1ª Leitura At 15,1-2. 22-29
O novo que surge e se apresenta no dia-a-dia às vezes é bem vindo, outras não é percebido ou é motivo de séria preocupação. Até de tensões e conflitos muito graves. Neste último caso, resolve-los é um quebra cabeça, por interesses e visões contrastantes e irreconciliáveis. É o caso relatado pelo texto. A posta em jogo é muito séria “Vós não podeis salvar-vos, se não fordes circuncidados (hoje, a fimose), como ordena a Lei de Moises”.
Com efeito, a salvação era ligada à circuncisão porque era o sinal de aceitar e pertencer ao povo de Israel. Assim, todo adulto pagão, que não pertencia ao povo se Israel por nascença, devia se submeter à circuncisão, no momento que aceitava o Deus de Israel. Era a marca registrada da salvação. Era impensável que a salvação chegasse a um pagão incircunciso!
A circuncisão significava aceitar toda a lei Mosaica e a tradição do povo de Israel com seus preceitos e prescrições. Portanto a pergunta que estava debaixo de tudo: É preciso se tornar judeu e depois cristão para alcançar a salvação ou é suficiente a fé, selada pelo batismo, em Jesus Cristo? Jesus não tinha dado indicações ao respeito, tinha falado só de batizar. Agora, colocar de lado uma tradição milenária e baseada na autoridade de Moises, não era coisa de pouca conta nem tão evidente.
Dai a grandíssima tensão interna às comunidades recém constituídas e a necessária intervenção da autoridade central dos apóstolos e dos anciãos. De fato, os membros da comunidade “decidiram que Paulo, Barnabé e alguns outros fossem a Jerusalém, para tratar dessa questão com os apóstolos e os anciãos”. Portanto, há questões que não podem ser resolvidas pela comunidade local, mas devem ser dirigidas à autoridade central.
O problema, o desafio, fundamental era a comunhão, isto é, a unidade da Igreja. A decisão foi de grande coragem: dispensar a circuncisão. As conseqüências foram enormes. Significou o distanciamento do judaísmo que, mais na frente, se tornou desligamento. De outra maneira, a Igreja teria sido um apêndice do judaísmo. A partir deste momento deverá se reger por conta própria. Contudo, uma decisão desta envergadura demorará em ser assumida plenamente, pois, o Novo Testamento registra as dificuldades.
Extremamente interessante é atribuir a decisão à singular união entre eles - os apóstolos e os anciãos- e o Espírito Santo: “Porque decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo”. Cabe perguntar em virtude de que chegaram a esta afirmação. Que percepção eles tiveram da presença e da ação do Espírito Santo neles?Cabe pensar na experiência de Pentecostes. Foi uma reviravolta do entendimento deles, com respeito ao significado da morte e ressurreição de Jesus: de maldito de Deus à Salvador da humanidade; de paralisadas pelo medo a corajosos testemunhas e pregadores.
Também, cabe considerar a sintonia com o ensino e a pratica de Jesus, quem deu nova e ousada respostas a partir da Lei mosaica “foi dito... porém eu vos digo”, em atenção a oferecer oportunidade de resgate e salvação a quem, de outra maneira, teria ficado presa da lei e dos preceitos. Em fim, intuíram uma liberdade criadora, geradora da comunhão que universalizaria a obra salvadora do Mestre. Com isso, deram começo à realização da nova humanidade à qual aponta a 2da leitura.
2da leitura Ap 21,10-14.22-23
O sonho de Deus, a meta da humanidade, é apresentado pela descrição da “cidade santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus”, rica em imagens. Ela quer, mediante o uso de muitas particularidades, indicar simbolicamente a perfeição. Não é apresentado o plano de uma cidade, mas o novo povo de Deus integrado por aqueles que, tocados pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus – “o Cordeiro”, imolado e vivente-, fazem dele a lâmpada que ilumina o caminho do- dia -a –dia. Isso, se deve aos alicerces estabelecidos pela pregação dos apóstolos: “ A muralha da cidade tinha doce alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doce apóstolos”.
O “estar junto de Deus” indica ter alcançado a familiaridade com Deus, pela qual o Cordeiro entregou sua vida. Aceitar de ter sido justificado, perdoados e reconciliados, pelo Cordeiro perante do Pai significa ser preenchidos da presença do Pai mesmo. De fato, “Não vi templo na cidade”. O templo na cidade era o lugar da presença e do encontro com Deus. Agora não precisa mais, sendo que a glória de Deus preenche o povo todo, a Jerusalém santa, “brilhando com a glória de Deus”.
Por conseguinte “A cidade não precisa de sol, nem de lua que a iluminem”. Todo nela é luz. A luz inacessível, que é Deus, torna-se acessível aos homens, e isso não num futuro longínquo, embora sua plena manifestação seja no fim dos tempos. Com isso, fica esclarecido que futuro e presente são inseparáveis, pela ação do Cordeiro imolado.
Esta ligação inverte a relação com o tempo, se tornando um forte alicerce de espiritualidade. Com outras palavras. Se já participamos do destino final, da meta; se já o futuro está em nós pelo presente da morte e ressurreição de Cristo, então a espiritualidade é antecipar este futuro na pratica pessoal e nos diferentes relacionamentos com as pessoas no dia -a- dia. Acolher o dom, vivenciá-lo e praticá-lo, é condição para acrescentá-lo e assim glorificar a Deus.
Cada cristão consciente deveria assumir os valores da vida, elaborar os critérios de discernimento, qualificar os atos e vivenciar os relacionamentos a partir desse futuro que não é só futuro, más é já presente em cada pessoa e constitui o próprio da Aliança com Deus. Na Missa, as palavras da consagração do cálice rezam: “o sangue da nova e eterna aliança”. Aliança, por parte de Deus, permanentemente oferecida e atualizada com o perdão dos pecados e restabelecida na sua essência profunda, que toca o mai profundo do ser de cada cristão consciente. É impressionante a teimosia de Deus em perseverar no intento de convencer a pessoa e a humanidade da profundidade e da grandeza do amor dele.
A percepção desta verdade e do amor contido nela é básica para a identificação do discípulo, como comentaremos no Evangelho.
Evangelho Jo 14,23-29
“e nós viremos e faremos nele nossa morada”. O estar junto de Deus não é somente a meta do fim dos tempos, no momento final da história da humanidade e da criação, mas já é uma realidade possível hoje. O “nós” se refere à Santíssima Trindade. As palavras atestam a morada Dela na pessoa. É o ponto alto da experiência de Deus nesta vida.
“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará (...). Quem não me ama, não guarda a minha palavra”. O amor para com Ele é a resposta do amor Dele para com a humanidade e a criação, cujo momento alto foi a morte na cruz: “... me amou e se entregou por mim” dirá são Paulo em Gl 2,20. Portanto, a fé tem como conteúdo central a aceitação desse amor. Assim, “amor atrai amor”, como disse Santa Terezinha do Menino Jesus, e se manifesta no “guardar a minha palavra”, ou seja, a identificação com o ensinamento, a prática e a entrega de Jesus.
A Palavra está intima e profundamente ligada ao Pai e ao Espírito Santo. Daí o motivo da morada trinitária na pessoa. É “a palavra (...) do Pai que me enviou. Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. Jesus além de apontar a intima comunhão com o Pai indica o Espírito Santo como mestre interior, quem desvelará o sentido verdadeiro e profundo dos gestos e das palavras Dele.
Com efeito, o Espírito Santo é Deus em nós, não simplesmente o fora de nós, como o Filho e o Pai. Praticamente, é ele que ativa e viabiliza o processo pelo qual na pessoa acontece a união a trintaria, por um lado ensinando, mas, sobretudo, por ser o defensor.
Vale frisar este segundo importante aspecto. Se não cumprisse esta ação especifica, a infidelidade da pessoa e da humanidade ao dom do Filho tornaria o dom inútil, sem efeito. O domínio do pecado de desconfiança, de desinteresse, de desvalorização da ação salvadora de Jesus, cria o afastamento de Deus e deixa sem efeito o dom da salvação.
É nesta situação que se coloca a importante defesa operada pelo Espírito. Ele atualiza, em todo momento e em cada circunstância, os efeitos da morte e ressurreição de Jesus e suscita a nova adesão do afastado. Dessa forma, restabelece a aliança, perdoa o pecado e restitui a dignidade de filho no Filho, tornando-o radicalmente conforme à ação salvadora de Jesus, em obediência à vontade do Pai. Se não houvesse essa ação defensora, própria do Espírito Santo, estaríamos irremediavelmente separado da Deus, apesar do sacrifício de Cristo e da vontade do Pai. Quem resolve tudo, aqui e agora, em cada momento, é o Espírito Santo.
Os efeitos de todo isso é a serenidade e a confiança perante o futuro, devido ao afastamento físico da pessoa de Jesus “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Ouvistes que eu vos disse ‘Vou, mas voltarei a vós’”. Afastamento que na atualidade está provocando neles tristeza e desconcerto, como é próprio da experiência de separação entre pessoas que se amam. Contudo, Jesus aponta ao lado defeituoso desse amor, que pode suscitar no futuro imediato descrença, desanimo, abatimento “ Disse isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis”. No fundo, desvela neles o amor mais por si mesmo, que para Ele “Se me amasseis, ficareis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” Com efeito, o amor na sua expressão mais verdadeira é alegria pela alegria do outro. É ficar alegre da alegria do outro, sendo que o destino Dele é entrar com seu corpo na comunhão com o Pai, maior do que Ele.
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo”. É a síntese, o resumo, de toda a missão de Jesus: deixa, pois, indica o caminho e as condições- guardar a palavra-, e doa, porque a paz se torna realidade em todos aqueles que, pela fé, acolherem o que ele fez naquele evento pascal, atualizado pelos sacramentos, como permanente atitude de amor. Assim, Jesus distingue e diferencia a paz oferecida pelo mundo, daquela oferecida por Ele.
domingo, 2 de maio de 2010
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Gigi, parabéns pela reflexão. Uma das melhores já postadas aqui. Vou aprofundar a interpretação deste texto e voltaremos a conversar a respeito. Um gorduroso abraço para você. Tranqüillo
ResponderExcluirPe. João Luis, concordo plenamente com o Dias. Essa sua reflexão só me traz mais dúvidas de como posso demonstrar meu amor por Deus. Isso reforça minha pergunta: como entender o amor de Deus? Será que é possível a explicação desse amor no raciocínio humano? Eu acho que não!
ResponderExcluirPARABÉNS mais uma vez!
Vou salvar todas as suas postagens. Isso que acabei de ler são relíquias deixadas por uma pessoa iluminada pelo Espírito Santo!
Bjs! Elisa Santos - N. Sra. da Penha