terça-feira, 31 de julho de 2012

18vo DOMINGO DO T.O.(05-08-12)

1ª leitura Ex 16,2-4.12-15

Momento altamente dramático. Após a saída do Egito começa a caminhada no deserto rumo à terra prometida, que marcará a chegada ao lugar onde o povo estabelecerá o estilo e a filosofia de vida em sintonia com os termos da Aliança estipulada no Sinai.

A poderosa libertação da escravidão foi o primeiro passo, no qual o povo experimentou o carinho e a atenção de Deus para com ele. Deus prometeu que os acompanhará na travessia do deserto, pois poderão contar com a sua presença e ajuda.

Contudo a caminhada será tudo, menos um passeio. O deserto não é um lugar confortável, só por ser um deserto, e durante caminhada vai faltando até o necessário para a sobrevivência. Onde está a presença e ação bondosa de Deus? A poderosa ação libertadora suscitou no povo a confiança no Senhor, como a de uma criança guiada pela mão do pai querido? A resposta é negativa.

“A comunidade dos filhos de Israel pôs-se a murmurar contra Moises e Aarão, no deserto”. Pois como chefes, foram eles os mediadores de Deus, e, portanto, a eles se dirige a dura reclamação “Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor no Egito, quando nos sentávamos junto às panelas de carne e comíamos pão com fartura!”.

Eles constatam que a saída e o novo caminho não foi ganho, pelo contrário, perderam até o que tinham para a sobrevivência. Com certeza escravos, mas com comida farta!

A libertação após o primeiro momento de entusiasmo é acompanhada da dureza e da dificuldade do novo ambiente e, até, de faltar o necessário, o básico.

É o paradigma de todo novo caminho. O sofrimento e o desconcerto podem chegar até o ponto de desejar voltar à situação anterior. E, para muitas pessoas, isso acontece. Pelo menos, em todos surge a pergunta: “Por que nos trouxestes a este deserto para matar de fome toda esta gente?”.

Ao surgir a dúvida de se ter dado o passo certo e, as perguntas ecoam insistentemente no mundo interior acompanhadas do abatimento do ânimo: Será que Deus nos abandonou? Será que foi engano? Será que a promessa evaporou? Momento angustiante e difícil, sem dúvida.

Chegado o ponto limite Deus intervém e Moisés anuncia em nome dele “Eis que farei chover para vós o pão do céu (...) Ao anoitecer, comereis carne, e pela manhã vos fartareis de pão “. E assim acontece. De manhã Moises mostra o fruto do agir de Deus que providencia o alimento “Isto é o pão que o Senhor cós deu como alimento”.

Cabe considerar que por si mesmo a grandiosa libertação da escravidão e a milagrosa intervenção de Deus na caminhada no deserto não conseguiram sustentar a confiança do povo na presença do Senhor no meio dele, abalada pelas circunstâncias desfavoráveis e imprevistas.

Com isso será menor a certeza de que Deus é fiel à promessa. O curto circuito se dá por não ter interiorizado a ação e a palavra Dele, mas por ter ficado só no evento primário da libertação da escravidão e satisfação da necessidade imediata da fome.

Não há sólida e consistente identificação com o Senhor em quanto Deus amoroso e ocupado em oferecer todo o necessário para a verdadeira vida do povo e estreitar com ele laços firmes e fortes.

O relacionamento é mais de tipo funcional às exigências do momento. Ainda não se estabeleceu por parte do povo o correto relacionamento. Ao longo do Antigo Testamento, todo esforço de Deus de ajudar e fazer entender em que consiste cai no vazio.

Será Jesus quem oferecerá uma oportunidade mais profunda e definitiva, como indica a segunda leitura.

2da leitura Ef 4,17.20-24

Paulo exorta os cristãos “Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade”. Trata-se de assumir a nova realidade, oferecida pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. Ela consiste em ser criado à imagem de Deus, por Ele nos conformar como filhos adotivos - filhos no Filho.

Sendo Jesus nosso representante perante o Pai, a vitória dele sobre o pecado é a nossa. O amor dele pelo qual entrega a vida para o nosso resgate, nos envolve e nos faz mergulhar nele. A eficácia em nós deste amor depende do acreditar nele e se perceber como homem novo criado a imagem de Deus.

É a nós oferecida a condição e possibilidade de revestirmo-nos da nova realidade, assim, que ser “imagem de Deus” lida com a consciência de ser realmente filhos de Deus, mesmo por adoção, mas, de todas as maneiras, sempre filhos. É como perceber estarmos já com ele no céu, mesmo estando na total condição humana.

Esta singular condição é participar da verdadeira justiça e santidade de Deus. Justo para Deus é que o homem se salve e chegue ao conhecimento da verdade. Assim, a verdade se faz no momento em que a pessoa participa da vida divina por ser constituído homem novo renovado e transformado pelo amor de Cristo, pela fé na eficácia de nos representar perante o Pai e nos passar sua vitória e tudo o que ganhou.

Esta é a prática da “verdadeira justiça e santidade” , o presente da nova condição e, com ela, a participação da vida divina e da santidade dele, pelo que puder ou couber na realidade humana.

Portanto, continua Paulo, “Renunciando à vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade”. O homem velho, mesmo sendo vencido, continua exercendo seu poder enganador e sedutor.

É preciso optar de se afastar, de renunciar a dar cabimento a ele. Ao mesmo tempo, em sentido positivo, é necessário dar espaço à ação do espírito renovando a mentalidade por perceber a realidade das pessoas, da humanidade e da história com os olhos de Deus. Gradativamente, a mente e o coração se aproximam sempre mais aos de Deus.

O que ele indica está em sintonia com o que Cristo ensinou. Não é fruto elaborado por ele, mas o que ele mesmo apreendeu. Pois, o que estava acontecendo era que os da comunidade estavam voltando à vida anterior do batismo, e isso preocupa muito Paulo “não continueis a viver como vivem os pagãos, cuja inteligência os leva para o nada”.

Voltar à vida de antes é não ter inteligência de fé, não ter elaborado na própria consciência, fixado no raciocínio e no profundo do próprio ser a compreensão do significado, da importância e do destino que Cristo nos ganhou, ofereceu e continua oferecendo de múltiplas maneiras.

Se assim fosse “não é assim que aprendeste de Cristo, se ao menos foi bem ele que ouvistes falar, e se é ele que vos foi ensinado, em conformidade com a verdade que está em Jesus”, entenderam todo errado, pois, nada disso corresponde à realidade do verdadeiro discípulo.

Sintonizar com Jesus é próprio da inteligência que se deixa conformar pela confiança na pessoa e na palavra dele, como exige o evangelho.

Evangelho Jo 6,24-35

Após a multiplicação dos pães “a multidão (...) subiram às barcas e foram à procura de Jesus”, com a intenção de proclamá-lo Rei. De imediato Jesus destaca o motivo pelo qual foram atrás dele “não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos”. Não forma além do estupor por ter comido e ficado satisfeito num lugar totalmente inadequado para isso.

Jesus dá um passo a frente abrindo conversa sobre o alimento que se perde, e os convida a procurar o “alimento que permanece até a vida eterna”. Com isso suscita interesse, também, por se referir ao “Filho do Homem(...) quem o Pai marcou com seu selo” - misterioso personagem da visão do profeta Daniel, em singular relação com o Ancião ao qual tudo será submetido - como quem darà este pão.

Frente a pergunta deles sobre o que fazer, Jesus responde “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou”, se referindo a ele mesmo. Para ter crédito Jesus deve provar sua competência e autoridade com um sinal. Só assim terá audiência. Daí a pergunta deles “Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto”. Evidentemente, não perceberem a multiplicação dos Pães como sinal que comprovasse sua idoneidade em pedir confiança. Por outro lado já Jesus tinha entendido isso “estais me procurando não porque vistes sinais”, mas por comer e ficar satisfeitos.

Mais um passo na frente de Jesus: “não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu”. Com isso afirma sua condição de Filho para com Pai e ao mesmo tempo conhecedor do agir do Pai, com respeito ao pão que receberam no deserto pela mediação de Moises. Manifesta sua identidade, para motivar e animar a confiança nele.

Neste primeiro momento, não se entende se por oportunidade, por prová-lo ou por convicção - tal vez os três - formulam um pedido especifico, como um meio voto de confiança “Senhor, dà-nos sempre desse pão”. Esperam um milagre ainda maior daquele do deserto “Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dà a vida ao mundo”.

A resposta de Jesus os intriga “Eu são o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”. Ele se apresenta como quem satisfaz plenamente e de forma permanente as exigências de vida de toda pessoa. Ele è como o pão necessário para viver. Só que não se trata do alimento costumeiro, mas surpreendentemente de um pedido de adesão e com fiança na pessoa dele.

A resposta ao desejo de vida em abundância e eterna è Ele. Uma mudança de registro surpreendente. De que maneira ele pode se tornar pão e responder satisfatoriamente ao que promete em termos de vida eterna?

A resposta è se aproximar, segui-lo, e ter confiança nele. Trata-se de se deixar conduzir, de colocar ele como o eixo da própria vida. Com isso, aquela pouca coisa – corruptível e passageira – que é vida humana, se torna realidade super abundante e consegue a satisfação plena, ou seja, a essência da existência: a vida eterna.

Jesus toma-os pela mão e passa do milagre da multiplicação, ao pão que não perece, de vida eterna, é a pessoa dele quem oferece este pão, porque é Ele mesmo. Contudo, mais Jesus se revela, mais o povo se afasta e desacredita nele, como analisaremos nos evangelhos das próximas semanas.

terça-feira, 24 de julho de 2012

17mo DOMINGO DO T.C.-B- (29-07-12)

1ª leitura 2 Rs 4,42-44

Esta pessoa que veio de Baal-Salisa oferece a Eliseu as primícias, portanto algo que pertence a Deus. São “pães dos primeiros frutos da terra: eram vinte pães de cevada e trigo novo”. Oferecer a Deus os primeiros frutos do trabalho é reconhecer eles como produto da própria inteligência laboriosidade e responsabilidade, mas também que anterior a tudo isso são dom Deus, que deu e acompanhou que tudo isso acontecesse.

Desta forma a pessoa assume o correto posicionamento de si consigo mesma e perante de Deus, reconhecendo por um lado sua condição de criatura, destinatária do cuidado e do amor de Deus. Por outro lado, ele reconhece a ação e benevolência de Deus para com ela pela atividade desenvolvida e pelos frutos do trabalho.

Valoriza a si mesma não excluindo a Deus em um ato de autossuficiência e, até, de soberba, mas, incluindo Aquele que reconhece como origem de tudo, também de tudo o que ela é e faz.

É um aspecto que hoje não é tomado com a devida consideração, mesmo pelos que acreditam em Deus. Ter cercado o relacionamento com Deus no âmbito da necessidade, do dever, e da troca de favores no horizonte do prêmio ou castigo na vida eterna após a morte.

Ter separado a vida dentro da Igreja, da comunidade, e aquela do dia - a - dia na sociedade como duas realidades que pouco e ou nada tem a ver uma com a outra. Fascinados pelos adiantamentos tecnológicos em todos os campos da modernidade, leva a pessoa a não considerar marcante e significativa a presença e ação de Deus na rotina dos acontecimentos diários.

Assim, as próprias capacidades humanas, a responsabilidade e esforço pessoas, assim como os frutos da própria atividade são percebidos no âmbito das próprias qualidades humanas, desligadas, ou com uma relação muito fraca, do Deus que está nos céus.

Voltando ao texto. Eliseu respondeu “Dá ao povo para que coma”. Notável a imediata ligação entre o oferecimento dos pães a Deus e a preocupação de Eliseu que o povo coma. Assim, compartilhar o pão para com o pobre é oferecer a Deus. Como não lembrar o famoso juízo final de Mateus no qual Jesus afirma “tive fome e me destes de comer”se identificando com o faminto.

Ao servo de Eliseu o pedido soou descabido “Como vou distribuir tão pouco para cem pessoas?”. Efetivamente do ponto de vista humano a perplexidade é sustentável, mas em ajuda vem a palavra do Senhor “Comerão e ainda sobrará”. A graça não substitui o humano, mas o potencializa.

Assim, “O homem distribuiu e ainda sobrou e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor”. Algo parecido se experimenta nas comunidades nos almoços compartilhados. Há comida para todos e ainda sobra.

Parece-me que não é algo casual, mecânico ou de rotina, mas a manifestação da eficácia do sentimento e da preocupação que a ninguém falte o necessário, para fazer do encontro com as pessoas um evento de fraternidade, de comunhão, um antecipação da festa no Reino de Deus, pois a palavra do Senhor orienta tudo a esta meta.

Tudo isso é fruto de colocar os valores e os sentimentos em sintonia com o indicado na segunda leitura por Paulo.

2da leitura Ef 4,1-6

Paulo se autodefine “prisioneiro do Senhor”, pois, aquele que não tem liberdade e vontade próprias, mas daquele do qual está preso. Com uma diferença, que não é por coação ou por imposição contra a própria vontade, mas por amor. O relacionamento com o Senhor é tão profundo, envolvente e gratificante que não há intenção nem vontade de sair ou se afastar dele. É como ser preso.

Desta sua experiência exorta os participantes da comunidade “a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes”.Trata-se do chamado para edificar a nova comunidade, como fermento e sal para o novo mundo e a nova criação, antecipação da chegada do Reino último e definitivo que será visível para todo o mundo com o “retorno do Ressuscitado”, no último dia.

Para isso é preciso proceder na comunidade “com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uma aos outros com paciência, no amor”. Humildade, mansidão e paciência são virtudes que brotam do amor sincero para o bem dos outros, da comunidade e da humanidade toda.

O amor que procede de Deus cria a unidade na diversidade das atividades e funções, portanto, “Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz”. Acredito que por unidade do espírito entende aquela que é proveniente da dinâmica da morte e ressurreição de Jesus e a conseguinte comunhão com Deus e entre os irmãos no respeito das múltiplas circunstâncias e diferentes culturas, línguas etc.

De fato, é essencial conferir se os resultados da ação pastoral são fruto da fidelidade da ação do Espírito por sintonizar com os sentimentos, a filosofia de vida e a prática de Jesus, que em toda circunstância praticou a dinâmica de morrer aos critérios do mundo para assumir aqueles de Deus, motivado, simplesmente, porque isso iria trazer para todos o resgate á vida plena, a salvação.

Com isso, o que Jesus instaurou não foi uma religião, mas uma dinâmica, um critério a ser aplicado em toda circunstância e nas diferentes culturas, que leva cada pessoa a ser autenticamente ela mesma e, por sua vez, capaz de se doar para que outras façam o mesmo. Assim a boa noticia do evangelho se torna boa realidade de comunhão, fraternidade e solidariedade com todos.

Nesta perspectiva se entende porque Paulo frisa com ênfase que há “um só Corpo e um só Espírito (...) uma só esperança (...) uma só Senhor (...) uma só fé, um só batismo, um só Deus Pai de todos...”. Com outras palavras, uma unidade que o contrário da uniformidade, mas que cada diversidade manifesta a presença destes elementos divinos.

Assim que há experiência “de um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por mio de todos e permanece em todos”, manifestação daquela comunhão pela qual Deus será “tudo em todos”( 1 Cor 15,28), ou seja o reinado de Deus.

É o milagre da união e da comunhão de participar todos da mesma mesa na abundância e alegria do Reino, como testemunha o evangelho.

Evangelho Jo 6,1-15

Para Jesus é um momento de grande sucesso pastoral, pois, “ Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes”. Sinais de cura, de libertação das doenças - do castigo de Deus ou por ser possuídos do demônio - por causa dos pecados, por ter infringido e não respeitado a Lei.

Por outro lado, “ Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com seus discípulos”. O monte é o lugar do encontro, da familiaridade da revelação de Deus. Esta atitude manifesta como se ele estivesse sentado sobre uma cátedra, ensinando, com seus seguidores e muita gente se aproximar para ser ensinados e instruídos.

A continuação vai ter a singular união entre a palavra, que está ensinando e a eficácia dela provocando Jesus do começo ao fim do evento com a pergunta “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” e logo Jesus procede para o estrepitoso milagre com os cinco pães e dois peixes, pouco mais que nada, para a multidão.

A multiplicação foi tão deslumbrante e surpreendente que “Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido”. E todos ficaram satisfeitos. Entre a insignificância do início e a magnitude do final ha uma diferença muito grande. Todos ficaram maravilhados e exclamavam “ Este è verdadeiramente o profeta, aquele que devia vir ao mundo”.

Com isso Identificam Jesus como o salvador esperado, aquele cuja palavra è eficaz e produz o que promete em orem ao esperado reino de Deus. Portanto, merece acreditar na sua pessoa e ensino. Terão pensado: se ele faz coisas come esta podemos esperar dele muito mais. Tudo o que desejamos para implantar o reino de paz e harmonia, está no poder dele. Então, reconheçamos a ele como rei, que mande e lhe obedeceremos.

Evidentemente, este pensamento do povo vai à mesma expectativa de quem esperava o mesmo efeito no evento das tentações no deserto : multiplicar os pães, gesto estrepitoso de se jogar da torre do templo e domínio sobre eles com tal que todos tenham paz e comida, sem se ter que preocupar demais uns para com os outros.

Estas características e expectativas do povo, tentação de Jesus, acompanham sempre a atividade pastoral de Jesus. Não são então, mas também hoje os seus discípulos estão continuamente tentados em responder a estas expectativas sem que povo assuma particular atenção compromisso e vontade de se envolver na dinâmica do amor, na prática da justiça e do direito, na filosofia de vida de Jesus. O povo gostaria que ele (s) resolvesse tudo com o próprio poder e força, foge de todo compromisso que imite seriamente Jesus, sobretudo se a perspectiva é a de abrir mão a algo que gosta e de jeito nenhum quer perder.

Jesus percebe isso “Mas quando notou que estavam querendo leva-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte” O milagre para os outros se tornou uma tentação para ele, ao ponto que para vencer a sedução deve retornar ao monte - outro lugar do encontro e diálogo com o Pai, como no deserto - para estreitar ainda mais a familiaridade e a intimidade com Ele e não cair na tentação.

Assim o sucesso por um lado, pode se tornar uma tentação pelo outro. A ação pastoral precisa de constante cuidado e verificação, sobretudo no momento que por alguma atividade bem sucedida é facílimo desviar-se , prejudicando até mesmo a própria pastoral.

terça-feira, 17 de julho de 2012

16to DOMINGO DO T.C. -B- (22-07-12)

1ª leitura Jr 23,1-6

Em contraposição ao momento presente a ao futuro próximo, o Senhor promete que “Naqueles dias, Judá será salvo e Israel viverá tranquilo; este é o nome com que o chamarão ‘Senhor, nossa justiça’”. Trata-se do evento futuro – sem data definida, mas, com certeza, muito para frente - no qual o Senhor implantará seu reinado sobre o povo eleito.

A principal característica será a nova ordem social, pela qual o povo experimentará a salvação, a tranquilidade, a harmonia e a paz. Nisto reconhecerão o “Senhor, nossa justiça”, como quem age para o bem de cada pessoa e de todos, indistintamente, implantando a justiça dele - a vivência do amor, do respeito, da fraternidade, e tudo o que sustenta a paz – no exercício correto do direito.

Tudo isso já deveria ser realidade, mas, infelizmente, é frustrada por causa das autoridades e dos governantes do povo, que deveriam, como pastores, apascentar corretamente o rebanho - o povo.

A eles Deus se dirige constatando a lastimável condição e dispersão do povo: “Vós dispersastes o meu rebanho, e o afugentastes e não cuidastes dele”.

Traído na confiança e nas expectativas, ele mesmo irá verificar as causas e tomar severas providências para com eles: “eis que irei verificar isso entre vós e castigar a malícia de vossas ações”, em consideração da escolha consciente da malícia, que caracterizou a ação deles e pela qual receberão o que merecem.

Por outro lado, Deus sente profunda compaixão para com o seu povo, vítima dos maus pastores, e, movido por ela e pela fidelidade à Aliança, anuncia a determinação de resgatá-lo: “Eu reunirei o resto de minhas ovelhas (...) e as farei voltar a seus campos, e elas se reproduzirão e multiplicarão”.

Assim a cada fracasso, desilusão e frustração por motivo da infidelidade daquele nos quais havia colocado sua confiança, Deus responde com a determinação de recomeçar, de perseguir o objetivo com outras pessoas, confiado de que estas sintonizem com o seu amor para o povo e assumam a missão de maneira certa.

Diríamos hoje que é um excesso de otimismo, sustentado pelo amor. Como quem não quer se conformar e aceitar como irremediáveis os defeitos e as lacunas da pessoa amada. Pois, sempre confia que a nova oportunidade dará os resultados esperados, mesmo não ignorando e consciente da fraqueza dela. É a confiança no poder transformador de quem manifesta e investe no dom do amor sincero e autêntico.

Ao longo da história, não só de Israel, mas também nossa de hoje, tal vez não percebemos a persistência, a magnitude e disponibilidade desse amor de Deus para com todos e em toda circunstância que nos afunda no mau fruto do pecado, com todas as lastimáveis consequências pessoais e sociais.

Pelo contrário, até criamos o antídoto a essa percepção pensando que, aconteça o que acontecer de negativo, Deus perdoa sempre, pois é o Pai cuja missão é perdoar, como se ele fosse obrigado pelo que Jesus fez a nosso favor. Com isso, cria-se como um perverso curto circuito que apaga toda atenção e valorização desse amor. Assim ele é banalizado em função de conservar e justificar os próprios interesses sabidamente maldosos.

Voltando a Deus, ele suscitará “novos pastores que as apascentam; não sofrerão mais o medo e a angustia, nenhuma delas se perderá”. Mais ainda, olhando para frente, enxerga uma pessoa muito especial, um descendente de Davi que “reinará como rei -salvador – e será sábio, fará valer a justiça e a retidão”.

A específica ação dele fará surgir aqueles dias nos quais “Judá será salvo e Israel viverá tranquilo; este é o nome com que o chamarão ‘Senhor, nossa justiça’”.Evidente que se refere a Jesus, como mostra a segunda leitura.

2da leitura Ef 2,13-18.

Paulo se dirige aos integrantes da comunidade partindo do pressuposto de que eles tinham consciência de estarem “em Jesus Cristo”, por acreditarem ter sido aceitos por Cristo pelos efeitos de sua morte e ressurreição.

Estar “em Jesus Cristo” é afirmar ter consciência de um laço de união, próprio entre amante o amado e do tipo: eu nele e ele em mim, pois, amante e amado se unem no amor. Este laço se torna possível pelo Filho ter assumido nossa carne e, com esta realidade, ser representante de todos os homens perante do Pai. Ao mesmo tempo, por parte do cristão, aceitar e acreditar nos efeitos desta representação.

Assim, a característica e a qualidade da entrega de Jesus, com o derramamento do próprio sangue- pela qual se tornou Cristo com a ressurreição - , produziu efeitos de grande importância para a pessoa individualmente, para a sociedade - humanidade e a criação toda.

O efeito geral é ter implantado objetivamente um novo ser, as condições do Reino de Deus e o processo do acontecer do novo céu e da nova terra, respectivamente na pessoa, na humanidade e na criação.

Em primeiro lugar ele destruiu a inimizade que constitui “o muro da separação” entre as pessoas e os povos. Inimizade sustentada, também, pela interpretação errada da Lei e dos mandamentos e, portanto, “aboliu a lei com seus mandamentos e decretos”. No seu lugar estabeleceu o que resume o sentido de todas as leis no mandamento de amar ao Senhor teu Deus, e amar o próximo como para si mesmo.

A consequência é a implantação da paz “Ele, de fato, é a nossa paz (...) veio anunciar a paz a vós que estáveis longes, e a paz aos que estavam próximos”, ou seja, uma nova ordem social que constitui o acontecer do Reino de Deus, finalidade da missão dele.

O ponto de partida do processo é a consciência que se gera nos que estão nele, um homem novo, que desmancha a separação entre judeu e pagãos - os outros -, em virtude de ser os primeiros integrantes do povo eleito por Deus e, portanto, herdeiros do Reino de Deus. Esta consciência fazia a diferença para com os outros povos, assim que os primeiros olhavam com sentido de superioridade os segundos, sendo isso motivo de divisão. Portanto. Cristo “quis, a partir do judeu e do pagão, criar em si um só homem novo, estabelecendo a paz”.

Isso é possível de ser percebido e realizado só por aqueles que têm firme consciência de estar “em Jesus Cristo”. O processo social decorre da clareza do evento teológico, espiritual e místico que Jesus Cristo torna possível naqueles que pela fé aceitam o que ele nos ganhou.

O efeito não é simplesmente uma nova realidade pessoal e uma nova ordem social, pois, eles mediam a compreensão e a experiência da comunhão trinitária. Eis, portanto que Paulo afirma “É graças a ele que uns e outros, em um só Espírito, temos acesso ao Pai”.

É a finalidade e o sentido da missão que Jesus confiou aos apóstolos e que começaram a realizar já estando com ele, e da qual o evangelho registra a atividade.

Evangelho Mc 6,30-34

Os apóstolos retornando da missão se encontram com Jesus relatam o que fizeram e o que aconteceu “os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado”. Dar conta do que aconteceu é importante momento de comunhão, de fraternidade tendo como eixo a característica, as dificuldades e o resultado da missão. Mais ainda, sendo as primeiras experiências.

O texto no relata o conteúdo da conversa, mas registra a atenção de Jesus ao cansaço deles “Vinde sozinhos para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Parece-me que coloca mais a atenção nas pessoas, na condição delas, do necessário para o bem-estar , neste caso o descanso, do que realizaram na atividade.

É um detalhe que faz meditar. Numa sociedade como a atual, que coloca o valor maior na eficiência produtiva, com pouca ou nenhuma atenção à pessoa e à condição humana dela, este toque é particularmente significativo da humanidade de Jesus, de sua sensibilidade e valorização, que ultrapassa o simples critério da eficiência.

“Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer”. A pregação chegou, deve ter sido muito eficaz e suscitado interesse a proximidade do Reino pelo Messias na pessoa de Jesus de Nazaré. De fato, mexeram muito neles, assim que, percebendo por onde iam com Jesus, “Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles”.

“Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão, e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”. Assim, a pregação dos apóstolos abriu um horizonte de esperança, no meio do sentimento de abandono por quem deveria orientá-los como pastores e guias. Cabe pensar que no meio do desconcerto de quem não tem rumo nem meta e o conseguinte desânimo e vazio interior, por não perceber o senso da vida, acrescentado pelas múltiplas dificuldades de todo tipo que os pobres, excluídos e marginalizados sofrem, a palavra dos apóstolos foi como a esperança da ressurreição.

Tudo isso tocou e mexeu com a sensibilidade e o sentimento de Jesus, fazendo que “esquecesse” o motivo pelo qual foram naquele lugar, e “Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”.

Considerando, também, outros momentos da vida dele, o que motiva Jesus à ação pastoral é a compaixão e a misericórdia. Elas são como as duas pernas do caminhar dele. Apesar do cansaço, ter ensinado muitas coisas supõe ter investido muito tempo e energia, não poupou nada para si mesmo, deu tudo o que estava em condição de oferecer. A compaixão e a misericórdia são a graça, o dom de Deus presente nele e em cada ser humano.

Assim perder a sensibilidade e cair na indiferença; fechar o coração aos sofrimentos e necessidades da pessoa que está ao lado e aos sete bilhões de homens e mulheres do planeta, tendo consciência das condições e possibilidade de sair ao encontro delas e contribuir para um futuro mais humano e justo para todos é a pior desgraça.

Jesus é o pastor, certo! Mas também nós com ele o somos, o desenvolvimento deste dom é o que caracteriza o autêntico cristão. Hoje é particularmente urgente criatividade, ousadia e coragem para isso, que serão atingidos no próprio coração e inteligências encharcadas pela compaixão e misericórdia.

domingo, 8 de julho de 2012

15to DOMINGO DO T.C. (15-07-12)


1ª leitura Am 7,12-15

“Não sou profeta nem sou filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo sicômoros”. Eis o autorretrato do profeta. Com absoluta sinceridade e transparência manifesta a Amasias, sacerdote de Betel, sua origem. Não esconde nada, nem está acanhado por sua humilde origem e por não pertencer a descendência dos profetas, mesmo exercitando a função.

Amasias considera Amós como estrangeiro, que sendo originário do sul do país, veio profetizar no norte, batendo de frente com o sacerdócio oficial ligado à instituição. Abre-se o conflito entre o profético da pregação de Amós - consciente de sua independência diante do poder civil e religioso - e a religião oficial de Amasias.

Assim, Amasias, considerando Amós como um dos profetas de profissão que ganha o próprio pão com tal exercício, o expulsa de Betel: “Vidente, sai e procura refúgio em Judá, onde possas ganhar teu pão e exercer a profecia” pois não terá condição de continuar profetizando “porque aí fica o santuário do rei e a corte do reino”.

Amós responde se apresentando como profeta enviado pelo Senhor “O Senhor chamou-me (...) me disse: Vai profetizar para Israel, meu povo”. O que está exercendo não é por outro motivo senão de cumprir a vontade do Senhor, prova está que nem de longe pensava que o Senhor lhe confiasse a missão, e falar o que tanto estava incomodando a todos.

A instituição - o rei, a corte – tinha sua organização profética como referencia para caminhar em sintonia com a vontade do Senhor, com os termos e as exigências da Aliança. Portanto, se sentia resguardada de erros e desvios e certinha no desenvolvimento da própria função.

O que deve ter acontecido de errado ao ponto que o Senhor teve que enviar a eles Amós desde o sul do país? Talvez aquilo que acontece a toda instituição quando não presta suficiente atenção e autocrítica em distinguir e separar a finalidade dos interesses da instituição mesma.

O fim da instituição é implantar o reino de Deus, o rei é o salvador - o defensor das viúvas, dos órfãos, das pessoas mais vulneráveis à exploração dos poderosos – aquele que garante a justiça e o direito. Através do rei, Deus reina sobre o povo, de maneira que o povo de Israel se perceba como povo de Deus, modelo de vida e luz para outras nações.

A realidade é que os interesses do rei e da corte estavam bem longe disso. Assim, a opressão, a exploração dos pobres era terrível, com total desinteresse da classe dirigente, só preocupada consigo mesma e com o gozar da boa vida escandalosa, comprada ao sofrimento do povo, pois, se tornaram como o declara o profeta em outra passagem “um bando de gozadores”. Quanto à justiça, o juiz se deixava corromper por um par de sandálias e a corrupção imperava no comércio.

Eis, então, o choque entre o profeta e a instituição. Como sempre, quando se estica a corda, ela se rompe da parte mais fraca, da parte do profeta. Entre a pessoa – o indivíduo – e a instituição, quem perde sempre é a primeira.

Em todas as instituições, infelizmente, é uma realidade atual. Se não fosse assim, a sociedade, o mundo seria outra realidade. Não faltam profetas e até mártires que testemunham a permanente ação de Deus, assim como das resistências e rejeição por parte das mesmas instituições que professam a mesma fé, que dizem acreditar no mesmo Deus.

É o escândalo permanente que acompanha a história dentro e fora da Igreja. A segunda leitura apresenta as características do profeta, do homem de Deus.

2da leitura 1Tm 6,11-16

Paulo exorta Timóteo lembrando a ele a vida eterna “para a qual foste chamado e pela qual fizeste tua nobre profissão de fé diante de muitas testemunhas” . Timóteo está passando por provações e dificuldades no desenvolvimento da missão, por presenciar na comunidade conflitos de vários tipos e pessoas cuja pregação e testemunho não são compatíveis com o dele. Com certeza está sendo provado, e, portanto, numa condição de fraqueza, que deve ter inspirado a palavra do apóstolo.

Em primeiro lugar, lembra a ele a identidade que manifestou na solene profissão de fé. Não tem que se afastar dela, não deve perder a referencia dela, pois, é fonte de vida eterna. À luz dela, o exorta Paulo “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna”. Portanto, é preciso que ele explique, ensine, corrija e argumente de maneira apropriada, para que a verdade com respeito à vida, morte e ressurreição de Jesus coloque em destaque os erros dos opositores.

Nesta luta, que visa manter a comunidade no caminho certo, ele, por ordem explícita de Paulo, porque a aposta em jogo é muito grande, deve guardar “o teu mandato íntegro e sem mancha até a manifestação gloriosa de nosso Senhor Jesus Cristo”. Isso, propriamente, é o combate da fé, no qual deve entrar com determinação, coragem e ousadia e sofrer – pois é combate – o que for preciso sem permitir a quebra da integridade do mandato.

Isso é a maneira de “conquistar a vida eterna”, a vida que já está nele como dom da fé na morte e ressurreição de Jesus da qual manifestou ter ciência certa , e que agora, pela luta, vai se consolidado e tomando consistência e força na personalidade dele. Com outras palavras vai se apropriando do conteúdo do dom de maneira tal que a vida eterna se torne um patrimônio estável nele.

Com isso terá a suficiente firmeza “até a manifestação gloriosa de nosso senhor Jesus Cristo”, pois, este evento era esperado como próximo e resolutivo para toda a humanidade da missão que Jesus confiou aos discípulos. Talvez, Paulo com estas palavras entendia outra coisa, sendo que esta manifestação não se deu, e ainda a estamos esperando. Talvez se referia a uma experiência de presença do ressuscitado que tem a ver com o momento último e final da historia, mesmo a história e o tempo continuando a serem tais. É um aspecto que merece atenção e aprofundamento.

Com certeza, esta referencia é muito importante, pois indica o destino, o ponto de chegada e, portanto, o sentido último da vida pessoal e da humanidade, sustenta e motiva todo empenho, luta e esforço “Esta manifestação será feita no tempo oportuno”, que nem Paulo sabe quando e de que maneira.

Só percebe com clareza que será obra do “ bendito e único Soberano (...) o único que possui a imortalidade e que habita numa luz inacessível, que nenhum homem viu, nem pode ver”. Parece-me que aqui há traços da experiência que teve do ressuscitado e da experiência de êxtase que ele mesmo descreve.

De toda maneira, Paulo indica que, como ele, também Timóteo, esteja continuamente “Diante de Deus, que dá vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu testemunho da verdade perante Pôncio Pilatos” para que entenda a importância da verdade contida no testemunho, mesmo que, como Jesus, por ela esteja marcado para morrer. A última e vitoriosa batalha é a entrega. Portanto, a Jesus Cristo “honra e poder eterno. Amém”.

Desta maneira ele se torna verdadeiro homem de Deus, verdadeiro profeta, o enviado, que “foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão”, porque tomado pela realidade de Deus.

O profeta, o enviado é o homem da palavra, como indica a parábola.

Evangelho Lc 16,19-31

A parábola é bem conhecida. Há um contraste escandaloso e radical entre o rico e o pobre. Contraste, também, após a morte dos dois: o primeiro no tormento e o segundo na glória, com Abraão.

Cuidado! A parábola não autoriza aprovar a vida do pobre e seus sofrimentos como consequência da conduta e indiferença do rico, como condição para o primeiro ganhar a vida eterna, mesmo que a resposta de Abraão ao rico possa levar a pensar nisso “Filho, lembra que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele...”.

Todo comportamento nesta vida será submetido ao juízo, ou melhor, à lei da bondade e da caridade será critério para a salvação ou a condenação. Contudo, a parábola tem outra finalidade que o diálogo do rico com Abraão evidencia.

O rico, consciente do grande erro pede “Pai, te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormentos”. A resposta “Eles tem Moisés o os profetas, que os escutem!”. Tem a constituição com todas suas indicações registradas na Lei, expressão da Aliança com Deus, e os profetas que nas diferentes circunstancias e na evolução dos tempos indicaram o correto entendimento das exigências da aliança.

Portanto, tem tudo o que precisam, não necessitam de outra coisa. Contudo, como quem tem uma indicação ainda maior e irrefutável, o rico insistiu “Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter”. Com isso, argumenta que um evento de tal magnitude e surpreendente, inevitavelmente suscitará a conversão, até das pessoas mais resistentes e afastadas da aliança.

Argumentação que aos critérios humanos parece mais que certa e válida. Muitos acreditam que a conversão a Deus, a partir do milagre desse tipo, é certa, firme e consistente, pois, que prova maior se poderia esperar? Também hoje é comum ouvir pessoas afirmar que ninguém sabe o que haverá após a morte, pois, nenhum dos mortos veio para informar o que há na outra vida.

Interessante que esta argumentação e expectativa são próprias de pessoas que se encaixam na resposta de Abraão “Se não escutam a Moisés, nem os profetas, eles não acreditarão” por ter conhecimento da palavra muito superficial e inconsistente, por ter vivencia da fé restrita à algumas obrigações de caráter devocional, sobretudo nos momentos de dificuldade e de aperto; por manter desligada a prática da fé na comunidade - participando do culto - da vida, das escolhas, do estilo de vida no dia-a-dia, nas diferentes circunstâncias. Uma vida, enfim, essencialmente voltada sobre si mesmo, os afetos familiares e os amigos, que é o caso do rico da parábola.

Abraão alerta o rico e todos os que pensam como ele “que não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”, pois, o que estabelece sólida convicção da verdade da ressurreição não é, em sentido próprio, a Lei de Moisés nem a Palavra dos profetas, mas o amor, a pratica da justiça e a implantação do direito de Deus que eles veiculam e transmitem.

O gesto espetacular e surpreendente, como pode ser o que pede o rico, gera admiração e estupor, mas ao mesmo tempo estabelece temor e distância com o seu autor, o contrário da verdadeira comunhão no amor e na gratidão.

terça-feira, 3 de julho de 2012

14to DOMINGO DO T.C.-B-(08-07-12)

1ª leitura Ez 2,2-5

Deus escolhe e envia no meio do seu povo o profeta Ezequiel. Pois “depois de me ter falado, entrou em mim um espírito que me pôs de pé”, assim, Deus comunica, se faz presente, revela-se, e manifesta sua vontade ao eleito, e este em atitude de respeito e prontidão coloca-se de pé, manifestando sua disponibilidade.

“Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação rebelde, que se afastaram de mim”. Na sua realidade de homem, de integrante do povo eleito, o profeta é enviado no meio da própria gente em nome d’Aquele de quem se afastaram.

Dá para perceber que não será uma missão fácil e, menos ainda, gratificante, pois encontrará um povo resistente e adverso ao Senhor, que se desviou da Aliança e tem o propósito de permanecer nesse mesmo desvio.

Deus descreve o afastamento em termos chocantes que não deixam espaço à esperança de sucesso “Eles e seus pais se revoltaram contra de mim até o dia de hoje”. A rejeição é consciente e determinada, assim que Deus os considera “filhos de cabeça dura e coração de pedra” .

Diante desta situação cabe se perguntar por que Deus insiste e persevera na atitude de resgatar o povo para si mesmo, sendo que o povo não quer saber nada dele. A resposta está no seu amor para com ele, no querer o bem, para ele se dedicar com todo si mesmo de forma gratuita, sem esperar recompensa.

Trata-se da fidelidade no amor, que na promessa de fazer dele o âmbito do seu reinado extensivo a todos os povos da terra, se encontra a si mesmo como o Deus da vida na felicidade da humanidade, que obediente e dócil às suas indicações vai se divinizando e participa da mesma glória dele.

No seu projeto Deus quer instalar um relacionamento simbiótico com a criação, com a obra de suas mãos, assim que a humanidade se divinize, e Deus cresça na sua divindade pelo que compete a sua participação e compromisso com a humanidade. Trata-se da grande sinfonia do amor, da alegria, do rir do universo, que em diferentes níveis o humano e o divino, conforme a própria natureza, cresce sem fim na vida em abundância.

Deus sabe que seu propósito encontrará resistência e rejeição. Portanto alerta o profeta “Quer te escutem, quer não - pois são um bando de rebeldes – ficarão sabendo que houve entre eles um profeta”.

O porquê da teimosia de Deus é que nos momentos de desconcerto, abatimento, da desgraça e sofrimento, como consequência de não ter respeitado o caminho da Aliança e dado as costas a Deus, saibam, lembrem que o Senhor não os abandonou, que esteve presente como um pai que cuida teimosamente dos filhos rebeldes.

A memória será motivo para valorizar o amor e a fidelidade de Deus à sua promessa, e com isso se arrepender e entrar no caminho de conversão, do retorno ao cumprimento das exigências da Aliança, ao qual o profeta insistentemente e em nome de Deus chamava o povo.

O profeta consciente disso tem que se dispor humana, psicológica e moralmente de maneira conveniente, para desenvolver corretamente sua missão e colocar seu coração não nos resultados - em sentido de resposta positiva e aceitação por parte dos destinatários - mas de familiaridade e intimidade com o Senhor e encontrar nele sua força e alegria, no meio das dificuldades e sofrimentos.

Importante, também, que tenha consciência dos próprios limites e fraquezas, dos quais Paulo da testemunho na segunda leitura.

2da leitura 2Cor 12,7-10

Paulo é consciente de mergulhar e participar da “extraordinária grandeza das revelações”, como estas mudaram para sempre a vida dele e sustentaram a certeza do destino final, assim como as determinações coerentes com respeito ao caminhar no dia a dia no desenvolvimento da missão que o Senhor lhe confiou.

Percebe que a soberba pode tomar conta dele. Não é para menos, quando toda pessoa é consciente da extraordinária grandeza na qual está envolvida, juntamente à motivação do desenvolvimento que decorre dela a favor de outros, da humanidade, em sintonia com o crescimento de todos.

Portanto, “Para que (...) não me ensoberbecesse, foi espetado na minha carne com um espinho (...) a fim de que não me exalte demais”. Este de se exaltar demais, é próprio dos convertidos que, como Paulo, passa de um extremo a outro, no caso dele, passar de perseguidor a apóstolo.

Em que consta o espinho, não é especificado. Paulo só manifesta que o incomoda e humilha muito, pois, “roguei três vezes ao Senhor que o afastasse de mim”. De toda maneira é algo em contraste inaceitável com sua identidade. Na carta aos Romanos destaca o mesmo conflito “Não faço o bem que quero e sim o mal que não quero (...).Infeliz de mim!Quem me livrará deste corpo de morte?”(7,19.24).

A resposta do Senhor é sempre a mesma “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta”. Assim, por um lado experimenta a extraordinária grandeza das revelações e pelo outro o espinho e a fraqueza, um contraste que diz muito com respeito à condição humana envolvida com a graça.

A singular e marcante experiência de conversão, de familiaridade e intimidade com Cristo, da qual decorre a força, dinamismo, coragem e ousadia que conhecemos, não faz dele um homem vencedor de toda tentação com respeito ao comportamento ético.

Não duvidará da graça em si mesma como constante dom de Deus, que age eficazmente no ser e em toda a pessoa. Contudo, teria desejado e esperava ter condição e força para vencer de uma vez para sempre comportamentos que não condizem com o dom recebido.

Isso desfaz o entendimento comum pelo qual, quem é favorecido de tão grande dom não cai na tentação e, portanto, cabe aguardar um comportamento modelo em todos os aspectos.

Com isso, não quer dizer que inevitavelmente tem que sucumbir, isso não. Mas simplesmente que a graça é dom, e permanece tal ainda quando é doada. Assim, o destinatário não se torna o dono dela, como se pudesse dispor como e quando quiser. A graça é sempre dom, presente. Em cada momento e circunstância poderá contar com ela, no sentido que deverá - pela fé - acreditar no renovado dom e experimentá-la de novo, de outra maneira se desvirtuaria a característica de dom.

A inteligência de Paulo lhe permite não desanimar nem se deprimir e tirar a conclusão positiva pela qual a fraqueza dele coloca em destaque a magnitude da graça de Deus. Assim a vitória sobre a tentação ou o perdão de Deus pela atualização dos efeitos da morte e ressurreição do Filho evidencia o seu imenso amor, paciência e misericórdia, e pelo outro manifesta a fortaleza de Paulo em vencer a tentação, assim como a consistência e solidez da fé dele em acreditar da grandeza do amor de Deus, além de todo critério humano.

É esse imenso amor que sustenta a atitude de Jesus no evangelho.

Evangelho Mc 6,1-6

“Jesus foi a Nazaré, sua terra”. Tudo lhe era familiar, evidentemente, e estava com seus discípulos. Estando com ele, entenderão o que vai acontecer quando o pregador é do mesmo ambiente.

O dia de sábado Jesus aproveitou para ensinar na sinagoga “Muitos que o escutavam ficavam admirados”. A fama de Jesus se tinha já espalhado por toda a região, e os habitantes de Nazaré puderam constatar a singularidade de sua pregação, falando como com quem tem autoridade e competência surpreendente.

Acrescentando a fama que tinha pelos milagres realizados, é inevitável que se perguntassem entre eles “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”.

Tudo não batia com a imagem que tinham dele quando estava com eles em Nazaré. Para piorar as coisas, deve ter falado coisas que os deixou desconcertados, ao ponto que “ficaram escandalizados por causa dele”.

Marcos não destaca o que disse Jesus. Só registra o comentário dele “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares.”. É notável que Jesus não explique, não argumente, não dê satisfação, não tome em consideração às dívidas e perguntas deles, bem ,sendo conhecedor das dificuldades objetivas, em consideração da experiência e da vivência com eles por longo tempo, antes de iniciar sua missão.

O evangelista registra que Jesus, “admirou-se com a falta de fé deles”, como se essa fé devesse ter brotado deles com naturalidade e ultrapassar as perguntas surgidas entre eles. O que teria legitimado este comportamento de Jesus e sua pretensão?

A qualidade vivência e a ética do seu comportamento quando estava com eles? A força argumentativa de sua pregação acompanhada dos sinais, dos conhecidos milagres, que fez? A manifestação de sua singular personalidade, pois, ele ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei? Não há resposta.

Parece-me que neste contexto a fé é colocada em nível do impacto, provocado pela percepção de um evento no mundo interior do ouvinte, em virtude do qual a pessoa toda se deixa tocar e envolver ou fica fora, se distancia dele.

Ante a surpresa e o desconcerto da atuação de Jesus, falou mais alto a desconfiança, a insegurança deles, assim que Jesus “não pode fazer milagre algum”. Isso indica que o acontecer do milagre se realiza na mútua confiança entre Jesus e o interlocutor: a palavra é acolhida como evento de transformação ao passo que Jesus torna eficaz o que ela significa.

É o que aconteceu na mulher no evangelho de domingo passado, à qual Jesus disse “tua fé te curou.Vai em paz e fica curada dessa doença” (Mc 5,34).

De toda maneira Jesus, não fica desmotivado, nem particularmente surpreendido, pois, já sabia que podia acontecer e simplesmente continua sua missão “Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando”. Chegou para ensinar e depois da falta de resposta da gente, continua ensinando...