sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Comentário do 3ro domingo da Quaresma ( 7-03-10)

3ro DOM. DA QUARESMA-C-(7-03)

1ª leitura Ex 3,1-8a. 13-15
Eis relatado o correto relacionamento do ser humano- Moises- com Deus. A iniciativa é sempre de Deus, quem se manifesta de maneira surpreendente “a sarça que não se consome”. Parece-me que não podemos esperar uma sarçaa por cada uma das 6,5 bilhões de pessoas que existem. Contudo, Deus chama cada pessoa à comunhão consigo fogo do amor que não se consome. Com efeito, a pessoa tem afinidade com Deus, por ser criada a imagem e semelhança Dele. Portanto, a sarça indica, também, a meta, o destino, dela. A pessoa existe porque criada por Deus e chamada a se tornar realidade que não se consome pela comunhão com Ele.
Moises ao se aproximar da sarça e observar atentamente a estranheza dela, desencadeia a ação especifica de Deus pela qual é envolvido na dinâmica que fará dele o que a historia registrará na memória e no texto. Dessa forma, Moises se encontra com o mistério da própria existência e nela percebe a voz, o chamado, de Deus “Moises! Moises! Ele respondeu: aqui estou”. O contacto está feito., e com ele a percepção de Deus absolutamente transcendente e Santo por um lado, e a humildade de própria condição humana pelo outro. Deus chama, ao passo que mantém a distancia “Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é uma terra santa” como condição para estabelecer a correta comunhão. Comunhão na diversidade!
Deus se apresenta como “Eu sou o Deus de teus pais...”. O Deus da promessa e presente na história. Grande deve ter sido a surpresa de Moises. A longa escravidão levava pensar que Deus tinha se esquecido da promessa e abandonado o povo ao seu infeliz destino. Contudo, Moises reage “cobriu o rosto, pois temia olhar para Deus” Na concepção comum, ninguém podia ver a Deus e permanecer vivo. Será possível vê-lo após a morte, por aquele cuja vida será uma sarça que não se consome por participar do amor de Deus, para o resgate da humanidade toda.
Deus manifesta seu projeto libertador e vontade de cumprir a promessa com o envio de Moises à missão: “Eu vi a aflição do meu povo (...). Desci para libertá-lo (...) para uma terra onde corre leite e mel” Ele investe a pessoa de Moises como representante Dele.
A reação de Moises é o apavoramento. Tentará de se desfazer da missão, motivando e argumentando de maneira de oferecer a Deus a justificação do pedido de desistência. Deus desmantelará ponto por ponto toda resistência, e, enfim, Moises não terá como recusar. (Interessante ler o texto até 4,13).
No dialogo com Deus, comparece por parte de Moises o pedido de credenciamento perante o povo. Daí a pergunta; “Qual é o seu nome?” Conhecer o nome era ter certeza da intervenção de Deus ,quando e onde fora invocado. Era como ter poder e domínio sobre Ele. Deus foge da armadilha com a resposta: “Eu Sou aquele que sou”. Outras traduções rezam: Eu sou aquele que está presente e salva. Com isso, Deus não revela a totalidade do mistério e da essência Dele- o nome-, mas garante a permanente presença Dele e sua ação salvadora no meio do povo. É esta realidade que conforma o significado do nome. Mesmo mantendo o mistério de sua realidade última e definitiva como Deus, verdade salvadora do nome deve ser lembrada, invocada “Este é o meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração”. É importante considerar que lembrar o nome é a maneira de atualizar sua presença e sua ação salvadora, não é o simples lembrar o sujeito individual de um acontecimento, mas o sujeito ligado ao evento cuja ação e efeito não ficam no passado, mas são atualizados. Por isso o nome deve der lembrado de geração em geração.
A sarça, que não se consome, é prefiguração de Cristo, come comentaremos na 2da leitura,
2da leitura 1Cor 10,1-6.10-12
“Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” Alerta importante para toda pessoa que acha estar bem com Deus. Ela é motivada por três fatores: a) pela experiência do próprio Paulo; b) pelo desvio do correto relacionamento do povo para com Deus; c) pela memória da experiência do povo, após a libertação do Egito rumo à terra prometida, permanentemente tentado de voltar atrás.
São Paulo faz explicita referencia a isso “não quero que ignoreis o seguinte: Os nossos pais estiveram (...) foram batizados em Moises (...), e todos comeram (... ) e todos beberam (...). No entanto, a maior parte deles desagradou a Deus, pois morreram e ficaram no deserto”. Impressionante a continua repetição de “todos”, frisando que aquela experiência alcançou todas as pessoas, nenhuma excluída. Indistintamente, todas foram mergulhadas nos efeitos da passagem do mar vermelho com Moises. Todas experimentaram a passagem da escravidão (Egito) à libertação para que, alimentadas com o mesmo “alimento (...) e bebida espiritual; de fato, bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava- e esse rochedo era Cristo-“ , fizessem da liberdade em Cristo a marca registrada da nova sociedade na terra prometida, prévio assumir, na experiência da caminhada no deserto, todas as providencias para não tornar a implantar,de novo, a escravidão do Egito na nova terra prometida. Por isso, ele os exortará; “Irmãos, fostes chamados ( libertados) para serdes livres” (Gl 5,13).
A alerta mira a que “não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto”. As coisas más consistem, fundamentalmente, nas murmurações: “Não murmureis, como algum deles murmuraram” cujos efeitos foi impossibilitar a chegada do povo à terra prometida, “ e por isso foram mortos”.
A raiz da murmuração é a desconfiança no cumprimento da promessa de Deus; a dúvida com respeito à presença Dele no meio da caminhada; não enxergar a marca Dele nos eventos que vão acontecendo. Pelo contrário, o que acontece parece demonstrar que Ele se esqueceu da promessa e até abandonou o povo. Entra então o desanimo, a frustração, a decepção, a defraudação, próprio de que se sente como traído e enganado. Daí, o voltar as costas a Deus , o agir conforme outros critérios,o abandonar o caminho e voltar para trás. Inúmeras vezes o povo desejou voltar ao Egito,lamentando ter saído.
“Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” Trata-se do cuidado nas circunstâncias e situações que, pelo seu conteúdo de provação,revelarão a real consistência da e confiança- em última analise do amor- a Deus por ser Deus, e não simplesmente por aquilo que Dele podemos receber e desfrutar. Tal vez, seja isso mesmo o sentido das provações, e com elas tomar ciência de que o nosso amor para com ele não é gratuito, desinteressado, como o Dele para conosco, mas sempre está como poluído pelo interesse pessoal, pelo retorno, pela troca, pela obrigação. Então a caminhada no deserto, com suas provações, é a maneira de Deus purificar o nosso relacionamento para com Ele para torná-lo como o Dele para conosco, participe daquela gratuidade que constitui a característica da verdadeira liberdade pela qual fomos libertados de todo mal e da escravidão do pecado.
Essa liberdade no amor purificado tem seu teste no que o evangelho vai considerar.
Evangelho Lc 13,1-9
“Vieram algumas pessoas trazendo noticias a Jesus” Trata-se de dois acontecimentos que, no entendimento geral, formam motivados pelo pecado, pela culpa, das vítimas. Jesus desmancha este critério: “ Vós pensais (...). Eu vos digo que não” Este posicionamento deve ter abalado e perturbado o mundo interior deles, tanto era radicada a convicção de que era essa mesma a causa.
Perante o desconcerto Jesus- como é costume dele- não dá explicação nenhuma, não argumenta o porquê da mudança de critério. Só pede uma atitude de conversão, que comporta confiança nele e aceitar que Deus, através dele, está oferecendo um novo entendimento, que vai muito além do que eles pensavam como um Deus que castiga as faltas e os pecados deles, condenando-os à exclusão do Reino.
Mais ainda, para tornar mais difícil as coisas, acrescenta “Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Cabe imaginar o abalo total deles. Não só a mudança de critério já é um esforço não indiferente, mas a falta dela torna dramática o futuro deles: a morte, ou seja, o afastamento da comunhão com Deus, da salvação.
Parece-me que as resistência ao processo de conversão é sustentado pelos mesmos motivos que experimentou Moises: estar perante de perspectivas e de exigências que ultrapassam toda experiência e entendimento humano . Tal vez, só alguma forma de “domínio” ou pelo menos de “controle” sobre a realidade de Deus- o nome- poderia incentivar e animar a entrada no processo. Mas, Jesus, de jeito nenhum oferece elementos nessa direção. Portanto, eis a importância da alerta de são Paulo na 2da leitura com respeito aos que acham estar de pé- estar bem- perante de Deus: conferir se os critérios da comunhão com Deus são corretos ou não.
O texto frisa a urgência da conversão, não pode demorar. A vida de quem não produz os frutos que Deus espera legitimamente “ Foi procurar figos e não encontrou” está marcada por a terrível sentença: “Corta-a!”. Contudo, em atenção ao vinhateiro que se esmerará de maneira singular e radical “Vou cavar em volta dela e colocar adubo” sustentado por um voto de confiança em oferecer mais uma chance, “Pode ser que venha a dar fruto”, a sentença é adiada por um breve tempo “ deixa a figueira este ano”, frisando, dessa forma, a urgência da conversão.
“Se não der, então tu a cortarás”, porque ela está inutilizando a terra, não está aproveitando dos alimentos e do bem na qual está plantada. Como não pensar no batismo que nos implanta em Deus, no adubo da Eucaristia, da Palavra, do testemunho dos cristãos etc.? Avaliar e providenciar são o próprio da Quaresma.

2 comentários:

  1. Olá meu Santo Padre, me diga exatamente que trecho o sr, gostaria que fizessemos algum comentário?
    Abraços mil
    Nalva

    ResponderExcluir
  2. Apenas hoje pude ler os comentários dos dias 28/2 e 07/3 pois tive um sério problema com um dente. Como sempre seus esclarecimentos trazem luz a minha ignorancia frente a textos tão complexos.
    Abraços,
    Graça

    ResponderExcluir