terça-feira, 28 de junho de 2011

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO-A-(03-07-11)

1ª leitura At 12,1-11

Momento altamente dramático. Herodes para agradar o povo, desencadeia uma violenta perseguição de torturas e de morte “prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João”. Podemos imaginar o estado de preocupação, de tensão e de pavor entre os membros da jovem Igreja que estava se constituindo. Mais ainda, com o passo sucessivo de Herodes “ Vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos”,ou seja, os dias da Páscoa hebraica. Circunstancia providencial que não permitiu a Herodes executar imediatamente também Pedro. Portando, “Herodes colocou-o na prisão (...) tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa
Momentos difíceis, provações de diferentes tipos fazem parte da experiência de todos. Certo, há diferentes dificuldades e provações, algumas dramáticas e até trágicas, como a dos primeiros cristãos. E outras muito menores, as comuns de todos os dias. Com respeito a estas últimas, refiro-me àquela que surgem pela fidelidade ao estilo de vida cristã e à dinâmica do evangelho. Por serem elas contrárias, ou não em conformidade, com desejos e expectativas dos interlocutores contrariam pessoas queridas, descontentam as amadas, suscitam mal estar e discordâncias. Assim, muitos desistem da pratica coerente e necessária para o bem de outros. Que fazer nestas circunstâncias?
Enquanto Pedro era mantido em prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” A intercessão perseverante da oração conseguiu o humanamente impossível. Cabe considerar que ela, tal vez, não teve a finalidade de “dobrar” a vontade de Deus ao próprio legítimo desejo. Tal vez foi em sintonia com o relatado no mesmo livro “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra (...). Todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a Palavra de Deus” (At 4,24-31). Um pedido e uma atitude confirmada com a intervenção do Espírito Santo. Foi como uma nova Pentecostes.
Contudo, a vontade de Deus se manifestou de maneira admirável e de repente. Cabe frisar como a intervenção é tão surpreendente por um lado e pouco espetacular pelo outro. Ela acontece entre visão e realidade. “Pedro não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão”. Tal vez, Pedro pensava que fosse uma simples visão sustentada pelo desejo pessoal e pela intercessão da comunidade. Tal vez tinha-se conformado com a morte iminente, sendo que esta foi o que aconteceu ao apostolo Tiago.
De fato, a intervenção surpreendeu o mesmo Pedro, que demorou entender a ação divina. Só percebeu a realidade do acontecido após sair da prisão em companhia do anjo e quando este último o deixou “Então, Pedro caiu em si e disse: Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”. É uma característica geral das manifestações divinas serem percebidas só a operação concluída.
De todas as maneiras, ela testemunha que Deus não está ausente nem indiferente às condições humanas. Sobretudo dos seus discípulos nas condições de extrema dificuldade.
Inclusive na experiência de são Paulo que terá um desfecho bem diferente como veremos na segunda leitura.

2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18

Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele manifesta os sentimentos dele diante a morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu lá estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde atualmente há a Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do evangelho e constituição das comunidades cristã. Em fim, um combate que deu resultado satisfatório para ele e para a difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É o próprio da consciência de quem fez tudo o que era nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção, sustentada pela experiência, de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente e, por certos aspectos, inalcançável nesta terra. Contudo, é ela que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho em virtude dos quais manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente. Nele encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua -do Senhor- manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, tal vez, lhe era impossível perceber anteriormente e precisamente de que “o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi poça coisa. Foi, pela graça e presença do Senhor, causa de libertação “da boca do leão”. Refere-se ao “ leão” que motiva fugir do combate; parar ou desistir da corrida; desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o “leão” que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos comprometidos, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, os desmotivando de todo sério compromisso com o Senhor.
Em fim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor, nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
O eixo é a fé, o voto de confiança em Jesus e em si mesmo, como indica o Evangelho.

Evangelho Mt 16,13-19

Jesus tem ciência do novo que surgirá pela missão dele. Também tem certeza que do antigo não ficará “pedra sobre pedra”, assim como a impossibilidade de voltar atrás. Sua mesma palavra: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deu” vale em primeiro lugar para Ele.
Para envolver neste processo a humanidade inteira, precisa-se colocar as bases e fornecer os instrumentos para dar consistência e solidez ao processo. Nesta ótica, escolhe e associa a si mesmo os discípulos para que, caminhando e sendo instruídos por Ele, adquiram o conhecimento e as atitudes convenientes.
É nesse contexto que a metade do evangelho (a metade do caminho?) o evangelista coloca o texto de hoje. A resposta à pergunta de Jesus com respeito a “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem” (Filho do Homem é a maneira de Jesus se apresentar), oferece uma breve informação da multiplicidade das interpretações do povo com respeito à pessoa e à missão Dele. Contudo, ela é simplesmente introdutória à pergunta central dirigida aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. O verdadeiro interesse de Jesus é ter ciência do entendimento dos discípulos.
A resposta de Pedro “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” é elogiada por Jesus e indicada como revelação do “meu Pai que está no céu”. Mas, como acontece nas experiências de todos os dias, com as mesmas palavras as pessoas entendem coisas diferentes. O mesmo acontecerá com Pedro que entenderá, com estas palavras, algo bem diferente do que entedia Jesus, motivo pelo qual haverá um choque muito áspero entre os dois. (Mc. 8, 32-33).
Contudo, Jesus afirma solenemente, com a sua autoridade, que aquela profissão de fé será a pedra da edificação da comunidade dos discípulos. Sinal disso troca o nome de Simão pelo de Pedro “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. A pedra, evidentemente, não é a pessoa de Pedro, mas a fé que Pedro acaba de professar, mesmo que o significado e o conteúdo certo dela serão entendidos após a morte e ressurreição de Jesus. Haverá forças poderosas contrárias, mas a última palavra vitoriosa será dela “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.
Eu te darei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Portanto, o poder das chaves, de abrir e fechar, de ligar e desligar, entregado a Pedro - aos discípulos e a Igreja toda - por Jesus, não autoriza um exercício arbitrário, deixado ao bem querer e entender dele, mas ao critério de discernimento que tem como eixo a fé que acaba de professar. Será a aplicação de uma fé libertadora, operadora daquela liberdade que ele experimentou na 1ª leitura. Será a chave que abrirá a prisão do condenado a morte e prestes a ser executado que devolverá a ele vida e futuro cheio de esperança. Evidentemente, se trata não só de pessoas prestes a ser executados fisicamente, mas dos que já experimentam a morte pela desumanização, pelo vazio interior e o sem sentido da existência, pela prática de vida imoral e pelo real afastamento da comunhão com Deus e pelas quais está disponível a ação misericordiosa do Senhor.

domingo, 19 de junho de 2011

13o DOMINGO DO T.C.-A- (26-06-11)

1ª leitura Rs 4,8-11.14-16ª

“...uma senhora rica, que insistiu para que fosse comer em sua casa (...) sempre que passava por aí, Eliseu parava em sua casa para fazer suas refeições”. Chama a atenção como este relacionamento se concretizou pela insistência por um lado e, em fim, pela aceitação por parte de Eliseu. Apesar deste começo um pouco forçado, não espontâneo nem procurado, gradativamente ele se torna motivo de um testemunho edificante. Isso diz como Deus escreve sua historia...
O motivo da insistência da mulher não é dito. De fato a freqüentação se torna habitual. Com o passar do tempo a mulher percebe que “este homem (...) é um santo homem de Deus” . Cabe supor que o relacionamento entre eles era do melhor, em termos de sinceridade e transparência. Ser autenticamente si mesmo, sem segundas intenciones, vai criando a beleza da comunicação e a construção positiva do encontro que desemboca na sadia preocupação de um para com o outro.
Eis, então, a preocupação da mulher para acolher Eliseu “Façamos (...). Assim,quando vier à nossa casa, poderá acomodar-se aí”. E a preocupação de Eliseu de manifestar sua gratidão pelo acolhimento “Que poderia fazer por esta mulher?”. Nesse horizonte de autenticidade acontece o que não dava para esperar “É inútil perguntar-lhe; ela não tem filhos e seu marido já é velho”.
Daqui a um ano, neste tempo, estarás com um filho nos braços”. A estéril se torna fonte de vida. Não é difícil imaginar a imensa alegria deste casal, particularmente da mulher. Transpondo esta experiência na vida de todos os dias e nas diferentes circunstâncias, pode-se afirmar que todo relacionamento correto, baseado nas características acima indicadas, contem em si mesmo uma força fecunda que supera toda expectativa.
Não há esterilidade, perda te tempo, perda de oportunidade, trabalho em vão, frustração perpetua quando a pessoa vivencia o correto relacionamento. Pode ser que demore perceber a conveniência e a utilidade disso. Tal vez a demora se prolonga para tempos que colocam a toda prova a paciência, a fé e a esperança, até chegar ao limite do desespero. Contudo, acredito que nada se perde da força vital, do estimulo do Espírito, da capacidade de esperar contra toda esperança, como testemunha a experiência de Abrão.
O certo, o autentico, tem em si mesmo a força misteriosa que motiva e sustenta não desistir e nem desviar, porque faz parte da própria identidade profunda. Em virtude disso, a pessoa deve escolher por ser si mesma ou desmanchar a própria identidade. Desmanchar a própria identidade tem um preço muito alto. Abre a porta à morte psicológica, moral e espiritual, ou seja, à desintegração da personalidade.
Esta resistência não se improvisa, nem è doada mecanicamente do céu como fruto da simples invocação no momento do desespero. Mas é o fruto amadurecido do Espírito nas pessoas que foram cultivando nas pequenas coisas, nos acontecimentos ordinários do dia-a-dia os sentimentos e as atitudes do que é certo e autentico, em sintonia com as próprias convicções de fé e adesão ao caminho do Senhor.
Tudo isso tem a ver com a realidade batismal da segunda leitura.

2da leitura Rm 6,3-4. 8-11

São Paulo se surpreende da atitude dos cristãos que mostram não tomar em devida conta neles os efeitos do batismo. E pergunta em sentido provocatório “Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados?”. Eles estão mergulhados em Cristo e especificamente na morte dele.
Com estas palavras pretende afirmar a realidade muito singular dos efeitos liberatórios e regenerativos da morte de Cristo, sofrida fisicamente como conseqüência da resistência ao mal e ao pecado. Eles são como transferidos, pelo batismo, no profundo do ser do cristão e configuram sua verdadeira identidade.
Assim, do profundo da consciência da própria pessoa dominada pelo pecado, percebe-se o surgir da nova pessoa redimida, resgatada e renovada. Esta última é propriamente o conteúdo da fé na ação redentora e Cristo. O exercício e o reforço desta fé permitem se apropriar da vitoria de Cristo sobre o mal e o pecado e se perceber realmente como nova criatura. “ Pelo batismo na sua morte , fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela gloria do Pai, assim também nos levamos uma vida nova”
Portanto, o surgir da consciência da nova criatura lida com a ressurreição. Pois as duas realidades estão profundamente interligadas, pois, a ressurreição é nova vida. Assim, se apropriar pela fé dos efeitos da morte de Cristo é, ao mesmo tempo, se apropriar da verdade da ressurreição “Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele”.
A configuração de o novo ser, da nova vida, tem caráter estável, permanente capaz de não permitir que o mal e o pecado voltem a dominar na pessoa “Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele”. O apostolo especifica o significado e os efeitos da morte de Cristo, com a impressionante afirmação de que o mal e o pecado são vencidos de uma vez para sempre “ Pois aquele que morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas aquele que vive,é para Deus que vive”.
Então, Paulo explicita o sentido último do batismo com clareza e profundidade surpreendente “Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo”. Cultivar a consciência de estar em Jesus Cristo, pela fé nos efeitos da morte e ressurreição dele, é imprescindível para a correta vida cristã. Ela oferece os critérios para discernir o que aprofunda do que enfraquece esta união.
Mais ainda, a pessoa se percebe como insensível, morta, às seduções do pecado. Pois, o pecado continuará com sua ação propositiva e sedutora, mas encontrará uma realidade insensível, como seria agulhar um cadáver...
Esta verdade na medida em que se aprofunda se interioriza e se torna como sangue e vida do discípulo sustenta escolhas e atitudes surpreendentes e desconcertantes do ponto de vista humano, como o evangelho indica.

Evangelho Mt 10, 37-42

Quem ama seu pai ou sua mãe (...) seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim”. Cabe perguntar: em virtude de que Jesus coloca esta exigência tão desconcertante e radical do ponto de vista humano? Como é possível amar a Ele de maneira tal de antepor esse amor ao devido naturalmente aos pais, e dos pais para com os filhos?
Devemos a vida humana aos pais. Por meio deles somos seres viventes. Os laços que nos unem e eles são singularíssimos e únicos... Contudo, a qualidade da vida, a existência em sua expressão plena e bem sucedida não depende deles, nem somente do afeto e do amor que sustenta o relacionamento. Depende do que Jesus Cristo indica, oferece e sustenta como caminho certo no dia-a-dia. Conhecidas são as palavras Dele “Eu sou o caminho, (porque são) a verdade e a vida” (Jo 14,6).
Interiorizar o que Jesus Cristo é, o que ele fez e continua fazendo a favor de cada pessoa e da humanidade toda. Colocar a plena confiança amorosa no que ele realiza e oferece a com sua morte e ressurreição atualizada pela fé nos sacramentos é entrar em comunhão com Ele e perceber a grandeza e profundidade do amor dele, imensamente superior do legitimo afeto e amor dos pais e vive-versa.
Portanto, a afirmação de Jesus não diminuiu ou deslegitima o amor pais filhos e vice versa, mas o coloca na sua importância e certa posição. O verbo existir significa “ex...”- extrair do dentro, do mais profundo -. E da própria vivencia, a qualidade e o sentido último da vida doada pelos pais. Desta forma, é encaminhada a própria vida à existência bem sucedida. Tudo isso depende do sincero amor a Jesus Cristo, como resposta por ter percebido e acreditado no radical amor Dele.
Conseqüentemente o discípulo se sente mergulhado e envolvido do amor tão envolvente que se transforma em vontade imitadora, capaz de enfrentar e sofrer o que Jesus enfrentou e sofreu. Contudo, Jesus sabe da fraqueza e limite dessa vontade. E como ela deverá ultrapassar o medo de perder até a própria vida. Daí, então, a afirmação de Jesus de não ter medo de carregar a mesma cruz que ele carregou, pois o discípulo estará no mesmo caminho Dele e com Ele “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”.
Ultrapassar a barreira do medo é condição para ser autêntico discípulo. Para animar a não ficar preso do medo, Jesus coloca o famoso paradoxo cristão “Quem procura conservar a sua vida, vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”. Pois, a verdade da existência se encontra no seu contrario. O exemplo, o testemunho, disso é a ressurreição Dele.
Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou”. O discípulo se configura como representante de Cristo mesmo e como mediador do encontro com Deus Pai. O dom do discipulado tem como finalidade o envolvimento dos destinatários da missão na comunhão com Cristo no Pai pela dinâmica do Espírito Santo.
Nesta condição o discípulo é profeta, é justo. Toda ação, mesmo a mais comum e simples como dar “um copo de água fresca” terá sua importância e recompensa por parte de Deus. Tudo e cada circunstância será oportunidade e motivo para manifestar o mistério do amor de Deus. Nada será esquecido nem perdido.
Cada instante da existência será um momento favorável, um momento de graça e de plenitude. Perdendo tudo por causa Dele é se re-apropriar da existência do mundo inteiro. É o mistério de Deus presente no mundo e ao alcance de todos.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

SANTÍSSIMA TRINDADE-A-(19-06-11)

1a leitura (Ex 34,4b-6. 8-9)

O povo pecou gravemente atribuindo a Deus a imagem do bezerro de ouro. Foi como pretender encaixar a Deus no âmbito do próprio entendimento e das próprias expectativas. Com outras palavras e parafraseando o texto bíblico, modelar a Deus a própria imagem e semelhança. É exatamente o contrário da Aliança.
Querendo Moises recompor a aliança entre o povo e Deus, sobe à montanha com outras duas tabuas de pedra, para que Deus lhe dê novamente a lei. “Moises (...) subiu ao monte Sinai (...) levando consigo as duas tabuas de pedra”. O Senhor acolhe Moises, pois, “desceu da nuvem e permaneceu com Moises”. A percepção de ser acolhido de novo deve ter enchido o coração de Moises de satisfação, de esperança e de alegria. Pois, Deus acolhe na pessoa dele o povo. Ele não mantém sua cólera, sua ira pelo desrespeito à Aliança nem pretende continuar se mantiver afastado. Foi um grande respiro de alivio para Moises.
Daí que Moises “invocou o nome do Senhor” fez como uma profissão de fé na fidelidade à promessa por parte de Deus. Pois, tinha certeza do amor de Este para com o seu povo. Com isso Deus lhe manifestou alguns dos atributos divinos que Moises sinalizou “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”.
Cada um destes atributos merece muita atenção e reflexão e é motivo de belíssimas e profundas considerações, que ultrapassam o limite deste comentário. Parece-me suficiente destacar como o conjunto deles oferece uma imagem grandiosa do perfil de Deus Pai. Ele, o conjunto, oferece como os traços e o perfil, do rosto de Deus, através dos quais perceberem o imenso amor dele para com o seu povo. É um rosto que não cansa de ser contemplado, com sentimentos de estupor, de maravilha e de gratidão.
Eis, então, a reação de Moises que percebe em todo isso o favor de Deus para com ele . "Imediatamente, Moises curvou-se no chão e, prostrado por terra, disse..." Assim o estupor e a maravilha se tornaram adoração cheia de admiração e súplica “Senhor, se é verdade que gozo do teu favor, peço-te, caminha conosco”, ou seja, pede de restabelecer a aliança de maneira tal que o caminhar juntos é garantia de proteção e segurança de dar passos certos nas múltiplas dificuldades e circunstância do caminho rumo à terra prometida.
Contudo, Moises sabe dos limites do povo e da teimosia em se deixar conduzir por caminhos que ultrapassam o entendimento dele. Portanto pede a Deus que não abandone nem esqueça os próprios atributos, pois, serão necessários também no futuro, pois, invoca “acolhe-nos como propriedade tua”.
A firmeza da consciência de lhe pertencer radicalmente é garantia da fidelidade de Deus perante de “um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados”, pois, são pecados de desconfiança nas indicações, de desinteresse ao ensino, de superficialidade que não permite avaliar corretamente, de sedução de outras propostas que, erroneamente, atribuem em sintonia com a aliança, mas que na realidade não o são.
Tudo isso porque o povo não trabalhou a aliança, se acomodou e foi como absorvido pelos próprios interesses e não pala a vivencia da aliança.
Ao respeito a 2da leitura oferece valiosas indicações.

2ª leitura 2 Cor 13,11-13

Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento”. A perfeição é uma realidade a ser alcançada gradativamente. É como o imã que atrai quem está fascinado e admirado da proposta e da qualidade de vida que ela apresenta como meta da uma existência bem sucedida. Exige trabalho, ou seja, determinação, empenho e Constancia. Particularmente nos momentos difíceis, nas provações e nas dificuldades, que normalmente acompanham o caminho.
Daí, então, as indicações para que cada pessoa encontre na comunidade o devido apoio “encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz”. Sem duvidas a solidariedade e ajuda fraternal é imprescindível nos momentos difíceis, sob pena de desviar o abandonar a comunidade e o caminho do Senhor. Experiências ao respeito não faltam. Pessoas que começaram com boa vontade, entusiasmo e depois...A atenção e solidariedade levará à comunhão com Deus “e o Deus do amor e da paz estará convosco”.
A comunhão é o próprio da atividade do Espírito Santo “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”. Ela é o fruto amadurecido da presença da Trindade, como indica a citação, mas particularmente atribuído à ação e a presença do Espírito. É esta presença que, atraindo a pessoa com o fascínio e a força própria, a leva à comunhão entre os integrantes da comunidade. Desta forma faz que ela experimente a graça de Cristo e o amor do Pai.
Portanto, a realidade trinitária age, desenvolve sua atividade fora dela mesma com as mesmas modalidades que caracterizam sua atividade no interior dela. A única ação dela investe simultaneamente o relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo e sua presença na criação toda e a favor das pessoa e da humanidade toda. É o que, usando um termino técnico, a teologia chama de “economia” Trinitária.
Pois o que a humanidade e as pessoas percebem da Trindade, não è sua realidade ultima e profunda, que permanece um mistério inalcançável e inesgotável, mas o agir dela a favor da humanidade. Usa-se o termo “economia” porque indica ação planejada, corretamente desenvolvida em ordem ao conseguimento do fim específico que é o crescimento do mistério de Deus no integrar no mesmo amor de Deus as pessoas e a humanidade que acreditando na auto-revelarão de Deus se deixam atrai e mover pelo que a mesma manifesta e ensina.
Portanto, o importante da abordagem à Trindade não tanto resolver, dentro do entendimento e da lógica humana, como combinar as três pessoas com a unicidade de Deus, quanto a correta percepção da dinâmica da vida dela, que oferece o critério- a minha maneira de entender- para responder satisfatoriamente ao desfio de unidade na pluralidade que perpassa e atinge os relacionamentos entre pessoas, entre povos e culturas diferentes.
Tudo isso mexe com a salvação de todos e de tudo. Para se aproximar e compreender a dinâmica trintaria é preciso olhar para Jesus e ter os olhos fixos sobre ele, particularmente no evento da morte e ressurreição dele.
É o que indica o Evangelho

Evangelho Jo 3,16-18

Deus amou tanto o mundo”. Expressão que indica como Deus deu tudo. Mais não podia dar. Assim Ele manifesta o seu ser, mostra todo o seu amor para o mundo que, pela rebeldia, pelo desinteresse, indiferença e desconfiança para com o mesmo Deus está se expondo à morte e, pela lógica humana, merece condenação.
O caminho da salvação é crer no “Filho unigênito”. Neste Filho a Trindade toda age. Os que os homens percebem pelas próprias faculdades humanas é a ação de uma pessoa individual, Jesus de Nazaré. Mas será missão Dele manifestar, pela palavra e pelo testemunho, a verdade da ação trinitária com o Pai e com o Espírito.
Deus age para que toda pessoa “tenha a vida eterna” e “o mundo seja salvo por ele”. Com efeito, a amor derramado, sem reter nada para si mesmo, tem como finalidade a vida em abundancia para tudo e para todos, como escreve o evangelista João.
O amor de Deus consistiu em entregar o próprio Filho “Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho unigênito”. Efetivamente, não tem maior amor da entrega do filho unigênito, mais ainda considerando as condições de total ausência e desinteresse do povo para o que estava acontecendo. Observa são Paulo: “a prova que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”(Rm 5,8).
A este imenso ato de amor, Deus pede a toda pessoa crer no significado da entrega de Jesus como quem representa todo homem e a humanidade pecadora. Trata-se de acreditar que a vitória Dele sobre o mal e o pecado, no sentido que prefere morrer a se dobrar, é a vitória de cada pessoa e da humanidade. Assim, Ele faz todo o “trabalho” de luta, de resistência, de sofrimento e de morte, como se estivéssemos nós mesmos fazendo isso.
Assumir plenamente a verdade e o dom da entrega de Jesus é causa da salvação “Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado”. A finalidade da missão da Trindade se completa no ato de fé de cada pessoa e da humanidade, pois, “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.
Este ato de fé transfere a pessoa da condição de pecador à condição de justo, de intimo e familiar de Deus. Mudança radical, em virtude da qual ela é nova criatura. Interiorizar esta passagem é ativar e vivenciar no profundo do ser o sentido de pertencer a Deus estreitando um vinculo indissolúvel. Assim, Deus e o redimido se pertencem mutuamente para sempre.
Então o permanecer em Cristo como o ramo na videira, que o evangelista frisa com insistência no capitulo 15, se torna como a lógica conseqüência da aceitação do dom da entrega do Filho e do dom oferecido pelos efeitos da morte e ressurreição deste.
A consciência de pertencer a Deus e a vontade de continuar permanecer em Cristo encharcarão da presença e força do Espírito a pessoa toda. Assim, a prática do amor, se tornará manifestação do Amor de Deus Trindade, que renova e regenera continuamente quem recebe e ao mesmo tempo transmite o dom.

domingo, 5 de junho de 2011

PENTECOSTES-A-(12-06-11)

1a leitura At 2,1-11

Pentecostes - 50 dias após a Páscoa - é o evento marcante para a humanidade de todos os tempos até a vinda do Ressuscitado. Vinda por Ele prometida antes de voltar na glória do Pai o dia da Ascensão.
Toda manifestação de Deus acontece de maneira imprevista, de repente, sem nenhum aviso prévio. Ela irrompe de forma desconcertante na vida das pessoas, neste caso, dos discípulos “os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” e, por medo dos judeus, estavam com a porta trancada.
Foi difícil para eles dar conta do que exatamente aconteceu, pois, não havia palavras adequadas. Portanto, usam comparações “como se fosse uma forte ventania”, “apareceram línguas como de fogo”, pois, o evento ultrapassou toda capacidade de entendimento. Foi participação ao infinito mistério de Deus.
Assim, a manifestação foi uma surpresa, no sentido verdadeiro e profundo do termo “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os inspirava (...), pois cada um ouvia os discípulos falar em suas próprias línguas”. Tomado ao pé da letra, seria uma tradução simultânea? Sinceramente não sei como explicar este fato de maneira plenamente convincente. A Bíblia registrará o fenômeno de eventos parecidos como ação do Espírito nas comunidades que estavam surgindo.
Com certeza, o fenômeno chamou a atenção pela transformação operada neles em nível de entendimento, de atitudes para com o povo e as autoridades, e pelo fenômeno singular das línguas “Cheios de espanto e admiração, diziam: Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?”.
A continuação são elencadas todas as nações conhecidas do mundo de então, para indicar o alcance universal do evento, assim como foi o da morte e ressurreição de Jesus. É registrado, portanto, que a descida do Espírito não é circunscrita aos discípulos nem à Jerusalém nem ao povo judeu, mais abrange a humanidade toda e de tosos os tempos. Este é um aspecto de grande importância para a reflexão atual sobre a missão da Igreja no mundo, em dialogo com outras culturas e religiões. Elas têm em si mesmas a palavra do Espírito que interpela os cristãos. Daí a importância da humilde procura da Verdade através da dialética fraternal.
Parece-me mais importante da compreensão do fenômeno, entender a mensagem dos apóstolos. Com efeito, o texto frisa “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” As maravilhas se referem ao evento da morte e ressurreição de Jesus. Tal vez seja isso que os enche de espanto e admiração, mais do que o fenômeno das línguas. Apresentar um condenado a morte - um maldito de Deus justiçado menos de uma semana - como Salvador não é coisa de pouca conta.
Com a descida do Espírito Santo os discípulos tomam plena consciência do alcance e significado da morte e ressurreição de Jesus. Algo que, até então, ficou meio incompreensível e indecifrável. O alcance do pleno significado gerou nos discípulos uma mudança de atitudes radical para consigo mesmos, no relacionamento com o ambiente e com as autoridades.
Com a descida do Espírito começa a Igreja, ou seja, o surgimento das comunidades cristãs. O Espírito será como a seiva da arvore. Ela é invisível, porém, indispensável para ávida e o crescimento da mesma. A vida de Deus correrá nela exatamente pela presença e ação do Espírito nas comunidades.
O Espírito será o mestre interior de todo discípulo. Em virtude disso, estabelecerá um relacionamento direto entre ele e Deus, realizando dessa maneira o profetizado por Jeremias “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração (...) não será mais necessário ensinar ao seu próximo dizendo: ‘Conhece o Senhor! Todos me reconhecerão, do menor ao “maior deles”(31,34)’. Este relacionamento é o ponto de partida não dispensável de todo correto entendimento da pessoa, do ensino de Jesus, assim como de toda prática da vida cristã.
Com efeito, a presença do Espírito qualifica o discípulo, como comentaremos na 2da leitura.

2da leitura 1Cor 12,3b-7.12-13

Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo”. Evidentemente não se trata de afirmar vocalmente, de boca para fora, mas de ser interiormente convencido do homem Jesus de Nazaré constituído pela ressurreição Senhor de tudo e de todos. Evento no qual o Espírito Santo agiu com poder e força conforme a vontade do Pai. Portanto, só o mesmo Espírito pode convencer interiormente todo discípulo e modelar o entendimento e a vida dele em sintonia com esta verdade.
A compreensão da pessoa de Jesus, à luz do que aconteceu na Páscoa, tem múltiplos desdobramentos, entre eles o específico agir conjuntamente da Trindade Santa “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos” Lendo o trecho de frente para trás e aplicando-o à vida do discípulo destacam umas considerações valiosas.
Assim, se o discípulo agir, se desenvolver atividades, conforme a vontade do Pai, para a transformação da humanidade, ele estará se relacionando com o Pai. Se exercer esta missão em sintonia com o que Jesus fez, servindo ( ministérios) até com o dom da própria vida, estará em sintonia com o Filho. Se servir, se exercer o ministério, usando dos dons que lhe são próprios, ele estará em sintonia com o Espírito Santo. Dessa forma, o discípulo, no concreto dos acontecimentos humanos do dia – a - dia terá clareza da vivencia e da percepção da presença Trinitária nele.
Tudo brota, começa, caminha e chega ao seu fim satisfatório pela ação do Espírito. Ele move, instrui, e sustenta a ação, pois, “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”. O bem comum visa à harmonia entre as diversidades dos povos, línguas e das culturas “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres fomos batizados no mesmo Espírito, para formarmos um único corpo, e todos bebemos de um único Espírito”.
Todos afirmaram que a diversidade é uma riqueza, que deve ser aproveitada para o crescimento humano e espiritual. Não faltam elogios a ela. O complicado é como fazer, como administrar a diversidade no horizonte da harmonia e do crescimento. Particularmente desafiador é quando ela ultrapassa o limite de aceitação que cada pessoa percebe em si mesma em virtude da própria história, cultura, educação e experiência. Mais ainda, quando, para dar espaço e cabimento a ela, é preciso abrir mão do que é próprio. É então que as virtudes da coragem, da generosidade, da gratuidade e da fraternidade mostram a sua real consistência , assim como a verdadeira fé no valor da diversidade
Há três critérios gerais que orientam o processo de integração das diferenças. 1) A pessoa se torna mais humana, no sentido de fazer da própria vida um dom a favor dos que precisam, para que elas- por sua vez- transmitam a mesma dinâmica? 2) A sociedade é favorecida no crescimento do direito, da justiça e no respeito das exigências legitimas das diversidades? 3) A natureza é respeitada nas suas exigências ecológicas? Responder positivamente significa se esvaziar de si mesmo como foi a prática de Jesus e a ação do Espírito Santo “no qual fomos batizados para formarmos um só corpo”. Trata- se da pratica d caridade.
O Espírito procede do Pai e do Filho como amor deles para a humanidade e para cada pessoa. Mais profundamente, é Amor que qualifica a essência de Deus e que une a amante (o Pai) com o amado (o Filho) no amor (o Espírito Santo) com a humanidade de todos os tempos e de todos os lugares.
É o que destaca nas palavras de Jesus no evangelho.

Evangelho Jo 20,19-23

Impressiona a entrada de Jesus no meio dos discípulos. Em primeiro lugar, deseja a paz “A paz esteja convosco”, pois, eles estavam cheios de medo, desconcertados e abalados. Com sua presença e sua palavra lhes oferece as condições para restabelecer a harmonia a serenidade, a confiança e a esperança. Uma notável transformação.
Depois destas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado” não só para eles terem a certeza da identidade com o Crucificado na sexta ferira santa, mas para manifestar como o poder do mal e a força do pecado não têm domínio sobre Ele, sobre o corpo e a pessoa Dele. As feridas mortais abertas, deixaram de ser realidade de morte e de sofrimento próprias do poder do male da força do pecado. Elas participam do seu contrário, da glória de Deus, da vida que destruiu a morte. Assim, a ressurreição é apresentada como a morte da morte.
A nova condição de Jesus manifesta o esvaziamento do poder do mal e da força do pecado Tudo em virtude do Amor que motivou e sustentou a entrega: ”Os amou até o fim” (Jo 13,1). Portanto, a amor que motiva a entrega é o mesmo amor que ressuscita. A ressurreição é o triunfo do amor. O amor nesta vida terrena é o mesmo amor que ressuscita.
Neste pano de fundo, Jesus depois de repetir a saudação acrescenta “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. É manifesto, pois, como o relacionamento Pai-Filho na Trindade é modelo do relacionamento de Jesus para com os discípulos. Mas será possível só com a ação do Espírito Santo “soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo...”. Isso lembra o primeiro sopro ao inicio da criação, pelo qual o boneco de barro se tornou o ser vivente na pessoa de Adão. Com efeito, a ressurreição é o novo começo da nova criação. O último e definitivo da pessoa, da humanidade e da criação se faz presente na pessoa de Jesus.
Desta forma é desvelada a implantação do Reino de Deus, a finalidade da missão de Jesus. Em primeiro lugar o Reino se cumpre na pessoa dele. E, portanto, também nos discípulos e na comunidade, por meio da ação pastoral deles, na medida da fidelidade deles ao mestre e à dinâmica da morte e ressurreição.
Antecipação da presença do Reino, que se manifestará plenamente com a “volta” do Ressuscitado, é o perdão dos pecados “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos”.
Analisemos a realidade e amplitude do perdão.
Perdão: se pode entender como “dom por te”. É o dom da misericórdia de Deus, recebido pela fé, que integra três importantes aspetos: a remissão do pecado, a nova eterna aliança, e a participação à promessa futura já presente. (vê as palavras da consagração ma Missa). É dom que regenera. É como um novo nascimento, para a nova criação. Contudo, para que este dom seja eficiente deve ser devolvido a Deus, não pode ficar fechado na pessoa. Seria como parar a circulação do sangue nas artérias... É um processo, que liga intimamente três aspetos:
- Perdoar a si mesmo. Pela regeneração realizada pela ação do Espírito Santo e acolhida pela fé, se criam as condições para perdoar a si mesmo. Com efeito, Jesus dirá às pessoas curadas “a tua fé te salvou”. Não dirá: a tua fé na minha pessoa enquanto Jesus Messias ou Filho de Deus, mas por aquilo que realizei em te e tu acolhestes pela fé. Com outras palavras: é o homem novo que criei em te, que você acolheu e no qual acreditas que cria as condições para perdoar a te mesmo. Com outras palavras. Fulano renovado consegue perdoar se mesmo pecador.
- Perdoar o outro. Na terceira oração Eucarística, após a consagração, se reza “Olhai com bondade...”, olhar com amor. O perdoar a si mesmo permite olhar quem nos ofendeu, com o mesmo olhar de Deus, oferecendo o mesmo resgate com o qual foi agraciado: a gratuidade da remissão do pecado, a nova aliança e a participação às promessas. Criam-se, também as condições para chegar até amar os inimigos, os que o odeia... (Lc 6,27ss).
- Perdoar a Deus. Por ele ter deixado morrer de câncer um menino; por não intervir parando a matança de milhões de pessoas nos campos de concentração; por “permitir” que o mal continue semeando violência e injustiças; por sua “ausência” nos momento da necessidade de perceber sua presença e seu amor... Eis, então, o nosso dom para ele, o perdão. O mesmo que ele nos deu o retornamos a ele, com os mesmos sentimentos dele. É o dom de restabelecer o relacionamento que percebemos como interrompido, de renovar a nova e eterna aliança caminhando juntos no dia- a- dia, de perceber a participação já hoje de um futuro promissor e de esperança da vida plena.
Desta maneira Ele torna possível amá-lo como ele ama. Então se retorna a Ele o dom recebido, com as mesmas atitudes dele. Assim, Ele os torna “como Deus”. O sonho que seduziu Eva e a levou pelo caminho errado “vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus” (Gn3,5) chega a ser realidade pelo caminho certo, pelo caminho do perdão. A pessoa se torna a maneira humana de Deus ser. E a comunidade a plenitude do corpo de Cristo, pela ação do Espírito Santo.