelho.
Jesus é apresentado, no período que vai da ressurreição à ascensão- simbolicamente 40 dias, um período demorado- como Senhor do Reino de Deus: “Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus”. É muito significativo que Jesus não fale de si mesmo, da grande injustiça que fizeram para com ele, dos sofrimentos da cruz e da experiência da ressurreição, da traição, do abandono dos apóstolos etc., mas somente da finalidade da missão dele: o Reino de Deus.
Demonstra, assim, um desapego de si mesmo surpreendente do ponto de vista humano. É como se estivesse falando sem que nada especial lhe tivesse acontecido. Isso diz muito com respeito ao relacionamento dele consigo mesmo, à missão que desenvolveu e que está chegando ao seu ponto final na terra. Como pude manter tal distanciamento, tal desapego de si mesmo? Como não há registro de uma palavra de desconformidade, de critica, de lamentação, com respeito à ingratidão do povo, dos apóstolos etc.? Mas, só preocupação de que os apóstolos entendam a dinâmica da implantação do Reino.
As explicações de Jesus não foram bem entendidas, pois, os apóstolos perguntam: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel”. Eles entenderam falar da realização do Reino conforme a expectativa geral do povo e de João Batista, ou seja, a expulsão dos invasores romanos e a purificação do povo infiel à lei de Moises. Isso demonstra quanto pouco eles entenderam Jesus, mesmo após da experiência de vê-lo ressuscitado. Contudo, Jesus não se surpreende nem pretende corrigir ou explicar em que realmente consiste o Reino, pois, sabe que não têm condições de entender (só com a vinda do Espírito entenderão), mas revela que não compete a eles “saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com sua própria autoridade”.
Assim, preanuncia a descida do Espírito Santo: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra”. A função do Espírito, após de tornar-los conhecedores da profundidade e importância do evento da morte e ressurreição de Jesus, visa constituí-los testemunhas até os últimos confins da terra. Com isso afirma o caráter universal do evento e da missão Dele.
Depois (...) foi levado ao céu (...). Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo”. Com isso Jesus universaliza a missão. Ele chegará até os confins da terra por meio da ação missionária dos apóstolos, das testemunhas. A missão se estenderá até a volta Dele no fim dos tempos, portanto, os apóstolos não deverão ficar parados olhando o céu “ Homens da Galiléia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?”. Uma coisa é certa, aquele que agora sumiu dos olhos deles voltará, não os abandonará, pela vinda do Espírito, e já tem marcada a hora do reencontro "Esse Jesus (...) virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. O viram partir numa nuvem que o encobriu, ou seja, pela presença e ação do Espírito Santo- tal é o significado da nuvem que o encobriu, como na transfiguração-. E será pela ação do mesmo Espírito que acontecerá o evento definitivo e último que atingirá a criação toda no fim dos tempos.
O Espírito é o mestre interior, ele possibilita o profundo conhecimento ou compreensão do que Deus realizou em Cristo, como frisa a segunda leitura.

2da Leitura Ef 1,17-23

Paulo implora para os cristãos da comunidade “um espírito de sabedoria”, o dom da revelação, “para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança”. Por meio desse dom, Deus “abra o vosso coração à sua luz” para se tornarem conscientes do “imenso poder que ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com sua força onipotente”.
A esperança e a herança apontam ao futuro. Com efeito, o poder que ele exerceu através a obra do Filho abre horizontes inéditos. A pratica da caridade, do amor à verdade e à justiça para a dignidade da pessoa e uma sociedade mais justa, e com ela a doação à causa até o dom da própria vida, enche de luz singular o coração, o mundo interior da pessoa. Nessa luz se percebe a consistência da esperança e a riqueza da glória.
Portanto, a esperança e a herança não são fruto da especulação racional nem projeção do desejo da pessoa- em fim elaborações humanas- mas conseqüência da pratica divina da caridade na condição humana. É o amor que faz surgir e crescer a esperança e a certeza da herança de participar em plenitude da glória de Deus.
Ele manifestou sua força em Cristo”. Com isso se afirma que tudo o que Deus é se manifestou na pessoa de Jesus. Assim, Jesus se tornou Jesus Cristo em força da ressurreição, expressão do imenso poder e da força onipotente de Deus mesmo “quando o ressuscitou dos mortos e fez sentar-se à sua direita nos céus”.
Agora, se Cristo está na glória, também os que estão com ele participam da mesma realidade. De fato, são Paulo, mais na frente, afirma “Deus nos ressuscitou em Cristo e nos fez sentar no céu, em virtude de nossa união com Jesus Cristo”(Ef 2,6). Com isso, fica determinado que a nossa verdadeira e ultima identidade está no céu. (Vale especificar que o céu não é uma realidade geográfica, mas o estado da pessoa toda em comunhão com Deus). É a partir desta verdade, que conforma a profundidade do nosso ser, devemos entender o caminho do desenvolvimento e de crescimento da pessoa.
Este processo manifesta, na dimensão concreta e histórica, o que é já participar da vida divina, doada gratuitamente pela fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto o nosso caminhar traz sua motivação, seus passos concretos- nas diferentes circunstâncias do dia- a – dia-, seu critério de discernimento exatamente por esta realidade que já está em nós. O que é conforme será assumido e o que não, afastado.
Assim, toda potencialidade do nosso ser se realizará conforme ao plano de Deus, de uma vida santa, manifestação do poder e da gloria de Deus.
Este dom este processo começa no profundo da pessoa, mas não fica simplesmente nele. É para toda a humanidade, como indica o Evangelho.

Evangelho Mt 28,16-20

Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado”. Tudo recomeça no mesmo lugar onde tudo começou: a Galiléia e sobre o monte (das bem-aventuranças? Tale vez. Teria sentido). O evento Pascual marca um antes e um depois para todos e para tudo.
Os apóstolos “Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram”. Por um lado reconheceram a divindade, pois a presença física do Ressuscitado não deixava margem a outra atitude: o Crucificado está vivo e de maneira surpreendente que só pode ser manifestação da obra e da presença de Deus nele.
Por outro lado duvidaram. De que? Com certeza o evento da ressurreição foi neles uma mistura de desconcerto e de alegria com respeito à pessoa de Jesus. Mas também deve ter suscitado um monte de perguntas: Que seja um fantasma? Uma alucinação?E a missão de implantar o Reino de Deus, como fica? E o novo Israel que devia brotar de sua ação salvadora, onde está?... O texto não especifica.
Jesus, tal vez, responde indiretamente com umas indicações baseadas na própria autoridade como Ressuscitado “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”. A nova condição não deixa dúvidas ao respeito, pois, merece toda atenção e confiança. As duvidas serão o âmbito do novo ato de fé na pessoa dele, no que a continuação vai colocar.
Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos”. A missão continua e se universaliza. É como se resolvesse as duvidas carregando nos ombros deles motivos para duvidar ainda mais. Ainda não se vê o mínimo do novo Israel e pensar fazer discípulos pessoas de outros povos? Tal vez se olhou uns os outros com maior desconcerto...
Certo que podem contar com sua autoridade e presença de Jesus “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”. Contudo, não deixa de ser uma perspectiva que supera de muito as próprias condiciones e possibilidades, considerando a fragilidade inconsistência da própria condição humana e de fé, manifestadas durante a missão de Jesus e particularmente nos eventos da páscoa.
Jesus acrescenta o método “batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinando a observar tudo o que vos ordenei”.
Parece-me que batizar não é confirmar a pratica pastoral de hoje com respeito à administração do batismo. Pelo contrário. Antes de ser imerso no mistério da morte e ressurreição era preciso ter consciência e fé do significado, do valor e da importância deste mistério. Hoje a grande maioria de pais e padrinhos carece disso... Contudo se batiza. Como fez notar Pe. Joaquim “Jesus bendizia as crianças e instruía os adultos”. Hoje é exatamente o contrário...
Por outro lado, como podem os pais, os cristão em geral, ensinar e “observar tudo” o que Jesus ordenou se não tem conhecimento nem experiência dos efeitos da morte e ressurreição? .
É para pensar.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

6to DOMINGO DA PÁSCOA -A- (29-05-11)

1ª leitura At 8,5-8.14-17

Na época de Jesus era profunda a divisão entre judeus e samaritanos. Se um judeu queria insultar uma pessoa do próprio povo, só chamá-la de samaritana e era briga feia. Neste contexto é particularmente significativa e importante a iniciativa de Filipe de evangelizar uma cidade de Samaria. Ela é expressão de audácia, de coragem, de determinação sustentada pela fé na pessoa de Jesus e na ação do Espírito Santo.
O conteúdo do anuncio é preciso: Jesus é o Cristo. A iniciativa deu certo “As multidões seguiam com atenção (...) unanimes o escutavam (...). Numerosos paralíticos e aleijados também foram curados. Era grande a alegria naquela cidade” . Assim, a missão conseguiu derrubar barreiras na aparência insuperáveis.
Vencer as barreiras teológicas e de ódio que foram crescendo e consolidando no tempo parecia uma coisa impossível. A apresentação da pessoa e da missão de Jesus conseguiu derrubar as barreiras. Não sabemos mais detalhes de como, com que argumentação, com quais palavras Filipe expôs o mistério de Jesus.
O texto frisa que conseguiu captar a atenção “As multidões seguiam com atenção as coisas que Filipe dizia”. Já conhecia o ambiente e a realidade do povo? Teve apoio de conhecido? São todas perguntas importantes para entender o método de evangelização. ( Entre parêntesis, o evangelho relata Jesus que enviou de dois em dois os discípulos aos povoados onde ele devia passar, para preparar a chegada dele) .Mas não há resposta.
Por outro lado a eficácia das palavras dele era comprovada pelos sinais, pelos milagres, evidentes manifestações da presencia do Reino. Tudo isso lembra a pregação e o estilo de vida de Jesus.
O fato não podia passar despercebido à igreja mãe em Jerusalém. Assim, “Os apóstolos, que estavam em Jerusalém, souberam que a Samaria acolhera a palavra de Deus, e enviaram lá Pedro e João”. A visita tem como objetivo estabelecer um laço entre os novos convertidos e a comunidade de Jerusalém. Ela manifesta a consciência e a vontade dos apóstolos de se encontrarem, por direito e dever, no governo de toda a cristandade.
A ordem de Jesus de anunciar o evangelho a todos os povos encontra neles a devida atenção para conferir que os efeitos dela produzam os frutos de entendimento e de comunhão necessários para segurar as características fundamentais do novo povo de Deus que vai se formando.
Esta missão é especialmente desenvolvida sob a ação do Espírito Santo, pois, “Oraram pelos habitantes da Samaria (...). Impuseram-lhe as mãos, e eles receberam o Espírito Santo” Trata-se da nova descida do Espírito em ordem à certeza da comunhão com a Igreja mãe. Ela confere uma explicita dimensão de comunhão que ultrapassa a comunhão local. É a ligação que abrange a universalidade dos que acreditam em Cristo e, em virtude disso receberam, o Batismo. Por outro lado, sem dúvida, o batismo foi tal pela ação do Espírito Santo. Portanto, eles não eram privados da presença dele na própria vida pessoal. Tal vez, a expressão “Porque o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; apenas tinham recebido o batismo em nome do Senhor Jesus” quer destacar a necessária ação do Espírito, que ultrapassa a ação do mesmo em nível individual a da comunhão local, para oferecer o horizonte da universalidade na qual pessoa e comunidade estão mergulhadas. Universalidade por vencer as barreiras da divisão e do ódio como era o relacionamento entre os dois povos.
É o mesmo Espírito que sustenta a vida pessoal como indica a segunda leitura.

2da leitura 1Pd 3,15-18

Neste trecho Pedro fala do comportamento cristão diante dos perseguidores. Ele exorta em santificar “em vossos corações o Senhor Jesus Cristo...”. Assim, convida ter o coração sempre orientado e encharcado da presença de Cristo, de maneira tal que não seja seduzido por outro nem desviado por outra proposta que o afastaria do caminho ensinado e testemunhado por Cristo mesmo. Trata-se de permanecer firmemente nele, como o amante no amado e vice versa: eu nele, e ele em mim.
É a condição necessária para o segundo passo “... e estais sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir”. Com efeito, o relacionamento com Cristo estabelecerá no interior do discípulo a certeza de participar da mesma vida e, sobretudo, do mesmo destino.
Portanto, a glória de Deus, na qual o homem Jesus participa plenamente pela ressurreição, não será só a indicação da meta futura, mas uma realidade já presente. Ela conforma e baseia a esperança não come projeção do desejo de sobrevivência da alma após a morte, ou como último reduto fantasioso para não cair no terror e desconforto de desaparecer no nada, mas como uma realidade viva já presente que liga indissoluvelmente presente e futuro, entre atualidade e destino.
É isso o próprio da teologia. Ela deve dar razão, argumentar, do porque das escolhas e comportamentos que a primeira vista são perdas, renuncias, afastamento de situações de vantagens, de conveniências e de interesses que, do ponto de vista humano, todos desejariam alcançar.
Daí a pergunta: por que faz isso? O que te motiva? Assim, a plausibilidade da fé não é apoiada na simples adesão confiante em algo misterioso que envolve e no qual está imersa a pessoas. Ela tem uma necessária dimensão argumentativa, de reflexão, elaborada pela inteligência humana que oferece o âmbito e os elementos racionais da plausibilidade, por não ser tida simplesmente como uma loucura descabida e sem fundamento nenhum.
É esta mesma esperança que motiva e sustenta as atitudes interiores apropriadas nas provações e dificuldades quais a “ mansidão, respeito e com boa consciência”. E, também, o comportamento certo “Pois será melhor sofrer praticando o bem, se esta for a vontade de Deus, do que praticando o mal”. A perseverança na verdade e no bem acarreta sofrimentos que devem ser entendidos como vontade de Deus. Eles são participação aos sofrimentos de Cristo por amor à humanidade, e mais diretamente às pessoas destinatárias deles.
O exemplo está em Cristo o justo que morreu “pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus”. Pois, ele “Sofreu a morte, na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito”. É o paradoxo cristão que sustenta e acompanha a vida de Cristo e de todo discípulo.
A isso aponta o evangelho.

Evangelho Jo 14, 15-21

Se me amais”. O condicional faz entender que o que segue é conseqüência da atitude do amor verdadeiro para com ele. Tudo brota e é conseqüente ao relacionamento no amor.Sem ele nada do que segue tem valor e sentido.
A manifestação desse amor é guardar “os meus mandamentos (...). Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama”. Eles são desdobramento do único mandamento: o do amor, o amor com o qual ele nos amou. Dirá Jesus: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Pois, o termo de comparação é ele mesmo.
No amor, por intercessão dele ao Pai o discípulo receberá “um outro Defensor- o primeiro foi Jesus mesmo- para que permaneça sempre convosco” pois, ele será Deus neles. Trata-se do “Espírito da Verdade”. Como não pensar imediatamente ao discurso de Jesus com a Samaritana, quando afirma, respondendo à pergunta dela: é preciso adorar Deus em espírito e verdade?
Realidade que o mundo, ou seja, aqueles que vivem afastados da comunhão com Deus por superficialidade, indiferença, desinteresse ou desconfiança, e, portanto, “não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece”, pois, não está ao alcance das possibilidades humanas deles.
Pelo contrário, em virtude do amor “Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. Junto e dentro de vós, plenamente mergulhados de maneira que nada da pessoa fiquem não tocada e como encharcada pela realidade do Espírito. A realidade e de Deus e da pessoa estão unidos sob todos os aspectos.
Contudo, a presença de Cristo não sumirá “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. A ausência dele será breve, o tempo de cumprir a vontade do Pai, com o evento da morte. Será uma separação dramática e de grande abalo para os discípulos, mas breve. Pois a ressurreição o devolverá à vida, à qual terão acesso os mesmos discípulos, não o mundo todo “Pouco tempo ainda, e o mundo não me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vos vivereis”.
Eis, então, a contraposição entre os discípulos e o mundo. É a vivencia no amor entre Cristo e o discípulo que torna possível a comunicação de vida. Não é outra coisa. Não é ato da vontade, um presente ou um milagre surpreendente, uma determinação liberal e gratuita de Cristo.
Isso é particularmente significativo porque o mergulho no amor abrirá a experiência a algo ainda maior do relacionamento entre Cristo e o discípulo “Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós (...). Ora, quem me ama,será amado pro meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”. A manifestação de Cristo incluirá a experiência do amor do Pai, pois será evidente aquela comunhão identidade com o Pai, que Jesus constantemente na sua missão pretendeu que fosse reconhecida e que para muitos soou à blasfêmia ou os deixava como uma pretensão inadmissível. Será o mergulho no Deus Trindade, ou seja, a plenitude da realidade de Deus.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

5to DOMINGO DA PÁSCOA-A-(22-05-11)

1ª leitura At 6,1-7

Nenhum grupo eclesial consegue viver o relacionamento entre os seus integrantes de maneira adequada, conforme ao ensinamento do Senhor. Sempre há falhas e carências devidas aos limites das pessoas, aos novos acontecimentos, as circunstâncias inéditas que se apresentam. É o que testemunha o texto “os fieis de origem grega começaram a queixar-se dos fieis de origem hebraica (...) as viúvas das primeiras eram deixadas de lado no atendimento diário”.
Não foi por ma vontade, por discriminação ou preconceito, mas simplesmente por falta de organização e devida atenção. Contudo, o mal estar estava ai. Os apóstolos enfrentam o desafio e o resolvem, pois se sentem responsáveis da vivencia entre os membros da comunidade, em sintonia com o ensino de Jesus.
Eles determinam “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas”. Com isso afirmam duas coisas; a primeira que não da para carregar com tudo e, portanto, é preciso dividir as funções para o bom serviço e a harmonia na comunidade. É questão de bom senso.
E a tal fim instituirão o serviço do diaconato, elegendo formalmente um grupo de pessoas para este serviço “Irmãos é melhor que escolheis entre vós sete homens de boa fana, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos dessa tarefa”. Interessante observar como os apóstolos encarregam a comunidade de escolher e indicar as pessoas adequadas. Eles simplesmente conferem o mandato em nome do Senhor, pois, “oraram e impuseram as mãos sobre eles”
O segundo aspecto é que eles- os apóstolos- se reservam a parte mais importante e constitutiva da vida em comunidade, no estilo ensinado por Cristo: a pregação da Palavra de Deus. Assim, liberados do serviço realizado pelos diáconos “Desse modo nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra”.
Evidentemente, o serviço da Palavra por parte das testemunhas do Ressuscitado é insubstituível para a Igreja que está surgindo no meio de muitas provações e dificuldades. Ele relata, argumenta e motiva o evento da morte e ressurreição, como fundamento de todo o que Cristo falou e operou no seu ministério pastoral.
O anuncio tão revolucionário e desconcertante exige muita dedicação, coragem e preparação. Pois, se trata de reverter o errado que o povo de Israel tem de Deus, assim como de argumentar de maneira adequada e convincente em dialogo com a cultura grega, que prevalecia no mundo intelectual de então. Para esta, a dificuldade em aceitar a pregação do evento da ressurreição é bem relata no discurso de Paolo a Atenas, no centro da intelectualidade da época.
O preparo teológico, espiritual e humano do apostolo e dos evangelizadores merece cuidado particular. A segunda leitura oferece importantes tópicos e indica o caminho para a sólida formação.

2da leitura 1Pd 2,4-9

Aproximai-vos do Senhor”. É singular esta exortação, pois, convida se aproximar aquele no qual já estão, pela graça da fé e do batismo. Isso indica a realidade pela qual, bem estando nele, se precisa se aproximar continuamente. Parece uma contradição, mas é a dinâmica necessária para vivenciar o correto relacionamento com o Senhor.
Ele, o Senhor, é presente, mas ao mesmo tempo é como o imã que atrai a si mesmo, para a comunhão mais profunda e envolvente no amor dele. É entrar e se deixar atrair que no termina nunca, pois, o mistério de Deus, mistério do amor, é inesgotável.
Este processo qualifica a gradativa identificação e familiaridade com Deus. A realidade profunda de Deus é transmitida a quem se deixa atrair. Portanto, o Senhor é “pedra viva (... ). Do mesmo modo, também vós como pedra viva formai um edifício espiritual”. A característica do edifício espiritual é se constituir como “raça escolhida, o sacerdócio do reino, a nação santa, o povo que ele conquistou”. Desta forma vai se conformando o povo de Deus da nova aliança.
A este povo é confiada a missão de “Proclamar as obras admiráveis daquele que vos chamou das trevas para a luz maravilhosa”. Com efeito, a missão é intimamente ligada ao dom de Deus. Toda ação do Mesmo deve ser passada e transmitida a outros. É este movimento que consagra a dinâmica do amor e, portanto, segura a presença de Deus e de sua ação salvadora. Conseqüentemente, a característica do seu povo-povo de Deus- se manifestará e brilhará como luz maravilhosa.
Nisso consiste a honra de pertencer a Cristo e fazer parte do povo de Deus “A vos, portanto, que tendes fé, cabe a honra”. Assim, a missão não é uma obrigação nem um dever a ser cobrado. É honra de participar ativamente à construção da comunidade, e com ela ser um sinal na sociedade de transformação pelo novo estilo de vida, implantado pela dinâmica que pretende adiantar a justiça, o direito a favor dos excluídos e marginalizados.
A adesão à ressurreição de Cristo e a constituição da comunidade são como a “pedra angular”, pedra sobre a qual apóia com confiança e segurança toda a construção. Portanto, “quem nela confiar não será confundido”, pelo contrário, será motivo de satisfação e realização pessoal e comunitária.
Para àqueles que não crêem “ a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular, pedra de tropeço e rocha que faz cair”. Isso acontece naqueles que não acolhem a Palavra. “ Nela tropeçam os que não acolhem a Palavra; esse é o destino deles”.
Portanto, o desafio principal é acolher a Palavra no próprio coração e se deixar iluminar da inteligência encharcada por essa realidade do coração transformado pelo dom do Ressuscitado da remissão do pecado, da nova e eterna Aliança e da promessa da vida em abundancia no presente e a certeza da participação da gloria futura no fim dos tempo,com a volta do mesmo da gloria do céu.
Glória já atuante no presente no discípulo que acolhe as indicações de Jesus.

Evangelho Jo 14,1-12

Este trecho do evangelho é precedido pelo anúncio da traição de Judas, da morte de Jesus e da negação de Pedro. Isso deve ter profundamente turbado os apóstolos. Daí as palavras de Jesus “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também”. Ele pede voto de confiança explicando que a saída dele do mundo tem a finalidade de preparar um lugar para eles e que onde “ eu -Jesus- estiver estejais também vós”. Assim, toda a expectativa da comunidade, da igreja, se apóia nesta promessa.
E para onde eu vou, vós conheceis o caminho”. Colocação arguta, que de alguma maneira orienta a pergunta de Tomé “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?”. Efetivamente, só conhecendo a meta pode-se determinar o caminho, pois, o ponto de chegada determina o rumo da caminhada.
É a oportunidade para Jesus se manifestar explicitamente em forma sintética e profunda “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. É o caminho que leva á meta: a comunhão com Deus na Trindade “Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Eles, os apóstolos, já estão no caminho com Jesus. Portanto, já sabem o que significa e as exigências de caminhar com ele.
Com o evento pascal tomarão consciência da meta, do ponto final e decisivo do caminho. Passarão pelo trauma da crucificação e da surpresa absolutamente inesperada da ressurreição. Serão testemunhas do que acontecerá em Jesus: a vivencia de dois pólos mais radicalmente opostos e irredutíveis, que a condição humana pode pensar, a morte e a ressurreição.
Com certeza a meta da casa do Pai, alcançada com a ressurreição, constitui o testemunho da “Verdade e da Vida” que Jesus oferece a eles. Portanto, ele é o caminho, porque é a Verdade e a Vida. Na proposta de Jesus não há falsidade nem engano. E apesar de entrar diretamente na morte, a palavra final, com a ressurreição, será a vida em abundancia e a plena , manifestação da participação na comunhão com Deus na vida trinitária.
Mais uma provocação de Jesus: “E desde agora o conheceis e o viste”, pois, refere ao Pai. O pedido de Filipe “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!”, manifesta o desejo profundo e último de todo ser humano e ao mesmo tempo oferece a Jesus a oportunidade para manifestar a singular união entre ele e o Pai “Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim”.
As palavras dele são as palavras do Pai. Mas querendo reforçar ainda mais esta verdade, acrescenta “Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras”. São as obras pelas quais regenera as pessoas abatidas, inclue na comunhão as excluídas, devolve a dignidade às desprezadas, a esperança às desesperadas etc. São as obras da bondade e do Amor do Pai. Por isso ele foi enviado.
Ele alerta os discípulos que a verdadeira fé nele os capacitará fazer obras maiores “...quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas”. Será que Jesus exagerou em otimismo com respeito a nossa condição? Será que nossa fé é tão pequena por desconfiar que isso possa acontecer? Será que temos receio de pecar de presunção querendo ser até mais do mestre? São todas perguntas a serem avaliadas. De toda maneira, me parece que com estas palavras Jesus quer que os discípulos continuem a mesma missão dele, “Pois, eu vou para o Pai”. A saída dele é iminente e a missão deve continuar.

terça-feira, 10 de maio de 2011

4to DOMINGO DE PÁSCOA-A-(15-05-11)

1ª leitura At 2, 14a.36-41

Eis o anúncio fundamental que abalou toda Jerusalém, após a crucificação de Jesus “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza: Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes”. Uma autentica blasfêmia para os que o crucificaram. Em virtude de que esta reviravolta tão radical e absolutamente inesperada? Por ter visto o crucificado e ressuscitado, participe da vida que só Deus Pai, pela força do Espírito Santo, podia passar. Pois, o Pai aprovou em tudo o Filho, que todos haviam condenado como blasfemo.
Surpreende a firmeza a determinação e a coragem de Pedro em se dirigir ao povo que havia aprovado a condenação de Jesus. Mais ainda considerando que ele mesmo, com os outros discípulos, estava cheio de medo de sofrer a mesma sorte de do mestre. Com certeza foi a compreensão do significado e da importância do que Jesus realizou na Páscoa que sustentou a nova atitude dele “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza...”.
Pedro falou com forte convicção ao ponto que “Quando ouviram isso, eles ficaram com o coração aflito”. Atitude própria de quem toma consciência do erro involuntário, mas irreparável, da própria atitude para com Jesus. Tiveram como a convicção de ter “pisado na bola”. Meio perdidos perguntaram “o que devemos fazer?”.
A primeira palavra é “Convertei-vos”. Evidentemente, não se trata de conversão ética, de atitudes, de comportamentos errado, mas de conversão teológica, ou seja, da errada idéia que tinham de Deus. A passagem de blasfemo à do “Senhor e Cristo” é um salto de não pouca canta. Supõe redesenhar as próprias convicções, com respeito ao entendimento de Deus. Seguidamente, haverá também mudanças de atitudes e de comportamento.
Este tipo de conversão não caracteriza só o momento inicial, mas acompanha a vida toda do discípulo. O testemunho da vida de Pedro e dos apóstolos confirma que tiveram que repensar as próprias convicções sobre Deus devidas às novas circunstâncias, fatos inéditos e imprevistos, pelos quais não tinha referencia no passado e que obrigaram a formular novas respostas. O ponto focal, a estrela polar, é o significado, o valor e a dinâmica do evento pascal.
e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados” . O batismo sela o evento da conversão e faz participe a pessoa dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. Ele sela a Aliança indissolúvel com Cristo. Assim como a certeza de pertencer a ele, e com ele a Deus de uma vez para sempre. Desde agora ele irá substituir o sinal exterior da aliança qual foi o da circuncisão. Ele, o batismo, é a circuncisão do novo coração para uma nova vida, no amor.
Isso é possível pela ação do Espírito Santo “E vós recebereis o dom do Espírito Santo”. A conversão teológica e seguidamente ética, é possível no horizonte do amor de Deus, exatamente pela presença e ação do Espírito.
Contemporaneamente surge a certeza da promessa que o mistério de Deus oferece “Pois a promessa é para vós e vossos filhos (...) todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si”. Passado, presente e futuro são plenamente envolvidos no mistério do Amor de Deus.
Eis, então, o sentido da apelação, da exortação que brota do coração de Pedro “Salvai-vos dessa gente corrompida”. É o apelo de quem conhece as duas faces contrapostas da realidade humana: a perdição e a salvação.
A pregação teve muito sucesso “mais o menos três mil pessoas se uniram a eles”, mas a tensão entre os dois mundos contrapostos e a luta para se manter na salvação continua, como testemunha a segunda leitura.

2da leitura 1Pd 2,20b-25

Trabalhar com amor, no amor e por amor, nem sempre encontra adesão e compreensão. Muitas vezes é o contrário. A isso se refere o texto “Se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus”. Paciência é a capacidade de sofrer.
Surpreende a anotação “De fato, para isto fostes chamados” se for entendida como um chamado a sofrer para sofrer, como se o sofrimento tivesse uma finalidade em si mesmo. Com efeito, o amor tem em si mesmo uma dimensão de sofrimento, por não ser entendido nem aceitos em seu conteúdo específico; por não ter aquela adesão ou retorno que constituiria a resposta certa às inquietudes e desejos profundos de realização da pessoa; por uma oposição , tal vez violenta, motivada pela inveja, pelo ódio, por mexer com privilégios injustos e outras atitudes anti éticas, etc.
É o que aconteceu a Cristo “Também Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais seus passos”. A continuação descreve as atitudes éticas de Jesus, o quadro dos sofrimentos com o porquê e a finalidade dos mesmos “carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”.
Resistiu por nós a nosso favor, nos representando, a toda força e violência extrema que queria reconduzi-lo no marco de um Deus que assumisse as expectativas e os critérios que os homens - os pecadores -, achavam convenientes e necessários que Deus tivesse. Isso teria significado- para eles - mostrar aquela identidade com o Pai que repetidamente Jesus afirmava ter, mas que não conferiam nas atitudes e nas palavras dele. De fato, Jesus foi condenado por eles como blasfemo.
Por suas feridas fostes curados”. Jesus não permitiu que o pecado tomasse conta dele. O pecado o massacrou, mas não entrou nele, não o subjugou. Aquela vitória sobre o pecado, aquele amor tão grande que deu a força a ele de sofrer e não se dobrar, foi a nossa vitória, ou melhor, a vitória de todos aqueles que em virtude da representação aceitam e acreditam nela, nesse dom gratuito.
Os efeitos: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda das vossas vidas”. Encontraram o rumo certo e o caminho, assim como quem os acompanha e cuida de não voltar atrás.
O tema e a missão do pastor é o próprio do Evangelho.

Evangelho Jo 10,1-10

Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia”. É a meta da missão de Jesus. A vida em abundancia não se refere à vida após a morte, mas a esta vida terrena, que por ser adesão à pessoa de Jesus e caminhar com ele no desenvolvimento da missão, participa da plenitude que será desvelada plenamente só após a morte e com a vinda do Ressuscitado.
Duas afirmações destacam: a de porta e a de pastor. “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas (...) Quem entrar por mim, será salvo...”. A porta é a passagem obrigada; é ponto de união e de comunicação do ambiente com outro. Portanto, se designando como porta, Jesus quer indicar ele mesmo como passagem obrigada para entrar na vida em abundancia.
“... entrará e sairá e encontrará pastagem”. Parece-me que com estas palavras indique a atividade evangelizadora dentro e fora a comunidade, que abrange a todos indistintamente. Desta forma, o desenvolvimento da missão, da ação evangelizadora, se torna motivo de crescimento humano e espiritual, assim, como alimento necessário para manter a vida em abundancia. De fato, todo dom recebido, para que não apodreça e gere morte em quem o recebeu deve ser transmitido. Eis, então, uma possível interpretação de “entrar e sair” do texto.
Em outro texto, Jesus fala da “porta estreita” que conduz à salvação. E como é necessário fazer violência consigo mesmo para conseguir passar por ela. Refere-se à dinâmica da morte e ressurreição e particularmente em amar-nos uns os outros como ele nos amou, assumindo o estilo de vida e a filosofia dele.
Outra imagem é a do pastor. Há uma identidade profunda entre o discípulo e Jesus “quem não entra no redil das ovelhas pela porta- Jesus-, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante”. Pois são duas realidades intimamente conexas e necessárias, como a porta e entrar por ela, para guiar e apascentar o rebanho. Em virtude disso, o pastor, o evangelizador, o discípulo é como outro Jesus. A afirmação de Jesus é peremptória “ Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas”.
Por outro lado, há afinidade e sintonia entre o pastor e as ovelhas “as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora”,ou seja, as associa à missão. Se a transmissão do dom é necessária para a vida em abundancia e o pastor deseja que as ovelhas a alcancem, não há outro caminho e perspectiva.
E, depois, de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz”. A missão é dom para todos. Daí a atenção de fazer sair a todas as ovelhas para que caminhem com ele na frente, como guia, orientador, se expondo em primeira pessoa , como em quem podem confiar serenamente.
O porquê desta confiança está no fato de que “conhecem a sua voz”. Voz que lhes se tornou familiar, que transmite segurança, pois, constataram e comprovaram a sincera e autentica dedicação para o bem delas. Com outras palavras, sintonizaram com o estilo de vida dele, concordaram com a filosofia dele e, sobretudo, perceberam a dedicação e o amor dele com e evento da morte e ressurreição.
Contudo, podem ser enganadas, ou seduzidas por outras propostas, por outras atitudes do falso pastor. É a alerta que Jesus se propõe apresentar a elas.

terça-feira, 3 de maio de 2011

3ro DOMINGO DA PÁSCOA -A-(08-05-11)

1ª leitura At 2,14.22-33

Este trecho apresenta o primeiro testemunho dos apóstolos, depois de terem recebido o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes. “Deus (...) determinou que Jesus fosse entregue (...) e vos o matastes (...). Mas Deus ressuscitou Jesus, liberando-o das angustias da morte, porque não era possível que ela o dominasse”. Em virtude de que não era possível que a morte o dominasse? Em virtude do Amor, que sustentou e motivou a entrega. É o amor que configura a realidade trinitária, ou seja, Deus mesmo. É o amor a força da ressurreição.
O amor é vida. Portanto, a pratica do amor nesta vida faz surgir na pessoa voltada com total dedicação pelo amor e no amor a realidade da ressurreição. Assim, ela, a ressurreição, vai tomando conta da existência toda e se manifesta, após a morte, como vida que resgata a existência plena da condição de morte. Por isso, não era possível que a morte a dominasse.
É o convite fazer do amor a única lei da existência, inclusive com o sacrifício da pessoa mesma. Pois, è a única realidade que vence o inimigo ultimo da existência: a morte. “Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção”. O inciso testemunha a ressurreição da pessoa toda: corpo, alma e espírito. Não é sobrevivência da alma após a morte, nem a imortalidade da mesma. É a destruição da morte que resgata a pessoa toda. É o triunfo do corpo.
Agora o corpo de Jesus participa da vida plena de Deus “E agora, exaltado pela direita de Deus, Jesus recebe o Espírito santo que fora prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo”. Isso acontece em virtude da ação e força do Espírito Santo, o amor que une o Pai e o Filho. O mesmo amor que sustentou toda a atividade missionária de Jesus, até a entrega. O mesmo amor que Jesus entregou ao Pai antes de morrer “Em tuas mãos encomendo o meu Espírito”.
Notável que o mesmo Espírito, recebido por Jesus na ressurreição, è derramado sobre os discípulos e sobre a criação toda, como testemunha o evento de Pentecostes. Começa assim, a nova criação, a nova era: o tempo do Espírito de Deus e de Cristo.
A transformação operada pelo Espírito sobre os discípulos, encerrados por medo aos judeus no cenáculo, testemunha o impacto e a força do Espírito, quando este consegue mexer profundamente no coração e na inteligência da pessoa, com respeito ao significado e a importância da morte e ressurreição de Jesus.
A atenção não deve ser colocada no milagre surpreendente, que ninguém nem de longe esperava. Mas o que este evento significa e manifesta como essencial pela vida de cada dia, pela filosofia que o sustenta, o estilo de comportamento e de vida correspondente. O conjunto destes elementos faz que a ressurreição tome gradativamente posse da pessoa toda de Jesus. Uma posse que encontrará seu ponto final nos eventos da Páscoa.
Jesus dirá “Eu sou o caminho” e, portanto, convida ao seguimento. E acrescenta, porque “sou verdade e vida”( Jo14,6). A verdade e a vida brotam do autentico e verdadeiro amor que sustenta o caminho da entrega que ele realizou.

2da leitura 1 Pd 1,17-21

Eis a exortação do apostolo aos integrantes da comunidade: “vivei respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo”. A vida é passageira, uma migração até chegar à meta definitiva. Neste horizonte de provisório, respeitar a Deus significa acolher o que ele fez e faz diariamente para todos os que o amam.
Então, o apostolo frisa a ação de Deus a favor deles “Sabeis que fostes resgatados (...) pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”. Alusão à morte na cruz e ao sangue derramado, que resgata da morte para a vida.
É o regate, o perdão, que integra três aspectos: a remissão dos pecados, o estabelecimento da nova e eterna aliança, e a esperança da participação definitiva no reino de Deus, no final dos tempos com o retorno do ressuscitado. É o que se atualiza nos sacramentos e em especial na Missa. Com efeito, se retoma os efeitos da morte (passado), se antecipa os efeitos da ressurreição ( futuro) e no presente se renova a eterna aliança. Desta forma, o presente ganha toda sua importância, pois, reúne o passado e o futuro.
Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós”. A missão de Jesus tinha uma finalidade, um destino, que acaba de se cumprir com os eventos da Páscoa. Ela responde ao desígnio de Deus para a salvação da humanidade e de cada pessoa. Assim, a Páscoa traz uma luz singular sobre a concepção do tempo, sendo que o apostolo considera o momento presente como o final dos tempos. Hoje entendemos este final dos tempos não em sentido cronológico, mas em sentido qualitativo, pois, o tempo alcançou sua plenitude, sua finalidade, a de levar os homens e a humanidade à comunhão com Deus.
Experimentar em si mesmos a vida nova, a salvação; se perceber novas criaturas é ter consciência de que “Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais”. Trata-se da vida inconsistente, frágil, de aparências, sem conteúdo sólido, duradouro e consistente. Portanto, é uma mudança qualitativa de grande porte, que enche de satisfação, de alegria, como quem encontrou um tesouro, um caminho perdido, a segurança de estar investindo a própria vida de maneira certa.
Mais ainda que o preço do resgate é o “precioso sangue de Cristo”: a vida toda do Filho, e por meio dele da Trindade, dedicada a nós até o derramamento do sangue. Um amor inacreditável! Pela consciência do valor e da importância deste resgate “Por ele é que alcançastes a fé em Deus”, pois, por meio de Cristo se cumpriram as promessas de Deus.
É por esta entrega radical no amor que “Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu glória”, pois, acolheu a humanidade de Cristo na comunhão trinitária, a humanidade de Cristo se divinizou.
“...e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus”. Portanto, o discípulo tem a certeza de estar em Deus, nascente e meta de toda existência.
Este caminho tem característica e exigências próprias, come é relatado no evangelho.

Evangelho Lc 24, 13-35

O texto é a resposta aos discípulos desiludidos, decepcionados e defraudados pela pessoa de Jesus, pelo evento de sua morte na cruz. Ninguém deles esperava que o Messias terminasse seus dias na terra desta forma. Foi um abalo dos mais radicais.
Estavam se dirigindo para Emaús com o estado de animo bem caído e conversando “com o rosto triste”, com um desconhecido que “se aproximou e começou a caminhar com eles”, sobre a morte de Jesus do qual esperavam bem outra conclusão com a entrada triunfal em Jerusalém, de faz uma semana “Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!”.
Nestes dois discípulos estão representados todos os discípulos de todos os tempos e de todos os lugares que, por diferentes circunstâncias, sofrem o abalo da fé com respeito as expectativa do próprio discipulado. Seguiram a Jesus com reta e sincera intenção, mas nada daquilo que esperavam se realizou. Pelo contrario, tudo leva pensar que foi um furo na água...
Contudo, eles, os dois discípulos tiveram uma informação surpreendente. E descrevem exata e detalhadamente a experiência das mulheres que foram ao sepulcro, relatada no evangelho de João 20,1-9. Um anjo comunicou a elas “que Jesus está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porem, ninguém o viu”. Eis a grande distancia entre informação e experiência: um abismo.
O Ressuscitado entra de cheio na ação e indica dois pontos chaves. O primeiro a Palavra que ele mesmo - um simples e desconhecido viandante, que casualmente se associou a eles- explica ,e cujo efeito no coração dos ouvintes é testemunhado pelos dois discípulos “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” .
O segundo ponto é conseqüente ao primeiro: o convite a ficar com eles, também pela circunstância da hora “Fica conosco, pois já é tarde”. Pois, o coração deles estava se enchendo do novo entendimento da Palavra, algo que levantou e transformou em positivo o estado de animo deles. Foi oferecido um horizonte de compreensão inédito e surpreendente. Tal vez, do tipo que aquela morte da cruz não foi um acidente imprevisto no caminho, nem o fracasso da missão, mais a teimosia do amor a toda prova. Por outro lado, que outra coisa pode encher o coração do ouvinte senão o testemunho da sinceridade e da autenticidade do amor doado, até a custa da própria vida?
Com este pressuposto, a ceia se torna ação de graças, Eucaristia, e nela percebem a identidade do viandante “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus”, suficiente para testemunharem com convicção “Realmente, o Senhor ressuscitou ”.
Mas “Jesus, porém, despareceu da frente deles”. Não se tornou disponível, como o era antes da morte na cruz. É a condição singular de quem participa da condição humana e divina encharcadas pela dinâmica e experiência do amor.