1ª leitura At 6,1-7
Nenhum grupo eclesial consegue viver o relacionamento entre os seus integrantes de maneira adequada, conforme ao ensinamento do Senhor. Sempre há falhas e carências devidas aos limites das pessoas, aos novos acontecimentos, as circunstâncias inéditas que se apresentam. É o que testemunha o texto “os fieis de origem grega começaram a queixar-se dos fieis de origem hebraica (...) as viúvas das primeiras eram deixadas de lado no atendimento diário”.
Não foi por ma vontade, por discriminação ou preconceito, mas simplesmente por falta de organização e devida atenção. Contudo, o mal estar estava ai. Os apóstolos enfrentam o desafio e o resolvem, pois se sentem responsáveis da vivencia entre os membros da comunidade, em sintonia com o ensino de Jesus.
Eles determinam “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas”. Com isso afirmam duas coisas; a primeira que não da para carregar com tudo e, portanto, é preciso dividir as funções para o bom serviço e a harmonia na comunidade. É questão de bom senso.
E a tal fim instituirão o serviço do diaconato, elegendo formalmente um grupo de pessoas para este serviço “Irmãos é melhor que escolheis entre vós sete homens de boa fana, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos dessa tarefa”. Interessante observar como os apóstolos encarregam a comunidade de escolher e indicar as pessoas adequadas. Eles simplesmente conferem o mandato em nome do Senhor, pois, “oraram e impuseram as mãos sobre eles”
O segundo aspecto é que eles- os apóstolos- se reservam a parte mais importante e constitutiva da vida em comunidade, no estilo ensinado por Cristo: a pregação da Palavra de Deus. Assim, liberados do serviço realizado pelos diáconos “Desse modo nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra”.
Evidentemente, o serviço da Palavra por parte das testemunhas do Ressuscitado é insubstituível para a Igreja que está surgindo no meio de muitas provações e dificuldades. Ele relata, argumenta e motiva o evento da morte e ressurreição, como fundamento de todo o que Cristo falou e operou no seu ministério pastoral.
O anuncio tão revolucionário e desconcertante exige muita dedicação, coragem e preparação. Pois, se trata de reverter o errado que o povo de Israel tem de Deus, assim como de argumentar de maneira adequada e convincente em dialogo com a cultura grega, que prevalecia no mundo intelectual de então. Para esta, a dificuldade em aceitar a pregação do evento da ressurreição é bem relata no discurso de Paolo a Atenas, no centro da intelectualidade da época.
O preparo teológico, espiritual e humano do apostolo e dos evangelizadores merece cuidado particular. A segunda leitura oferece importantes tópicos e indica o caminho para a sólida formação.
2da leitura 1Pd 2,4-9
“Aproximai-vos do Senhor”. É singular esta exortação, pois, convida se aproximar aquele no qual já estão, pela graça da fé e do batismo. Isso indica a realidade pela qual, bem estando nele, se precisa se aproximar continuamente. Parece uma contradição, mas é a dinâmica necessária para vivenciar o correto relacionamento com o Senhor.
Ele, o Senhor, é presente, mas ao mesmo tempo é como o imã que atrai a si mesmo, para a comunhão mais profunda e envolvente no amor dele. É entrar e se deixar atrair que no termina nunca, pois, o mistério de Deus, mistério do amor, é inesgotável.
Este processo qualifica a gradativa identificação e familiaridade com Deus. A realidade profunda de Deus é transmitida a quem se deixa atrair. Portanto, o Senhor é “pedra viva (... ). Do mesmo modo, também vós como pedra viva formai um edifício espiritual”. A característica do edifício espiritual é se constituir como “raça escolhida, o sacerdócio do reino, a nação santa, o povo que ele conquistou”. Desta forma vai se conformando o povo de Deus da nova aliança.
A este povo é confiada a missão de “Proclamar as obras admiráveis daquele que vos chamou das trevas para a luz maravilhosa”. Com efeito, a missão é intimamente ligada ao dom de Deus. Toda ação do Mesmo deve ser passada e transmitida a outros. É este movimento que consagra a dinâmica do amor e, portanto, segura a presença de Deus e de sua ação salvadora. Conseqüentemente, a característica do seu povo-povo de Deus- se manifestará e brilhará como luz maravilhosa.
Nisso consiste a honra de pertencer a Cristo e fazer parte do povo de Deus “A vos, portanto, que tendes fé, cabe a honra”. Assim, a missão não é uma obrigação nem um dever a ser cobrado. É honra de participar ativamente à construção da comunidade, e com ela ser um sinal na sociedade de transformação pelo novo estilo de vida, implantado pela dinâmica que pretende adiantar a justiça, o direito a favor dos excluídos e marginalizados.
A adesão à ressurreição de Cristo e a constituição da comunidade são como a “pedra angular”, pedra sobre a qual apóia com confiança e segurança toda a construção. Portanto, “quem nela confiar não será confundido”, pelo contrário, será motivo de satisfação e realização pessoal e comunitária.
Para àqueles que não crêem “ a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular, pedra de tropeço e rocha que faz cair”. Isso acontece naqueles que não acolhem a Palavra. “ Nela tropeçam os que não acolhem a Palavra; esse é o destino deles”.
Portanto, o desafio principal é acolher a Palavra no próprio coração e se deixar iluminar da inteligência encharcada por essa realidade do coração transformado pelo dom do Ressuscitado da remissão do pecado, da nova e eterna Aliança e da promessa da vida em abundancia no presente e a certeza da participação da gloria futura no fim dos tempo,com a volta do mesmo da gloria do céu.
Glória já atuante no presente no discípulo que acolhe as indicações de Jesus.
Evangelho Jo 14,1-12
Este trecho do evangelho é precedido pelo anúncio da traição de Judas, da morte de Jesus e da negação de Pedro. Isso deve ter profundamente turbado os apóstolos. Daí as palavras de Jesus “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também”. Ele pede voto de confiança explicando que a saída dele do mundo tem a finalidade de preparar um lugar para eles e que onde “ eu -Jesus- estiver estejais também vós”. Assim, toda a expectativa da comunidade, da igreja, se apóia nesta promessa.
“E para onde eu vou, vós conheceis o caminho”. Colocação arguta, que de alguma maneira orienta a pergunta de Tomé “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?”. Efetivamente, só conhecendo a meta pode-se determinar o caminho, pois, o ponto de chegada determina o rumo da caminhada.
É a oportunidade para Jesus se manifestar explicitamente em forma sintética e profunda “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. É o caminho que leva á meta: a comunhão com Deus na Trindade “Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Eles, os apóstolos, já estão no caminho com Jesus. Portanto, já sabem o que significa e as exigências de caminhar com ele.
Com o evento pascal tomarão consciência da meta, do ponto final e decisivo do caminho. Passarão pelo trauma da crucificação e da surpresa absolutamente inesperada da ressurreição. Serão testemunhas do que acontecerá em Jesus: a vivencia de dois pólos mais radicalmente opostos e irredutíveis, que a condição humana pode pensar, a morte e a ressurreição.
Com certeza a meta da casa do Pai, alcançada com a ressurreição, constitui o testemunho da “Verdade e da Vida” que Jesus oferece a eles. Portanto, ele é o caminho, porque é a Verdade e a Vida. Na proposta de Jesus não há falsidade nem engano. E apesar de entrar diretamente na morte, a palavra final, com a ressurreição, será a vida em abundancia e a plena , manifestação da participação na comunhão com Deus na vida trinitária.
Mais uma provocação de Jesus: “E desde agora o conheceis e o viste”, pois, refere ao Pai. O pedido de Filipe “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!”, manifesta o desejo profundo e último de todo ser humano e ao mesmo tempo oferece a Jesus a oportunidade para manifestar a singular união entre ele e o Pai “Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim”.
As palavras dele são as palavras do Pai. Mas querendo reforçar ainda mais esta verdade, acrescenta “Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras”. São as obras pelas quais regenera as pessoas abatidas, inclue na comunhão as excluídas, devolve a dignidade às desprezadas, a esperança às desesperadas etc. São as obras da bondade e do Amor do Pai. Por isso ele foi enviado.
Ele alerta os discípulos que a verdadeira fé nele os capacitará fazer obras maiores “...quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas”. Será que Jesus exagerou em otimismo com respeito a nossa condição? Será que nossa fé é tão pequena por desconfiar que isso possa acontecer? Será que temos receio de pecar de presunção querendo ser até mais do mestre? São todas perguntas a serem avaliadas. De toda maneira, me parece que com estas palavras Jesus quer que os discípulos continuem a mesma missão dele, “Pois, eu vou para o Pai”. A saída dele é iminente e a missão deve continuar.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
terça-feira, 10 de maio de 2011
4to DOMINGO DE PÁSCOA-A-(15-05-11)
1ª leitura At 2, 14a.36-41
Eis o anúncio fundamental que abalou toda Jerusalém, após a crucificação de Jesus “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza: Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes”. Uma autentica blasfêmia para os que o crucificaram. Em virtude de que esta reviravolta tão radical e absolutamente inesperada? Por ter visto o crucificado e ressuscitado, participe da vida que só Deus Pai, pela força do Espírito Santo, podia passar. Pois, o Pai aprovou em tudo o Filho, que todos haviam condenado como blasfemo.
Surpreende a firmeza a determinação e a coragem de Pedro em se dirigir ao povo que havia aprovado a condenação de Jesus. Mais ainda considerando que ele mesmo, com os outros discípulos, estava cheio de medo de sofrer a mesma sorte de do mestre. Com certeza foi a compreensão do significado e da importância do que Jesus realizou na Páscoa que sustentou a nova atitude dele “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza...”.
Pedro falou com forte convicção ao ponto que “Quando ouviram isso, eles ficaram com o coração aflito”. Atitude própria de quem toma consciência do erro involuntário, mas irreparável, da própria atitude para com Jesus. Tiveram como a convicção de ter “pisado na bola”. Meio perdidos perguntaram “o que devemos fazer?”.
A primeira palavra é “Convertei-vos”. Evidentemente, não se trata de conversão ética, de atitudes, de comportamentos errado, mas de conversão teológica, ou seja, da errada idéia que tinham de Deus. A passagem de blasfemo à do “Senhor e Cristo” é um salto de não pouca canta. Supõe redesenhar as próprias convicções, com respeito ao entendimento de Deus. Seguidamente, haverá também mudanças de atitudes e de comportamento.
Este tipo de conversão não caracteriza só o momento inicial, mas acompanha a vida toda do discípulo. O testemunho da vida de Pedro e dos apóstolos confirma que tiveram que repensar as próprias convicções sobre Deus devidas às novas circunstâncias, fatos inéditos e imprevistos, pelos quais não tinha referencia no passado e que obrigaram a formular novas respostas. O ponto focal, a estrela polar, é o significado, o valor e a dinâmica do evento pascal.
“e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados” . O batismo sela o evento da conversão e faz participe a pessoa dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. Ele sela a Aliança indissolúvel com Cristo. Assim como a certeza de pertencer a ele, e com ele a Deus de uma vez para sempre. Desde agora ele irá substituir o sinal exterior da aliança qual foi o da circuncisão. Ele, o batismo, é a circuncisão do novo coração para uma nova vida, no amor.
Isso é possível pela ação do Espírito Santo “E vós recebereis o dom do Espírito Santo”. A conversão teológica e seguidamente ética, é possível no horizonte do amor de Deus, exatamente pela presença e ação do Espírito.
Contemporaneamente surge a certeza da promessa que o mistério de Deus oferece “Pois a promessa é para vós e vossos filhos (...) todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si”. Passado, presente e futuro são plenamente envolvidos no mistério do Amor de Deus.
Eis, então, o sentido da apelação, da exortação que brota do coração de Pedro “Salvai-vos dessa gente corrompida”. É o apelo de quem conhece as duas faces contrapostas da realidade humana: a perdição e a salvação.
A pregação teve muito sucesso “mais o menos três mil pessoas se uniram a eles”, mas a tensão entre os dois mundos contrapostos e a luta para se manter na salvação continua, como testemunha a segunda leitura.
2da leitura 1Pd 2,20b-25
Trabalhar com amor, no amor e por amor, nem sempre encontra adesão e compreensão. Muitas vezes é o contrário. A isso se refere o texto “Se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus”. Paciência é a capacidade de sofrer.
Surpreende a anotação “De fato, para isto fostes chamados” se for entendida como um chamado a sofrer para sofrer, como se o sofrimento tivesse uma finalidade em si mesmo. Com efeito, o amor tem em si mesmo uma dimensão de sofrimento, por não ser entendido nem aceitos em seu conteúdo específico; por não ter aquela adesão ou retorno que constituiria a resposta certa às inquietudes e desejos profundos de realização da pessoa; por uma oposição , tal vez violenta, motivada pela inveja, pelo ódio, por mexer com privilégios injustos e outras atitudes anti éticas, etc.
É o que aconteceu a Cristo “Também Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais seus passos”. A continuação descreve as atitudes éticas de Jesus, o quadro dos sofrimentos com o porquê e a finalidade dos mesmos “carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”.
Resistiu por nós a nosso favor, nos representando, a toda força e violência extrema que queria reconduzi-lo no marco de um Deus que assumisse as expectativas e os critérios que os homens - os pecadores -, achavam convenientes e necessários que Deus tivesse. Isso teria significado- para eles - mostrar aquela identidade com o Pai que repetidamente Jesus afirmava ter, mas que não conferiam nas atitudes e nas palavras dele. De fato, Jesus foi condenado por eles como blasfemo.
“Por suas feridas fostes curados”. Jesus não permitiu que o pecado tomasse conta dele. O pecado o massacrou, mas não entrou nele, não o subjugou. Aquela vitória sobre o pecado, aquele amor tão grande que deu a força a ele de sofrer e não se dobrar, foi a nossa vitória, ou melhor, a vitória de todos aqueles que em virtude da representação aceitam e acreditam nela, nesse dom gratuito.
Os efeitos: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda das vossas vidas”. Encontraram o rumo certo e o caminho, assim como quem os acompanha e cuida de não voltar atrás.
O tema e a missão do pastor é o próprio do Evangelho.
Evangelho Jo 10,1-10
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia”. É a meta da missão de Jesus. A vida em abundancia não se refere à vida após a morte, mas a esta vida terrena, que por ser adesão à pessoa de Jesus e caminhar com ele no desenvolvimento da missão, participa da plenitude que será desvelada plenamente só após a morte e com a vinda do Ressuscitado.
Duas afirmações destacam: a de porta e a de pastor. “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas (...) Quem entrar por mim, será salvo...”. A porta é a passagem obrigada; é ponto de união e de comunicação do ambiente com outro. Portanto, se designando como porta, Jesus quer indicar ele mesmo como passagem obrigada para entrar na vida em abundancia.
“... entrará e sairá e encontrará pastagem”. Parece-me que com estas palavras indique a atividade evangelizadora dentro e fora a comunidade, que abrange a todos indistintamente. Desta forma, o desenvolvimento da missão, da ação evangelizadora, se torna motivo de crescimento humano e espiritual, assim, como alimento necessário para manter a vida em abundancia. De fato, todo dom recebido, para que não apodreça e gere morte em quem o recebeu deve ser transmitido. Eis, então, uma possível interpretação de “entrar e sair” do texto.
Em outro texto, Jesus fala da “porta estreita” que conduz à salvação. E como é necessário fazer violência consigo mesmo para conseguir passar por ela. Refere-se à dinâmica da morte e ressurreição e particularmente em amar-nos uns os outros como ele nos amou, assumindo o estilo de vida e a filosofia dele.
Outra imagem é a do pastor. Há uma identidade profunda entre o discípulo e Jesus “quem não entra no redil das ovelhas pela porta- Jesus-, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante”. Pois são duas realidades intimamente conexas e necessárias, como a porta e entrar por ela, para guiar e apascentar o rebanho. Em virtude disso, o pastor, o evangelizador, o discípulo é como outro Jesus. A afirmação de Jesus é peremptória “ Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas”.
Por outro lado, há afinidade e sintonia entre o pastor e as ovelhas “as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora”,ou seja, as associa à missão. Se a transmissão do dom é necessária para a vida em abundancia e o pastor deseja que as ovelhas a alcancem, não há outro caminho e perspectiva.
“E, depois, de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz”. A missão é dom para todos. Daí a atenção de fazer sair a todas as ovelhas para que caminhem com ele na frente, como guia, orientador, se expondo em primeira pessoa , como em quem podem confiar serenamente.
O porquê desta confiança está no fato de que “conhecem a sua voz”. Voz que lhes se tornou familiar, que transmite segurança, pois, constataram e comprovaram a sincera e autentica dedicação para o bem delas. Com outras palavras, sintonizaram com o estilo de vida dele, concordaram com a filosofia dele e, sobretudo, perceberam a dedicação e o amor dele com e evento da morte e ressurreição.
Contudo, podem ser enganadas, ou seduzidas por outras propostas, por outras atitudes do falso pastor. É a alerta que Jesus se propõe apresentar a elas.
Eis o anúncio fundamental que abalou toda Jerusalém, após a crucificação de Jesus “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza: Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes”. Uma autentica blasfêmia para os que o crucificaram. Em virtude de que esta reviravolta tão radical e absolutamente inesperada? Por ter visto o crucificado e ressuscitado, participe da vida que só Deus Pai, pela força do Espírito Santo, podia passar. Pois, o Pai aprovou em tudo o Filho, que todos haviam condenado como blasfemo.
Surpreende a firmeza a determinação e a coragem de Pedro em se dirigir ao povo que havia aprovado a condenação de Jesus. Mais ainda considerando que ele mesmo, com os outros discípulos, estava cheio de medo de sofrer a mesma sorte de do mestre. Com certeza foi a compreensão do significado e da importância do que Jesus realizou na Páscoa que sustentou a nova atitude dele “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza...”.
Pedro falou com forte convicção ao ponto que “Quando ouviram isso, eles ficaram com o coração aflito”. Atitude própria de quem toma consciência do erro involuntário, mas irreparável, da própria atitude para com Jesus. Tiveram como a convicção de ter “pisado na bola”. Meio perdidos perguntaram “o que devemos fazer?”.
A primeira palavra é “Convertei-vos”. Evidentemente, não se trata de conversão ética, de atitudes, de comportamentos errado, mas de conversão teológica, ou seja, da errada idéia que tinham de Deus. A passagem de blasfemo à do “Senhor e Cristo” é um salto de não pouca canta. Supõe redesenhar as próprias convicções, com respeito ao entendimento de Deus. Seguidamente, haverá também mudanças de atitudes e de comportamento.
Este tipo de conversão não caracteriza só o momento inicial, mas acompanha a vida toda do discípulo. O testemunho da vida de Pedro e dos apóstolos confirma que tiveram que repensar as próprias convicções sobre Deus devidas às novas circunstâncias, fatos inéditos e imprevistos, pelos quais não tinha referencia no passado e que obrigaram a formular novas respostas. O ponto focal, a estrela polar, é o significado, o valor e a dinâmica do evento pascal.
“e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados” . O batismo sela o evento da conversão e faz participe a pessoa dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. Ele sela a Aliança indissolúvel com Cristo. Assim como a certeza de pertencer a ele, e com ele a Deus de uma vez para sempre. Desde agora ele irá substituir o sinal exterior da aliança qual foi o da circuncisão. Ele, o batismo, é a circuncisão do novo coração para uma nova vida, no amor.
Isso é possível pela ação do Espírito Santo “E vós recebereis o dom do Espírito Santo”. A conversão teológica e seguidamente ética, é possível no horizonte do amor de Deus, exatamente pela presença e ação do Espírito.
Contemporaneamente surge a certeza da promessa que o mistério de Deus oferece “Pois a promessa é para vós e vossos filhos (...) todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si”. Passado, presente e futuro são plenamente envolvidos no mistério do Amor de Deus.
Eis, então, o sentido da apelação, da exortação que brota do coração de Pedro “Salvai-vos dessa gente corrompida”. É o apelo de quem conhece as duas faces contrapostas da realidade humana: a perdição e a salvação.
A pregação teve muito sucesso “mais o menos três mil pessoas se uniram a eles”, mas a tensão entre os dois mundos contrapostos e a luta para se manter na salvação continua, como testemunha a segunda leitura.
2da leitura 1Pd 2,20b-25
Trabalhar com amor, no amor e por amor, nem sempre encontra adesão e compreensão. Muitas vezes é o contrário. A isso se refere o texto “Se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus”. Paciência é a capacidade de sofrer.
Surpreende a anotação “De fato, para isto fostes chamados” se for entendida como um chamado a sofrer para sofrer, como se o sofrimento tivesse uma finalidade em si mesmo. Com efeito, o amor tem em si mesmo uma dimensão de sofrimento, por não ser entendido nem aceitos em seu conteúdo específico; por não ter aquela adesão ou retorno que constituiria a resposta certa às inquietudes e desejos profundos de realização da pessoa; por uma oposição , tal vez violenta, motivada pela inveja, pelo ódio, por mexer com privilégios injustos e outras atitudes anti éticas, etc.
É o que aconteceu a Cristo “Também Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais seus passos”. A continuação descreve as atitudes éticas de Jesus, o quadro dos sofrimentos com o porquê e a finalidade dos mesmos “carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”.
Resistiu por nós a nosso favor, nos representando, a toda força e violência extrema que queria reconduzi-lo no marco de um Deus que assumisse as expectativas e os critérios que os homens - os pecadores -, achavam convenientes e necessários que Deus tivesse. Isso teria significado- para eles - mostrar aquela identidade com o Pai que repetidamente Jesus afirmava ter, mas que não conferiam nas atitudes e nas palavras dele. De fato, Jesus foi condenado por eles como blasfemo.
“Por suas feridas fostes curados”. Jesus não permitiu que o pecado tomasse conta dele. O pecado o massacrou, mas não entrou nele, não o subjugou. Aquela vitória sobre o pecado, aquele amor tão grande que deu a força a ele de sofrer e não se dobrar, foi a nossa vitória, ou melhor, a vitória de todos aqueles que em virtude da representação aceitam e acreditam nela, nesse dom gratuito.
Os efeitos: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda das vossas vidas”. Encontraram o rumo certo e o caminho, assim como quem os acompanha e cuida de não voltar atrás.
O tema e a missão do pastor é o próprio do Evangelho.
Evangelho Jo 10,1-10
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia”. É a meta da missão de Jesus. A vida em abundancia não se refere à vida após a morte, mas a esta vida terrena, que por ser adesão à pessoa de Jesus e caminhar com ele no desenvolvimento da missão, participa da plenitude que será desvelada plenamente só após a morte e com a vinda do Ressuscitado.
Duas afirmações destacam: a de porta e a de pastor. “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas (...) Quem entrar por mim, será salvo...”. A porta é a passagem obrigada; é ponto de união e de comunicação do ambiente com outro. Portanto, se designando como porta, Jesus quer indicar ele mesmo como passagem obrigada para entrar na vida em abundancia.
“... entrará e sairá e encontrará pastagem”. Parece-me que com estas palavras indique a atividade evangelizadora dentro e fora a comunidade, que abrange a todos indistintamente. Desta forma, o desenvolvimento da missão, da ação evangelizadora, se torna motivo de crescimento humano e espiritual, assim, como alimento necessário para manter a vida em abundancia. De fato, todo dom recebido, para que não apodreça e gere morte em quem o recebeu deve ser transmitido. Eis, então, uma possível interpretação de “entrar e sair” do texto.
Em outro texto, Jesus fala da “porta estreita” que conduz à salvação. E como é necessário fazer violência consigo mesmo para conseguir passar por ela. Refere-se à dinâmica da morte e ressurreição e particularmente em amar-nos uns os outros como ele nos amou, assumindo o estilo de vida e a filosofia dele.
Outra imagem é a do pastor. Há uma identidade profunda entre o discípulo e Jesus “quem não entra no redil das ovelhas pela porta- Jesus-, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante”. Pois são duas realidades intimamente conexas e necessárias, como a porta e entrar por ela, para guiar e apascentar o rebanho. Em virtude disso, o pastor, o evangelizador, o discípulo é como outro Jesus. A afirmação de Jesus é peremptória “ Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas”.
Por outro lado, há afinidade e sintonia entre o pastor e as ovelhas “as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora”,ou seja, as associa à missão. Se a transmissão do dom é necessária para a vida em abundancia e o pastor deseja que as ovelhas a alcancem, não há outro caminho e perspectiva.
“E, depois, de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz”. A missão é dom para todos. Daí a atenção de fazer sair a todas as ovelhas para que caminhem com ele na frente, como guia, orientador, se expondo em primeira pessoa , como em quem podem confiar serenamente.
O porquê desta confiança está no fato de que “conhecem a sua voz”. Voz que lhes se tornou familiar, que transmite segurança, pois, constataram e comprovaram a sincera e autentica dedicação para o bem delas. Com outras palavras, sintonizaram com o estilo de vida dele, concordaram com a filosofia dele e, sobretudo, perceberam a dedicação e o amor dele com e evento da morte e ressurreição.
Contudo, podem ser enganadas, ou seduzidas por outras propostas, por outras atitudes do falso pastor. É a alerta que Jesus se propõe apresentar a elas.
terça-feira, 3 de maio de 2011
3ro DOMINGO DA PÁSCOA -A-(08-05-11)
1ª leitura At 2,14.22-33
Este trecho apresenta o primeiro testemunho dos apóstolos, depois de terem recebido o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes. “Deus (...) determinou que Jesus fosse entregue (...) e vos o matastes (...). Mas Deus ressuscitou Jesus, liberando-o das angustias da morte, porque não era possível que ela o dominasse”. Em virtude de que não era possível que a morte o dominasse? Em virtude do Amor, que sustentou e motivou a entrega. É o amor que configura a realidade trinitária, ou seja, Deus mesmo. É o amor a força da ressurreição.
O amor é vida. Portanto, a pratica do amor nesta vida faz surgir na pessoa voltada com total dedicação pelo amor e no amor a realidade da ressurreição. Assim, ela, a ressurreição, vai tomando conta da existência toda e se manifesta, após a morte, como vida que resgata a existência plena da condição de morte. Por isso, não era possível que a morte a dominasse.
É o convite fazer do amor a única lei da existência, inclusive com o sacrifício da pessoa mesma. Pois, è a única realidade que vence o inimigo ultimo da existência: a morte. “Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção”. O inciso testemunha a ressurreição da pessoa toda: corpo, alma e espírito. Não é sobrevivência da alma após a morte, nem a imortalidade da mesma. É a destruição da morte que resgata a pessoa toda. É o triunfo do corpo.
Agora o corpo de Jesus participa da vida plena de Deus “E agora, exaltado pela direita de Deus, Jesus recebe o Espírito santo que fora prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo”. Isso acontece em virtude da ação e força do Espírito Santo, o amor que une o Pai e o Filho. O mesmo amor que sustentou toda a atividade missionária de Jesus, até a entrega. O mesmo amor que Jesus entregou ao Pai antes de morrer “Em tuas mãos encomendo o meu Espírito”.
Notável que o mesmo Espírito, recebido por Jesus na ressurreição, è derramado sobre os discípulos e sobre a criação toda, como testemunha o evento de Pentecostes. Começa assim, a nova criação, a nova era: o tempo do Espírito de Deus e de Cristo.
A transformação operada pelo Espírito sobre os discípulos, encerrados por medo aos judeus no cenáculo, testemunha o impacto e a força do Espírito, quando este consegue mexer profundamente no coração e na inteligência da pessoa, com respeito ao significado e a importância da morte e ressurreição de Jesus.
A atenção não deve ser colocada no milagre surpreendente, que ninguém nem de longe esperava. Mas o que este evento significa e manifesta como essencial pela vida de cada dia, pela filosofia que o sustenta, o estilo de comportamento e de vida correspondente. O conjunto destes elementos faz que a ressurreição tome gradativamente posse da pessoa toda de Jesus. Uma posse que encontrará seu ponto final nos eventos da Páscoa.
Jesus dirá “Eu sou o caminho” e, portanto, convida ao seguimento. E acrescenta, porque “sou verdade e vida”( Jo14,6). A verdade e a vida brotam do autentico e verdadeiro amor que sustenta o caminho da entrega que ele realizou.
2da leitura 1 Pd 1,17-21
Eis a exortação do apostolo aos integrantes da comunidade: “vivei respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo”. A vida é passageira, uma migração até chegar à meta definitiva. Neste horizonte de provisório, respeitar a Deus significa acolher o que ele fez e faz diariamente para todos os que o amam.
Então, o apostolo frisa a ação de Deus a favor deles “Sabeis que fostes resgatados (...) pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”. Alusão à morte na cruz e ao sangue derramado, que resgata da morte para a vida.
É o regate, o perdão, que integra três aspectos: a remissão dos pecados, o estabelecimento da nova e eterna aliança, e a esperança da participação definitiva no reino de Deus, no final dos tempos com o retorno do ressuscitado. É o que se atualiza nos sacramentos e em especial na Missa. Com efeito, se retoma os efeitos da morte (passado), se antecipa os efeitos da ressurreição ( futuro) e no presente se renova a eterna aliança. Desta forma, o presente ganha toda sua importância, pois, reúne o passado e o futuro.
“Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós”. A missão de Jesus tinha uma finalidade, um destino, que acaba de se cumprir com os eventos da Páscoa. Ela responde ao desígnio de Deus para a salvação da humanidade e de cada pessoa. Assim, a Páscoa traz uma luz singular sobre a concepção do tempo, sendo que o apostolo considera o momento presente como o final dos tempos. Hoje entendemos este final dos tempos não em sentido cronológico, mas em sentido qualitativo, pois, o tempo alcançou sua plenitude, sua finalidade, a de levar os homens e a humanidade à comunhão com Deus.
Experimentar em si mesmos a vida nova, a salvação; se perceber novas criaturas é ter consciência de que “Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais”. Trata-se da vida inconsistente, frágil, de aparências, sem conteúdo sólido, duradouro e consistente. Portanto, é uma mudança qualitativa de grande porte, que enche de satisfação, de alegria, como quem encontrou um tesouro, um caminho perdido, a segurança de estar investindo a própria vida de maneira certa.
Mais ainda que o preço do resgate é o “precioso sangue de Cristo”: a vida toda do Filho, e por meio dele da Trindade, dedicada a nós até o derramamento do sangue. Um amor inacreditável! Pela consciência do valor e da importância deste resgate “Por ele é que alcançastes a fé em Deus”, pois, por meio de Cristo se cumpriram as promessas de Deus.
É por esta entrega radical no amor que “Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu glória”, pois, acolheu a humanidade de Cristo na comunhão trinitária, a humanidade de Cristo se divinizou.
“...e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus”. Portanto, o discípulo tem a certeza de estar em Deus, nascente e meta de toda existência.
Este caminho tem característica e exigências próprias, come é relatado no evangelho.
Evangelho Lc 24, 13-35
O texto é a resposta aos discípulos desiludidos, decepcionados e defraudados pela pessoa de Jesus, pelo evento de sua morte na cruz. Ninguém deles esperava que o Messias terminasse seus dias na terra desta forma. Foi um abalo dos mais radicais.
Estavam se dirigindo para Emaús com o estado de animo bem caído e conversando “com o rosto triste”, com um desconhecido que “se aproximou e começou a caminhar com eles”, sobre a morte de Jesus do qual esperavam bem outra conclusão com a entrada triunfal em Jerusalém, de faz uma semana “Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!”.
Nestes dois discípulos estão representados todos os discípulos de todos os tempos e de todos os lugares que, por diferentes circunstâncias, sofrem o abalo da fé com respeito as expectativa do próprio discipulado. Seguiram a Jesus com reta e sincera intenção, mas nada daquilo que esperavam se realizou. Pelo contrario, tudo leva pensar que foi um furo na água...
Contudo, eles, os dois discípulos tiveram uma informação surpreendente. E descrevem exata e detalhadamente a experiência das mulheres que foram ao sepulcro, relatada no evangelho de João 20,1-9. Um anjo comunicou a elas “que Jesus está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porem, ninguém o viu”. Eis a grande distancia entre informação e experiência: um abismo.
O Ressuscitado entra de cheio na ação e indica dois pontos chaves. O primeiro a Palavra que ele mesmo - um simples e desconhecido viandante, que casualmente se associou a eles- explica ,e cujo efeito no coração dos ouvintes é testemunhado pelos dois discípulos “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” .
O segundo ponto é conseqüente ao primeiro: o convite a ficar com eles, também pela circunstância da hora “Fica conosco, pois já é tarde”. Pois, o coração deles estava se enchendo do novo entendimento da Palavra, algo que levantou e transformou em positivo o estado de animo deles. Foi oferecido um horizonte de compreensão inédito e surpreendente. Tal vez, do tipo que aquela morte da cruz não foi um acidente imprevisto no caminho, nem o fracasso da missão, mais a teimosia do amor a toda prova. Por outro lado, que outra coisa pode encher o coração do ouvinte senão o testemunho da sinceridade e da autenticidade do amor doado, até a custa da própria vida?
Com este pressuposto, a ceia se torna ação de graças, Eucaristia, e nela percebem a identidade do viandante “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus”, suficiente para testemunharem com convicção “Realmente, o Senhor ressuscitou ”.
Mas “Jesus, porém, despareceu da frente deles”. Não se tornou disponível, como o era antes da morte na cruz. É a condição singular de quem participa da condição humana e divina encharcadas pela dinâmica e experiência do amor.
Este trecho apresenta o primeiro testemunho dos apóstolos, depois de terem recebido o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes. “Deus (...) determinou que Jesus fosse entregue (...) e vos o matastes (...). Mas Deus ressuscitou Jesus, liberando-o das angustias da morte, porque não era possível que ela o dominasse”. Em virtude de que não era possível que a morte o dominasse? Em virtude do Amor, que sustentou e motivou a entrega. É o amor que configura a realidade trinitária, ou seja, Deus mesmo. É o amor a força da ressurreição.
O amor é vida. Portanto, a pratica do amor nesta vida faz surgir na pessoa voltada com total dedicação pelo amor e no amor a realidade da ressurreição. Assim, ela, a ressurreição, vai tomando conta da existência toda e se manifesta, após a morte, como vida que resgata a existência plena da condição de morte. Por isso, não era possível que a morte a dominasse.
É o convite fazer do amor a única lei da existência, inclusive com o sacrifício da pessoa mesma. Pois, è a única realidade que vence o inimigo ultimo da existência: a morte. “Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção”. O inciso testemunha a ressurreição da pessoa toda: corpo, alma e espírito. Não é sobrevivência da alma após a morte, nem a imortalidade da mesma. É a destruição da morte que resgata a pessoa toda. É o triunfo do corpo.
Agora o corpo de Jesus participa da vida plena de Deus “E agora, exaltado pela direita de Deus, Jesus recebe o Espírito santo que fora prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo”. Isso acontece em virtude da ação e força do Espírito Santo, o amor que une o Pai e o Filho. O mesmo amor que sustentou toda a atividade missionária de Jesus, até a entrega. O mesmo amor que Jesus entregou ao Pai antes de morrer “Em tuas mãos encomendo o meu Espírito”.
Notável que o mesmo Espírito, recebido por Jesus na ressurreição, è derramado sobre os discípulos e sobre a criação toda, como testemunha o evento de Pentecostes. Começa assim, a nova criação, a nova era: o tempo do Espírito de Deus e de Cristo.
A transformação operada pelo Espírito sobre os discípulos, encerrados por medo aos judeus no cenáculo, testemunha o impacto e a força do Espírito, quando este consegue mexer profundamente no coração e na inteligência da pessoa, com respeito ao significado e a importância da morte e ressurreição de Jesus.
A atenção não deve ser colocada no milagre surpreendente, que ninguém nem de longe esperava. Mas o que este evento significa e manifesta como essencial pela vida de cada dia, pela filosofia que o sustenta, o estilo de comportamento e de vida correspondente. O conjunto destes elementos faz que a ressurreição tome gradativamente posse da pessoa toda de Jesus. Uma posse que encontrará seu ponto final nos eventos da Páscoa.
Jesus dirá “Eu sou o caminho” e, portanto, convida ao seguimento. E acrescenta, porque “sou verdade e vida”( Jo14,6). A verdade e a vida brotam do autentico e verdadeiro amor que sustenta o caminho da entrega que ele realizou.
2da leitura 1 Pd 1,17-21
Eis a exortação do apostolo aos integrantes da comunidade: “vivei respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo”. A vida é passageira, uma migração até chegar à meta definitiva. Neste horizonte de provisório, respeitar a Deus significa acolher o que ele fez e faz diariamente para todos os que o amam.
Então, o apostolo frisa a ação de Deus a favor deles “Sabeis que fostes resgatados (...) pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”. Alusão à morte na cruz e ao sangue derramado, que resgata da morte para a vida.
É o regate, o perdão, que integra três aspectos: a remissão dos pecados, o estabelecimento da nova e eterna aliança, e a esperança da participação definitiva no reino de Deus, no final dos tempos com o retorno do ressuscitado. É o que se atualiza nos sacramentos e em especial na Missa. Com efeito, se retoma os efeitos da morte (passado), se antecipa os efeitos da ressurreição ( futuro) e no presente se renova a eterna aliança. Desta forma, o presente ganha toda sua importância, pois, reúne o passado e o futuro.
“Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós”. A missão de Jesus tinha uma finalidade, um destino, que acaba de se cumprir com os eventos da Páscoa. Ela responde ao desígnio de Deus para a salvação da humanidade e de cada pessoa. Assim, a Páscoa traz uma luz singular sobre a concepção do tempo, sendo que o apostolo considera o momento presente como o final dos tempos. Hoje entendemos este final dos tempos não em sentido cronológico, mas em sentido qualitativo, pois, o tempo alcançou sua plenitude, sua finalidade, a de levar os homens e a humanidade à comunhão com Deus.
Experimentar em si mesmos a vida nova, a salvação; se perceber novas criaturas é ter consciência de que “Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais”. Trata-se da vida inconsistente, frágil, de aparências, sem conteúdo sólido, duradouro e consistente. Portanto, é uma mudança qualitativa de grande porte, que enche de satisfação, de alegria, como quem encontrou um tesouro, um caminho perdido, a segurança de estar investindo a própria vida de maneira certa.
Mais ainda que o preço do resgate é o “precioso sangue de Cristo”: a vida toda do Filho, e por meio dele da Trindade, dedicada a nós até o derramamento do sangue. Um amor inacreditável! Pela consciência do valor e da importância deste resgate “Por ele é que alcançastes a fé em Deus”, pois, por meio de Cristo se cumpriram as promessas de Deus.
É por esta entrega radical no amor que “Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu glória”, pois, acolheu a humanidade de Cristo na comunhão trinitária, a humanidade de Cristo se divinizou.
“...e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus”. Portanto, o discípulo tem a certeza de estar em Deus, nascente e meta de toda existência.
Este caminho tem característica e exigências próprias, come é relatado no evangelho.
Evangelho Lc 24, 13-35
O texto é a resposta aos discípulos desiludidos, decepcionados e defraudados pela pessoa de Jesus, pelo evento de sua morte na cruz. Ninguém deles esperava que o Messias terminasse seus dias na terra desta forma. Foi um abalo dos mais radicais.
Estavam se dirigindo para Emaús com o estado de animo bem caído e conversando “com o rosto triste”, com um desconhecido que “se aproximou e começou a caminhar com eles”, sobre a morte de Jesus do qual esperavam bem outra conclusão com a entrada triunfal em Jerusalém, de faz uma semana “Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!”.
Nestes dois discípulos estão representados todos os discípulos de todos os tempos e de todos os lugares que, por diferentes circunstâncias, sofrem o abalo da fé com respeito as expectativa do próprio discipulado. Seguiram a Jesus com reta e sincera intenção, mas nada daquilo que esperavam se realizou. Pelo contrario, tudo leva pensar que foi um furo na água...
Contudo, eles, os dois discípulos tiveram uma informação surpreendente. E descrevem exata e detalhadamente a experiência das mulheres que foram ao sepulcro, relatada no evangelho de João 20,1-9. Um anjo comunicou a elas “que Jesus está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porem, ninguém o viu”. Eis a grande distancia entre informação e experiência: um abismo.
O Ressuscitado entra de cheio na ação e indica dois pontos chaves. O primeiro a Palavra que ele mesmo - um simples e desconhecido viandante, que casualmente se associou a eles- explica ,e cujo efeito no coração dos ouvintes é testemunhado pelos dois discípulos “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” .
O segundo ponto é conseqüente ao primeiro: o convite a ficar com eles, também pela circunstância da hora “Fica conosco, pois já é tarde”. Pois, o coração deles estava se enchendo do novo entendimento da Palavra, algo que levantou e transformou em positivo o estado de animo deles. Foi oferecido um horizonte de compreensão inédito e surpreendente. Tal vez, do tipo que aquela morte da cruz não foi um acidente imprevisto no caminho, nem o fracasso da missão, mais a teimosia do amor a toda prova. Por outro lado, que outra coisa pode encher o coração do ouvinte senão o testemunho da sinceridade e da autenticidade do amor doado, até a custa da própria vida?
Com este pressuposto, a ceia se torna ação de graças, Eucaristia, e nela percebem a identidade do viandante “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus”, suficiente para testemunharem com convicção “Realmente, o Senhor ressuscitou ”.
Mas “Jesus, porém, despareceu da frente deles”. Não se tornou disponível, como o era antes da morte na cruz. É a condição singular de quem participa da condição humana e divina encharcadas pela dinâmica e experiência do amor.
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