terça-feira, 3 de maio de 2011

3ro DOMINGO DA PÁSCOA -A-(08-05-11)

1ª leitura At 2,14.22-33

Este trecho apresenta o primeiro testemunho dos apóstolos, depois de terem recebido o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes. “Deus (...) determinou que Jesus fosse entregue (...) e vos o matastes (...). Mas Deus ressuscitou Jesus, liberando-o das angustias da morte, porque não era possível que ela o dominasse”. Em virtude de que não era possível que a morte o dominasse? Em virtude do Amor, que sustentou e motivou a entrega. É o amor que configura a realidade trinitária, ou seja, Deus mesmo. É o amor a força da ressurreição.
O amor é vida. Portanto, a pratica do amor nesta vida faz surgir na pessoa voltada com total dedicação pelo amor e no amor a realidade da ressurreição. Assim, ela, a ressurreição, vai tomando conta da existência toda e se manifesta, após a morte, como vida que resgata a existência plena da condição de morte. Por isso, não era possível que a morte a dominasse.
É o convite fazer do amor a única lei da existência, inclusive com o sacrifício da pessoa mesma. Pois, è a única realidade que vence o inimigo ultimo da existência: a morte. “Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção”. O inciso testemunha a ressurreição da pessoa toda: corpo, alma e espírito. Não é sobrevivência da alma após a morte, nem a imortalidade da mesma. É a destruição da morte que resgata a pessoa toda. É o triunfo do corpo.
Agora o corpo de Jesus participa da vida plena de Deus “E agora, exaltado pela direita de Deus, Jesus recebe o Espírito santo que fora prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo”. Isso acontece em virtude da ação e força do Espírito Santo, o amor que une o Pai e o Filho. O mesmo amor que sustentou toda a atividade missionária de Jesus, até a entrega. O mesmo amor que Jesus entregou ao Pai antes de morrer “Em tuas mãos encomendo o meu Espírito”.
Notável que o mesmo Espírito, recebido por Jesus na ressurreição, è derramado sobre os discípulos e sobre a criação toda, como testemunha o evento de Pentecostes. Começa assim, a nova criação, a nova era: o tempo do Espírito de Deus e de Cristo.
A transformação operada pelo Espírito sobre os discípulos, encerrados por medo aos judeus no cenáculo, testemunha o impacto e a força do Espírito, quando este consegue mexer profundamente no coração e na inteligência da pessoa, com respeito ao significado e a importância da morte e ressurreição de Jesus.
A atenção não deve ser colocada no milagre surpreendente, que ninguém nem de longe esperava. Mas o que este evento significa e manifesta como essencial pela vida de cada dia, pela filosofia que o sustenta, o estilo de comportamento e de vida correspondente. O conjunto destes elementos faz que a ressurreição tome gradativamente posse da pessoa toda de Jesus. Uma posse que encontrará seu ponto final nos eventos da Páscoa.
Jesus dirá “Eu sou o caminho” e, portanto, convida ao seguimento. E acrescenta, porque “sou verdade e vida”( Jo14,6). A verdade e a vida brotam do autentico e verdadeiro amor que sustenta o caminho da entrega que ele realizou.

2da leitura 1 Pd 1,17-21

Eis a exortação do apostolo aos integrantes da comunidade: “vivei respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo”. A vida é passageira, uma migração até chegar à meta definitiva. Neste horizonte de provisório, respeitar a Deus significa acolher o que ele fez e faz diariamente para todos os que o amam.
Então, o apostolo frisa a ação de Deus a favor deles “Sabeis que fostes resgatados (...) pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”. Alusão à morte na cruz e ao sangue derramado, que resgata da morte para a vida.
É o regate, o perdão, que integra três aspectos: a remissão dos pecados, o estabelecimento da nova e eterna aliança, e a esperança da participação definitiva no reino de Deus, no final dos tempos com o retorno do ressuscitado. É o que se atualiza nos sacramentos e em especial na Missa. Com efeito, se retoma os efeitos da morte (passado), se antecipa os efeitos da ressurreição ( futuro) e no presente se renova a eterna aliança. Desta forma, o presente ganha toda sua importância, pois, reúne o passado e o futuro.
Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós”. A missão de Jesus tinha uma finalidade, um destino, que acaba de se cumprir com os eventos da Páscoa. Ela responde ao desígnio de Deus para a salvação da humanidade e de cada pessoa. Assim, a Páscoa traz uma luz singular sobre a concepção do tempo, sendo que o apostolo considera o momento presente como o final dos tempos. Hoje entendemos este final dos tempos não em sentido cronológico, mas em sentido qualitativo, pois, o tempo alcançou sua plenitude, sua finalidade, a de levar os homens e a humanidade à comunhão com Deus.
Experimentar em si mesmos a vida nova, a salvação; se perceber novas criaturas é ter consciência de que “Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais”. Trata-se da vida inconsistente, frágil, de aparências, sem conteúdo sólido, duradouro e consistente. Portanto, é uma mudança qualitativa de grande porte, que enche de satisfação, de alegria, como quem encontrou um tesouro, um caminho perdido, a segurança de estar investindo a própria vida de maneira certa.
Mais ainda que o preço do resgate é o “precioso sangue de Cristo”: a vida toda do Filho, e por meio dele da Trindade, dedicada a nós até o derramamento do sangue. Um amor inacreditável! Pela consciência do valor e da importância deste resgate “Por ele é que alcançastes a fé em Deus”, pois, por meio de Cristo se cumpriram as promessas de Deus.
É por esta entrega radical no amor que “Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu glória”, pois, acolheu a humanidade de Cristo na comunhão trinitária, a humanidade de Cristo se divinizou.
“...e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus”. Portanto, o discípulo tem a certeza de estar em Deus, nascente e meta de toda existência.
Este caminho tem característica e exigências próprias, come é relatado no evangelho.

Evangelho Lc 24, 13-35

O texto é a resposta aos discípulos desiludidos, decepcionados e defraudados pela pessoa de Jesus, pelo evento de sua morte na cruz. Ninguém deles esperava que o Messias terminasse seus dias na terra desta forma. Foi um abalo dos mais radicais.
Estavam se dirigindo para Emaús com o estado de animo bem caído e conversando “com o rosto triste”, com um desconhecido que “se aproximou e começou a caminhar com eles”, sobre a morte de Jesus do qual esperavam bem outra conclusão com a entrada triunfal em Jerusalém, de faz uma semana “Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!”.
Nestes dois discípulos estão representados todos os discípulos de todos os tempos e de todos os lugares que, por diferentes circunstâncias, sofrem o abalo da fé com respeito as expectativa do próprio discipulado. Seguiram a Jesus com reta e sincera intenção, mas nada daquilo que esperavam se realizou. Pelo contrario, tudo leva pensar que foi um furo na água...
Contudo, eles, os dois discípulos tiveram uma informação surpreendente. E descrevem exata e detalhadamente a experiência das mulheres que foram ao sepulcro, relatada no evangelho de João 20,1-9. Um anjo comunicou a elas “que Jesus está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porem, ninguém o viu”. Eis a grande distancia entre informação e experiência: um abismo.
O Ressuscitado entra de cheio na ação e indica dois pontos chaves. O primeiro a Palavra que ele mesmo - um simples e desconhecido viandante, que casualmente se associou a eles- explica ,e cujo efeito no coração dos ouvintes é testemunhado pelos dois discípulos “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” .
O segundo ponto é conseqüente ao primeiro: o convite a ficar com eles, também pela circunstância da hora “Fica conosco, pois já é tarde”. Pois, o coração deles estava se enchendo do novo entendimento da Palavra, algo que levantou e transformou em positivo o estado de animo deles. Foi oferecido um horizonte de compreensão inédito e surpreendente. Tal vez, do tipo que aquela morte da cruz não foi um acidente imprevisto no caminho, nem o fracasso da missão, mais a teimosia do amor a toda prova. Por outro lado, que outra coisa pode encher o coração do ouvinte senão o testemunho da sinceridade e da autenticidade do amor doado, até a custa da própria vida?
Com este pressuposto, a ceia se torna ação de graças, Eucaristia, e nela percebem a identidade do viandante “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus”, suficiente para testemunharem com convicção “Realmente, o Senhor ressuscitou ”.
Mas “Jesus, porém, despareceu da frente deles”. Não se tornou disponível, como o era antes da morte na cruz. É a condição singular de quem participa da condição humana e divina encharcadas pela dinâmica e experiência do amor.

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