1ª leitura Ez 2,2-5
Deus escolhe e envia no meio do seu povo o profeta Ezequiel. Pois “depois de me ter falado, entrou em mim um espírito que me pôs de pé”, assim, Deus comunica, se faz presente, revela-se, e manifesta sua vontade ao eleito, e este em atitude de respeito e prontidão coloca-se de pé, manifestando sua disponibilidade.
“Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação rebelde, que se afastaram de mim”. Na sua realidade de homem, de integrante do povo eleito, o profeta é enviado no meio da própria gente em nome d’Aquele de quem se afastaram.
Dá para perceber que não será uma missão fácil e, menos ainda, gratificante, pois encontrará um povo resistente e adverso ao Senhor, que se desviou da Aliança e tem o propósito de permanecer nesse mesmo desvio.
Deus descreve o afastamento em termos chocantes que não deixam espaço à esperança de sucesso “Eles e seus pais se revoltaram contra de mim até o dia de hoje”. A rejeição é consciente e determinada, assim que Deus os considera “filhos de cabeça dura e coração de pedra” .
Diante desta situação cabe se perguntar por que Deus insiste e persevera na atitude de resgatar o povo para si mesmo, sendo que o povo não quer saber nada dele. A resposta está no seu amor para com ele, no querer o bem, para ele se dedicar com todo si mesmo de forma gratuita, sem esperar recompensa.
Trata-se da fidelidade no amor, que na promessa de fazer dele o âmbito do seu reinado extensivo a todos os povos da terra, se encontra a si mesmo como o Deus da vida na felicidade da humanidade, que obediente e dócil às suas indicações vai se divinizando e participa da mesma glória dele.
No seu projeto Deus quer instalar um relacionamento simbiótico com a criação, com a obra de suas mãos, assim que a humanidade se divinize, e Deus cresça na sua divindade pelo que compete a sua participação e compromisso com a humanidade. Trata-se da grande sinfonia do amor, da alegria, do rir do universo, que em diferentes níveis o humano e o divino, conforme a própria natureza, cresce sem fim na vida em abundância.
Deus sabe que seu propósito encontrará resistência e rejeição. Portanto alerta o profeta “Quer te escutem, quer não - pois são um bando de rebeldes – ficarão sabendo que houve entre eles um profeta”.
O porquê da teimosia de Deus é que nos momentos de desconcerto, abatimento, da desgraça e sofrimento, como consequência de não ter respeitado o caminho da Aliança e dado as costas a Deus, saibam, lembrem que o Senhor não os abandonou, que esteve presente como um pai que cuida teimosamente dos filhos rebeldes.
A memória será motivo para valorizar o amor e a fidelidade de Deus à sua promessa, e com isso se arrepender e entrar no caminho de conversão, do retorno ao cumprimento das exigências da Aliança, ao qual o profeta insistentemente e em nome de Deus chamava o povo.
O profeta consciente disso tem que se dispor humana, psicológica e moralmente de maneira conveniente, para desenvolver corretamente sua missão e colocar seu coração não nos resultados - em sentido de resposta positiva e aceitação por parte dos destinatários - mas de familiaridade e intimidade com o Senhor e encontrar nele sua força e alegria, no meio das dificuldades e sofrimentos.
Importante, também, que tenha consciência dos próprios limites e fraquezas, dos quais Paulo da testemunho na segunda leitura.
2da leitura 2Cor 12,7-10
Paulo é consciente de mergulhar e participar da “extraordinária grandeza das revelações”, como estas mudaram para sempre a vida dele e sustentaram a certeza do destino final, assim como as determinações coerentes com respeito ao caminhar no dia a dia no desenvolvimento da missão que o Senhor lhe confiou.
Percebe que a soberba pode tomar conta dele. Não é para menos, quando toda pessoa é consciente da extraordinária grandeza na qual está envolvida, juntamente à motivação do desenvolvimento que decorre dela a favor de outros, da humanidade, em sintonia com o crescimento de todos.
Portanto, “Para que (...) não me ensoberbecesse, foi espetado na minha carne com um espinho (...) a fim de que não me exalte demais”. Este de se exaltar demais, é próprio dos convertidos que, como Paulo, passa de um extremo a outro, no caso dele, passar de perseguidor a apóstolo.
Em que consta o espinho, não é especificado. Paulo só manifesta que o incomoda e humilha muito, pois, “roguei três vezes ao Senhor que o afastasse de mim”. De toda maneira é algo em contraste inaceitável com sua identidade. Na carta aos Romanos destaca o mesmo conflito “Não faço o bem que quero e sim o mal que não quero (...).Infeliz de mim!Quem me livrará deste corpo de morte?”(7,19.24).
A resposta do Senhor é sempre a mesma “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta”. Assim, por um lado experimenta a extraordinária grandeza das revelações e pelo outro o espinho e a fraqueza, um contraste que diz muito com respeito à condição humana envolvida com a graça.
A singular e marcante experiência de conversão, de familiaridade e intimidade com Cristo, da qual decorre a força, dinamismo, coragem e ousadia que conhecemos, não faz dele um homem vencedor de toda tentação com respeito ao comportamento ético.
Não duvidará da graça em si mesma como constante dom de Deus, que age eficazmente no ser e em toda a pessoa. Contudo, teria desejado e esperava ter condição e força para vencer de uma vez para sempre comportamentos que não condizem com o dom recebido.
Isso desfaz o entendimento comum pelo qual, quem é favorecido de tão grande dom não cai na tentação e, portanto, cabe aguardar um comportamento modelo em todos os aspectos.
Com isso, não quer dizer que inevitavelmente tem que sucumbir, isso não. Mas simplesmente que a graça é dom, e permanece tal ainda quando é doada. Assim, o destinatário não se torna o dono dela, como se pudesse dispor como e quando quiser. A graça é sempre dom, presente. Em cada momento e circunstância poderá contar com ela, no sentido que deverá - pela fé - acreditar no renovado dom e experimentá-la de novo, de outra maneira se desvirtuaria a característica de dom.
A inteligência de Paulo lhe permite não desanimar nem se deprimir e tirar a conclusão positiva pela qual a fraqueza dele coloca em destaque a magnitude da graça de Deus. Assim a vitória sobre a tentação ou o perdão de Deus pela atualização dos efeitos da morte e ressurreição do Filho evidencia o seu imenso amor, paciência e misericórdia, e pelo outro manifesta a fortaleza de Paulo em vencer a tentação, assim como a consistência e solidez da fé dele em acreditar da grandeza do amor de Deus, além de todo critério humano.
É esse imenso amor que sustenta a atitude de Jesus no evangelho.
Evangelho Mc 6,1-6
“Jesus foi a Nazaré, sua terra”. Tudo lhe era familiar, evidentemente, e estava com seus discípulos. Estando com ele, entenderão o que vai acontecer quando o pregador é do mesmo ambiente.
O dia de sábado Jesus aproveitou para ensinar na sinagoga “Muitos que o escutavam ficavam admirados”. A fama de Jesus se tinha já espalhado por toda a região, e os habitantes de Nazaré puderam constatar a singularidade de sua pregação, falando como com quem tem autoridade e competência surpreendente.
Acrescentando a fama que tinha pelos milagres realizados, é inevitável que se perguntassem entre eles “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”.
Tudo não batia com a imagem que tinham dele quando estava com eles em Nazaré. Para piorar as coisas, deve ter falado coisas que os deixou desconcertados, ao ponto que “ficaram escandalizados por causa dele”.
Marcos não destaca o que disse Jesus. Só registra o comentário dele “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares.”. É notável que Jesus não explique, não argumente, não dê satisfação, não tome em consideração às dívidas e perguntas deles, bem ,sendo conhecedor das dificuldades objetivas, em consideração da experiência e da vivência com eles por longo tempo, antes de iniciar sua missão.
O evangelista registra que Jesus, “admirou-se com a falta de fé deles”, como se essa fé devesse ter brotado deles com naturalidade e ultrapassar as perguntas surgidas entre eles. O que teria legitimado este comportamento de Jesus e sua pretensão?
A qualidade vivência e a ética do seu comportamento quando estava com eles? A força argumentativa de sua pregação acompanhada dos sinais, dos conhecidos milagres, que fez? A manifestação de sua singular personalidade, pois, ele ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei? Não há resposta.
Parece-me que neste contexto a fé é colocada em nível do impacto, provocado pela percepção de um evento no mundo interior do ouvinte, em virtude do qual a pessoa toda se deixa tocar e envolver ou fica fora, se distancia dele.
Ante a surpresa e o desconcerto da atuação de Jesus, falou mais alto a desconfiança, a insegurança deles, assim que Jesus “não pode fazer milagre algum”. Isso indica que o acontecer do milagre se realiza na mútua confiança entre Jesus e o interlocutor: a palavra é acolhida como evento de transformação ao passo que Jesus torna eficaz o que ela significa.
É o que aconteceu na mulher no evangelho de domingo passado, à qual Jesus disse “tua fé te curou.Vai em paz e fica curada dessa doença” (Mc 5,34).
De toda maneira Jesus, não fica desmotivado, nem particularmente surpreendido, pois, já sabia que podia acontecer e simplesmente continua sua missão “Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando”. Chegou para ensinar e depois da falta de resposta da gente, continua ensinando...
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