terça-feira, 17 de julho de 2012

16to DOMINGO DO T.C. -B- (22-07-12)

1ª leitura Jr 23,1-6

Em contraposição ao momento presente a ao futuro próximo, o Senhor promete que “Naqueles dias, Judá será salvo e Israel viverá tranquilo; este é o nome com que o chamarão ‘Senhor, nossa justiça’”. Trata-se do evento futuro – sem data definida, mas, com certeza, muito para frente - no qual o Senhor implantará seu reinado sobre o povo eleito.

A principal característica será a nova ordem social, pela qual o povo experimentará a salvação, a tranquilidade, a harmonia e a paz. Nisto reconhecerão o “Senhor, nossa justiça”, como quem age para o bem de cada pessoa e de todos, indistintamente, implantando a justiça dele - a vivência do amor, do respeito, da fraternidade, e tudo o que sustenta a paz – no exercício correto do direito.

Tudo isso já deveria ser realidade, mas, infelizmente, é frustrada por causa das autoridades e dos governantes do povo, que deveriam, como pastores, apascentar corretamente o rebanho - o povo.

A eles Deus se dirige constatando a lastimável condição e dispersão do povo: “Vós dispersastes o meu rebanho, e o afugentastes e não cuidastes dele”.

Traído na confiança e nas expectativas, ele mesmo irá verificar as causas e tomar severas providências para com eles: “eis que irei verificar isso entre vós e castigar a malícia de vossas ações”, em consideração da escolha consciente da malícia, que caracterizou a ação deles e pela qual receberão o que merecem.

Por outro lado, Deus sente profunda compaixão para com o seu povo, vítima dos maus pastores, e, movido por ela e pela fidelidade à Aliança, anuncia a determinação de resgatá-lo: “Eu reunirei o resto de minhas ovelhas (...) e as farei voltar a seus campos, e elas se reproduzirão e multiplicarão”.

Assim a cada fracasso, desilusão e frustração por motivo da infidelidade daquele nos quais havia colocado sua confiança, Deus responde com a determinação de recomeçar, de perseguir o objetivo com outras pessoas, confiado de que estas sintonizem com o seu amor para o povo e assumam a missão de maneira certa.

Diríamos hoje que é um excesso de otimismo, sustentado pelo amor. Como quem não quer se conformar e aceitar como irremediáveis os defeitos e as lacunas da pessoa amada. Pois, sempre confia que a nova oportunidade dará os resultados esperados, mesmo não ignorando e consciente da fraqueza dela. É a confiança no poder transformador de quem manifesta e investe no dom do amor sincero e autêntico.

Ao longo da história, não só de Israel, mas também nossa de hoje, tal vez não percebemos a persistência, a magnitude e disponibilidade desse amor de Deus para com todos e em toda circunstância que nos afunda no mau fruto do pecado, com todas as lastimáveis consequências pessoais e sociais.

Pelo contrário, até criamos o antídoto a essa percepção pensando que, aconteça o que acontecer de negativo, Deus perdoa sempre, pois é o Pai cuja missão é perdoar, como se ele fosse obrigado pelo que Jesus fez a nosso favor. Com isso, cria-se como um perverso curto circuito que apaga toda atenção e valorização desse amor. Assim ele é banalizado em função de conservar e justificar os próprios interesses sabidamente maldosos.

Voltando a Deus, ele suscitará “novos pastores que as apascentam; não sofrerão mais o medo e a angustia, nenhuma delas se perderá”. Mais ainda, olhando para frente, enxerga uma pessoa muito especial, um descendente de Davi que “reinará como rei -salvador – e será sábio, fará valer a justiça e a retidão”.

A específica ação dele fará surgir aqueles dias nos quais “Judá será salvo e Israel viverá tranquilo; este é o nome com que o chamarão ‘Senhor, nossa justiça’”.Evidente que se refere a Jesus, como mostra a segunda leitura.

2da leitura Ef 2,13-18.

Paulo se dirige aos integrantes da comunidade partindo do pressuposto de que eles tinham consciência de estarem “em Jesus Cristo”, por acreditarem ter sido aceitos por Cristo pelos efeitos de sua morte e ressurreição.

Estar “em Jesus Cristo” é afirmar ter consciência de um laço de união, próprio entre amante o amado e do tipo: eu nele e ele em mim, pois, amante e amado se unem no amor. Este laço se torna possível pelo Filho ter assumido nossa carne e, com esta realidade, ser representante de todos os homens perante do Pai. Ao mesmo tempo, por parte do cristão, aceitar e acreditar nos efeitos desta representação.

Assim, a característica e a qualidade da entrega de Jesus, com o derramamento do próprio sangue- pela qual se tornou Cristo com a ressurreição - , produziu efeitos de grande importância para a pessoa individualmente, para a sociedade - humanidade e a criação toda.

O efeito geral é ter implantado objetivamente um novo ser, as condições do Reino de Deus e o processo do acontecer do novo céu e da nova terra, respectivamente na pessoa, na humanidade e na criação.

Em primeiro lugar ele destruiu a inimizade que constitui “o muro da separação” entre as pessoas e os povos. Inimizade sustentada, também, pela interpretação errada da Lei e dos mandamentos e, portanto, “aboliu a lei com seus mandamentos e decretos”. No seu lugar estabeleceu o que resume o sentido de todas as leis no mandamento de amar ao Senhor teu Deus, e amar o próximo como para si mesmo.

A consequência é a implantação da paz “Ele, de fato, é a nossa paz (...) veio anunciar a paz a vós que estáveis longes, e a paz aos que estavam próximos”, ou seja, uma nova ordem social que constitui o acontecer do Reino de Deus, finalidade da missão dele.

O ponto de partida do processo é a consciência que se gera nos que estão nele, um homem novo, que desmancha a separação entre judeu e pagãos - os outros -, em virtude de ser os primeiros integrantes do povo eleito por Deus e, portanto, herdeiros do Reino de Deus. Esta consciência fazia a diferença para com os outros povos, assim que os primeiros olhavam com sentido de superioridade os segundos, sendo isso motivo de divisão. Portanto. Cristo “quis, a partir do judeu e do pagão, criar em si um só homem novo, estabelecendo a paz”.

Isso é possível de ser percebido e realizado só por aqueles que têm firme consciência de estar “em Jesus Cristo”. O processo social decorre da clareza do evento teológico, espiritual e místico que Jesus Cristo torna possível naqueles que pela fé aceitam o que ele nos ganhou.

O efeito não é simplesmente uma nova realidade pessoal e uma nova ordem social, pois, eles mediam a compreensão e a experiência da comunhão trinitária. Eis, portanto que Paulo afirma “É graças a ele que uns e outros, em um só Espírito, temos acesso ao Pai”.

É a finalidade e o sentido da missão que Jesus confiou aos apóstolos e que começaram a realizar já estando com ele, e da qual o evangelho registra a atividade.

Evangelho Mc 6,30-34

Os apóstolos retornando da missão se encontram com Jesus relatam o que fizeram e o que aconteceu “os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado”. Dar conta do que aconteceu é importante momento de comunhão, de fraternidade tendo como eixo a característica, as dificuldades e o resultado da missão. Mais ainda, sendo as primeiras experiências.

O texto no relata o conteúdo da conversa, mas registra a atenção de Jesus ao cansaço deles “Vinde sozinhos para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Parece-me que coloca mais a atenção nas pessoas, na condição delas, do necessário para o bem-estar , neste caso o descanso, do que realizaram na atividade.

É um detalhe que faz meditar. Numa sociedade como a atual, que coloca o valor maior na eficiência produtiva, com pouca ou nenhuma atenção à pessoa e à condição humana dela, este toque é particularmente significativo da humanidade de Jesus, de sua sensibilidade e valorização, que ultrapassa o simples critério da eficiência.

“Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer”. A pregação chegou, deve ter sido muito eficaz e suscitado interesse a proximidade do Reino pelo Messias na pessoa de Jesus de Nazaré. De fato, mexeram muito neles, assim que, percebendo por onde iam com Jesus, “Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles”.

“Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão, e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”. Assim, a pregação dos apóstolos abriu um horizonte de esperança, no meio do sentimento de abandono por quem deveria orientá-los como pastores e guias. Cabe pensar que no meio do desconcerto de quem não tem rumo nem meta e o conseguinte desânimo e vazio interior, por não perceber o senso da vida, acrescentado pelas múltiplas dificuldades de todo tipo que os pobres, excluídos e marginalizados sofrem, a palavra dos apóstolos foi como a esperança da ressurreição.

Tudo isso tocou e mexeu com a sensibilidade e o sentimento de Jesus, fazendo que “esquecesse” o motivo pelo qual foram naquele lugar, e “Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”.

Considerando, também, outros momentos da vida dele, o que motiva Jesus à ação pastoral é a compaixão e a misericórdia. Elas são como as duas pernas do caminhar dele. Apesar do cansaço, ter ensinado muitas coisas supõe ter investido muito tempo e energia, não poupou nada para si mesmo, deu tudo o que estava em condição de oferecer. A compaixão e a misericórdia são a graça, o dom de Deus presente nele e em cada ser humano.

Assim perder a sensibilidade e cair na indiferença; fechar o coração aos sofrimentos e necessidades da pessoa que está ao lado e aos sete bilhões de homens e mulheres do planeta, tendo consciência das condições e possibilidade de sair ao encontro delas e contribuir para um futuro mais humano e justo para todos é a pior desgraça.

Jesus é o pastor, certo! Mas também nós com ele o somos, o desenvolvimento deste dom é o que caracteriza o autêntico cristão. Hoje é particularmente urgente criatividade, ousadia e coragem para isso, que serão atingidos no próprio coração e inteligências encharcadas pela compaixão e misericórdia.

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