domingo, 11 de abril de 2010
3ro DOMINGO DA PÁSCOA -C-(18-04-10)
1a Leitura At 5,27b-32. 40b-41
O trecho frisa a coragem com a qual os apóstolos dão testemunho de Jesus, movidos pela força do Espírito Santo “E disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que lhe obedecem”. É após o evento de Pentecostes que eles tomam consciência e entendimento do significado e da importância da morte e ressurreição de Jesus. Foi a reviravolta da passagem do maldito de Deus (tal era o significado da morte na cruz, com conseguinte abalo e decepção radical) à Salvador, Glorificado pelo Pai e juiz dos vivos e dos mortos na vinda dele como Ressuscitado, no final dos tempos.
Uma experiência de tal porte tornou os apóstolos depositários e testemunhas da verdade de Deus com respeito às promessas do Mesmo ao povo de Israel e à humanidade toda. Perceberam a responsabilidade disso todo, à qual aderiram em obediência a Deus, sustentados pela singular união e força do Espírito Santo “nós e o Espírito Santo”
A transformação gerou a identificação com a pessoa e a missão de Jesus na profundidade do ser que sustentou a coragem de enfrentar, em nome de Deus, aqueles que matando Jesus pretendiam, com boas intenções a partir do entendimento deles, salvar a Deus, o povo, o templo e a religião. Famosas são as palavras de Caifás ao respeito ( Jo 11,47-51).
Por sua vez, as autoridades tinham duas possibilidades: ou aceitar de “ter pisado na bola”, com todas as conseqüências em termo de conversão, ou rejeitar a pregação dos apóstolos como falsa e desviante. Estava em jogo uma posta desconcertante e radicalmente inovadora. Tendo escolhido a segunda, as autoridades determinaram com firmeza: “Nós tínhamos proibido expressamente que vós ensinásseis em nome de Jesus”. A resposta foi a atitude corajosa de desobediência de Pedro e dos apóstolos, perante as autoridades que poderiam condená-lo à morte. Resposta desconcertante pelos ouvidos das autoridades: “ É preciso obedecer a Deus, antes que os homens”. A continuação Pedro explicita porque essa obediência tem direta relação com os acontecimentos gerados pela atitude delas para com Jesus e da qual devem assumir a responsabilidade. Entretanto, abre para elas a perspectiva de conversão e de perdão: “O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. Deus, por seu poder, o exaltou, tornando-o Guia Supremo e Salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados” (Entre parêntesis, estas palavras constituem o anúncio fundamental, básico, da fé cristã. O término na língua da bíblia- o grego- é “Kerigma”. Toda catequese começará a partir deste anuncio).
De fato, quando a pessoa alcança um grau de identificação e convicção tão grande, não pode não falar o que está no coração e não ser o que é. Fala e faz porque é isso mesmo que tem que falar e ser. Se assim não fosse, renegaria a si mesma, desmancharia sua identidade. Seria como a autodestruição, a morte interior, para salvar a existência física ou, ainda menos, para não ter problemas com outros. A coragem é atitude que brota da liberdade interior de quem mergulha na Verdade- com a V maiúscula- ( Jo 8,31).
A reação das autoridades não foi radical, como foi com Jesus. Tal vez, impressionados e desconcertados pelo que estava acontecendo acharam bem não repetir... Contudo, determinaram o castigo, na esperança de esmorecer o entusiasmo deles “mandaram açoitar os apóstolos e proibiram que eles falassem em nome de Jesus, e depois os soltaram”. O efeito foi o contrário. Surpreendentemente “Os apóstolos saíram do Conselho, muito contentes, por terem sido considerados dignos de injúrias, por causa do nome de Jesus”. É a vitória sobre a humilhação, a dor e o medo. Mas também, oportunidade de maior identificação com a pessoa e a missão e a Jesus. Tudo isso pela experiência que tiveram da pessoa de Jesus ressuscitado, cuja singularidade é apresentada na 2da leitura.
2da leitura Ap 5,11-14
É apresentada a figura do “Cordeiro imolado”, verdadeiro e mais importante símbolo da Páscoa. É o Cordeiro imolado e vivente. Duas realidades opostas e excludentes, do ponto e vista humano, que configuram a experiência e a realidade do Ressuscitado. O cordeiro sacrificado, cujo sangue libertou o povo da morte naquela inesquecível noite da saída da escravidão do Egito, era bem conhecido. Jesus é o novo Cordeiro que, de uma vez para sempre, o substituirá para a libertação do pecado de toda a humanidade de todos os tempos e de todos os lugares. O que surpreende é que Ele, em virtude do que aconteceu para com ele na sexta-feira santa, se tornou o Vivente. Mais ainda, tendo vencido a morte, não morrerá mais.
A aceitação dessa verdade no profundo do coração, pela fé em ser Ele o nosso representante perante o Pai, abre a possibilidade de enxergar o Mistério de Deus. Eis, então, a percepção da singular combinação do que antes nos deixava perplexos e duvidosos, e com ele o nosso envolvimento, a nossa transformação. Tudo, em nós, tem seu começo pela fé, pois o acontecido Nele aconteceu, e acontece hoje, em toda pessoa que livremente aceita o dom gratuito dos efeitos da representação. Acontece no silencio radical e profundo. Nenhuma manifestação exterior (audição, visões, sinais especiais etc.), nenhuma percepção interior de tipo psicológico (sentimentos, emoções, etc.), até que surge a dúvida de que se é isso mesmo que aconteceu. Entretanto, é isso mesmo! Essa dúvida faz parte da fé. Nessa circunstância, acreditar é ato da vontade, misteriosamente tocada pelo dom de Deus.
Conseqüentemente, eis então, a surpresa, o estupor e a maravilha inundam no ser, pois, o Mistério Pascal está nos envolvendo, como o oceano envolve o peixe. A comunhão com Deus se torna vivencia e experiência aqui e agora, caracterizada pelo que acontece no dia- a- dia percebido na dinâmica singular da morte e ressurreição, de perder e ganhar, pela qual a história e os acontecimentos são percebidos sob nova luz: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Não se trata de “outras coisas” nem de substituição. Nesse contexto, a mesma realidade pessoal é como refeita, gerada por um “novo” que brota da participação da vida de Deus. Ao mesmo tempo, sustenta a percepção de ser como “deificada” na humanidade dela. Dessa forma, apessoa está no eixo da vivencia da fé e em condição de entender o que significa ser cristã, de participar de outra identidade, sem renunciar á identidade específica da condição humana, pois ela é potenciada rumo à sua plenitude.
“Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro” O Cordeiro imolado participa da mesma glória do Pai, apresentado como aquele que está sentado no trono. A humanidade do Verbo, da Palavra que se fez carne no seio de Maria e que nasceu em Belém, chega à sua meta última e definitiva: a exaltação e glorificação trinitária.
O homem Jesus de Nazaré, enquanto fez da própria vida entre os homens um “Cordeiro imolado” se tornou “digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a honra, a glória e o louvor” dos “numerosos anjos (...) dos Servos vivos e dos Anciãos. Eram milhares de milhares, milhões de milhões” no culto da liturgia celeste. Com efeito, o texto é o hino que provem da liturgia cristã. Ele descreve a entronização do Cristo e a adoração que a Ele tributa o universo.
A imensa multidão, milhões de milhões, aponta a cada um de nós como participantes simultaneamente da liturgia terrestre e celeste. Liturgia terrestre que primeiramente se dá na vida, no dia- a -dia do culto espiritual do dom de si mesmo pela prática da caridade, e, liturgicamente, na celebração da Eucaristia. Ao mesmo tempo é participação da permanente liturgia no céu.
A presença do Ressuscitado é percebida de maneira muito singular, como comentaremos no evangelho.
Evangelho Jo 21,1-14
Parece-me que o texto faz referencia à primeira pesca milagrosa, no começo da atividade pastoral de Jesus, quando chama como apóstolos Pedro , Tiago e João (Lc 5,1-11). Após o abalo da sexta-feira santa, os apóstolos voltaram à atividade que exerciam antes de encontrar Jesus. Voltaram desiludidos, com a sensação de terem sido enganados? Terão pensado: foi ilusão segui-lo? Certo, tiveram experiência do Ressuscitado, mas ainda não tinham entendido o alcance e o significado do evento.
Jesus se apresenta e não é reconhecido. É um homem comum “Jesus estava de pé na margem (...) disse: Moços, tendes algumas coisas para comer? “. Responderam de maneira seca: “não”. Tal vez influiu o cansaço e a desilusão de uma noite de trabalho sem fruto algum.
“Jesus disse-lhes: ‘lançai a rede à direita da barca, e achareis’. Lançaram, pois, a rede e não conseguiram puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes” O texto não diz o que levou eles repetir o gesto da primeira vez, nem registra reação alguma nem comentário -a favor ou contra- que fizesse referencia à primeira pescaria. Tal vez, as aparições anteriores do Ressuscitado foram motivo suficiente.
De fato, a obediência à palavra deste homem comum desvela a presença do Ressuscitado “ Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: ‘É o Senhor’” . Então, Jesus toma a iniciativa “Trazei alguns dos peixes que apanhastes (...) Vinde comer (...) aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles . E fez a mesma coisa com o peixe” . Convida e serve à mesa. O texto parece-me aponta à Eucaristia, à Missa.
Chama a atenção que “Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos” As outra duas foram a Maria Madalena e aos discípulos de Emaus. Maria Madalena achou ser o jardineiro. Só quando Jesus a chamou por nome percebeu a identidade Dele. Para os viandantes no caminho para Emaus é uma pessoa comum que se associa a eles, um pouco desinformada do que aconteceu. Só ao partir o pão o reconheceram.
Associando estes elementos cabe pensar que o Ressuscitado é acessível em todo ser humano - jardineiro, viandante ou desconhecido beira mar - para aquele que, como Maria Madalena, é chamado por ele e se torna discípulos; por aquele que no caminho do dia-a-dia é instruído pela palavra d’Ele, e pela ação do Espírito Santo, o mestre interior; por aquele que obedece à sua ordem ,como testemunha o texto de hoje.
Nesta condição os apóstolos vieram o ressuscitado em uma pessoa comum. O que mudou não foi a pessoa do jardineiro, do viandante ou (...), mas o ver deles, abriram-se os olhos deles! O corpo do ressuscitado se tornou o corpo de toda pessoa. Esta singular transposição pode ser percebida pelo discípulo de hoje, como o foi para os apóstolos. Percepção acompanhada pelo estupor, pela surpresa e não sei que de temor disfarçado “Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor”. Cabe se perguntar: de outra maneira, como poderíamos nos tornar testemunhas do Ressuscitado?.
É um desafio que questiona todo cristão com respeito à qualidade da vivencia dos três elementos acima indicados e, portanto, delineia os permanentes tópicos de conversão. Estamos no ressuscitado e ao mesmo tempo é preciso alcançá-lo.
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Padre João Luís, que o Espírito Santo sempre continue sempre te ilumine nas suas palavras. Pois tenho certeza que é um canal de entendimento para a nossa conversão contínua.
ResponderExcluirSei que não gostas de elogio, mas tenho que admitir que minha percepção de fé mudou qulitativamente depois de seus ensinamentos.
Que o Cristo Ressucitado permaneça entre nós!
Cristo Ressuscitou, Aleluia, Aleluia!
Muitas saudades ... Beijos!
Elisa Santos - Com. N. S. da Penha