domingo, 5 de junho de 2011

PENTECOSTES-A-(12-06-11)

1a leitura At 2,1-11

Pentecostes - 50 dias após a Páscoa - é o evento marcante para a humanidade de todos os tempos até a vinda do Ressuscitado. Vinda por Ele prometida antes de voltar na glória do Pai o dia da Ascensão.
Toda manifestação de Deus acontece de maneira imprevista, de repente, sem nenhum aviso prévio. Ela irrompe de forma desconcertante na vida das pessoas, neste caso, dos discípulos “os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” e, por medo dos judeus, estavam com a porta trancada.
Foi difícil para eles dar conta do que exatamente aconteceu, pois, não havia palavras adequadas. Portanto, usam comparações “como se fosse uma forte ventania”, “apareceram línguas como de fogo”, pois, o evento ultrapassou toda capacidade de entendimento. Foi participação ao infinito mistério de Deus.
Assim, a manifestação foi uma surpresa, no sentido verdadeiro e profundo do termo “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os inspirava (...), pois cada um ouvia os discípulos falar em suas próprias línguas”. Tomado ao pé da letra, seria uma tradução simultânea? Sinceramente não sei como explicar este fato de maneira plenamente convincente. A Bíblia registrará o fenômeno de eventos parecidos como ação do Espírito nas comunidades que estavam surgindo.
Com certeza, o fenômeno chamou a atenção pela transformação operada neles em nível de entendimento, de atitudes para com o povo e as autoridades, e pelo fenômeno singular das línguas “Cheios de espanto e admiração, diziam: Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?”.
A continuação são elencadas todas as nações conhecidas do mundo de então, para indicar o alcance universal do evento, assim como foi o da morte e ressurreição de Jesus. É registrado, portanto, que a descida do Espírito não é circunscrita aos discípulos nem à Jerusalém nem ao povo judeu, mais abrange a humanidade toda e de tosos os tempos. Este é um aspecto de grande importância para a reflexão atual sobre a missão da Igreja no mundo, em dialogo com outras culturas e religiões. Elas têm em si mesmas a palavra do Espírito que interpela os cristãos. Daí a importância da humilde procura da Verdade através da dialética fraternal.
Parece-me mais importante da compreensão do fenômeno, entender a mensagem dos apóstolos. Com efeito, o texto frisa “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” As maravilhas se referem ao evento da morte e ressurreição de Jesus. Tal vez seja isso que os enche de espanto e admiração, mais do que o fenômeno das línguas. Apresentar um condenado a morte - um maldito de Deus justiçado menos de uma semana - como Salvador não é coisa de pouca conta.
Com a descida do Espírito Santo os discípulos tomam plena consciência do alcance e significado da morte e ressurreição de Jesus. Algo que, até então, ficou meio incompreensível e indecifrável. O alcance do pleno significado gerou nos discípulos uma mudança de atitudes radical para consigo mesmos, no relacionamento com o ambiente e com as autoridades.
Com a descida do Espírito começa a Igreja, ou seja, o surgimento das comunidades cristãs. O Espírito será como a seiva da arvore. Ela é invisível, porém, indispensável para ávida e o crescimento da mesma. A vida de Deus correrá nela exatamente pela presença e ação do Espírito nas comunidades.
O Espírito será o mestre interior de todo discípulo. Em virtude disso, estabelecerá um relacionamento direto entre ele e Deus, realizando dessa maneira o profetizado por Jeremias “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração (...) não será mais necessário ensinar ao seu próximo dizendo: ‘Conhece o Senhor! Todos me reconhecerão, do menor ao “maior deles”(31,34)’. Este relacionamento é o ponto de partida não dispensável de todo correto entendimento da pessoa, do ensino de Jesus, assim como de toda prática da vida cristã.
Com efeito, a presença do Espírito qualifica o discípulo, como comentaremos na 2da leitura.

2da leitura 1Cor 12,3b-7.12-13

Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo”. Evidentemente não se trata de afirmar vocalmente, de boca para fora, mas de ser interiormente convencido do homem Jesus de Nazaré constituído pela ressurreição Senhor de tudo e de todos. Evento no qual o Espírito Santo agiu com poder e força conforme a vontade do Pai. Portanto, só o mesmo Espírito pode convencer interiormente todo discípulo e modelar o entendimento e a vida dele em sintonia com esta verdade.
A compreensão da pessoa de Jesus, à luz do que aconteceu na Páscoa, tem múltiplos desdobramentos, entre eles o específico agir conjuntamente da Trindade Santa “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos” Lendo o trecho de frente para trás e aplicando-o à vida do discípulo destacam umas considerações valiosas.
Assim, se o discípulo agir, se desenvolver atividades, conforme a vontade do Pai, para a transformação da humanidade, ele estará se relacionando com o Pai. Se exercer esta missão em sintonia com o que Jesus fez, servindo ( ministérios) até com o dom da própria vida, estará em sintonia com o Filho. Se servir, se exercer o ministério, usando dos dons que lhe são próprios, ele estará em sintonia com o Espírito Santo. Dessa forma, o discípulo, no concreto dos acontecimentos humanos do dia – a - dia terá clareza da vivencia e da percepção da presença Trinitária nele.
Tudo brota, começa, caminha e chega ao seu fim satisfatório pela ação do Espírito. Ele move, instrui, e sustenta a ação, pois, “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”. O bem comum visa à harmonia entre as diversidades dos povos, línguas e das culturas “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres fomos batizados no mesmo Espírito, para formarmos um único corpo, e todos bebemos de um único Espírito”.
Todos afirmaram que a diversidade é uma riqueza, que deve ser aproveitada para o crescimento humano e espiritual. Não faltam elogios a ela. O complicado é como fazer, como administrar a diversidade no horizonte da harmonia e do crescimento. Particularmente desafiador é quando ela ultrapassa o limite de aceitação que cada pessoa percebe em si mesma em virtude da própria história, cultura, educação e experiência. Mais ainda, quando, para dar espaço e cabimento a ela, é preciso abrir mão do que é próprio. É então que as virtudes da coragem, da generosidade, da gratuidade e da fraternidade mostram a sua real consistência , assim como a verdadeira fé no valor da diversidade
Há três critérios gerais que orientam o processo de integração das diferenças. 1) A pessoa se torna mais humana, no sentido de fazer da própria vida um dom a favor dos que precisam, para que elas- por sua vez- transmitam a mesma dinâmica? 2) A sociedade é favorecida no crescimento do direito, da justiça e no respeito das exigências legitimas das diversidades? 3) A natureza é respeitada nas suas exigências ecológicas? Responder positivamente significa se esvaziar de si mesmo como foi a prática de Jesus e a ação do Espírito Santo “no qual fomos batizados para formarmos um só corpo”. Trata- se da pratica d caridade.
O Espírito procede do Pai e do Filho como amor deles para a humanidade e para cada pessoa. Mais profundamente, é Amor que qualifica a essência de Deus e que une a amante (o Pai) com o amado (o Filho) no amor (o Espírito Santo) com a humanidade de todos os tempos e de todos os lugares.
É o que destaca nas palavras de Jesus no evangelho.

Evangelho Jo 20,19-23

Impressiona a entrada de Jesus no meio dos discípulos. Em primeiro lugar, deseja a paz “A paz esteja convosco”, pois, eles estavam cheios de medo, desconcertados e abalados. Com sua presença e sua palavra lhes oferece as condições para restabelecer a harmonia a serenidade, a confiança e a esperança. Uma notável transformação.
Depois destas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado” não só para eles terem a certeza da identidade com o Crucificado na sexta ferira santa, mas para manifestar como o poder do mal e a força do pecado não têm domínio sobre Ele, sobre o corpo e a pessoa Dele. As feridas mortais abertas, deixaram de ser realidade de morte e de sofrimento próprias do poder do male da força do pecado. Elas participam do seu contrário, da glória de Deus, da vida que destruiu a morte. Assim, a ressurreição é apresentada como a morte da morte.
A nova condição de Jesus manifesta o esvaziamento do poder do mal e da força do pecado Tudo em virtude do Amor que motivou e sustentou a entrega: ”Os amou até o fim” (Jo 13,1). Portanto, a amor que motiva a entrega é o mesmo amor que ressuscita. A ressurreição é o triunfo do amor. O amor nesta vida terrena é o mesmo amor que ressuscita.
Neste pano de fundo, Jesus depois de repetir a saudação acrescenta “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. É manifesto, pois, como o relacionamento Pai-Filho na Trindade é modelo do relacionamento de Jesus para com os discípulos. Mas será possível só com a ação do Espírito Santo “soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo...”. Isso lembra o primeiro sopro ao inicio da criação, pelo qual o boneco de barro se tornou o ser vivente na pessoa de Adão. Com efeito, a ressurreição é o novo começo da nova criação. O último e definitivo da pessoa, da humanidade e da criação se faz presente na pessoa de Jesus.
Desta forma é desvelada a implantação do Reino de Deus, a finalidade da missão de Jesus. Em primeiro lugar o Reino se cumpre na pessoa dele. E, portanto, também nos discípulos e na comunidade, por meio da ação pastoral deles, na medida da fidelidade deles ao mestre e à dinâmica da morte e ressurreição.
Antecipação da presença do Reino, que se manifestará plenamente com a “volta” do Ressuscitado, é o perdão dos pecados “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos”.
Analisemos a realidade e amplitude do perdão.
Perdão: se pode entender como “dom por te”. É o dom da misericórdia de Deus, recebido pela fé, que integra três importantes aspetos: a remissão do pecado, a nova eterna aliança, e a participação à promessa futura já presente. (vê as palavras da consagração ma Missa). É dom que regenera. É como um novo nascimento, para a nova criação. Contudo, para que este dom seja eficiente deve ser devolvido a Deus, não pode ficar fechado na pessoa. Seria como parar a circulação do sangue nas artérias... É um processo, que liga intimamente três aspetos:
- Perdoar a si mesmo. Pela regeneração realizada pela ação do Espírito Santo e acolhida pela fé, se criam as condições para perdoar a si mesmo. Com efeito, Jesus dirá às pessoas curadas “a tua fé te salvou”. Não dirá: a tua fé na minha pessoa enquanto Jesus Messias ou Filho de Deus, mas por aquilo que realizei em te e tu acolhestes pela fé. Com outras palavras: é o homem novo que criei em te, que você acolheu e no qual acreditas que cria as condições para perdoar a te mesmo. Com outras palavras. Fulano renovado consegue perdoar se mesmo pecador.
- Perdoar o outro. Na terceira oração Eucarística, após a consagração, se reza “Olhai com bondade...”, olhar com amor. O perdoar a si mesmo permite olhar quem nos ofendeu, com o mesmo olhar de Deus, oferecendo o mesmo resgate com o qual foi agraciado: a gratuidade da remissão do pecado, a nova aliança e a participação às promessas. Criam-se, também as condições para chegar até amar os inimigos, os que o odeia... (Lc 6,27ss).
- Perdoar a Deus. Por ele ter deixado morrer de câncer um menino; por não intervir parando a matança de milhões de pessoas nos campos de concentração; por “permitir” que o mal continue semeando violência e injustiças; por sua “ausência” nos momento da necessidade de perceber sua presença e seu amor... Eis, então, o nosso dom para ele, o perdão. O mesmo que ele nos deu o retornamos a ele, com os mesmos sentimentos dele. É o dom de restabelecer o relacionamento que percebemos como interrompido, de renovar a nova e eterna aliança caminhando juntos no dia- a- dia, de perceber a participação já hoje de um futuro promissor e de esperança da vida plena.
Desta maneira Ele torna possível amá-lo como ele ama. Então se retorna a Ele o dom recebido, com as mesmas atitudes dele. Assim, Ele os torna “como Deus”. O sonho que seduziu Eva e a levou pelo caminho errado “vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus” (Gn3,5) chega a ser realidade pelo caminho certo, pelo caminho do perdão. A pessoa se torna a maneira humana de Deus ser. E a comunidade a plenitude do corpo de Cristo, pela ação do Espírito Santo.

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