1ª leitura Is 55,6-9
“Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto”. As palavras estão dirigidas àqueles que perderam a referencia e se desviaram do caminho do Senhor. A desatenção, a superficialidade, o desinteresse, em fim o pecado, fizeram que paulatinamente chegassem ao ponto em que estão. É o que se deduz das palavras a continuação.
As palavras se dirigem ao ímpio e ao homem injustos. O ímpio não quer saber nada do Senhor, age sem ter em conta a Lei. O injusto desrespeita a Lei, a burla e a explora, pois, procura sua própria vantagem. De toda maneiras, há como remediar, pois, o Senhor está perto e pode ser achado se tiver a intenção e a vontade de conversão.
“Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações”. O âmbito da conversão é o caminho certo e deixar as maquinações É preciso retomar o caminho certo, o caminho da Aliança. Todo caminho tem uma meta e uma finalidade. A meta é o reino de Deus, a nova ordem social, na qual cada pessoa é respeitada, valorizada e viva em solidariedade e fraternidade com o ambiente e o povo em geral, reconhecendo a soberania do Senhor por vivenciar os termos da aliança e suas exigências.
É preciso também respeitar a Lei, pelo espírito à qual aponta e não simplesmente o cumprimento ao pé da letra. É preciso evitar toda maquinação, o uso instrumental dela para segundos fins, a vantagem própria ou do grupo ao qual pertence.
Então o Senhor “terá piedade dele, (...) é generoso no perdão”, acolherá o arrependido com todo o carinho e afeto, como se acolhe um familiar, e desmanchará para sempre todo pecado. Restabelecida a comunhão e a amizade com Deus, experimentará o amor generoso do Senhor.
Para enxergar o caminho do Senhor e cumprir o espírito da Lei precisa se aproximar ao Senhor com novos critérios, pois, “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos”. Para dar idéia do tamanho da diferença usa outra comparação “Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra”.
O ponto de partida é Deus. Portanto, é preciso particular e constante atenção nos pensamentos e no caminho do Senhor, porque é muito fácil atribuir a Ele o que simplesmente é o próprio pensamento, desejo e vontade. Com outras palavras, é prestar atenção ao fim, aos meios para atualizá-la e as condições de vida do povo e das pessoas.
Precisa intuição, criatividade e coragem, assim como determinação da vontade e a lucidez da inteligência, para realizar o caminho do dia- a- dia em sintonia com o caminho do Senhor. Por outro lado, a atitude de Deus para com o ímpio e o injusto já é uma boa indicação, um modelo valido a ser imitado. Pois, diz o Senhor “quero amor, não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais que sacrifícios” (Os 6,6). Com outras palavras, resgate e vida em abundancia para todos.
Muitas vezes, tudo isso exige caminhar na contra mão com respeito aos desejos e expectativas dos poderosos, pressupõe uma forte identificação com o pensamento e o caminho, e a pessoa de Jesus Cristo.
É o que Paulo toca o mesmo tema na segunda leitura.
2da leitura Fl 1,20c-24.27a
“Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo”. Os caminhos e os pensamentos de Deus não são mais distantes quanto está o céu acima da terra, pois, céu e terra se uniram na pessoa de Cristo. Jesus os manifestou na sua pessoa, na sua missão e, sobretudo, na morte e ressurreição, em virtude da qual foi constituído como Cristo, o Messias, o ungido de Deus.
O importante não é só existir, mas a qualidade da vida. Viver à altura do Evangelho é se identificar com a pessoa de Jesus e se comprometer com a missão Dele. É ficar a vontade imitando Jesus Cristo, consciente do que isso comporta em termos de fidelidade, e do destino de glória ao qual leva.
“Pois, para mim, o viver é Cristo”. O que a expressão passa é algo totalizante, único e insubstituível. Identificar o Cristo, - o Jesus glorificado – como vida sem nenhum outro acréscimo, se não for o que diz respeito á sua pessoa á sua missão e experiência de evangelizador neste mundo, significa ter interiorizado na raiz do próprio ser a realidade do Ressuscitado.
Isso se realiza nos trilhos da solidão imensa -o abandono, até dos próprios íntimos e familiares- por um lado, e da comunhão total com o mistério de Deus pelo outro, tendo como força motora da vida a paixão pela verdade, ou seja, tudo o que implanta a lei da caridade em todos- pessoas e sociedade- e em tudo.
Portanto, Paulo percebe que “Cristo vai ser glorificado no meu corpo”. Esta experiência o leva à convicção que a glorificação já no presente, faz que a realidade do corpo fique atingida, também, depois da morte. A convicção se torna tão solida da afirmar “...morrer é lucro”.
Assim, a singular união entre presente e futuro, entre a glorificação do corpo pela vivencia nele da presença de Cristo, e a realidade do mesmo corpo após a morte na plenitude dessa mesma gloria já presente, revela como o presente e o futuro está intima e profundamente unido.
Mas também revela o destino, o sentido último e definitivo da existência, como participação plena no mistério de Deus que, pela expressão de Paulo em outro lugar, não há comparação com o momento presente, e pelo qual merece todo sacrifício e entrega.
Daí o dilema “Sinto-me atraído para os dois lados: tenho o desejo de partir, para estar com Cristo- o que para mim seria de longe melhor- mas para vos é necessário que eu continue minha vida neste mundo”. Contudo, o que prevalece não é o desejo pessoal, mas o sentido de responsabilidade para com o próximo, manifestação da caridade, do amor, que norteia e caracteriza sua personalidade.
É o contrario dos trabalhadores da primeira hora do evangelho.
Evangelho Mt 20,1-16ª
A parábola é bem conhecida, sobretudo pelo final desconcertante do ponto de vista da lógica e dos critérios humanos. A reclamação ao patrão dos trabalhadores da primeira hora “Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualastes a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia” é plenamente a maneira de pensar de todos. Quem não reclamaria numa circunstância parecida?
Um pouco irritado “Toma o que é teu e volta para casa!”, o patrão, no primeiro momento, se justifica: “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata?” e a continuação motiva a decisão dele “Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti” e argumenta em nome da absoluta liberdade de dispor o que é seu “Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?”.
Revela-se uma pessoa plenamente consciente do que faz. É absolutamente livre na sua determinação da toda consideração apresentada, bem manifestando lógica e sentido humano de justiça e de retidão. Ele quer ultrapassá-la, em nome do critério não considerado pelos operários da primeira hora.
Há uma radical divergência que o patrão procura apontar com dois termos: inveja e bondade “Ou estás com inveja, porque eu estou sendo bom?”. Cabe uma pergunta: como entender o relacionamento entre inveja e bondade, no caso específico da parábola?
Não é fácil responder, faltam elementos para uma resposta contundente. Uma primeira resposta poderia ser que os operários invejam a bondade do patrão. É o sentido imediato da colocação. Tal vez, o mesmo sentimento e atitude de bondade do patrão estavam inconscientes no profundo deles. No momento deles vê-lo concretizado na pessoa do patrão, eis comparecer a inveja. Teriam, gostado de ter a mesma bondade, mas, outros critérios falaram mais alto. Portanto, a palavra do patrão faz emergir o bom e o verdadeiro do profundo deles.
Foi uma resposta simplesmente irônica? Tal vez poderia ter algo disso, uma sutil ironia. Mas não era nem o momento, nem o contexto para isso. Na forte tensão, onde está em jogo o direito, a justiça, a reclamação do que é tido como correto, não cabe fazer ironia, a pessoa ficaria ainda mais revoltada. Então, seria uma maneira do patrão fugir da confrontação.
Outra resposta. Os operários da primeira hora são invejosos porque teriam podido ganhar o mesmo com muito menor esforço “tu os igualastes a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia”. E tudo isso por causa e não sabendo anteriormente da bondade do patrão... A inveja surge pela excessiva bondade do patrão para com os últimos. Os primeiros se sentiram menos considerados. Um pouco como o filho mais velho na parábola do filho pródigo...
Cabe a pergunta: merece, então, trabalhar na vinha do Senhor desde cedo, como os operários da primeira hora? Não é melhor aguardar, ociosos, a última hora? Deus é bom e, portanto, dá para conseguir o mesmo dos operários das primeiras horas! Mesmo que a lógica diria que sim, evidentemente, não é por aí o encaminhamento. Então?...
“O Reino dos Céus é como a historia...”. Parece-me que o relato passa a certeza de que o reino está ao alcance de todos, e em todo momento. Com efeito, a salvação é uma necessidade para todos, indistintamente.
Ela não é questão de ter entrado na vinha antes ou depois; de mérito por ter trabalhado mais ou menos; mas de entrar... Os da última hora entraram sem saber quanto receberiam. Contudo, entraram. Tal vez, nem esperavam tanto, se soubessem da quantia contratada com os operários da primeira hora.
É difícil pela mentalidade humana se afastar dos critérios ligados ao mérito. Contudo, é o que faz a diferença para com Deus. Daí a advertência da primeira leitura “Meus pensamentos não (...) meus caminhos não são como os vossos caminhos”. Deus é como este patrão, como o pai do filho pródigo.
Não adianta entrar no reino com a antiga mentalidade. É se expuser às desilusões, é para ficar frustrado ou defraudado. Precisa partir da bondade e da gratuidade de Deus e o trabalho, a atividade nele, não é para adquirir méritos em ordem a ser retribuído dentro da lógica humana.
É atividade de se amar uns aos outro como Ele nos amou, dentro das expectativas e a lógica de Deus, que introduz para ficar no reino de Deus. Em fim, a parábola é convite à conversão nesta direção.
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