domingo, 19 de junho de 2011

13o DOMINGO DO T.C.-A- (26-06-11)

1ª leitura Rs 4,8-11.14-16ª

“...uma senhora rica, que insistiu para que fosse comer em sua casa (...) sempre que passava por aí, Eliseu parava em sua casa para fazer suas refeições”. Chama a atenção como este relacionamento se concretizou pela insistência por um lado e, em fim, pela aceitação por parte de Eliseu. Apesar deste começo um pouco forçado, não espontâneo nem procurado, gradativamente ele se torna motivo de um testemunho edificante. Isso diz como Deus escreve sua historia...
O motivo da insistência da mulher não é dito. De fato a freqüentação se torna habitual. Com o passar do tempo a mulher percebe que “este homem (...) é um santo homem de Deus” . Cabe supor que o relacionamento entre eles era do melhor, em termos de sinceridade e transparência. Ser autenticamente si mesmo, sem segundas intenciones, vai criando a beleza da comunicação e a construção positiva do encontro que desemboca na sadia preocupação de um para com o outro.
Eis, então, a preocupação da mulher para acolher Eliseu “Façamos (...). Assim,quando vier à nossa casa, poderá acomodar-se aí”. E a preocupação de Eliseu de manifestar sua gratidão pelo acolhimento “Que poderia fazer por esta mulher?”. Nesse horizonte de autenticidade acontece o que não dava para esperar “É inútil perguntar-lhe; ela não tem filhos e seu marido já é velho”.
Daqui a um ano, neste tempo, estarás com um filho nos braços”. A estéril se torna fonte de vida. Não é difícil imaginar a imensa alegria deste casal, particularmente da mulher. Transpondo esta experiência na vida de todos os dias e nas diferentes circunstâncias, pode-se afirmar que todo relacionamento correto, baseado nas características acima indicadas, contem em si mesmo uma força fecunda que supera toda expectativa.
Não há esterilidade, perda te tempo, perda de oportunidade, trabalho em vão, frustração perpetua quando a pessoa vivencia o correto relacionamento. Pode ser que demore perceber a conveniência e a utilidade disso. Tal vez a demora se prolonga para tempos que colocam a toda prova a paciência, a fé e a esperança, até chegar ao limite do desespero. Contudo, acredito que nada se perde da força vital, do estimulo do Espírito, da capacidade de esperar contra toda esperança, como testemunha a experiência de Abrão.
O certo, o autentico, tem em si mesmo a força misteriosa que motiva e sustenta não desistir e nem desviar, porque faz parte da própria identidade profunda. Em virtude disso, a pessoa deve escolher por ser si mesma ou desmanchar a própria identidade. Desmanchar a própria identidade tem um preço muito alto. Abre a porta à morte psicológica, moral e espiritual, ou seja, à desintegração da personalidade.
Esta resistência não se improvisa, nem è doada mecanicamente do céu como fruto da simples invocação no momento do desespero. Mas é o fruto amadurecido do Espírito nas pessoas que foram cultivando nas pequenas coisas, nos acontecimentos ordinários do dia-a-dia os sentimentos e as atitudes do que é certo e autentico, em sintonia com as próprias convicções de fé e adesão ao caminho do Senhor.
Tudo isso tem a ver com a realidade batismal da segunda leitura.

2da leitura Rm 6,3-4. 8-11

São Paulo se surpreende da atitude dos cristãos que mostram não tomar em devida conta neles os efeitos do batismo. E pergunta em sentido provocatório “Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados?”. Eles estão mergulhados em Cristo e especificamente na morte dele.
Com estas palavras pretende afirmar a realidade muito singular dos efeitos liberatórios e regenerativos da morte de Cristo, sofrida fisicamente como conseqüência da resistência ao mal e ao pecado. Eles são como transferidos, pelo batismo, no profundo do ser do cristão e configuram sua verdadeira identidade.
Assim, do profundo da consciência da própria pessoa dominada pelo pecado, percebe-se o surgir da nova pessoa redimida, resgatada e renovada. Esta última é propriamente o conteúdo da fé na ação redentora e Cristo. O exercício e o reforço desta fé permitem se apropriar da vitoria de Cristo sobre o mal e o pecado e se perceber realmente como nova criatura. “ Pelo batismo na sua morte , fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela gloria do Pai, assim também nos levamos uma vida nova”
Portanto, o surgir da consciência da nova criatura lida com a ressurreição. Pois as duas realidades estão profundamente interligadas, pois, a ressurreição é nova vida. Assim, se apropriar pela fé dos efeitos da morte de Cristo é, ao mesmo tempo, se apropriar da verdade da ressurreição “Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele”.
A configuração de o novo ser, da nova vida, tem caráter estável, permanente capaz de não permitir que o mal e o pecado voltem a dominar na pessoa “Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele”. O apostolo especifica o significado e os efeitos da morte de Cristo, com a impressionante afirmação de que o mal e o pecado são vencidos de uma vez para sempre “ Pois aquele que morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas aquele que vive,é para Deus que vive”.
Então, Paulo explicita o sentido último do batismo com clareza e profundidade surpreendente “Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo”. Cultivar a consciência de estar em Jesus Cristo, pela fé nos efeitos da morte e ressurreição dele, é imprescindível para a correta vida cristã. Ela oferece os critérios para discernir o que aprofunda do que enfraquece esta união.
Mais ainda, a pessoa se percebe como insensível, morta, às seduções do pecado. Pois, o pecado continuará com sua ação propositiva e sedutora, mas encontrará uma realidade insensível, como seria agulhar um cadáver...
Esta verdade na medida em que se aprofunda se interioriza e se torna como sangue e vida do discípulo sustenta escolhas e atitudes surpreendentes e desconcertantes do ponto de vista humano, como o evangelho indica.

Evangelho Mt 10, 37-42

Quem ama seu pai ou sua mãe (...) seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim”. Cabe perguntar: em virtude de que Jesus coloca esta exigência tão desconcertante e radical do ponto de vista humano? Como é possível amar a Ele de maneira tal de antepor esse amor ao devido naturalmente aos pais, e dos pais para com os filhos?
Devemos a vida humana aos pais. Por meio deles somos seres viventes. Os laços que nos unem e eles são singularíssimos e únicos... Contudo, a qualidade da vida, a existência em sua expressão plena e bem sucedida não depende deles, nem somente do afeto e do amor que sustenta o relacionamento. Depende do que Jesus Cristo indica, oferece e sustenta como caminho certo no dia-a-dia. Conhecidas são as palavras Dele “Eu sou o caminho, (porque são) a verdade e a vida” (Jo 14,6).
Interiorizar o que Jesus Cristo é, o que ele fez e continua fazendo a favor de cada pessoa e da humanidade toda. Colocar a plena confiança amorosa no que ele realiza e oferece a com sua morte e ressurreição atualizada pela fé nos sacramentos é entrar em comunhão com Ele e perceber a grandeza e profundidade do amor dele, imensamente superior do legitimo afeto e amor dos pais e vive-versa.
Portanto, a afirmação de Jesus não diminuiu ou deslegitima o amor pais filhos e vice versa, mas o coloca na sua importância e certa posição. O verbo existir significa “ex...”- extrair do dentro, do mais profundo -. E da própria vivencia, a qualidade e o sentido último da vida doada pelos pais. Desta forma, é encaminhada a própria vida à existência bem sucedida. Tudo isso depende do sincero amor a Jesus Cristo, como resposta por ter percebido e acreditado no radical amor Dele.
Conseqüentemente o discípulo se sente mergulhado e envolvido do amor tão envolvente que se transforma em vontade imitadora, capaz de enfrentar e sofrer o que Jesus enfrentou e sofreu. Contudo, Jesus sabe da fraqueza e limite dessa vontade. E como ela deverá ultrapassar o medo de perder até a própria vida. Daí, então, a afirmação de Jesus de não ter medo de carregar a mesma cruz que ele carregou, pois o discípulo estará no mesmo caminho Dele e com Ele “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”.
Ultrapassar a barreira do medo é condição para ser autêntico discípulo. Para animar a não ficar preso do medo, Jesus coloca o famoso paradoxo cristão “Quem procura conservar a sua vida, vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”. Pois, a verdade da existência se encontra no seu contrario. O exemplo, o testemunho, disso é a ressurreição Dele.
Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou”. O discípulo se configura como representante de Cristo mesmo e como mediador do encontro com Deus Pai. O dom do discipulado tem como finalidade o envolvimento dos destinatários da missão na comunhão com Cristo no Pai pela dinâmica do Espírito Santo.
Nesta condição o discípulo é profeta, é justo. Toda ação, mesmo a mais comum e simples como dar “um copo de água fresca” terá sua importância e recompensa por parte de Deus. Tudo e cada circunstância será oportunidade e motivo para manifestar o mistério do amor de Deus. Nada será esquecido nem perdido.
Cada instante da existência será um momento favorável, um momento de graça e de plenitude. Perdendo tudo por causa Dele é se re-apropriar da existência do mundo inteiro. É o mistério de Deus presente no mundo e ao alcance de todos.

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