terça-feira, 6 de setembro de 2011

24o DOMINGO DO T.C.-A-(11-09-11)



1ª leitura Eclo 27,33-28,9

O rancor e a raiva são coisas detestáveis...”. O rancor é o estado de ânimo de quem não esquece a ofensa, pelo contrário, ela está sempre presente e perturba a paz interior. Continuamente ele remexe o mundo interior, se torna desgastante e acaba com a serenidade da pessoa. A raiva é o sentimento de irritação incontrolável e explode. É o que torna a pessoa como cega, pois, não permite pensar e menos raciocinar.
Os dois sufocam os bons sentimentos e sustentam o ódio. Mas, também, alimentam a vingança. A vingança é a atitude pela qual se inflige um dano muito maior daquele recebido, com a finalidade de mostrar uma força maior, dominar ou afastar para sempre o outro. Ela estabelece o domínio do ódio.
“...até o pecador procura dominá-las”. O ruim e o devastador delas são bem conhecidos pelo pecador. Como ter domínio e controle sobre elas. Como consegui-lo? “Lembra-te do teu fim (...) pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos (...). Pensa nos mandamentos (..). Pensa na Aliança do Altíssimo”. Pensar no fim da vida, na morte, é considerar que tudo terminará em algo pelo qual não vale, nem é sábio, perseverar e manter rancor e raiva. Elas só estragam o presente, os dias da breve existência humana.
Por outro lado, há atitudes a ser incentivadas. Em primeiro lugar, a observância e perseverança nos mandamentos. É a maneira de amar o Senhor para o próximo, inclusive aquele que ofendeu e pelo qual se sente rancor e raiva. Com efeito, o amor ao Senhor tem sua motivação na Aliança estabelecida no Sinai e na promessa da terra prometida “Pensa na aliança do Altíssimo”. Na medida em que o coração acredita e assume este amor, compreende a compaixão e a misericórdia do Senhor para com ele.
Conseqüentemente, será possível cumprir a indicação do Senhor “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo” e ter a certeza de que “quando orares teus pecados serão perdoados”. Pode doar o que recebeu.
Em segundo lugar, se manter nesse amor não é espontâneo nem mecânicos, mas precisa atenção e praticar os mandamentos. Daí a indicação de pensar e perseverar neles. Por outro lado, são a maneira de cumprir o pacto e as exigências da Aliança.
Portanto, o que é humanamente muito difícil – ficar livre do rancor e vencer a raiva -, (esquecer é impossível) em fim perdoar, é possível em virtude da aliança , da pratica das suas exigências e do bom senso perante a brevidade da existência.
Contudo, pelo livre arbítrio, a pessoa pode escolher de ficar na vingança “Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados”. A indiferença às indicações do Senhor, a insensibilidade e não acreditar Nele, é rejeitar o amor Dele. Não acolhendo o amor, menos ainda há condição de doá-lo.
Pedir severas contas dos pecados não é retorço, uma espécie de olho por olho e dente por dente, uma vingança. É conseqüência e manifestação de não acreditar no amor do Senhor. Assim, a pessoa se privou da possibilidade de ficar livre do rancor e da raiva. Portanto, ficar preso deles, ou seja do pecado, separa e isola , faz impossível a comunhão com o próximo e vencendo a barreira do ódio.
Jesus mesmo é o primeiro que derruba a barreira di ódio. Paolo faz experiência disso e testemunha, conforme escrito na 2da leitura.

2da leitura Rm 14,7-9

Eis a afirmação fundamental: “pertencemos ao Senhor”. O apostolo tem consciência de que ele (e todos os cristãos conscientes) pertence ao Senhor e o Senhor lhe pertence. Portanto, não há nele rancor e raiva para com aqueles que foram e são causa das múltiplas ofensas, desrespeito, violência verbal e física.
Paulo chegou e esta convicção e estado de animo por observar exatamente as indicações da primeira leitura. Mas com uma diferença: a Aliança é a estabelecida por Cristo com sua morte e ressurreição. E os mandamentos, ou melhor o mandamento, é amar como ele amou “Cristo morreu e ressuscitou exatamente para isto”.
A passagem de perseguidor a seguidor e apóstolo de Cristo, iniciado em Damasco, foi acrescentando e se consolidando pela fé e pela experiência de ter sido amado por Cristo “me amou e se entregou por mim”(Gl 2,20). Daí a consciência da aliança sólida, consistente e inquebrantável.
Tudo o demais escorrega, como água sobre impermeável, não afeta nem mexe com o seu ser profundo. Pois, ficando no rancor e na raiva se tornaria vítima deles ao ponto de desmanchar, no sentido de não perceber nem acreditar no perdão e na misericórdia de Deus alcançada pela entrega do Filho.
A partir da certeza da importância da vida e da entrega de Jesus Cristo “Senhor dos mortos e dos vivos”, Paulo afirma como a vida de todo cristão consciente deve ser caracterizada pela dedicação, e, assim, orientada e determinada pelo Senhor . O Senhor é o eixo dela “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos”.
Portanto, declina o seu contrario “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo”. É uma indicação importante, pois, faz eco à palavra de Jesus: quem quer salvar a própria vida vai perdê-la, e o contrário, quem perder a sua vida pela causa do evangelho vai salvá-la. É prestar atenção em não ser dominado pelo egoísmo.
Com efeito, fazer do próprio eu o eixo da existência, seria como quem fica olhando o próprio umbigo, é um suicídio psicológico, moral e espiritual. Pode levar a pessoa à depressão, a não se encontrar, não ter sentido de viver etc.
É inevitável a dimensão egoísta do viver. Mas é necessário prestar atenção e colocar uns indicadores que alertem quando ela se torna egocêntrica. Sinal disso é quando há dificuldade em se libertar do rancor e da raiva e cresce o desejo de vingança.
O evangelho oferece um modelo.

Evangelho 8, 21-35

As palavras finais oferecem o motivo da intervenção de Jesus “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. É impossível esquecer a ofensa recebida. Pelo contrário, é possível perdoar de coração, no sentido de não ficar preso do rancor e da raiva. É como olhar a cicatriz sarada. Lembra-se o acontecido, mas não doe mais.
A pergunta de Pedro “Senhor, quantas vezes devo perdoar (...) até sete vezes” é como se ele tivesse necessidade de ter uma regra à qual se ater, para se sentir justificado pelo cumprimento dela. A resposta de Jesus, além de não entrar nessa, pode indicar que o perdão deverá se praticado muito mais do que se pode pensar. Praticá-lo “sempre”- é o significado de “setenta vezes sete”- supõe conferir o correto relacionamento com o perdão recebido nos termos indicados pela parábola.
O empregado devia uma “enorme fortuna” ao seu patrão. Nem executando a ordem deste último de vender “a mulher e os filhos” teria conseguido extinguir a divida. A súplica do empregado prostrado, bem sendo mentirosa - pois, era objetivamente impossível que pagasse- “ Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo”, conseguiu mexer com o coração do patrão “teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a divida”.
Tal vez, o patrão se deixou levar pelo desespero do empregado ao vê-lo no beco sem saída, ao considerar o sofrimento dos inocentes, qual a mulher e os filhos. Tal vez lembrou-se da aliança e da misericórdia. Em fim, o empregado recebeu um presente enorme, tão grande como foi a divida dele...
Ao sair dali”. Imediatamente depois frisa o contraste mais radical que mente humana pode pensar. A quantia que lhe devia um dos seus companheiros era irrisória. Assim é um contraste radical a inflexibilidade em exigir que seja encarcerado, apesar das mesmas súplicas dele perante do patrão. (Evidentemente, o relato é uma parábola).
Cabe a pergunta: esta atitude do servo o que revela da personalidade dele? Ter amontoado uma enorme divida não foi coisa de tempo breve. Cabe supor a permanente atitude desonesta. Por outro lado, o que manifesta para com o seu companheiro é arrogância, presunção, indiferença, insensibilidade e crueldade. Um quadro humano, ético e espiritual que deixa muito desejar: um coração de pedra!
Nestas condições o gesto de prostração e as palavras da súplica para com o patrão, não vão além de uma estratégia vazia de todo sentimento e, portanto, impossibilitado de sentimentos de gratidão, de amor, que, por outro lado, tal vez nunca experimentou nem conheceu... Quem não acreditou nem experimentou o amor, não tem condição de doá-lo. Portanto não soube perdoar, porque não tinha condição para isso.
(Convido retomar ao comentário do evangelho do dia de Pentecostes, onde, na parte final, analiso a condição, os níveis e a profundidade do evento do perdão)
Cabe acrescentar que, tal vez, projete sua condição no companheiro. Diz o refrão “todo ladrão pensa que os demais sejam de sua condição” e, portanto, sabe como se “comportar”...
Os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo”. Eles manifestam sentimentos em sintonia com os do patrão e tomam atitude. Não caem na indiferença, no desinteresse pela condição do companheiro na prisão, menos ainda pensam que este último queria ser espertinho e enganar a quem devia, e que este, muito esperto, não se deixou enganar...
Tudo isso evidencia o grau de perversão do servidor infiel, como o serviço dele exercitado de maneira incorreta o leva à incapacidade de receber e doar amor.
É a alerta que o Senhor quer transmitir com as últimas palavras di texto. Não conseguir perdoar de coração manifesta uma espécie de corto circuito no crescimento humano e espiritual, que é preciso corrigir quanto antes, antes que seja demasiado tarde.

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