1ª leitura At 5,12-16
O texto faz um breve relato da atividade pastoral dos apóstolos. “Muitos sinais e maravilhas eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos”. Os apóstolos manifestam realmente ter os mesmos poderes de Cristo, e até realizam obras maiores, como Jesus afirmou: “quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas”. Para isso é suficiente a sombra do apóstolo “quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra tocasse alguns deles”. Esta anotação lembra o versículo 6,56 do evangelho de Marcos no qual os doentes pediam de tocar a extremidade do manto de Jesus e os que o tocavam ficavam curados. A idéia que se passa com isso é que Jesus continua atuando por meio dos apóstolos. A missão Dele continua.
Ele é sempre o ponto de referencia central da atividade pastoral “Crescia sempre mais o numero das que aderiram ao Senhor pela fé; era uma multidão de homens e mulheres”. De fato, a adesão deles é pela fé na pessoa do Senhor. Portanto, os sinais dos apóstolos são diretamente relacionado à pessoa, à missão e ao poder do Senhor, em virtude dos quais o Senhor merece adesão e confiança.
Tudo isso tem uma dupla repercussão. Em primeiro lugar, “Todos os fieis se reuniam, com muita união no Pórtico de Salomão” O fato de ser o pórtico o lugar de agregação é porque a comunidade, recém constituída, não tinha um lugar próprio, mas, também, indica a continuidade com a tradição dos pais, a tradição do povo de Israel. Evidentemente, a ruptura com o judaísmo acontecerá muito mais tarde.
Em segundo lugar, “se reuniam, com muita união”. Não é especificado em que consiste concretamente essa união, só é anotada a consistência com o advérbio “muita”. É afirmada a solidez e a firmeza da união entre eles. Trata-se da solidariedade de vida, do desenvolvimento da missão e de destino que a fé no Senhor Jesus suscita neles. (Por outros textos dos Atos dos Apóstolos sabemos que a realidade não era tão idílica, como esta breve anotação do trecho deixa supor. Havia entre as primeiras comunidades brigas, desentendimentos, invejas, ciúmes... como acontece em todo grupo humano).
Assim, “Nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, mas o povo estimava-os muito”. A convivência suscitava , por um lado, o temor e,pelo outro, a estima. Com isso, a ação pastoral e o testemunho dos Apóstolos passavam a idéia do impacto no ambiente social e do temor reverencial nas pessoas, que será vencido nelas pela admiração e pela aprovação da qualidade da convivência dos cristãos.
O texto oferece elementos de avaliação permanente da vida da comunidade e da missão de cada membro. Parece-me importante que a primeira avaliação entre os integrantes da comunidade, ou melhor, o eixo dela, é a consistência da experiência mística do Ressuscitado e a troca de comunicação dela, pelo que dá para comunicar. Daí decorrem os critérios éticos para avaliar os corretos, ou menos ,comportamentos pessoais e sociais,pois, é o Ressuscitado que inspira e modela o estilo de vida.
Estilo de vida que será testado por provações e dificuldades geradas pelo ambiente hostil, como testemunhado pela 2da leitura.
2da leitura Ap 1,9-11ª. 12-13. 17-19
“ Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, e também no reino e na perseverança em Jesus” . Quem dá seu testemunho não uma pessoa qualquer, é o Apóstolo João. A revelação dele é para que todos tenham ciência do permanente tesouro que está ao alcance dos companheiros na tribulação, nas provações e nas dificuldades assustadoras e desanimadoras do momento presente. Em virtude dessa união e solidariedade o que está acontecendo nele pode se tornar patrimônio de todos.
João recebe a revelação “fui arrebatado pelo Espírito” no dia domingo, “No dia do Senhor”, o dia da memória, da comemoração, da ressurreição do Jesus. Daí, a tradição da igreja de fazer deste dia o tempo da celebração- a Eucaristia-, da memória da vida, da morte e ressurreição de Jesus, ou seja, a Páscoa semanal dos cristãos.
A revelação tem como finalidade a transmissão do conteúdo da mesma “e ouvi atrás de mim uma voz forte (...) a qual dizia; ‘ o que vais ver, escreve-o num livro”. Acompanhado por estas palavras João teve a visão do Ressuscitado. No meio dos sete candelabros de ouro que representavam os olhos de Deus que vigiam a criação toda “havia alguém semelhante a um ‘filho do homem’, vestido com uma túnica cumprida e com uma faixa de ouro em volta do peito”. A túnica e a faixa de ouro eram as vestimentas do sumo sacerdote, cujo dever principal era oficiar no templo a celebração do perdão dos pecados, no dia preposto para isso. Portanto, o “filho do homem” reúne em si mesmo o vigiar de Deus sobre a criação e o serviço sacerdotal, que antigamente era do sumo sacerdote.
“ Ao vê-lo, caí como morto a seus pés”.Era comum acreditar que ninguém podia ver a Deus nesta vida e continuar vivendo. Daí, a imediata da sensação da morte e o pavor que a acompanha.
“Não tenhas medo.” Toda revelação de Deus começa com a experiência do medo. Ela acontece de maneira tão imprevista, fora de toda expectativa e imaginação – que, evidentemente, suscita medo - com é a irrupção do misterioso e do desconhecido, portanto perigoso, a toda experiência humana.
O gesto e as palavras dissolveram essa primeira sensação “ele colocou sobre mim sua mão direita e disse: (...) Eu sou o Primeiro e o Último, aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos” Gesto e palavras que abrem o horizonte de plenitude oferecida pelo Ressuscitado- aquele que, após experimentar a morte, vive para sempre-, pois, Nele há o começo e o fim de todo o existente.
O Ressuscitado se manifesta como quem tem condição de abrir- a chave- e implantar a vitória definitiva sobre a morte a favor de toda pessoa que cultivar o voto de confiança Nele, aceitando o dom oferecido pela sua morte e ressurreição. O sinal visível será o novo o estilo de vida em sintonia com o Dele.
Isso supõe cultivar a atitude de fé, que será provada de mil maneiras nas diferentes circunstâncias da vida. O desafio básico é relatado pelo evangelho.
Evangelho Jo 20,19-31
A experiência de Tomé é a de todo cristão de todos os tempos e de todos os lugares. A resposta de Jesus a Tomé vai nessa direção: “Acreditastes, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”. Jesus chama com determinação e firmeza bem-aventuradas esta categoria de pessoas. Cabe a pergunta: como alcançar a condição de bem-aventurado? Será só para umas pessoas muito especiais? Evidentemente que não, pois é patrimônio a disposição de todos.
Em primeiro lugar, não é questão de ter informação detalhada e minuciosa sobre a vida toda de Jesus. O texto anota que “Jesus realizou muitos sinais(...) que não estão escritos neste livro” (Mais na frente acrescentará que se forem escritos um por um por um, não haveria biblioteca para conte-los ), no entanto escolhe só alguns acontecimentos “para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”.
Em segundo lugar, é preciso uma atitude ética e moral em sintonia com o sentido de justiça e de amor a Deus próprio de toda religião, ou, para quem não tiver religião, assumir e respeitar a própria consciência de solidariedade com a humanidade toda em matéria de dignidade da pessoa e de convivência harmoniosa das diferentes etnias e culturas. Isso significa já cultivar a transcendência do ressuscitado no intimo, no profundo do ser.
Em terceiro lugar, é importante se deixar tocar pela promessa: “bem-aventurado!”, Ela se cumprirá como percepção do estado de animo que atingirá toda pessoa, incluída a que não terá oportunidade de ver o fruto de sua conduta ética. Mais ainda, conforme as palavras de Jesus no final das bem-aventuranças, ela será particularmente presente nas pessoas provadas e testadas pelo prevalecer de praticas contrárias, geradoras de possível desanimo e vontade de desistir. Em fim trata-se de acreditar sem ter visto!
Dessa forma, a bem-aventurança levará à pessoa, como Tomé, a por “o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado”. Atrevo-me dizer que estas feridas são as que a fidelidade aos valores indicados acima marcaram no próprio corpo, na própria alma, no próprio ser. Elas se tornaram, também, as marcas de Cristo. Como, de outra maneira, poderia afirmar são Paulo que elas completam na sua carne o que falta à paixão de Cristo e, mais ainda, “foi crucificado junto com Cristo”?( Gl 2,19).
É a partir dessa experiência que se entende, no seu profundo sentido, a paz que o Senhor deseja para cada um dos discípulos. Ela é condição necessária para acolher, entender e desenvolver a missão confiada a eles “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Pensando seriamente nisso, aceitar a mesma missão que o Pai confiou ao Filho, pressupõe a compreensão do agir e do ser de Deus em Jesus, incluído o efeito de experimentar a paz após o radical abalo da crucificação, pois,a sexta-feira se tornou misteriosamente fonte da vida indestrutível.
É particularmente importante este aspecto no processo de conversão. Os discípulos assumindo a missão sabem o que os espera. Desenvolve-la corretamente, não desistir, será possível se a experiência do Mestre, que será a deles, será percebida como destinada à paz que Deus instaura como meta final da missão: a implantação do Reino.
Antecipação da presença do Reino é o perdão dos pecados. Em primeiro lugar, do pecado teológico, isto é, da desconfiança, da desvalorização, da indiferença, da desatenção, da manipulação do plano de Deus, do projeto Dele pela humanidade, por interesses próprios de poder, de dinheiro, de comodismo, de medo etc.
Em segundo lugar, do pecado ético, ou seja, dos comportamentos errados na prática da justiça, do direito, da solidariedade, da fraternidade universal etc. Com outras palavras, do amor com o qual ele nos amou.
Daí, então, o sentido do envio do Espírito Santo “ Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. A condição de perdoar não é deixada à arbitrariedade dos discípulos, más às disposições de se manterem na graça da ressurreição. É o que o evento pascal espera de nós.
domingo, 4 de abril de 2010
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