domingo, 25 de abril de 2010

5to DOMINGO DA PÁSCOA-C-(02-05-10)

1ª Leitura At 14, 21b-27

O trecho descreve a conclusão da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé, de volta para Antioquia “de onde tinham saído entregues à graça de Deus”. Belíssimo este “entregue à graça”, pois, não tiveram outro apoio, outra segurança, outro sustento que a confiança no dom de Deus que se manifestou a eles como Senhor da vida pela ressurreição. Não tiveram outro motivo para pregar a pessoas totalmente desconhecidas, porem conhecidas pela graça de Deus, pela obra que Jesus realizou de antemão a favor deles.
A ação pastoral deles consistiu em primeiro lugar em “Anunciar a Palavra (...) e encorajando os discípulos, eles os exortavam a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: é preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” Anunciar, encorajar e motivar em ordem à entrada no Reino de Deus. Trata-se de fazer da própria existência pessoal e comunitária o espaço do Senhorio de Deus. Com outras palavras, uma realidade totalmente impregnada da sabedoria, da visão sobre o presente e o futuro, da qualidade do relacionamento entre eles e para com o mundo, do estilo de vida pessoal, plenamente em sintonia e criativamente conforme com o que Jesus ensinou e praticou.
Tudo isso tem um preço: “os muitos sofrimentos” que precisa enfrentar na ótica da experiência de são Paulo “foi crucificado junto com Cristo”(Gl 2,19). Evidentemente, o novo implantado criativamente, mexe com sistemas de vida consolidados, com hábitos costumeiros, com filosofias de vida totalmente diferentes. Em fim, uma “revolução” que nem todos entendem- ou não querem entender e nem todos aceitam. Daí a oposição, a rejeição, que atingirá até os relacionamentos mais íntimos e familiares, como indicava Jesus, com suas cargas de sofrimentos. Eis, então, a necessidade da coragem e da firmeza em função e em virtude de um bem maior para todos, inclusive para aqueles que não entendem ou perseguem.
Paulo e Barnabé se preocupam de organizar a comunidade, a igreja: “Os apóstolos designaram presbíteros (os sacerdotes) para cada comunidade. Com orações e jejuns, eles os confiavam ao Senhor, em quem haviam acreditado”. A graça de Deus continuará agindo no meio deles pelo serviço qualificado e sincero de pessoas designadas e responsáveis. A organização certa, com critérios de bom senso e com a eleição de pessoas adequadas, é indispensável para o eficiente serviço da ação pastoral e da graça de Deus.
Em fim voltaram a Antioquia, “de onde tinham saído (...). Chegando ali, reuniram a comunidade. Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos” Significativo que interpretem o serviço pastoral deles como ação de Deus. Esta consciência é muito importante por manifestar clareza e conformidade com o que é próprio de Deus, deles, assim como da amplitude e consistência do serviço por eles desenvolvido. O contar é o próprio para participar o dom de Deus, pois é comunicando o dom que a pessoa se regenera e reforça sua identidade e a identidade dos ouvintes com o Senhor.
Toda ação pastoral é inspirada pela meta da história, da humanidade e da criação como frisado pela 2da leitura.

2da leitura Ap 21,1-5ª

Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram” Não se trata de outro céu nem de outra terra, mas da transformação deste céu e desta terra. Transformação marcada pela definitiva e total derrota do mal, representado simbolicamente pelo mar: “o mar já não existe”. Pois o mar, infido, inseguro, instável, o contrário do chão, da terra firme e sólida, era tido, para a mentalidade da época, como lugar do domínio do mal. Como na época da passagem do mar vermelho, ele desaparecerá, mas desta vez para sempre, diante da realidade triunfal do povo de Deus que será definitivamente libertado de toda tribulação (1ª leitura). Sinal da derrota será que “Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, porque passou o que havia antes” A ressurreição, como início e implantação da nova realidade, atingirá as pessoas e a criação toda.
A esta visão se associa outra “Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia di céu, de junta de Deus, vestida qual esposas enfeitadas para o seu marido”. A nova Jerusalém é a agregação das pessoas transformadas e preenchidas da presença do ressuscitado no próprio mundo interior e, portanto, identificadas com Cristo, pelos efeitos nelas da morte e ressurreição de Jesus. O descer do céu, não é a chegada de algo que vem de acima, longe inalcançável e invisível, não é uma descida geográfica, como parece indicar ao entendimento imediato, mas um estado de comunhão, de intimidade com Deus que torna a pessoa e a realidade um “pedaço” do céu, o céu já presente nela, mas que estava oculto. A visão descreve a glorificação dos vivos e falecidos na única realidade do mistério de Deus, no final dos tempos. Este momento é comparado ao casamento no seu momento mais entusiasmante de encontro entre marido e esposa, caracterizado do aspecto estético e apaixonante.
Encontro para sempre. Assim, a casa de Deus será a dos homens e a casa dos homens - a humanidade redimida- será a de Deus “Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus vai morar no meio deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles.” Os efeitos são os da vitória definitiva sobre o mal e a morte- a última inimiga a ser destruída- “Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, porque passou o que havia antes”.
Aquele que estava sentado no trono disse: ‘Eis que faço novas todas as coisas’” Deus Pai manifesta sua ação salvadora levando à plenitude a obra do Filho. Ele age em virtude do que Jesus realizou neste mundo a favor da humanidade toda. Dessa forma, leva ao cumprimento, pela ação do Espírito, os efeitos da morte e ressurreição de Jesus como principio e fim de toda ação transformadora e renovadora da realidade pessoal e humana.
Este grande sonho, esta meta final da história das pessoas, da humanidade e da criação , responde ao projeto de Deus que supera todo entendimento e expectativa humana, num contexto que é todo o contrário, pois, as comunidades estão sofrendo todo tipo de dificuldades e perseguição. Daí o inciso “Escreve, porque estas palavras são dignas de fé e verdadeiras”.
Ter clareza do destino final de cada pessoa, da humanidade e da meta da criação, sendo a última e definitiva palavra de Deus sobre a obra de suas mãos, é de grande importância para o dia –a –dia, pois constitui a seiva da vida eterna que sustenta o relacionamento entre elas além de toda capacidade humana, como mostrará a pessoa de Jesus no Evangelho.

Evangelho Jo 13,31-33ª.34-35

Depois que Judas saiu do cenáculo, disse Jesus”. Judas sae imediatamente depois do desconcertante dialogo entre os dois e da surpreendente atitude de Jesus. Pois, Jesus anuncia a presença do traidor, o indica -oferecendo e comendo com ele o mesmo pão, gesto de grande importância de comunhão de vida- e o convida proceder no intento dele.
Agora foi glorificado o Filho do Homem”. Com o termo de Filho do Homem Jesus indica se mesmo. Falando de “agora foi glorificado” cabe pensar que o dialogo e a atitude que acaba de ter com Judas o coloca no horizonte da glorificação. O propósito de acolher a todos, por representar a todos indistintamente perante do Pai, o leva a acolher Judas. Portanto, Ele se distancia como de si mesmo, o acolhe e não coloca obstáculo nem impede o que daí a pouco Judas fará. É extremamente conseqüente à obediência do específico da missão: acolher deixando completamente livre, até quem sabe que o trairá. Jesus se coloca como debaixo dele. (Isso de oferecer o pão parece-me como uma última tentativa de resgate, embora perceba que não terá êxito).
A obediência se tornará aprendizagem, como indica a carta aos Hebreus: “aprendeu o que significa a obediência a Deus, por aquilo que sofreu. Mas na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,8). Aprendeu pela obediência até a consumação e se tornou causa de salvação para todos os que o obedecerão a Deus na mesma forma.
A glorificação é a manifestação da presença de Deus. O temível esplendor Dele é encoberto pela humanidade de Jesus. Todavia, esta gloria transparece como na transfiguração ou através de sinais que manifestam em Jesus a presença e ação de Deus. Um destes sinais é a atitude de Jesus com Judas que acabamos de descrever. Daí o “agora” da glorificação.
e Deus foi glorificado nele”. Assim, na pessoa de Jesus se manifesta a presença de Deus Pai. Sendo que Ele, Jesus, nos representa perante o Pai, é, portanto, possível a glorificação em toda pessoa que imita o Filho. A glorificação é um processo em contínuo crescimento “Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo” Assim, a glorificação em si mesmo e logo, aponta à ressurreição que atingirá a carne de Jesus. Em poucas palavras, no horizonte da glorificação, se une o presente e o futuro de Jesus.
Na iminência dos eventos decisivos “por pouco tempo estou ainda convosco”, Jesus pronuncia as conhecidas palavras “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” O modelo é oferecido pela atitude que ele teve para com Judas, atitude tão desconcertante como o será o lavar os pés aos discípulos.
Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos”. Aquele estilo de relacionamento e de vida é a marca registrada da autenticidade. Não se trata de amor entendido dentro das próprias categorias e experiências, mas do amor “como eu vos amei”. O “deveis amar-vos” é uma ordem a ser cumprida, não sujeita a interpretação que afaste daquele relacionamento e estilo de vida. Assim, aos discípulos que perseveram na tribulação, Jesus deixa como testamento o mandamento chamado novo pela perfeição à qual ele o elevou. Perfeição que do sentido a toda existência e que marca o rumo e constitui o caminho de todos os dias.

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