1ª Leitura At 14, 21b-27
O trecho descreve a conclusão da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé, de volta para Antioquia “de onde tinham saído entregues à graça de Deus”. Belíssimo este “entregue à graça”, pois, não tiveram outro apoio, outra segurança, outro sustento que a confiança no dom de Deus que se manifestou a eles como Senhor da vida pela ressurreição. Não tiveram outro motivo para pregar a pessoas totalmente desconhecidas, porem conhecidas pela graça de Deus, pela obra que Jesus realizou de antemão a favor deles.
A ação pastoral deles consistiu em primeiro lugar em “Anunciar a Palavra (...) e encorajando os discípulos, eles os exortavam a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: é preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” Anunciar, encorajar e motivar em ordem à entrada no Reino de Deus. Trata-se de fazer da própria existência pessoal e comunitária o espaço do Senhorio de Deus. Com outras palavras, uma realidade totalmente impregnada da sabedoria, da visão sobre o presente e o futuro, da qualidade do relacionamento entre eles e para com o mundo, do estilo de vida pessoal, plenamente em sintonia e criativamente conforme com o que Jesus ensinou e praticou.
Tudo isso tem um preço: “os muitos sofrimentos” que precisa enfrentar na ótica da experiência de são Paulo “foi crucificado junto com Cristo”(Gl 2,19). Evidentemente, o novo implantado criativamente, mexe com sistemas de vida consolidados, com hábitos costumeiros, com filosofias de vida totalmente diferentes. Em fim, uma “revolução” que nem todos entendem- ou não querem entender e nem todos aceitam. Daí a oposição, a rejeição, que atingirá até os relacionamentos mais íntimos e familiares, como indicava Jesus, com suas cargas de sofrimentos. Eis, então, a necessidade da coragem e da firmeza em função e em virtude de um bem maior para todos, inclusive para aqueles que não entendem ou perseguem.
Paulo e Barnabé se preocupam de organizar a comunidade, a igreja: “Os apóstolos designaram presbíteros (os sacerdotes) para cada comunidade. Com orações e jejuns, eles os confiavam ao Senhor, em quem haviam acreditado”. A graça de Deus continuará agindo no meio deles pelo serviço qualificado e sincero de pessoas designadas e responsáveis. A organização certa, com critérios de bom senso e com a eleição de pessoas adequadas, é indispensável para o eficiente serviço da ação pastoral e da graça de Deus.
Em fim voltaram a Antioquia, “de onde tinham saído (...). Chegando ali, reuniram a comunidade. Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos” Significativo que interpretem o serviço pastoral deles como ação de Deus. Esta consciência é muito importante por manifestar clareza e conformidade com o que é próprio de Deus, deles, assim como da amplitude e consistência do serviço por eles desenvolvido. O contar é o próprio para participar o dom de Deus, pois é comunicando o dom que a pessoa se regenera e reforça sua identidade e a identidade dos ouvintes com o Senhor.
Toda ação pastoral é inspirada pela meta da história, da humanidade e da criação como frisado pela 2da leitura.
2da leitura Ap 21,1-5ª
“Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram” Não se trata de outro céu nem de outra terra, mas da transformação deste céu e desta terra. Transformação marcada pela definitiva e total derrota do mal, representado simbolicamente pelo mar: “o mar já não existe”. Pois o mar, infido, inseguro, instável, o contrário do chão, da terra firme e sólida, era tido, para a mentalidade da época, como lugar do domínio do mal. Como na época da passagem do mar vermelho, ele desaparecerá, mas desta vez para sempre, diante da realidade triunfal do povo de Deus que será definitivamente libertado de toda tribulação (1ª leitura). Sinal da derrota será que “Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, porque passou o que havia antes” A ressurreição, como início e implantação da nova realidade, atingirá as pessoas e a criação toda.
A esta visão se associa outra “Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia di céu, de junta de Deus, vestida qual esposas enfeitadas para o seu marido”. A nova Jerusalém é a agregação das pessoas transformadas e preenchidas da presença do ressuscitado no próprio mundo interior e, portanto, identificadas com Cristo, pelos efeitos nelas da morte e ressurreição de Jesus. O descer do céu, não é a chegada de algo que vem de acima, longe inalcançável e invisível, não é uma descida geográfica, como parece indicar ao entendimento imediato, mas um estado de comunhão, de intimidade com Deus que torna a pessoa e a realidade um “pedaço” do céu, o céu já presente nela, mas que estava oculto. A visão descreve a glorificação dos vivos e falecidos na única realidade do mistério de Deus, no final dos tempos. Este momento é comparado ao casamento no seu momento mais entusiasmante de encontro entre marido e esposa, caracterizado do aspecto estético e apaixonante.
Encontro para sempre. Assim, a casa de Deus será a dos homens e a casa dos homens - a humanidade redimida- será a de Deus “Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus vai morar no meio deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles.” Os efeitos são os da vitória definitiva sobre o mal e a morte- a última inimiga a ser destruída- “Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, porque passou o que havia antes”.
“ Aquele que estava sentado no trono disse: ‘Eis que faço novas todas as coisas’” Deus Pai manifesta sua ação salvadora levando à plenitude a obra do Filho. Ele age em virtude do que Jesus realizou neste mundo a favor da humanidade toda. Dessa forma, leva ao cumprimento, pela ação do Espírito, os efeitos da morte e ressurreição de Jesus como principio e fim de toda ação transformadora e renovadora da realidade pessoal e humana.
Este grande sonho, esta meta final da história das pessoas, da humanidade e da criação , responde ao projeto de Deus que supera todo entendimento e expectativa humana, num contexto que é todo o contrário, pois, as comunidades estão sofrendo todo tipo de dificuldades e perseguição. Daí o inciso “Escreve, porque estas palavras são dignas de fé e verdadeiras”.
Ter clareza do destino final de cada pessoa, da humanidade e da meta da criação, sendo a última e definitiva palavra de Deus sobre a obra de suas mãos, é de grande importância para o dia –a –dia, pois constitui a seiva da vida eterna que sustenta o relacionamento entre elas além de toda capacidade humana, como mostrará a pessoa de Jesus no Evangelho.
Evangelho Jo 13,31-33ª.34-35
“Depois que Judas saiu do cenáculo, disse Jesus”. Judas sae imediatamente depois do desconcertante dialogo entre os dois e da surpreendente atitude de Jesus. Pois, Jesus anuncia a presença do traidor, o indica -oferecendo e comendo com ele o mesmo pão, gesto de grande importância de comunhão de vida- e o convida proceder no intento dele.
“Agora foi glorificado o Filho do Homem”. Com o termo de Filho do Homem Jesus indica se mesmo. Falando de “agora foi glorificado” cabe pensar que o dialogo e a atitude que acaba de ter com Judas o coloca no horizonte da glorificação. O propósito de acolher a todos, por representar a todos indistintamente perante do Pai, o leva a acolher Judas. Portanto, Ele se distancia como de si mesmo, o acolhe e não coloca obstáculo nem impede o que daí a pouco Judas fará. É extremamente conseqüente à obediência do específico da missão: acolher deixando completamente livre, até quem sabe que o trairá. Jesus se coloca como debaixo dele. (Isso de oferecer o pão parece-me como uma última tentativa de resgate, embora perceba que não terá êxito).
A obediência se tornará aprendizagem, como indica a carta aos Hebreus: “aprendeu o que significa a obediência a Deus, por aquilo que sofreu. Mas na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,8). Aprendeu pela obediência até a consumação e se tornou causa de salvação para todos os que o obedecerão a Deus na mesma forma.
A glorificação é a manifestação da presença de Deus. O temível esplendor Dele é encoberto pela humanidade de Jesus. Todavia, esta gloria transparece como na transfiguração ou através de sinais que manifestam em Jesus a presença e ação de Deus. Um destes sinais é a atitude de Jesus com Judas que acabamos de descrever. Daí o “agora” da glorificação.
“e Deus foi glorificado nele”. Assim, na pessoa de Jesus se manifesta a presença de Deus Pai. Sendo que Ele, Jesus, nos representa perante o Pai, é, portanto, possível a glorificação em toda pessoa que imita o Filho. A glorificação é um processo em contínuo crescimento “Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo” Assim, a glorificação em si mesmo e logo, aponta à ressurreição que atingirá a carne de Jesus. Em poucas palavras, no horizonte da glorificação, se une o presente e o futuro de Jesus.
Na iminência dos eventos decisivos “por pouco tempo estou ainda convosco”, Jesus pronuncia as conhecidas palavras “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” O modelo é oferecido pela atitude que ele teve para com Judas, atitude tão desconcertante como o será o lavar os pés aos discípulos.
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos”. Aquele estilo de relacionamento e de vida é a marca registrada da autenticidade. Não se trata de amor entendido dentro das próprias categorias e experiências, mas do amor “como eu vos amei”. O “deveis amar-vos” é uma ordem a ser cumprida, não sujeita a interpretação que afaste daquele relacionamento e estilo de vida. Assim, aos discípulos que perseveram na tribulação, Jesus deixa como testamento o mandamento chamado novo pela perfeição à qual ele o elevou. Perfeição que do sentido a toda existência e que marca o rumo e constitui o caminho de todos os dias.
domingo, 25 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
4to DOMINGO DE PÁSCOA-C-(25-04-10)
1a Leitura At 13,14. 43-52
Lendo com atenção o texto e considerando o contexto, os atores e o que aconteceu, destaca o grande zelo missionário de Paulo e Barnabé. Sentiram-se motivados em deixar a própria terra para se dirigir a um povo e a pessoas desconhecidas “partindo de Perge, chegaram a Antioquia de Presidia”. É o efeito do evento da morte e ressurreição de Jesus- experimentado, no intimo da pessoa, como força transformadora do ser, e, conseqüentemente, assumido como eixo da própria existência e motivação do agir “...me amou e por mim se entregou” (Gl 2,20)dirá são Paulo.
O mesmo evento é como a seiva da atividade missionária deles. Tomam a iniciativa de “entrar na sinagoga em dia de sábado, sentaram-se”. A continuação Paulo pediu a palavra e se pus a pregar de maneira tão convincente que “Muito judeus e pessoas piedosas convertidas ao judaísmo seguiram Paulo e Barnabé” O sucesso foi tal que “No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra de Deus” suscitando a reação dos judeus que “ficaram cheio de inveja e, com blasfêmias, opunham-se ao que Paulo dizia”.
A coisa ficou complicada, pois, o choque produziu reação. O zelo deles, então, se tornou coragem e ousadia. Coragem para não fugir, não abandonar, e enfrentas as divergências. Eles, recém chegados, bateram de frente com os moradores judeus por mexerem com os convertidos por eles. Contudo, a coragem se tornou determinação: “Então com muita coragem, Paulo e Barnabé declararam” .No meio das dificuldades a determinação é a virtude principal, para não sucumbir e ter sucesso. “Estar em cima do muro” é assinar a própria derrota. Pode ser manifestação da insuficiente convicção, da pouca clareza do objetivo, do comodismo, do medo... É a alerta de que alguma coisa deve ser reavaliada e reconsiderada.
A coragem e a ousadia caminham juntas. Extremamente ousada é a colocação deles, pois, a aceitação dos pagãos, somente na base da fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e não na Lei de Moises do Antigo testamento, faz cair todo privilegio nacionalista como povo escolhido por Deus e herdeiro da promessa. Por isso, Paulo e Barnabé num primeiro momento dão destaque a eles, aos judeus, “Era preciso anunciar a palavra de Deus primeiro a vós”, pois, não desconhecem a importância do passado, mas acrescentam um toque de ironia “como a rejeitais e vos considerai indignos da vida eterna” e de provocação acrescentam: “ sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos. Porque esta é a ordem que o Senhor nos deu: (...)”.
(Esta atitude de Paulo e de Barnabé marca a mudança, de grande porte e conseqüências, de apertura definitiva aos pagãos. Atrevimento, ousadia e coragem fora de toda expectativa e imaginação, que estabelecerá o distanciamento do judaísmo por um lado, e o surgimento do cristianismo, pelo outro.)
Eis, então, a dupla e contraposta reação. Os pagãos “ficaram muito contentes (...) e glorificavam a palavra do Senhor”. Os judeus “provocaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé e expulsaram-nos”. Contudo, a semente foi implantada “ Os discípulos ficaram cheios de alegria e do Espírito Santo” Poderiam dizer: missão cumprida!
Cabe destacar a atitude de Paulo e Barnabé “sacudiram contra eles a poeira dos pés”, gesto simbolicamente impressionante pela mentalidade da época, pois, significa afastamento e ruptura irreconciliável. E “foram para a cidade de Icônio”. Não há registro de desistência, de desilusão, a missão continua. Com certeza, a sensibilidade, a vontade e o desejo deles de que a salvação fosse aceita por todos, judeus e pagãos, ficou provada, mas não ao ponto de desistir da missão e de recuar. É o testemunho da profundidade da permanência do efeito da morte e ressurreição de Jesus neles.
Efeito que expõe todo cristão à perseguição, como analisaremos na 2da leitura
2da leitura Ap 7,9.14b-17
O texto acentua bem a universalidade da salvação, que motivou a atitude de Paulo e de Barnabé: “Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar”. O destino - não no sentido de algo já predeterminado com anterioridade e do qual é impossível desviar-, a meta, da verdadeira realização em plenitude da humanidade faz parte do futuro possível, conforme à vontade de Deus, pelo oferecimento dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus.
Participar dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus é já antecipar deste futuro. Manifestação disso é a conduta pessoal e a prática de vida social em sintonia com a de Jesus. Ela vai na contramão à mentalidade e à ideologia da práxis dominante marcada pela corrupção, pela ganância, pelo hedonismo, pelo individualismo, pelo poder, pela exploração, em fim, por todo o que produz injustiça , sofrimento, desrespeito, prepotência e arrogância.
A pratica suscita o conflito, que atinge até os familiares e as pessoas mais próximas. Ela é motivo de grande tribulação “são os que vieram da grande tribulação”. Já Jesus tinha anunciado que aconteceria, mas todas as vezes que acontece o abalo não é de pouca conta. É nesse conflito que destaca o significado do inciso: “Lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”
A figura central do trecho é o Cordeiro imolado e vivente. É a representação de Jesus imolado na cruz e vivente pela ressurreição. Os que valorizaram este dom gratuito, “lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” , pois, tomaram consciência que a existência deles estava alicerçada sobre um novo ser, libertado do pecado e fortalecido pela intimidade e filiação divina. Eles perceberam como outra realidade que, tomando conta do coração, da inteligência e da vontade deles, motivou um estilo de vida diferente, com respeito ao estilo anterior. Ao mesmo tempo, os critérios de discernimento entre o certo e o errado foram bem diferentes dos de antes, assim como enxergaram horizontes mais profundos e envolventes, outra meta, outro destino, que ultrapassaram o mero entendimento humano .
Estes, perseverando a vida toda, eram os que “ Estavam de pé diante do Cordeiro; trajavam vestes brancas,e traziam palmas na mão(...) vieram da grande tribulação ”, pois, já nesta vida participaram da salvação pela fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, experimentaram sofrimentos pela grande tribulação e, dessa forma, mantiveram suas “vestes brancas” e alguns deles- os mártires- a custa da própria vida ( é o significado de trazer as palmas na mão). O sofrimento, o sangue derramado por eles tem afinidade com o sofrimento e o sangue do Cordeiro imolado. De alguma maneira é a prolongação do agir do Cordeiro na história.
Portanto, agora, eles participam da liturgia do céu “Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro (...) e lhe prestavam culto (...) Nunca mais terão fome, nem sede. Nem os molestará o sol nem algum calor ardente”. Experimentam a plenitude do processo pelo qual, tocados pela redenção oferecida pelo Cordeiro imolado na Páscoa, determinaram se mantiver neste dom apesar de todos os pesares. O Cordeiro que tirou o pecado deles, e que eles determinaram imitar como resposta de amor por ter sido amados, o encontram agora de novo como pastor na nova realidade, pastor que segura a vitória definitiva sobre todo mal “ Porque o Cordeiro(...) será o seu pastor e os conduzirá à fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos”.
A salvação está ao alcance de todos indistintamente, só que não é automática nem de rotina, mas exige a participação consciente e ativa no cultivo do correto relacionamento com Jesus.
Evangelho Jo 10,27-30
O relacionamento primeiro e imprescindível entre o pastor e a ovelha é a escuta “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. A primeira atitude do discípulo é escutar. Conhecido é o relato do evangelho no qual Maria, irmã de Marta, estava aos pés de Jesus escutando-O. Ele a aponta como quem “escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” ( Lc 10,42). A primeira forma de acolhimento é a escuta.
Ouvir é apenas uma atividade biológica, que não pede maior esforço. Escutar é diferente. É prestar atenção com atitude de amor para entender corretamente. É preciso escutar “com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com toda a sua mente” (Lc 10,27). A escuta, em virtude da dimensão amorosa, pressupõe o esvaziamento de si mesmo, sob pena de se enganar achando de estar escutando a Deus quando é simplesmente a projeção de si mesmo, dos próprios desejos etc. O mesmo vale para com o próximo. Escutar é muito mais desafiador - e difícil – do que parece.
É virtude amorosa de Deus, de Jesus, para conosco. Cabe pensar e meditar, que desde o silencio eterno Ele nos está escutando perfeitamente a cada um. Que ele está presente com todo o coração com toda a alma e com todo o ser a cada pessoa. Se assim não fosse o relacionamento seria impossível. De fato, a raiz do agnosticismo e do ateísmo tem nisso seu caldo de cultivo. Contudo, muitas vezes interpretamos o silencio Dele como esquecimento, indiferença ou ausência.
O preço da deficiente escuta é o deficiente seguimento, pelo inadequado conhecimento Dele, aquém do necessário. Portanto, é impedido ao Pastor exercer sua missão de dar a vida a todos em abundancia (Jo 10,10) “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão”. Vida eterna nesta vida temporal. A vida eterna é a qualidade da vida neste mundo, como antecipação da vida após a morte.
“E ninguém vai arrancá-las de minha mão”. A expressão aponta o clima de violência e de conflito extremo gerado por quem, a toda costa, quer prevalecer sobre o outro com arrogância e prepotência. Parece- me que designa a atitude permanente do mal e do pecado que acompanha o dia -a- dia o conflito para com o discípulo, na tentativa de prevalecer. Eis, então, a missão e a presença do pastor na luta extrema, até o dom da própria vida, derrotando o adversário. No contexto da época a figura do pastor oferecia uma imagem muito apropriada e convincente da importância de confiar em quem constituía motivo de segurança, de acompanhamento certo, de orientação e de preservação do ma, rumo à existência bem sucedida. Figura que, hoje, poderia ser trocada por outras metáforas.
“Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” De repente, é apresentada a figura do Pai como o “maior de todos” e portanto de Jesus. Também Ele comprometido, como Jesus, em não permitir que as ovelhas lhes sejam arrebatadas das mãos. É afirmada a diversidade entre o Pai e o Filho, no sentido que o Pai é maior e que as ovelhas pertencem a Ele “que me deu estas ovelhas”.
Mais, também, é frisado a unidade: “Eu e o Pai somos um”. Não é unidade de uniformidade, pois, o Pai é o Pai e o Filho é Filho, cada um com sua especificidade atribuições. O que os une é a missão de não permitir que o mal e o pecado prevaleçam, ao ponto das ovelhas serem arrancadas e arrebatadas da mão deles. A mão do Pai e do Filho desenvolve a mesma missão! São como uma só.
Portanto, a missão constrói a união, ao passo que é o eterno PRESENTE de Deus. Presente em sentido temporal, do transcorrer do tempo, e em sentido da gratuidade e de presencia ativa –. (É um ponto central da realidade Trinitária).
Portanto a missão dentro da comunidade e fora dela, dirigida aos indiferentes e afastados, aos marginalizados e excluídos do amor, da convivência, da fraternidade e solidariedade, no respeito às diversidades é condição para entrar na dinâmica de Deus e experimentar a comunhão e a presença Dele.
Lendo com atenção o texto e considerando o contexto, os atores e o que aconteceu, destaca o grande zelo missionário de Paulo e Barnabé. Sentiram-se motivados em deixar a própria terra para se dirigir a um povo e a pessoas desconhecidas “partindo de Perge, chegaram a Antioquia de Presidia”. É o efeito do evento da morte e ressurreição de Jesus- experimentado, no intimo da pessoa, como força transformadora do ser, e, conseqüentemente, assumido como eixo da própria existência e motivação do agir “...me amou e por mim se entregou” (Gl 2,20)dirá são Paulo.
O mesmo evento é como a seiva da atividade missionária deles. Tomam a iniciativa de “entrar na sinagoga em dia de sábado, sentaram-se”. A continuação Paulo pediu a palavra e se pus a pregar de maneira tão convincente que “Muito judeus e pessoas piedosas convertidas ao judaísmo seguiram Paulo e Barnabé” O sucesso foi tal que “No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra de Deus” suscitando a reação dos judeus que “ficaram cheio de inveja e, com blasfêmias, opunham-se ao que Paulo dizia”.
A coisa ficou complicada, pois, o choque produziu reação. O zelo deles, então, se tornou coragem e ousadia. Coragem para não fugir, não abandonar, e enfrentas as divergências. Eles, recém chegados, bateram de frente com os moradores judeus por mexerem com os convertidos por eles. Contudo, a coragem se tornou determinação: “Então com muita coragem, Paulo e Barnabé declararam” .No meio das dificuldades a determinação é a virtude principal, para não sucumbir e ter sucesso. “Estar em cima do muro” é assinar a própria derrota. Pode ser manifestação da insuficiente convicção, da pouca clareza do objetivo, do comodismo, do medo... É a alerta de que alguma coisa deve ser reavaliada e reconsiderada.
A coragem e a ousadia caminham juntas. Extremamente ousada é a colocação deles, pois, a aceitação dos pagãos, somente na base da fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e não na Lei de Moises do Antigo testamento, faz cair todo privilegio nacionalista como povo escolhido por Deus e herdeiro da promessa. Por isso, Paulo e Barnabé num primeiro momento dão destaque a eles, aos judeus, “Era preciso anunciar a palavra de Deus primeiro a vós”, pois, não desconhecem a importância do passado, mas acrescentam um toque de ironia “como a rejeitais e vos considerai indignos da vida eterna” e de provocação acrescentam: “ sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos. Porque esta é a ordem que o Senhor nos deu: (...)”.
(Esta atitude de Paulo e de Barnabé marca a mudança, de grande porte e conseqüências, de apertura definitiva aos pagãos. Atrevimento, ousadia e coragem fora de toda expectativa e imaginação, que estabelecerá o distanciamento do judaísmo por um lado, e o surgimento do cristianismo, pelo outro.)
Eis, então, a dupla e contraposta reação. Os pagãos “ficaram muito contentes (...) e glorificavam a palavra do Senhor”. Os judeus “provocaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé e expulsaram-nos”. Contudo, a semente foi implantada “ Os discípulos ficaram cheios de alegria e do Espírito Santo” Poderiam dizer: missão cumprida!
Cabe destacar a atitude de Paulo e Barnabé “sacudiram contra eles a poeira dos pés”, gesto simbolicamente impressionante pela mentalidade da época, pois, significa afastamento e ruptura irreconciliável. E “foram para a cidade de Icônio”. Não há registro de desistência, de desilusão, a missão continua. Com certeza, a sensibilidade, a vontade e o desejo deles de que a salvação fosse aceita por todos, judeus e pagãos, ficou provada, mas não ao ponto de desistir da missão e de recuar. É o testemunho da profundidade da permanência do efeito da morte e ressurreição de Jesus neles.
Efeito que expõe todo cristão à perseguição, como analisaremos na 2da leitura
2da leitura Ap 7,9.14b-17
O texto acentua bem a universalidade da salvação, que motivou a atitude de Paulo e de Barnabé: “Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar”. O destino - não no sentido de algo já predeterminado com anterioridade e do qual é impossível desviar-, a meta, da verdadeira realização em plenitude da humanidade faz parte do futuro possível, conforme à vontade de Deus, pelo oferecimento dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus.
Participar dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus é já antecipar deste futuro. Manifestação disso é a conduta pessoal e a prática de vida social em sintonia com a de Jesus. Ela vai na contramão à mentalidade e à ideologia da práxis dominante marcada pela corrupção, pela ganância, pelo hedonismo, pelo individualismo, pelo poder, pela exploração, em fim, por todo o que produz injustiça , sofrimento, desrespeito, prepotência e arrogância.
A pratica suscita o conflito, que atinge até os familiares e as pessoas mais próximas. Ela é motivo de grande tribulação “são os que vieram da grande tribulação”. Já Jesus tinha anunciado que aconteceria, mas todas as vezes que acontece o abalo não é de pouca conta. É nesse conflito que destaca o significado do inciso: “Lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”
A figura central do trecho é o Cordeiro imolado e vivente. É a representação de Jesus imolado na cruz e vivente pela ressurreição. Os que valorizaram este dom gratuito, “lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” , pois, tomaram consciência que a existência deles estava alicerçada sobre um novo ser, libertado do pecado e fortalecido pela intimidade e filiação divina. Eles perceberam como outra realidade que, tomando conta do coração, da inteligência e da vontade deles, motivou um estilo de vida diferente, com respeito ao estilo anterior. Ao mesmo tempo, os critérios de discernimento entre o certo e o errado foram bem diferentes dos de antes, assim como enxergaram horizontes mais profundos e envolventes, outra meta, outro destino, que ultrapassaram o mero entendimento humano .
Estes, perseverando a vida toda, eram os que “ Estavam de pé diante do Cordeiro; trajavam vestes brancas,e traziam palmas na mão(...) vieram da grande tribulação ”, pois, já nesta vida participaram da salvação pela fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, experimentaram sofrimentos pela grande tribulação e, dessa forma, mantiveram suas “vestes brancas” e alguns deles- os mártires- a custa da própria vida ( é o significado de trazer as palmas na mão). O sofrimento, o sangue derramado por eles tem afinidade com o sofrimento e o sangue do Cordeiro imolado. De alguma maneira é a prolongação do agir do Cordeiro na história.
Portanto, agora, eles participam da liturgia do céu “Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro (...) e lhe prestavam culto (...) Nunca mais terão fome, nem sede. Nem os molestará o sol nem algum calor ardente”. Experimentam a plenitude do processo pelo qual, tocados pela redenção oferecida pelo Cordeiro imolado na Páscoa, determinaram se mantiver neste dom apesar de todos os pesares. O Cordeiro que tirou o pecado deles, e que eles determinaram imitar como resposta de amor por ter sido amados, o encontram agora de novo como pastor na nova realidade, pastor que segura a vitória definitiva sobre todo mal “ Porque o Cordeiro(...) será o seu pastor e os conduzirá à fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos”.
A salvação está ao alcance de todos indistintamente, só que não é automática nem de rotina, mas exige a participação consciente e ativa no cultivo do correto relacionamento com Jesus.
Evangelho Jo 10,27-30
O relacionamento primeiro e imprescindível entre o pastor e a ovelha é a escuta “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. A primeira atitude do discípulo é escutar. Conhecido é o relato do evangelho no qual Maria, irmã de Marta, estava aos pés de Jesus escutando-O. Ele a aponta como quem “escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” ( Lc 10,42). A primeira forma de acolhimento é a escuta.
Ouvir é apenas uma atividade biológica, que não pede maior esforço. Escutar é diferente. É prestar atenção com atitude de amor para entender corretamente. É preciso escutar “com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com toda a sua mente” (Lc 10,27). A escuta, em virtude da dimensão amorosa, pressupõe o esvaziamento de si mesmo, sob pena de se enganar achando de estar escutando a Deus quando é simplesmente a projeção de si mesmo, dos próprios desejos etc. O mesmo vale para com o próximo. Escutar é muito mais desafiador - e difícil – do que parece.
É virtude amorosa de Deus, de Jesus, para conosco. Cabe pensar e meditar, que desde o silencio eterno Ele nos está escutando perfeitamente a cada um. Que ele está presente com todo o coração com toda a alma e com todo o ser a cada pessoa. Se assim não fosse o relacionamento seria impossível. De fato, a raiz do agnosticismo e do ateísmo tem nisso seu caldo de cultivo. Contudo, muitas vezes interpretamos o silencio Dele como esquecimento, indiferença ou ausência.
O preço da deficiente escuta é o deficiente seguimento, pelo inadequado conhecimento Dele, aquém do necessário. Portanto, é impedido ao Pastor exercer sua missão de dar a vida a todos em abundancia (Jo 10,10) “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão”. Vida eterna nesta vida temporal. A vida eterna é a qualidade da vida neste mundo, como antecipação da vida após a morte.
“E ninguém vai arrancá-las de minha mão”. A expressão aponta o clima de violência e de conflito extremo gerado por quem, a toda costa, quer prevalecer sobre o outro com arrogância e prepotência. Parece- me que designa a atitude permanente do mal e do pecado que acompanha o dia -a- dia o conflito para com o discípulo, na tentativa de prevalecer. Eis, então, a missão e a presença do pastor na luta extrema, até o dom da própria vida, derrotando o adversário. No contexto da época a figura do pastor oferecia uma imagem muito apropriada e convincente da importância de confiar em quem constituía motivo de segurança, de acompanhamento certo, de orientação e de preservação do ma, rumo à existência bem sucedida. Figura que, hoje, poderia ser trocada por outras metáforas.
“Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” De repente, é apresentada a figura do Pai como o “maior de todos” e portanto de Jesus. Também Ele comprometido, como Jesus, em não permitir que as ovelhas lhes sejam arrebatadas das mãos. É afirmada a diversidade entre o Pai e o Filho, no sentido que o Pai é maior e que as ovelhas pertencem a Ele “que me deu estas ovelhas”.
Mais, também, é frisado a unidade: “Eu e o Pai somos um”. Não é unidade de uniformidade, pois, o Pai é o Pai e o Filho é Filho, cada um com sua especificidade atribuições. O que os une é a missão de não permitir que o mal e o pecado prevaleçam, ao ponto das ovelhas serem arrancadas e arrebatadas da mão deles. A mão do Pai e do Filho desenvolve a mesma missão! São como uma só.
Portanto, a missão constrói a união, ao passo que é o eterno PRESENTE de Deus. Presente em sentido temporal, do transcorrer do tempo, e em sentido da gratuidade e de presencia ativa –. (É um ponto central da realidade Trinitária).
Portanto a missão dentro da comunidade e fora dela, dirigida aos indiferentes e afastados, aos marginalizados e excluídos do amor, da convivência, da fraternidade e solidariedade, no respeito às diversidades é condição para entrar na dinâmica de Deus e experimentar a comunhão e a presença Dele.
domingo, 11 de abril de 2010
3ro DOMINGO DA PÁSCOA -C-(18-04-10)
1a Leitura At 5,27b-32. 40b-41
O trecho frisa a coragem com a qual os apóstolos dão testemunho de Jesus, movidos pela força do Espírito Santo “E disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que lhe obedecem”. É após o evento de Pentecostes que eles tomam consciência e entendimento do significado e da importância da morte e ressurreição de Jesus. Foi a reviravolta da passagem do maldito de Deus (tal era o significado da morte na cruz, com conseguinte abalo e decepção radical) à Salvador, Glorificado pelo Pai e juiz dos vivos e dos mortos na vinda dele como Ressuscitado, no final dos tempos.
Uma experiência de tal porte tornou os apóstolos depositários e testemunhas da verdade de Deus com respeito às promessas do Mesmo ao povo de Israel e à humanidade toda. Perceberam a responsabilidade disso todo, à qual aderiram em obediência a Deus, sustentados pela singular união e força do Espírito Santo “nós e o Espírito Santo”
A transformação gerou a identificação com a pessoa e a missão de Jesus na profundidade do ser que sustentou a coragem de enfrentar, em nome de Deus, aqueles que matando Jesus pretendiam, com boas intenções a partir do entendimento deles, salvar a Deus, o povo, o templo e a religião. Famosas são as palavras de Caifás ao respeito ( Jo 11,47-51).
Por sua vez, as autoridades tinham duas possibilidades: ou aceitar de “ter pisado na bola”, com todas as conseqüências em termo de conversão, ou rejeitar a pregação dos apóstolos como falsa e desviante. Estava em jogo uma posta desconcertante e radicalmente inovadora. Tendo escolhido a segunda, as autoridades determinaram com firmeza: “Nós tínhamos proibido expressamente que vós ensinásseis em nome de Jesus”. A resposta foi a atitude corajosa de desobediência de Pedro e dos apóstolos, perante as autoridades que poderiam condená-lo à morte. Resposta desconcertante pelos ouvidos das autoridades: “ É preciso obedecer a Deus, antes que os homens”. A continuação Pedro explicita porque essa obediência tem direta relação com os acontecimentos gerados pela atitude delas para com Jesus e da qual devem assumir a responsabilidade. Entretanto, abre para elas a perspectiva de conversão e de perdão: “O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. Deus, por seu poder, o exaltou, tornando-o Guia Supremo e Salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados” (Entre parêntesis, estas palavras constituem o anúncio fundamental, básico, da fé cristã. O término na língua da bíblia- o grego- é “Kerigma”. Toda catequese começará a partir deste anuncio).
De fato, quando a pessoa alcança um grau de identificação e convicção tão grande, não pode não falar o que está no coração e não ser o que é. Fala e faz porque é isso mesmo que tem que falar e ser. Se assim não fosse, renegaria a si mesma, desmancharia sua identidade. Seria como a autodestruição, a morte interior, para salvar a existência física ou, ainda menos, para não ter problemas com outros. A coragem é atitude que brota da liberdade interior de quem mergulha na Verdade- com a V maiúscula- ( Jo 8,31).
A reação das autoridades não foi radical, como foi com Jesus. Tal vez, impressionados e desconcertados pelo que estava acontecendo acharam bem não repetir... Contudo, determinaram o castigo, na esperança de esmorecer o entusiasmo deles “mandaram açoitar os apóstolos e proibiram que eles falassem em nome de Jesus, e depois os soltaram”. O efeito foi o contrário. Surpreendentemente “Os apóstolos saíram do Conselho, muito contentes, por terem sido considerados dignos de injúrias, por causa do nome de Jesus”. É a vitória sobre a humilhação, a dor e o medo. Mas também, oportunidade de maior identificação com a pessoa e a missão e a Jesus. Tudo isso pela experiência que tiveram da pessoa de Jesus ressuscitado, cuja singularidade é apresentada na 2da leitura.
2da leitura Ap 5,11-14
É apresentada a figura do “Cordeiro imolado”, verdadeiro e mais importante símbolo da Páscoa. É o Cordeiro imolado e vivente. Duas realidades opostas e excludentes, do ponto e vista humano, que configuram a experiência e a realidade do Ressuscitado. O cordeiro sacrificado, cujo sangue libertou o povo da morte naquela inesquecível noite da saída da escravidão do Egito, era bem conhecido. Jesus é o novo Cordeiro que, de uma vez para sempre, o substituirá para a libertação do pecado de toda a humanidade de todos os tempos e de todos os lugares. O que surpreende é que Ele, em virtude do que aconteceu para com ele na sexta-feira santa, se tornou o Vivente. Mais ainda, tendo vencido a morte, não morrerá mais.
A aceitação dessa verdade no profundo do coração, pela fé em ser Ele o nosso representante perante o Pai, abre a possibilidade de enxergar o Mistério de Deus. Eis, então, a percepção da singular combinação do que antes nos deixava perplexos e duvidosos, e com ele o nosso envolvimento, a nossa transformação. Tudo, em nós, tem seu começo pela fé, pois o acontecido Nele aconteceu, e acontece hoje, em toda pessoa que livremente aceita o dom gratuito dos efeitos da representação. Acontece no silencio radical e profundo. Nenhuma manifestação exterior (audição, visões, sinais especiais etc.), nenhuma percepção interior de tipo psicológico (sentimentos, emoções, etc.), até que surge a dúvida de que se é isso mesmo que aconteceu. Entretanto, é isso mesmo! Essa dúvida faz parte da fé. Nessa circunstância, acreditar é ato da vontade, misteriosamente tocada pelo dom de Deus.
Conseqüentemente, eis então, a surpresa, o estupor e a maravilha inundam no ser, pois, o Mistério Pascal está nos envolvendo, como o oceano envolve o peixe. A comunhão com Deus se torna vivencia e experiência aqui e agora, caracterizada pelo que acontece no dia- a- dia percebido na dinâmica singular da morte e ressurreição, de perder e ganhar, pela qual a história e os acontecimentos são percebidos sob nova luz: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Não se trata de “outras coisas” nem de substituição. Nesse contexto, a mesma realidade pessoal é como refeita, gerada por um “novo” que brota da participação da vida de Deus. Ao mesmo tempo, sustenta a percepção de ser como “deificada” na humanidade dela. Dessa forma, apessoa está no eixo da vivencia da fé e em condição de entender o que significa ser cristã, de participar de outra identidade, sem renunciar á identidade específica da condição humana, pois ela é potenciada rumo à sua plenitude.
“Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro” O Cordeiro imolado participa da mesma glória do Pai, apresentado como aquele que está sentado no trono. A humanidade do Verbo, da Palavra que se fez carne no seio de Maria e que nasceu em Belém, chega à sua meta última e definitiva: a exaltação e glorificação trinitária.
O homem Jesus de Nazaré, enquanto fez da própria vida entre os homens um “Cordeiro imolado” se tornou “digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a honra, a glória e o louvor” dos “numerosos anjos (...) dos Servos vivos e dos Anciãos. Eram milhares de milhares, milhões de milhões” no culto da liturgia celeste. Com efeito, o texto é o hino que provem da liturgia cristã. Ele descreve a entronização do Cristo e a adoração que a Ele tributa o universo.
A imensa multidão, milhões de milhões, aponta a cada um de nós como participantes simultaneamente da liturgia terrestre e celeste. Liturgia terrestre que primeiramente se dá na vida, no dia- a -dia do culto espiritual do dom de si mesmo pela prática da caridade, e, liturgicamente, na celebração da Eucaristia. Ao mesmo tempo é participação da permanente liturgia no céu.
A presença do Ressuscitado é percebida de maneira muito singular, como comentaremos no evangelho.
Evangelho Jo 21,1-14
Parece-me que o texto faz referencia à primeira pesca milagrosa, no começo da atividade pastoral de Jesus, quando chama como apóstolos Pedro , Tiago e João (Lc 5,1-11). Após o abalo da sexta-feira santa, os apóstolos voltaram à atividade que exerciam antes de encontrar Jesus. Voltaram desiludidos, com a sensação de terem sido enganados? Terão pensado: foi ilusão segui-lo? Certo, tiveram experiência do Ressuscitado, mas ainda não tinham entendido o alcance e o significado do evento.
Jesus se apresenta e não é reconhecido. É um homem comum “Jesus estava de pé na margem (...) disse: Moços, tendes algumas coisas para comer? “. Responderam de maneira seca: “não”. Tal vez influiu o cansaço e a desilusão de uma noite de trabalho sem fruto algum.
“Jesus disse-lhes: ‘lançai a rede à direita da barca, e achareis’. Lançaram, pois, a rede e não conseguiram puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes” O texto não diz o que levou eles repetir o gesto da primeira vez, nem registra reação alguma nem comentário -a favor ou contra- que fizesse referencia à primeira pescaria. Tal vez, as aparições anteriores do Ressuscitado foram motivo suficiente.
De fato, a obediência à palavra deste homem comum desvela a presença do Ressuscitado “ Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: ‘É o Senhor’” . Então, Jesus toma a iniciativa “Trazei alguns dos peixes que apanhastes (...) Vinde comer (...) aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles . E fez a mesma coisa com o peixe” . Convida e serve à mesa. O texto parece-me aponta à Eucaristia, à Missa.
Chama a atenção que “Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos” As outra duas foram a Maria Madalena e aos discípulos de Emaus. Maria Madalena achou ser o jardineiro. Só quando Jesus a chamou por nome percebeu a identidade Dele. Para os viandantes no caminho para Emaus é uma pessoa comum que se associa a eles, um pouco desinformada do que aconteceu. Só ao partir o pão o reconheceram.
Associando estes elementos cabe pensar que o Ressuscitado é acessível em todo ser humano - jardineiro, viandante ou desconhecido beira mar - para aquele que, como Maria Madalena, é chamado por ele e se torna discípulos; por aquele que no caminho do dia-a-dia é instruído pela palavra d’Ele, e pela ação do Espírito Santo, o mestre interior; por aquele que obedece à sua ordem ,como testemunha o texto de hoje.
Nesta condição os apóstolos vieram o ressuscitado em uma pessoa comum. O que mudou não foi a pessoa do jardineiro, do viandante ou (...), mas o ver deles, abriram-se os olhos deles! O corpo do ressuscitado se tornou o corpo de toda pessoa. Esta singular transposição pode ser percebida pelo discípulo de hoje, como o foi para os apóstolos. Percepção acompanhada pelo estupor, pela surpresa e não sei que de temor disfarçado “Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor”. Cabe se perguntar: de outra maneira, como poderíamos nos tornar testemunhas do Ressuscitado?.
É um desafio que questiona todo cristão com respeito à qualidade da vivencia dos três elementos acima indicados e, portanto, delineia os permanentes tópicos de conversão. Estamos no ressuscitado e ao mesmo tempo é preciso alcançá-lo.
domingo, 4 de abril de 2010
2do DOMINGO DA PÁSCOA-C- (11-04-10)
1ª leitura At 5,12-16
O texto faz um breve relato da atividade pastoral dos apóstolos. “Muitos sinais e maravilhas eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos”. Os apóstolos manifestam realmente ter os mesmos poderes de Cristo, e até realizam obras maiores, como Jesus afirmou: “quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas”. Para isso é suficiente a sombra do apóstolo “quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra tocasse alguns deles”. Esta anotação lembra o versículo 6,56 do evangelho de Marcos no qual os doentes pediam de tocar a extremidade do manto de Jesus e os que o tocavam ficavam curados. A idéia que se passa com isso é que Jesus continua atuando por meio dos apóstolos. A missão Dele continua.
Ele é sempre o ponto de referencia central da atividade pastoral “Crescia sempre mais o numero das que aderiram ao Senhor pela fé; era uma multidão de homens e mulheres”. De fato, a adesão deles é pela fé na pessoa do Senhor. Portanto, os sinais dos apóstolos são diretamente relacionado à pessoa, à missão e ao poder do Senhor, em virtude dos quais o Senhor merece adesão e confiança.
Tudo isso tem uma dupla repercussão. Em primeiro lugar, “Todos os fieis se reuniam, com muita união no Pórtico de Salomão” O fato de ser o pórtico o lugar de agregação é porque a comunidade, recém constituída, não tinha um lugar próprio, mas, também, indica a continuidade com a tradição dos pais, a tradição do povo de Israel. Evidentemente, a ruptura com o judaísmo acontecerá muito mais tarde.
Em segundo lugar, “se reuniam, com muita união”. Não é especificado em que consiste concretamente essa união, só é anotada a consistência com o advérbio “muita”. É afirmada a solidez e a firmeza da união entre eles. Trata-se da solidariedade de vida, do desenvolvimento da missão e de destino que a fé no Senhor Jesus suscita neles. (Por outros textos dos Atos dos Apóstolos sabemos que a realidade não era tão idílica, como esta breve anotação do trecho deixa supor. Havia entre as primeiras comunidades brigas, desentendimentos, invejas, ciúmes... como acontece em todo grupo humano).
Assim, “Nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, mas o povo estimava-os muito”. A convivência suscitava , por um lado, o temor e,pelo outro, a estima. Com isso, a ação pastoral e o testemunho dos Apóstolos passavam a idéia do impacto no ambiente social e do temor reverencial nas pessoas, que será vencido nelas pela admiração e pela aprovação da qualidade da convivência dos cristãos.
O texto oferece elementos de avaliação permanente da vida da comunidade e da missão de cada membro. Parece-me importante que a primeira avaliação entre os integrantes da comunidade, ou melhor, o eixo dela, é a consistência da experiência mística do Ressuscitado e a troca de comunicação dela, pelo que dá para comunicar. Daí decorrem os critérios éticos para avaliar os corretos, ou menos ,comportamentos pessoais e sociais,pois, é o Ressuscitado que inspira e modela o estilo de vida.
Estilo de vida que será testado por provações e dificuldades geradas pelo ambiente hostil, como testemunhado pela 2da leitura.
2da leitura Ap 1,9-11ª. 12-13. 17-19
“ Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, e também no reino e na perseverança em Jesus” . Quem dá seu testemunho não uma pessoa qualquer, é o Apóstolo João. A revelação dele é para que todos tenham ciência do permanente tesouro que está ao alcance dos companheiros na tribulação, nas provações e nas dificuldades assustadoras e desanimadoras do momento presente. Em virtude dessa união e solidariedade o que está acontecendo nele pode se tornar patrimônio de todos.
João recebe a revelação “fui arrebatado pelo Espírito” no dia domingo, “No dia do Senhor”, o dia da memória, da comemoração, da ressurreição do Jesus. Daí, a tradição da igreja de fazer deste dia o tempo da celebração- a Eucaristia-, da memória da vida, da morte e ressurreição de Jesus, ou seja, a Páscoa semanal dos cristãos.
A revelação tem como finalidade a transmissão do conteúdo da mesma “e ouvi atrás de mim uma voz forte (...) a qual dizia; ‘ o que vais ver, escreve-o num livro”. Acompanhado por estas palavras João teve a visão do Ressuscitado. No meio dos sete candelabros de ouro que representavam os olhos de Deus que vigiam a criação toda “havia alguém semelhante a um ‘filho do homem’, vestido com uma túnica cumprida e com uma faixa de ouro em volta do peito”. A túnica e a faixa de ouro eram as vestimentas do sumo sacerdote, cujo dever principal era oficiar no templo a celebração do perdão dos pecados, no dia preposto para isso. Portanto, o “filho do homem” reúne em si mesmo o vigiar de Deus sobre a criação e o serviço sacerdotal, que antigamente era do sumo sacerdote.
“ Ao vê-lo, caí como morto a seus pés”.Era comum acreditar que ninguém podia ver a Deus nesta vida e continuar vivendo. Daí, a imediata da sensação da morte e o pavor que a acompanha.
“Não tenhas medo.” Toda revelação de Deus começa com a experiência do medo. Ela acontece de maneira tão imprevista, fora de toda expectativa e imaginação – que, evidentemente, suscita medo - com é a irrupção do misterioso e do desconhecido, portanto perigoso, a toda experiência humana.
O gesto e as palavras dissolveram essa primeira sensação “ele colocou sobre mim sua mão direita e disse: (...) Eu sou o Primeiro e o Último, aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos” Gesto e palavras que abrem o horizonte de plenitude oferecida pelo Ressuscitado- aquele que, após experimentar a morte, vive para sempre-, pois, Nele há o começo e o fim de todo o existente.
O Ressuscitado se manifesta como quem tem condição de abrir- a chave- e implantar a vitória definitiva sobre a morte a favor de toda pessoa que cultivar o voto de confiança Nele, aceitando o dom oferecido pela sua morte e ressurreição. O sinal visível será o novo o estilo de vida em sintonia com o Dele.
Isso supõe cultivar a atitude de fé, que será provada de mil maneiras nas diferentes circunstâncias da vida. O desafio básico é relatado pelo evangelho.
Evangelho Jo 20,19-31
A experiência de Tomé é a de todo cristão de todos os tempos e de todos os lugares. A resposta de Jesus a Tomé vai nessa direção: “Acreditastes, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”. Jesus chama com determinação e firmeza bem-aventuradas esta categoria de pessoas. Cabe a pergunta: como alcançar a condição de bem-aventurado? Será só para umas pessoas muito especiais? Evidentemente que não, pois é patrimônio a disposição de todos.
Em primeiro lugar, não é questão de ter informação detalhada e minuciosa sobre a vida toda de Jesus. O texto anota que “Jesus realizou muitos sinais(...) que não estão escritos neste livro” (Mais na frente acrescentará que se forem escritos um por um por um, não haveria biblioteca para conte-los ), no entanto escolhe só alguns acontecimentos “para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”.
Em segundo lugar, é preciso uma atitude ética e moral em sintonia com o sentido de justiça e de amor a Deus próprio de toda religião, ou, para quem não tiver religião, assumir e respeitar a própria consciência de solidariedade com a humanidade toda em matéria de dignidade da pessoa e de convivência harmoniosa das diferentes etnias e culturas. Isso significa já cultivar a transcendência do ressuscitado no intimo, no profundo do ser.
Em terceiro lugar, é importante se deixar tocar pela promessa: “bem-aventurado!”, Ela se cumprirá como percepção do estado de animo que atingirá toda pessoa, incluída a que não terá oportunidade de ver o fruto de sua conduta ética. Mais ainda, conforme as palavras de Jesus no final das bem-aventuranças, ela será particularmente presente nas pessoas provadas e testadas pelo prevalecer de praticas contrárias, geradoras de possível desanimo e vontade de desistir. Em fim trata-se de acreditar sem ter visto!
Dessa forma, a bem-aventurança levará à pessoa, como Tomé, a por “o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado”. Atrevo-me dizer que estas feridas são as que a fidelidade aos valores indicados acima marcaram no próprio corpo, na própria alma, no próprio ser. Elas se tornaram, também, as marcas de Cristo. Como, de outra maneira, poderia afirmar são Paulo que elas completam na sua carne o que falta à paixão de Cristo e, mais ainda, “foi crucificado junto com Cristo”?( Gl 2,19).
É a partir dessa experiência que se entende, no seu profundo sentido, a paz que o Senhor deseja para cada um dos discípulos. Ela é condição necessária para acolher, entender e desenvolver a missão confiada a eles “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Pensando seriamente nisso, aceitar a mesma missão que o Pai confiou ao Filho, pressupõe a compreensão do agir e do ser de Deus em Jesus, incluído o efeito de experimentar a paz após o radical abalo da crucificação, pois,a sexta-feira se tornou misteriosamente fonte da vida indestrutível.
É particularmente importante este aspecto no processo de conversão. Os discípulos assumindo a missão sabem o que os espera. Desenvolve-la corretamente, não desistir, será possível se a experiência do Mestre, que será a deles, será percebida como destinada à paz que Deus instaura como meta final da missão: a implantação do Reino.
Antecipação da presença do Reino é o perdão dos pecados. Em primeiro lugar, do pecado teológico, isto é, da desconfiança, da desvalorização, da indiferença, da desatenção, da manipulação do plano de Deus, do projeto Dele pela humanidade, por interesses próprios de poder, de dinheiro, de comodismo, de medo etc.
Em segundo lugar, do pecado ético, ou seja, dos comportamentos errados na prática da justiça, do direito, da solidariedade, da fraternidade universal etc. Com outras palavras, do amor com o qual ele nos amou.
Daí, então, o sentido do envio do Espírito Santo “ Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. A condição de perdoar não é deixada à arbitrariedade dos discípulos, más às disposições de se manterem na graça da ressurreição. É o que o evento pascal espera de nós.
O texto faz um breve relato da atividade pastoral dos apóstolos. “Muitos sinais e maravilhas eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos”. Os apóstolos manifestam realmente ter os mesmos poderes de Cristo, e até realizam obras maiores, como Jesus afirmou: “quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas”. Para isso é suficiente a sombra do apóstolo “quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra tocasse alguns deles”. Esta anotação lembra o versículo 6,56 do evangelho de Marcos no qual os doentes pediam de tocar a extremidade do manto de Jesus e os que o tocavam ficavam curados. A idéia que se passa com isso é que Jesus continua atuando por meio dos apóstolos. A missão Dele continua.
Ele é sempre o ponto de referencia central da atividade pastoral “Crescia sempre mais o numero das que aderiram ao Senhor pela fé; era uma multidão de homens e mulheres”. De fato, a adesão deles é pela fé na pessoa do Senhor. Portanto, os sinais dos apóstolos são diretamente relacionado à pessoa, à missão e ao poder do Senhor, em virtude dos quais o Senhor merece adesão e confiança.
Tudo isso tem uma dupla repercussão. Em primeiro lugar, “Todos os fieis se reuniam, com muita união no Pórtico de Salomão” O fato de ser o pórtico o lugar de agregação é porque a comunidade, recém constituída, não tinha um lugar próprio, mas, também, indica a continuidade com a tradição dos pais, a tradição do povo de Israel. Evidentemente, a ruptura com o judaísmo acontecerá muito mais tarde.
Em segundo lugar, “se reuniam, com muita união”. Não é especificado em que consiste concretamente essa união, só é anotada a consistência com o advérbio “muita”. É afirmada a solidez e a firmeza da união entre eles. Trata-se da solidariedade de vida, do desenvolvimento da missão e de destino que a fé no Senhor Jesus suscita neles. (Por outros textos dos Atos dos Apóstolos sabemos que a realidade não era tão idílica, como esta breve anotação do trecho deixa supor. Havia entre as primeiras comunidades brigas, desentendimentos, invejas, ciúmes... como acontece em todo grupo humano).
Assim, “Nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, mas o povo estimava-os muito”. A convivência suscitava , por um lado, o temor e,pelo outro, a estima. Com isso, a ação pastoral e o testemunho dos Apóstolos passavam a idéia do impacto no ambiente social e do temor reverencial nas pessoas, que será vencido nelas pela admiração e pela aprovação da qualidade da convivência dos cristãos.
O texto oferece elementos de avaliação permanente da vida da comunidade e da missão de cada membro. Parece-me importante que a primeira avaliação entre os integrantes da comunidade, ou melhor, o eixo dela, é a consistência da experiência mística do Ressuscitado e a troca de comunicação dela, pelo que dá para comunicar. Daí decorrem os critérios éticos para avaliar os corretos, ou menos ,comportamentos pessoais e sociais,pois, é o Ressuscitado que inspira e modela o estilo de vida.
Estilo de vida que será testado por provações e dificuldades geradas pelo ambiente hostil, como testemunhado pela 2da leitura.
2da leitura Ap 1,9-11ª. 12-13. 17-19
“ Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, e também no reino e na perseverança em Jesus” . Quem dá seu testemunho não uma pessoa qualquer, é o Apóstolo João. A revelação dele é para que todos tenham ciência do permanente tesouro que está ao alcance dos companheiros na tribulação, nas provações e nas dificuldades assustadoras e desanimadoras do momento presente. Em virtude dessa união e solidariedade o que está acontecendo nele pode se tornar patrimônio de todos.
João recebe a revelação “fui arrebatado pelo Espírito” no dia domingo, “No dia do Senhor”, o dia da memória, da comemoração, da ressurreição do Jesus. Daí, a tradição da igreja de fazer deste dia o tempo da celebração- a Eucaristia-, da memória da vida, da morte e ressurreição de Jesus, ou seja, a Páscoa semanal dos cristãos.
A revelação tem como finalidade a transmissão do conteúdo da mesma “e ouvi atrás de mim uma voz forte (...) a qual dizia; ‘ o que vais ver, escreve-o num livro”. Acompanhado por estas palavras João teve a visão do Ressuscitado. No meio dos sete candelabros de ouro que representavam os olhos de Deus que vigiam a criação toda “havia alguém semelhante a um ‘filho do homem’, vestido com uma túnica cumprida e com uma faixa de ouro em volta do peito”. A túnica e a faixa de ouro eram as vestimentas do sumo sacerdote, cujo dever principal era oficiar no templo a celebração do perdão dos pecados, no dia preposto para isso. Portanto, o “filho do homem” reúne em si mesmo o vigiar de Deus sobre a criação e o serviço sacerdotal, que antigamente era do sumo sacerdote.
“ Ao vê-lo, caí como morto a seus pés”.Era comum acreditar que ninguém podia ver a Deus nesta vida e continuar vivendo. Daí, a imediata da sensação da morte e o pavor que a acompanha.
“Não tenhas medo.” Toda revelação de Deus começa com a experiência do medo. Ela acontece de maneira tão imprevista, fora de toda expectativa e imaginação – que, evidentemente, suscita medo - com é a irrupção do misterioso e do desconhecido, portanto perigoso, a toda experiência humana.
O gesto e as palavras dissolveram essa primeira sensação “ele colocou sobre mim sua mão direita e disse: (...) Eu sou o Primeiro e o Último, aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos” Gesto e palavras que abrem o horizonte de plenitude oferecida pelo Ressuscitado- aquele que, após experimentar a morte, vive para sempre-, pois, Nele há o começo e o fim de todo o existente.
O Ressuscitado se manifesta como quem tem condição de abrir- a chave- e implantar a vitória definitiva sobre a morte a favor de toda pessoa que cultivar o voto de confiança Nele, aceitando o dom oferecido pela sua morte e ressurreição. O sinal visível será o novo o estilo de vida em sintonia com o Dele.
Isso supõe cultivar a atitude de fé, que será provada de mil maneiras nas diferentes circunstâncias da vida. O desafio básico é relatado pelo evangelho.
Evangelho Jo 20,19-31
A experiência de Tomé é a de todo cristão de todos os tempos e de todos os lugares. A resposta de Jesus a Tomé vai nessa direção: “Acreditastes, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”. Jesus chama com determinação e firmeza bem-aventuradas esta categoria de pessoas. Cabe a pergunta: como alcançar a condição de bem-aventurado? Será só para umas pessoas muito especiais? Evidentemente que não, pois é patrimônio a disposição de todos.
Em primeiro lugar, não é questão de ter informação detalhada e minuciosa sobre a vida toda de Jesus. O texto anota que “Jesus realizou muitos sinais(...) que não estão escritos neste livro” (Mais na frente acrescentará que se forem escritos um por um por um, não haveria biblioteca para conte-los ), no entanto escolhe só alguns acontecimentos “para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”.
Em segundo lugar, é preciso uma atitude ética e moral em sintonia com o sentido de justiça e de amor a Deus próprio de toda religião, ou, para quem não tiver religião, assumir e respeitar a própria consciência de solidariedade com a humanidade toda em matéria de dignidade da pessoa e de convivência harmoniosa das diferentes etnias e culturas. Isso significa já cultivar a transcendência do ressuscitado no intimo, no profundo do ser.
Em terceiro lugar, é importante se deixar tocar pela promessa: “bem-aventurado!”, Ela se cumprirá como percepção do estado de animo que atingirá toda pessoa, incluída a que não terá oportunidade de ver o fruto de sua conduta ética. Mais ainda, conforme as palavras de Jesus no final das bem-aventuranças, ela será particularmente presente nas pessoas provadas e testadas pelo prevalecer de praticas contrárias, geradoras de possível desanimo e vontade de desistir. Em fim trata-se de acreditar sem ter visto!
Dessa forma, a bem-aventurança levará à pessoa, como Tomé, a por “o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado”. Atrevo-me dizer que estas feridas são as que a fidelidade aos valores indicados acima marcaram no próprio corpo, na própria alma, no próprio ser. Elas se tornaram, também, as marcas de Cristo. Como, de outra maneira, poderia afirmar são Paulo que elas completam na sua carne o que falta à paixão de Cristo e, mais ainda, “foi crucificado junto com Cristo”?( Gl 2,19).
É a partir dessa experiência que se entende, no seu profundo sentido, a paz que o Senhor deseja para cada um dos discípulos. Ela é condição necessária para acolher, entender e desenvolver a missão confiada a eles “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Pensando seriamente nisso, aceitar a mesma missão que o Pai confiou ao Filho, pressupõe a compreensão do agir e do ser de Deus em Jesus, incluído o efeito de experimentar a paz após o radical abalo da crucificação, pois,a sexta-feira se tornou misteriosamente fonte da vida indestrutível.
É particularmente importante este aspecto no processo de conversão. Os discípulos assumindo a missão sabem o que os espera. Desenvolve-la corretamente, não desistir, será possível se a experiência do Mestre, que será a deles, será percebida como destinada à paz que Deus instaura como meta final da missão: a implantação do Reino.
Antecipação da presença do Reino é o perdão dos pecados. Em primeiro lugar, do pecado teológico, isto é, da desconfiança, da desvalorização, da indiferença, da desatenção, da manipulação do plano de Deus, do projeto Dele pela humanidade, por interesses próprios de poder, de dinheiro, de comodismo, de medo etc.
Em segundo lugar, do pecado ético, ou seja, dos comportamentos errados na prática da justiça, do direito, da solidariedade, da fraternidade universal etc. Com outras palavras, do amor com o qual ele nos amou.
Daí, então, o sentido do envio do Espírito Santo “ Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. A condição de perdoar não é deixada à arbitrariedade dos discípulos, más às disposições de se manterem na graça da ressurreição. É o que o evento pascal espera de nós.
sábado, 3 de abril de 2010
Feliz Páscoa
O sepulcro está vazio! A morte não pode conter Jesus! Ele ressuscitou! A glória de Deus se manifestou naquele que foi obediente até a morte, e morte de cruz. Morte ultrajante, reservada aos criminosos e inimigos de Deus. Ele, Jesus Cristo, se entregou por nossos pecados, aceitou ser humilhado, ultrajado, massacrado pelos chicotes, espinhos e cravos. E ficou calado mesmo passando por tanto sofrimento. Não disse um ai! A tudo suportou, por nos amar de uma forma cuja compreensão para nós é tão difícil. De uma forma que talvez não aceitaríamos passar por ninguém. Amou-nos intensamente, até o fim. Não cedeu ao pecado, não "desceu da cruz" como instigaram. E ainda pediu ao Pai para perdoar a humanidade...
A vitória do pecado está na sua aceitação. Mas Jesus não aceitou, não cedeu, disse não ao pecado. Morrendo, supostamente derrotado, foi o grande vitorioso. Pois a obediência ao Pai o levou à glorificação. Ao terceiro dia de sua morte, Deus o ressuscitou dos mortos, e o colocou acima de tudo o que existe na terra e em todo o universo. Colocou seu nome acima de todo o nome! Ressuscitou! É a Páscoa! A vida no amor venceu a morte!
O que a nossa festa tem a ver com a paixão, morte e ressurreição de Cristo? Quase nada, vendo do nosso lado; tudo, vendo do lado de Cristo, pois Ele a tudo suportou para que nós pudéssemos festejar, termos um futuro doce como chocolate, termos os nossos dias iluminados por sua luz, termos nossas vidas fecundas como os coelhos, e também podermos ressuscitar, como Ele, para uma nova vida, vivida na graça de Deus.
Neste domingo, antes de sentarmos à mesa para a ceia de Páscoa, antes de darmos ovos de chocolate e presentes para nossas crianças, reservemos alguns minutos para uma oração de agradecimento, em família, pela nossa e por todas as famílias do mundo. Olhemos para o céu e digamos, do fundo do nosso coração: Obrigado, Senhor, muito obrigado, Senhor!
Que esse domingo de Páscoa seja para nós o primeiro dia de nossas novas vidas!
Feliz Páscoa a todos os meus amados irmãos.
Roberto Maia da Fonseca
blogdabandaterrasanta.blogspot.com
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