1ª leitura Sb 18,6-9
O texto é uma meditação da ação de Deus a favor de seu povo, assim como da resposta e do envolvimento do mesmo. A iniciativa da ação é de Deus quem preanunciou a intervenção visando à libertação da escravidão do Egito. De jeito nenhum o povo teria conseguido libertação alguma com suas próprias forças e vontade. A intervenção marcará o antes e o depois na historia do povo e da humanidade: “A noite da libertação fora predita os nossos pais, para que, (...) se conservassem intrépidos”.
Acolher o dom da libertação pressupõe conservar a ousadia de sonhar um mundo melhor e a coragem de ativar o que for necessário para manter e desenvolver a liberdade. Para isso é colocar a inteligência e a organização eficiente à serviço do projeto cujo iniciador é Deus mesmo, e cuja realização exige a colaboração responsável dos beneficiados.
Com efeito, a intervenção libertadora será salvação para uns e perdição para outros “Ela foi esperada por teu povo, como salvação para os justos e como perdição para os inimigos”. Ela é benção para uns e maldição para outros. Estes últimos são os inimigos, os que impuseram e instalaram a escravidão. Evidentemente, a libertação dos primeiros significa desfazer o projeto e os intentos dos segundos, portanto, estes experimentarão o evento como uma desgraça, uma punição. Conseqüentemente, a ação salvadora a favor dos escravizados se torna punição e castigo. Eles, os inimigos, afundarão travados pelos mesmos carros dos opressores, por eles construídos e lançados à perseguição dos libertados pelo Senhor, como testemunhará a experiência da passagem do mar vermelho a noite de Páscoa.
Neste triunfo de Deus sobre o mal e o pecado, (Egito é o símbolo do mal e do pecado) se manifesta a ação Dele pela qual “puniste nossos adversários” e simultaneamente “ serviu também para glorificar-nos, chamando-nos a ti”. É importante perceber como a libertação não tem finalidade em si mesma, ou seja, libertar por libertar, mas no evento da comunhão, da intimidade, da familiaridade com o Senhor. Com efeito, é o restabelecimento dessa comunhão a finalidade de toda ação de Deus ao longo da história humana.
“Os piedosos filhos dos bons” são os que acolheram, cuidaram e perseveraram neste dom, “ofereceram sacrifícios secretamente”. Com outras palavras, eles celebraram o culto, a memória daquele evento, que tem o poder não só de lembrar um fato passado, mas de atualizar aqueles efeitos, como se a comunidade mesma estivesse passando naquele momento pelo mar vermelho, experimentando a libertação de todo pecado que escraviza si mesmo e os outros, por desrespeitar a aliança com Deus.
A verdadeira libertação é motivadora e sustentadora da união pela qual “de comum acordo, fizeram este pacto divino: que os santos – são os que tocados pelo dom gratuito de Deus da libertação, tiveram a percepção de ser justificados e perdoados - participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos” estabeleceram o pacto de união, de solidariedade, de fraternidade seja qual forem as condições favoráveis ou adversas dos acontecimentos. É a declinação da familiaridade com Deus que se torna familiaridade com o próximo.
“Isso, enquanto entoavam antecipadamente os cânticos de seus pais”. Eram os cânticos dos libertados, após a passagem do mar vermelho. Cânticos de alegria, de agradecimento, de admiração, de devoção ao Deus libertador. O fato de eles entoarem “antecipadamente” mostra a plena confiança de que a oração (oferecer os sacrifício) será atendida. É a certeza que provem da fé, tema da segunda leitura.
2da leitura Hb 11,1-2. 8-19
Parece-me que a melhor definição da fé oferecida pela Bíblia é o primeiro versículo: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem”. Cabe se perguntar: em que consiste, qual é o conteúdo da espera de todo homem e particularmente de quem tem fé na pessoa de Jesus como Filho de Deus Pai? A resposta é vida em abundancia nesta terra, ou seja, a harmonia, a paz, a fraternidade, o sentido de realização plena etc. e a vida eterna que vence a morte.
Portanto, “a fé é um modo de já possuir” tudo isso. Fé é voto de confiança na pessoa de Jesus, pois, nele se cumpriu a promessa de Deus com a ressurreição dentre os mortos. Ao mesmo tempo, a ressurreição significou o aval da verdade, da bondade, do estilo de vida proposto por ele. Mais uma pergunta: quem garante que isso não seja simplesmente a projeção do desenho, do sonho de imortalidade do homem e não algo objetivo que provem de Deus? Responde a segunda parte do versículo: “a convicção acerca de realidades que não se vêem”. Portanto, a convicção não é fruto da evidencia racional, nem de comprovação com os métodos e meios a disposição da experiência humana, mas é algo que surge interiormente e toma conta do profundo do ser da pessoa por imitar a prática, o estilo de vida de Jesus. A força interior dessa experiência é tão consistente que leva à convicção da existência e realidades que fogem do simples horizonte humano, “realidades que não se vêem”
Isso faz justiça a todo ser humano indistintamente, pois, ele tem acesso não por algum privilegio alguma circunstância ou capacidade que outros não têm, mas pela fé que está ao alcance de todos. Fé na promessa de Deus, voto de confiança em Deus cumpridor da promessa. Certeza que Deus não defraudará e, portanto, vale investir sobre a palavra Dele. Foi essa fé “que valeu aos antepassados um bom testemunho”. O texto indica a experiência de Abraão e Sara como modelo. Abraão “considerou fidedigno o autor da promessa” até o ponto de que “estava convencido de que Deus tem poder de ressuscitar os mortos ”. O voto de confiança - a fé – se traduz em obediência “Foi pela fé que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança”. Obediência que lhe será pedida mais vezes e particularmente no momento culminante do sacrifício do filho Isaac “de um só homem, já marcado pela morte, nasceu uma multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia das praias do mar”. Assim, obediência e convicção “acerca de realidades que não se vêem” caminham juntas.
Notável é a indicação “Todos estes morreram na fé. Não receberam a realização da promessa, mas a puderam ver e saudar de longe e se declararam estrangeiros e migrantes nesta terra”. A promessa não deixou de ser promessa. Não se cumpriu plenamente nem defraudou, mas abriu o olhar e o entendimento sobre a relação presente e futuro. O presente como realidade passageira coloca quem acredita na condição de migrante, ao passo que o mesmo enxerga o futuro de longe e deseja “uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste”. Nesse sentido presente e futuro se entrelaçam de uma maneira muito singular. Com outras palavras: o futuro já está no presente e o presente já participa do futuro.
Este marco constitui o quadro de fundo para determinar o sentido da existência e sua coerente expressão nas escolhas e atividades diárias, como comentaremos no evangelho.
Evangelho Lc 12, 32-48
“Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Portanto, tesouro e coração estão intima e profundamente entrosados. Com efeito, o tesouro indica o valor da realidade, assim como o amor a adesão a ele com toda inteligência, vontade, memória e de forma incondicional.
Nesse pano de fundo, o discípulo deve considerar as palavras de Jesus: “Não tenhais medo (...) foi do agrado do Pai dar a vós o Reino”. No acolher o dom do Reino consiste o verdadeiro tesouro e a adesão a ele de todo coração merece todo investimento com determinação “Vendei vossos bens e dai em esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói”, visando o Reino no presente e, sobretudo, no futuro último e definitivo. Sendo que o presente se corrói, passa, é misturado com maldades de todo tipo, ele é o contrário do futuro estável, definitivo e purificado pelo evento da morte e ressurreição de Jesus. Portanto, este último se torna a referencia fundamental.
Assim, é olhando para este último, a meta, que os discípulos devem assumir as atitudes convenientes. É preciso estar prontos e acordados pela irrupção, pela vinda, do reino futuro que acontecerá de repente na hora menos esperada “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento (...). Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados (...). Porque o Filho do Homem- (Jesus ressuscitado)- vai chegar na hora em que menos o esperardes”.
Este tempo de espera deve ser assumido, pelo discípulo, de maneira positiva, trabalhando para o bem de todos. É o que faz dele “o administrador fiel e prudente”. O bem consiste em animar e motivar o pessoal “o da sua casa” à perseverança na esperança e nas atitudes corretas, em sintonia com as exigências do Reino no momento presente. Nisso consiste “dar a comida a todos na hora certa”. Este discípulo será parabenizado: “Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim!” e participará da plenitude do Reino “em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens”.
Mas há um “Porém”. Trata-se de quem cansado de esperar, a desconfiança toma conta dele e se deixa levar por atitudes contrárias à realidade do reino já presente “Meu patrão esta demorando, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor (...) chegará (...) ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis”.
Isso indica que os discípulos desenvolvendo as corretas atitudes do Reino, sem segundos fins ou segundas intenções, encontrarão motivo e esperança para continuar firme na própria missão, independentemente da demora da chegada última e definitiva do Senhor. Pois, eles já eles pré-gostam, saboreiam, a realidade do Reino e se reforça no coração deles a certeza da futura vinda. Portanto, podem continuar trabalhando e servindo confiadamente na certeza que não serão desiludidos nem defraudados.
Para outros a demora da vinda do Senhor revelará a fraca consistência do discipulado deles, apesar de ter recebido muito. Será pelos motivos já indicados, e outros também, mas, de fato, a demora será como a peneira que separará o verdadeiro do falso discípulo.
Nessa demora podemos incluir todas as provações, dificuldades, desilusões, incompreensões etc. do trabalho pastoral “em dar comida a todos na hora certa”(não é dar a todos a mesma comida, mas a cada um a comida que precisa!). Daí então a sentencia final de Jesus “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”.
Discípulo verdadeiro é ser servidor do Reino, na consciência da responsabilidade que, corretamente desenvolvida, pressupõe o voto de confiança total na pessoa de Jesus e o comportamento ético adequado, sustentado pela certeza que no tudo está na presença do Senhor e que a qualidade do serviço já é participar da plenitude da glória que se revelará na sua plenitude com o retorno do Ressuscitado.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
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